sábado, março 22, 2008

Estrelas no Céu


A poesia não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas,
A poesia acontece.
Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu, que me cabia.
Aconteceu poesia,

Quando as tuas mãos numa carícia vaga,
Moldaram no meu rosto, ar de angústia,
Que o tempo não apaga.

Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe,
Aconteceu poesia.

Fernando Vieira



No dia dedicado à Poesia, a barca de Caronte passou levando devagarinho o meu último Eduardo, renitente em pagar o óbolo mesmo após os noventa anos. Afinal, tudo o prendia a este lugar terreno. Principalmente os afectos e também a terra de que se afastara por tantos, tantos anos.

E eu, do outro lado do mar.

Vagando num outro espaço a olhar e a pensar o mundo numa perspectiva desusada. Não é normal palmilhar o planeta sobre um azul que pode não ser o mar, saltitar por sobre tufos brancos que podem ser pedras ou restos de neve não derretida, brincando de algodão em rama.

Quando o gelo todo derreter nos pólos e o mar subir nos trópicos, pode ser que nasça um novo deus. Grafado com letra minúscula talvez se mantenha mais próximo dos seres que povoam a terra. Provavelmente não será aquele velhinho de barbas brancas porque os humanos que restam não conhecem ninguém assim. A sua memória esvaiu-se com a hecatombe que varreu a humanidade e limpou toda uma civilização.

O deserto, e só ele, salvou a espécie. Alguns nómadas, os verdadeiros nómadas, são os sobreviventes na pureza de tudo aquilo que a natureza apagou.

E bem.

Ficam as memórias que as dunas contam de uma civilização cruel e insensata que dominou os continentes por milénios. Assustados mas protegidos pelas tempestades de areia, vão ao encontro do Principezinho a quem narram todas as lendas e de quem aprendem os outros mundos de homens que vivem contando as estrelas que povoam o céu.



9 comentários:

Rafael disse...

Jawaa,

sinto que estou perdendo um certo Eduardo. Diferente do seu, esse meu tem apenas oitenta primaveras.

Você está do mesmo lado do mar que eu. Mas não só geograficamente está mais longe.

Saudades de você amiga.

Rui Caetano disse...

Um texto fabuloso, umas imagens sugestivas e pertinentes. Uma linda homenagem para o Dia Mundial da POesia.

Rocha de Sousa disse...

Vou escrever aqui e assim. Dentro em breve, poderei falar mais tempo
consigo.O seu texto, mais uma vez, passa pela nobreza estética e por um adeus que eu não compreendi (ou talvez me tenha defendido de compe-
ender): «o Dia da Poesia, a barca de Caronte, passou levando devaga- rinho o meu último Eduardo,reniten-
te em pagar o óbolo mesmo após os noventa anos». A quem se refere? É mesmo o que eu penso?
Depois vem o seu texto poético e uma história que encaixa (apocali-
pticamente)no meu post de há dias,
que a Jawaa comentou com aquelas
frases únicas. A salvação pelo de-
serto é paradoxal. Gostei muito.
do amigo
Rocha de Sousa

rui disse...

Olá Jawaa

Adorei as fotos!
Esse branco alvo da neve a cobrir toda a paisagem! Que arrepio!
Escreves sempre divagando sobre tantas coisas, é um pouco como escrever direito por linhas tortas.
Gosto das tuas conversas.

Grande abraço

vidavivida disse...

Fotos magníficas.
Gozem bem os dias que faltam e não apanhem nenhuma gripalhada.
Saudades vossas e até breve.
Beijo.

herético disse...

belo poema. e excelente texto

em tom que faz pensar.

abraços

bettips disse...

Aflitas as palavras, nesse céu que parece mover-se, fugir de nós.
Aflita a poesia do adeus, um embalar de mágoa.
Um grande abraço meu
(fazes falta lá no "conciábulo"" das imagens..)

M. disse...

"Les hommes qui marchent"?...

Alien David Sousa disse...

Adorei este teu texto, ponto final.

Beijinhos alienígenas