quarta-feira, abril 02, 2008

Regresso




Na quietude de um voo intercontinental, as horas escorrem lentas para quem se mantém desperto.

Do levantar do chão e ainda em rasa altitude sobrevoar as cidades, fica-me um sabor a pássaro. Noutra vida – porque decerto não terei seguido à risca, ainda desta vez, os preceitos de um bom vivente – hei-de regressar bicho de asas. Migrar, conhecer de cor o perfil dos continentes, cruzar os oceanos, ser talvez um albatroz. Ou uma simples monarca.

Por enquanto, sem status social ou económico para viajar em jacto particular, como o fazem alguns dos meus conterrâneos deste país pobre (ou pobre país?), as horas decorrem confinada a um assento estreito – sempre junto à janela – com um espaço insuficiente para desdobrar os jornais que oferecem à entrada, exíguo até para as refeições servidas ao longo das largas horas em que me sinto como que liberta da força da gravidade.

Sem a lotação esgotada, alguns aproveitam para acertar o jet lag com algumas horas de sono estirados na correnteza dos bancos vazios, enquanto as televisões passam filmes inomináveis. Há os que lêem, os que passeiam pelos corredores, os que conversam. Eu faço as palavras cruzadas. Escrevo. Já não consigo ler. Na escuridão, levanto-me devagar e ajoelho-me no banco para descansar as pernas.

Sinto então um leve perder de altitude e logo a seguir o altifalante anuncia o início da descida. Preparo-me para o único momento que me inquieta numa viagem de avião. Observo cuidadosa e atentamente os movimentos dos flaps das asas. Bonito de ver. De perceber como e porquê o avião desce com suavidade ou se provoca enjoos com o brincar dos comandos.

Desta vez tive sorte. O grande pássaro desceu leve e de mansinho.

Pouso na Primavera.

3 comentários:

M. disse...

Que bonito este teu falar de voos! Gostei muito.

Rafael disse...

Minha casa é rota desses pássaros metálicos, devido a isso algumas vezes acontece algo inusitado. Como por exemplo minha amada aparecer em sonhos e poucos minutos depois voar por cima de minha residência.

Abraços afetuosos.

mena m. disse...

Olá jawaa!

Gostei de te ler novamente no PPP!

Este teu post fez-me sentir em casa!
Neta, filha, irmã e tia de cavaleiros do ar que sou, gostei desta tua maneira de falares destas lides...

Um bom fim-de-semana