Quarta-feira, Outubro 29, 2008

O Futuro

«O carácter de poeta tornou-o ainda mais respeitável. A poesia, dedicada quase exclusivamente entre os Visigodos às solenidades da Igreja, santificava a arte e aumentava a veneração pública para quem a exercitava. O nome do presbítero começou a soar por toda a Espanha, como o de um sucessor de Dracôncio, de Merobaude e de Orêncio.
Desde então ninguém mais lhe seguiu os passos. Assentado nos alcantis do Calpe, vagabundo pelas campinas vizinhas ou embrenhado nas selvas sertanejas, deixaram-no tranquilo embalar-se nos seus pensamentos.»


Alexandre Herculano



A nossa História está cheia de poetas e piratas. Alguns sonhadores, visionários, outros arrojados, laboriosos. O nosso primeiro rei, erguendo a lança, cavalgando montes, galgando rios. Dinis, o «plantador de naus a haver», dando força à voz do povo, criando a luz que perdura. Henrique olhando o horizonte para além de Sagres, Leonor semeando misericórdias, Gil zurzindo os poderosos, Luís cantando a nossa gesta, Vieira fazendo-nos irmãos de todos os povos. Pessoa abrindo janelas, todas as portas da nossa alma. E Sophia poetizando o mar. Tantos mais, sem rosto e sem nome, por naus, por jangadas, por missões, por orientes, praias distantes.


Pousando no passado, apoiado nele, é mister viver o presente mantendo a vigilância e olhar o futuro. Ele está aí, em todo o seu poderio.


Em franjas retorcidas de colcha antiga, o adamascado traduz o presente manchado de presunção, incúria, ganância e desperdício. Rasgada de desprezo por todos os necessitados, pelos ignorantes sem tino, os cegos sem mão que os guie. Cobrindo tudo o que resta do planeta a esgotar-se, cheio ainda de potencialidades não aproveitadas, em nome da cobiça, do individualismo doentio, numa irracionalidade sem nome.


Não há ervas daninhas. O que há é raízes diferentes, sementes várias de plantas diversas crescendo no mesmo solo, nem sempre respeitando campos, quase sempre tapando o sol aos mais frágeis. Cumpre ao Homem organizar espaços, racionalizar o território que é de todos, separar a floresta dos lodaçais do rio, deixar as dunas olharem o mar, o deserto abrir-se às estrelas. Sob pena de soçobrarmos no pântano.


O futuro somos nós, o nosso querer, a nossa força.



Quarta-feira, Outubro 22, 2008

Sulcos


Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.

Agustina Bessa-Luís


As inquietações soam como os pingos que caem na escada depois da rega dos gerânios no parapeito da varanda. No céu as rochas brancas, quietas, não parecem sentir o vento que sopra forte fazendo rodar as folhas neste fim de tarde, lembrando o fim dos dias quentes, que não os de sol, neste S. Martinho antecipado. Até o tempo parece ajudar no sentido de esquecer as tradições, não há razão para contar histórias às crianças sobre aquele benemérito que, num rasgo de solidariedade, cortou a capa num golpe de espada e a dividiu com o mendigo. Nem voltamos aos tempos em que Deus se assombrava com a virtude e interrompia o caminho do Inverno para louvar a bondade dos homens.

Quantas vezes as memórias acordam para espantar outras vozes mais recentes. Aquelas só são bonitas porque nós não estamos onde elas eram a vida. Já não temos a insegurança dos meninos e muito menos as suas certezas. A minha infância não teve televisão nem computadores, o cinema na cidade pequena de então chegava uma, duas vezes por semana, passava o Orfeão e a Tuna Académica que faziam o acontecimento do ano representado no único lugar disponível, o hangar do «campo de aviação», não ainda nomeado aeroporto. Um dia Villaret no palco do cinema Ruacaná antigo, em frente à casa onde morava.

A concretização de tanta coisa sonhada já floriu algures ou foi nuvem que se diluiu no azul. Ainda há o tempo do devir que traz novas estações em cada ano. O mais que já não pode ser, só procurando para além do espaço, na imensidão do universo negro, onde as estrelas explodem e o fulgor acende em supernovas.

Olhar as estrelas é sempre uma aprendizagem. Sabemos que as que vemos cadentes nem são estrelas, que a primeira e a última estrela da noite é um planeta, sabemos que há as que brilham no céu só para nós porque já são nada no espaço cósmico. Como os que nos deixaram órfãos continuam a fulgurar enquanto os nossos sentidos puderem apreender o seu brilho. Até um dia. Quando nós próprios deixarmos de ser, então outros seguirão o nosso traço luminoso, assim tenhamos nós sido luz, assim tenhamos criado alguma coisa.


