sexta-feira, agosto 10, 2007

Regresso



A vida, como a morte, é uma contingência. Acontece. Uma mescla de sorte, agilidade e colocação conveniente na grelha de partida, fez de cada um de nós o espermatozóide vencedor. Depois tudo aconteceu, tudo acontece em função de condicionantes cuja opção consciente é demasiado humilde para ser tomada em conta. É a gota no mar, o ar na espuma, o planeta no cosmos.

Voar baixo, rente ao chão, não chega a dar prazer. E é arriscado. Tão perigoso que a Java que vive em mim foi alvejada e deixou de voar.

Não tem qualquer importância porque todos estamos condenados à morte, como bem disse Meursault no seu último dia. Como ele também, ela estava inocente na sua pureza, ela não mentiu nunca, ela foi dona de todas as sensações que poderão ter sido inusitadas para quem olha de cima, de fora, do lado, mesmo de muito perto, mas não sabe entender a enormidade, a complexidade da condição humana quando se trata de ligações umbilicais que passam por afectos, por admiração, deslumbramento, respeito, temor sem dúvida, de uma ligação que elimina as distâncias e se concretiza em vibrações para além do real.

Mas doeu a injustiça do tiro.

Como doeu a notícia com que me recebeu o meu país, hoje estampada nos dois semanários que leio regularmente, da demissão de Dalila Rodrigues, a mulher valorosa que conseguiu dar o relevo merecido ao MAA, o Museu dito das Janelas Verdes porque era dele o que mais se via quando se passava junto ao Tejo… Logo agora, quando venho de um mergulho na vida cultural madrilena, deslumbrada com o Centro de Arte Rainha Sofia onde encontrei uma sala exclusivamente ocupada com a projecção de arte visual em língua portuguesa!

Que fazem as mulheres da política no meu país?

Que fazem as ministras da Cultura e da Educação?

O contributo que eu esperava das mulheres na política do meu país, é tudo aquilo que lhes falta: sensibilidade, rigor, justiça.

Ainda bem que nos vamos dando conta: não há homens nem mulheres; há pessoas, mais ou menos competentes.

O nosso Primeiro Ministro teve azar com as mulheres.

Apenas isso.








2 comentários:

Paulo Sempre disse...

Os sonhos e as expectativa assim como a fé e a esperança, "representam" imaginários e quotidianos que, paulatinamente, nos levam à resignação ou a uma luta desenfreada de conflitos existenciais...
Que ao menos a minha Pátria não caia en tentação...
Beijo

bettips disse...

...e livrai-nos do Mal! Estava a pensar no que te daria a ti, depois desse tiro levado (não parece mas eu vôo quase sem penas)que me comove. E vejo que pela viagem ficaste com a alma cheia. Eu como nunca me canso de ver cantos (de algumas pessoas, claro!)Acho que... dar-te-ia abraço e atenção para o que quisesses contar! E um chão da Basílica da Estrela, um desenho que irias gostar, rosa/ azul. Bem chegada!