quinta-feira, abril 05, 2007

A Ilha dos Amores


«...É que os lugares acabam, ou ainda antes

de serem destruídos, as pessoas somem,

e não mais voltam onde parecia

que elas ou outras voltariam sempre

por toda a eternidade. Mas não voltam,

desviadas por razões ou por razão nenhuma.»

Jorge de Sena



Na vida de cada um de nós existe sempre um cesto mágico. Lá dentro o tesouro dos pensamentos, das recordações que surgem do nada que já foi tudo.

O meu tem rosto. Está ali, quieto, pousado sobre a rocha em que se sentam os que me geraram. Sinto na palma das mãos as ondas do entrançado certo, rolo ainda hoje nos dedos o pauzinho claro, longo e direito que segura as argolas para fechá-lo na frente e ouço o chiado breve da tampa a abrir. Está ali, na Ilha dos Amores, nesta foto sexagenária que sobrou do vendaval passado.

Este um lugar paradisíaco que havia na região do Quipeio. Logo à entrada e ao longo dos diversos sítios aprazíveis, estavam pregadas tabuletas com excertos de versos, não consigo lembrar qualquer deles. Um rio de forte volume de água despenhava-se por entre rochas, julgo ser o rio Cuíto. Tinha braços que corriam devagarinho em pequenas valas, onde molhávamos os pés sem perigo e por cima dos quais havia pontes toscas de madeira. As duas margens eram ladeadas por denso arvoredo, árvores altas e outras mais baixas e muito copadas, com troncos baixos, torcidos, grossos, por onde se podia trepar, esconder, fingir até de Tarzan. Com rochedos à mistura, água borbulhante e límpida, de maior ou menor volume, dependendo da época do ano – seria o cacimbo a altura mais propícia aos passeios – cada dia ali passado escorria intenso e prazeiroso, tudo fazia sentido, o rumorejar das águas, o crescer dos fetos, o trinar dos pássaros, as poupas brancas de penacho na cabeça, as anduas verdes de gravata vermelha a saltar por entre as árvores.

Quando se cruzou o céu nas tempestades cavalgando os arco-íris pelo cinzento quieto, quando se desce suavemente pelo redondo do violeta, quando amainam as cores e se pousa os pés no redondo da Terra, há por aí um cesto mágico. Com um tesouro, diz a lenda.


8 comentários:

naturalissima disse...

Fiquei encantada e leve oa lêr esta linda e breve memória, tão bem escrita.
Gostaria de vêr nas bancas um livro teu... as tuas memórias em papel...
É muito bonita a forma como te exprimes! A poesia que se realsa nas linhas que desenhas.

Desejo-te uma FELIZ semana de Páscoa

Daniela

vidavivida disse...

Que belas recordações me trouxeram estas tuas memórias tão bem exprimidas.
Quando um dia for grande vou querer escrever assim para poder transpor para um livro as minhas memórias de África, até lá, vou aprendendo contigo.
Uma Páscoa feliz para toda a família.
Um abraço do sempre amigo.

bettips disse...

Os nossos passarinhos voam...e ficam as arcas de recordações. Lindas e poéticas as tuas. Um beijinho e fica BEM!

Cangonja disse...

Querida Jawaa
A Ilha dos Amores, roteiro de inúmeras visitas, deve continuar lá, talvez sem as pontes, entretanto ruídas, mas certamente com o mesmo encanto.
E fiquei doce que nem algodão com as tuas memórias. Porque se cruzam com as minhas. Privilegiadas que fomos... não as podemos esquecer.
Obrigada pelas tuas palavras cheias de música.
Beijinho

Roderick disse...

Todos temos cestos mágicos para descobrir.
Outros os guardam nos recantos da memória.

veritas disse...

Olá!

Votos de uma boa Páscoa!

Bjs.

M. disse...

Gostei muito, belíssimas estas tuas memórias.
Boa Páscoa!

JPD disse...

Olá!

É sempre aliciante rever momentos que reforçam a felicidade.
Bjs