Quinta-feira, Outubro 16, 2008

O Futuro


«[...] Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, (...), estende-lhe os braços, (...), lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá reclama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar.»


Padre António Vieira



Esta não é decididamente a escola que eu gostaria de legar aos filhos novos.


Como no final dos impérios, o laxismo e a incúria produzem doutores por extenso que ficariam mal se ombreados com simples detentores da instrução primária de há um século, no que toca ao conhecimento da língua portuguesa que me é tão cara.


A oralidade reduz-se ao mínimo por falta de tempo até para refeições comuns nas casas de família, o contacto com os amigos faz-se por códigos através das novas tecnologias e até um sorriso – um sorriso! – se traduz em meio parêntesis e dois pontos.


Na escola de hoje não se ensina meninos, espera-se que eles aprendam. Esquecem porém os novos mestres que os meninos só vão querer ir aos ninhos, se antes virem os pássaros voando e alguém lhes anunciar que há passarinhos novos.


Por quatro décadas participei de aprendizagens em mais do que uma disciplina, ao longo de todo o ensino secundário. Os olhos abrem-se-me de espanto hoje, com crianças que, no terceiro ano de escolaridade, ainda não conhecem bem as letras depois do tê; alunos que têm, como leitura suplementar do sexto ano, um pequeno livro de menos de meia dúzia de contos, cada um dos quais com menos de meia dezena de páginas em letras garrafais. Quem se interessa por pesquisas na Web se não domina o código da escrita no início da puberdade, quando outros interesses despertam já, de acesso tão mais fácil para além da leitura e da escrita?


A escola pública que temos não dá ferramentas para a vida, no tempo certo. As Novas Oportunidades são úteis e devem ser facultadas a quem precisa e, principalmente, quer. Não é, não deve ser, não pode ser, para filhos de família a quem o pai paga (quatrocentos euros!) para ir à escola e tem o despautério de atirar ao rosto de quem o recebe o motivo por que faz o favor de estar ali , e altivamente acrescenta que é esse facto que lhe proporciona o emprego que tem – para que conste, professor licenciado, pago a recibo verde, a menos de dez euros a hora de trabalho, ilíquido. Não creio que muitos saibam que a escola pública não tem, actualmente, qualquer tipo de oferta para um adulto que queira iniciar uma língua estrangeira ou o que quer que seja, no domínio das Letras, das Artes ou das Ciências.


Não são só os professores que devem sair à rua. São os pais deste país. Os pais empobrecidos deste país que não podem pagar a escola privada, os pais que devem assumir as suas responsabilidades de progenitores e exigir uma escola que vá além de depósito de entretenimento e lazer. Estamos assim, por más razões, a empenhar o futuro.


Terça-feira, Outubro 14, 2008

PRÉMIO DARDOS



Informações sobre o Prémio Dardos:


Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:


1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.




Hoje dei conta de ter recebido um prémio e é evidente que não me passaria pela cabeça recusar tão honrosa distinção, principalmente porque recebido em duplicado de duas pessoas que muito prezo e a quem atiro desde já o mesmo dardo. À Vida de Vidro e à M. eu agradeço a lembrança e sinto-me lisonjeada pela distinção, afinal uma prova de que criámos laços e encontrámos afinidades, para além de nos dar a certeza de que as nossas palavras e pensamentos encontram eco nestes espaços só aparentemente vazios.


O que me preocupa é a necessidade de encontrar o número de pessoas indicado, logo eu que disponibilizo tão pouco tempo para «navegar» tendo um número restrito de e-amigos. Poucos, mas decididamente importantes a quem devo aquisições relevantes para o meu crescimento como pessoa, a quem dedico o maior apreço e consideração.

Muito obrigada pelo carinho, uma vez mais.


Vida de Vidro

Reflexões Caseiras

Desenhamento

Construpintar

Naturalíssima

Lord of Erewhon

Herético

Eremitério

=AM’art=

Daniel Lopes

Tinta Permanente

Quarteto de Alexandria

Bettips

Menarazzi

Alienígena




Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Sentir



Quando ontem adormeci

Na noite de S. João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.


No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões passavam errantes

Silenciosamente

Apenas de vez em quando…

o ruído de um bonde

cortava o silêncio

como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?


- Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.

Manuel Bandeira




As coisas exteriores aos homens não são importantes. Só a natureza humana interessa ao caminhar do mundo. Não é a riqueza, não é o título de nobreza, não é o estatuto social ou sequer o aspecto físico. Já deu para perceber que ser-se, sentir-se homem ou mulher, não depende dos órgãos exteriores que levam ao registo do sexo de um ser humano.


