segunda-feira, julho 21, 2008

Sabedoria


Não sou nada

Nunca serei nada

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…

F. Pessoa



A sabedoria do Homen está em questionar-se. A si, aos outros homens, aos bichos, às plantas, ao planeta, às pedras, ao planeta em que mora, à galáxia a que pertence, ao universo.

E questionar é estabelecer oposições, geri-las. O bem e o mal existem? Sim, se baseado numa determinada moral, aceite e concebida pelos homens. Mas se quisermos olhar do alto, encontramos Einstein e relatividade de tudo o que envolve a dicotomia que preside à evolução.

A matéria (é) a energia, o corpo o espírito, a abundância a fome, a alegria a tristeza, o homem a mulher, a mocidade a velhice. Nenhum se conhece sem o outro, opostos completando-se.

Os velhos debitam a sabedoria dos anos, a certeza já da inexorabilidade da pedra rolando pela colina e o regresso duro, montanha acima. Sabem aproveitar a descida olhando o capim novo depois da queimada, sorvendo a água da fonte antes de ser contaminada, olhando o sol que o poente levou no espelho da lua, contando as estrelas que já não são, pedindo um desejo quando alguma parece riscar o céu. Há os que têm todas as certezas: do fogo que consome a floresta, da poluição sem retorno, do sol que vai perder a luz, da terra que vai gelar.

Os novos sabem a novo. Consomem velozmente o futuro sem viverem o presente ou sequer olhar o passado. Olham sobranceiros os velhos que nunca vão ser. Mas há os novos que são jovens e sonham como os meninos que foram os velhos. Esses caminham devagar seguindo as estrelas, ouvindo os rios cantar, dando a mão aos bichos, saudando as árvores mais altas.

Desses espero que saibam escolher as rotas, construir os ninhos, abrir caminhos novos sem danificar a paisagem.

6 comentários:

FB disse...

Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.

Rocha de Sousa disse...

Sempre apontando ao vento as velas do seu moinho, a jawaa carrega bem
as baterias da sua mente e do seu
imaginário para ganhar mais sabedo-
ria a fim de questionar alguns im-
portantes problemas com que nos de-
batemos: os princípios coordenado-
res da nossa vida em sociedade, as
regras quotidianas de relação, a eventual beleza de tudo isso, mesmo
no difícil balanço do bem e do mal,
um pouco a síntese do que somos e
quem somos.
A sabedoria dos velhos é uma sabe-
doria que passa mais pelos afectos e pela memória do que pelas moder- nidades da tecnologia e dos efei- tos do consumo.De resto, com a dis-
solução plural da família, entre outras coisas desse tipo, a forma- ção e a cultura da juventude não chegam ao patamar da sabedoria. Reféns do espectáculo e de outro tipo de apelos desse género, sabem pouco da sua própria origem e do seu eventual futuro.E aí os temos, redutores ou mesmo autistas, gas-
tando a fugacidade dos prazeres e muitas vezes demoradamente presos aos pais pela crise de emprego.Um avô, mesmo avô,pode ajudar no jar-
dim ou arranjar elementos funcio- nais, recordando ainda os tempos
da sua juventude: isso é pensado pelos netos como seca e não como a beleza restante da natureza.
O mundo global tende a deslizar pa-
ra um abismo ontológico e planetá-
rio. Penso que escrevemos em nome
da troca de informações mas também
para nos inventarmos para além da
própria velhice.
Do amigo
Rocha de Sousa

Rocha de Sousa disse...

Peço desculpa de ter escrito tanto
e com discutível substância, além
de me distrair quanto ao método de
postar comentários, para não dar
aquelas linhas que me atormentam.
RSousa

Justine disse...

Bela reflexão sobre a passagem do tempo, a arrogância inerente à juventude, a sabedoria que todos os velhos deviam atingir. E de como tudo se completa. Que assim seja!

rui disse...

Olá Jawaa

Os teus textos encantam!
Admiro a tua capacidade de reflexão e sabedoria.

Grande abraço

dona tela disse...

Voltei!!

Já tinha saudades.