segunda-feira, junho 30, 2008

Os lugares dos homens


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas…

Ruy Belo





Três décadas depois do regresso, o saudosismo não me diz nada.

O tempo cobre tudo com um manto diáfano. Como a hera recobre já as ruínas da casa defronte, um resto de telha nos beirais, o interior a céu aberto. O telhado que sobra, pasto das ervas, de musgo no inverno, tem um sabor a quietude, solidão mansa, silêncio, respeito. A janela pequena fechada com tábuas já enegrecidas, a erva crescida balouçando ao vento, adornando as pedras de granito dos alicerces que a erosão desvendou.

É um cofre pousado no fim do arco-íris, donde brotam as cores fantasmagóricas onde cabem todas as memórias. Onde os mortos são vida, os sorrisos afagam, os risos ecoam e as lágrimas escorrem, nas faces, na vala, na lagoa, no rio.

Deixemos que seja assim.

Porque a vida continua.

No poste de fios que a civilização ergueu, um milhafre curioso arruma as asas e espera. Escuta os pardais em brigas de encantamento, descuidosos. Há um casal de rolas arrulhando no pinheiro longe, uma ou outra andorinha cruzando o céu, e só o pisco astuto se alarma e avisa o predador.

Tudo se aquieta agora porque a tarde chega ao fim.

O vento sopra refrescando o dia.

A noite cai, serena.

13 comentários:

dona tela disse...

Estudei o acordo ortográfico.

Boa semana é o que lhe desejo.

Rafael disse...

Nostalgia em cada texto desse post lindo.

PS: Amei a imagem do arco-íris.

Abraços afetuosos.

heretico disse...

texto vibrante nostalgia. como as casas que guardam memórias.

gostei muito

Rocha de Sousa disse...

«O saudosismo não me diz nada». É aquilo a que eu chamo uma mentira
para dizer a verdade. Primeiro no recurso ao esplendoroso poema de
Ruy Belo, só possível após Fernan-
do Pessoa. Depois o olhar «declina»
para a natureza do Alberto Caeiro,
poeta que também sabia de pássaros
mas não os metia na erudição sobre as suas espécie e os seus avisos e
os seus chamamentos. Aquela hora,a
sua «métrica» límpida é a mentira ou a verdade de quem se compatibi-
liza com tudo em volta, a noite se-
rena.
De escondidamente dolorosa,a sauda-
de torna-se serenidade. Como um le-
ve sono daqui a pouco.
Não a desminto, reconheço-a.
Boa tarde
Rocha de Sousa

Klatuu o embuçado disse...

Um grande poeta, ingratamente esquecido - e um belíssimo texto.

Que bem ficariam na nossa Casa comum.

Beijinhos.

M. disse...

Repito-me, repito-me, repito-me: é tão bonito o teu dizer das coisas da vida.

dona tela disse...

Sou mesmo uma alma sensível.

Muitos cumprimentos.

Justine disse...

E pelo teu belo texto vamos percorrendo um pouco das memórias da casa abandonada apenas aparentemente, porque o que conta é o que ainda se sente, o que nos habita e habitará para sempre:o riso, as lágrimas, a vida.

mena m. disse...

É tão verdadeiro o que aqui escreves!

E bonito de verdade!

Bom domingo jawaa,
um beijinho

heretico disse...

beijos

rui disse...

Olá Jawaa

Lindo!
Ficam sempre recordações.

Abraço

Fa menor disse...

Vinda do Eremitério,
passei para te conhecer.

Beijinhos

Eremit@ disse...

belíssimos os teus posts até aqui - os que li. E seguro estou de que os outros igualmente o serão, poiis sempre a tua escrita o tem sido, desde que a conheço, mas só posso falar do que li -. E dois dos meus poetas preferidos aqui a abanarem-nos para que não adormeçamos na cantilena das vozes que nos querem dormentes. E vim atambém agradecer a tua gentileza e comentário apesar de tão ausente andar,mas sabes que razões fortes e reais me limitam o tempo disponível.
Abraço, amiga