O que faz pulsar a humanidade é o que brama no cérebro de cada um, é a vontade, a força dos sentidos, as inquietações, os desejos. É a necessidade de ir mais além de si próprio, de quebrar os cânones, de vencer os obstáculos, de almejar o impossível. É a certeza de que a escalada se faz com determinação e ousadia, com firmeza e denodo, sem falhas. Com garra.


As ligações entre os homens não respeitam hoje as normas estabelecidas há séculos. As religiões foram – e ainda são – o sustentáculo da sociedade porque decretaram leis, instituíram regras, organizaram as relações entre as pessoas. Mas o homem reage como ser pensante, e de dentro dele brotam outros caminhos para que o respeito surja sem obrigações, sem medos, sem restrições, com a simplicidade da natureza em volta. Mas é preciso ter força e investir fundo nos sentimentos porque o caminho é longo e, sem voz, as montanhas calam-se.


Às vezes penso que o Homem caminha para a extinção porque adultera tudo.




Terça-feira, Outubro 07, 2008

Livros


E me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
a figueira, a sombra dos muros, o jasmineiro,
em que ficou gravada a tua mão e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.


Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Vínicius de Moraes



Há demasiados escritores. Demasiados livros publicados. Demasiadas pessoas a dizerem coisas em nome de outros. Demasiada informação e desinformação. Demasiadas árvores abatidas para o papel circular, demasiadas cópias, muita escrita além do necessário.

Num tempo a que procuro adaptar-me ainda a tanta coisa nova, há a fabulosa ferramenta da Web que diz tudo acerca de tudo, de muitas maneiras, que vai tendo cada vez mais bibliotecas inteiras ao dispor de todos, em todas as línguas, onde cada um de nós pode acrescentar sempre um ponto, abrir um pensamento. Eu nunca diria algo de novo, algo mais que já outros não tivessem dito, pensado, escrito.

Então para quê publicar um livro?

É uma questão que coloco a mim própria há muito, muito tempo – não se tem um filho só para nosso prazer, terá de ser para o prazer de o vermos ter prazer por o termos feito nascer. Ainda não encontrei resposta nem decerto a encontrarei porque é uma questão que ultrapassa a racionalidade como tantas outras do foro mais íntimo que só alguns – mesmo só alguns – conseguem exprimir por palavras. Só um Camus consegue mergulhar-se em nós e sentirmos cá dentro a pureza, a ingenuidade, a incredulidade de um assassino, condenado à morte por um crime, por crimes que (não) cometeu. Sem dolo.

Falta-me o tal golpe de asa, a imaginação, a invenção, a ferida que dilacera a alma e rasga os silêncios que se calam porque afinal pertenço aos oito por cento da população do planeta que tem obrigação de sentir-se feliz.

E ninguém escreve um livro de verdade quando é feliz.


Sexta-feira, Outubro 03, 2008

O que é ser Professor?

Pior do que a desactivação da economia, parece-me bem mais grave a «desactivação da acção» nas escolas. O que a seguir transcrevo dá uma ideia correcta (mas não completa) do caos que se instalou actualmente numa classe (já de si oriunda de educações diversas) em que vencer passou a ser sinónimo de empurrar o colega mais próximo para poder saltar o muro. É de tal monta o esforço feito para chegar à frente ou para tão só não sucumbir, que os alunos deixaram de ser o principal objectivo da presença na escola, já nem falo da sua aprendizagem que todos sabemos ser o menos importante.  


«…o português voltou à inércia e à passividade face às transformações inelutáveis que abalaram a sua existência como um destino. A esse estado de espírito acrescentou-se recentemente um processo de interiorização do novo modo de vida a que a modernização o vai condenando. Um grupo social tornou-se emblemático desta conjuntura: o dos professores.
A sua situação não mudou. Justificaria ainda a saída à rua de 100 mil pessoas. Mas, precisamente, uma tal manifestação seria hoje impensável. O Governo e a ME ganharam. Os espíritos estão parcialmente domados. Quebrou-se-lhe a espinha, juntando ao desespero anterior, um desespero maior. O ambiente das escolas é agora de ansiedade, com a corrida ao cumprimento das centenas de regulamentações que desabam todos os dias do Ministério para os docentes lerem, interpretarem e aplicarem. Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas (tal professor de filosofia a dar aulas de «baby sitting» em cursos profissionalizantes) – tudo isso sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego.

[…] No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento, e de fabricação de subjectividades obedientes. Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz, “a desactivação da acção”. É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política, à maneira de certos processos psicóticos.»

José Gil in «Visão»