quinta-feira, junho 16, 2011

Eclipse


São contra a morte, ou contra a vida, as vozes
que tão fugatamente desconversam?
São contra a terra ou contra o céu as pausas
quase imperceptíveis que retornam?
São contra as coisas ou são contra os homens
certas singelas notas que persistem?

Ou a favor? Não sei. Talvez que sejam
uma existência que se vive ouvindo
apenas o fluir da música nascida
de não fluir mais nada que não seja a vida.
Jorge de Sena


Gosto de dormir num quarto com janela virada a Nascente. 

Que a luz me chegue ténue pelas madrugadas e eu possa sentir-lhe a coloração logo mais intensa e colorida pousada na parede em frente, filtrada pelas persianas, quieta, ou de preferência em sombras bruxuleantes de folhagem através do vidro transparente.  

O começo do dia, o acordar das manhãs, trazem-me sabores, odores, acordam-me os sentidos devagar, quantas vezes deleitados nas recordações dos tempos da infância, olhos fechados a tentar recordar os sons, os sons esperados, os sons ansiados, os sons que ficaram gravados, as vozes.

As vozes que não voltam mas que identificaria entre mil, com o instinto de uma andorinha dos trópicos ou um pinguim na Antárctica. É o tempo mais prenhe do dia, em breves minutos o pensamento a ordenar o que surge em catapulta do que há para concretizar, logo depois olhar em volta e ter a certeza de que o mundo não foi escrito a preto e branco. Entre o nascer e morrer existe a vida que os meus sentidos captam decididamente em tonalidades múltiplas, das mais suaves às mais vibrantes, capazes de ferir o olhar ou dar-lhe encantamento.  Também nas duas tintas sem cor, quando a Lua se recorta envergonhada a subir no horizonte, a fugir do beijo da Terra.

Sou eu que tenho de usar esse pincel de luz matinal quando tudo se esvai, quando não há sol ou a tempestade ruge apagando todas as vozes.

quarta-feira, junho 08, 2011

O segredo da chave


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
 

Um segredo só é segredo se for solitário, se pertencer a um só. A partir do momento em que se partilha com alguém deixa logo de o ser, perde a magia.

O vento sopra os segredos pela folhagem e ela logo enceta um cicio, uma dança, um farfalhar que acorda os sentidos dos seres que pululam, se acolhem, se escondem nos ramos, nos troncos, na manta rasteira circundante. E eis que adivinham a chuva ou o fogo, o suão ou o frio do inverno a chegar. Ou algum predador.

Os segredos que o são de verdade têm a chave dentro deles como a lua nova, há que esperar que o sol nos mostre o caminho da face, paulatinamente, primeiro um sorriso tímido, depois mais rasgado, até ao descobrimento final do riso aberto, o rosto deslumbrante.

A palavra pequenina «chave» consta no dicionário com mais de uma vintena de entradas, para além das palavras compostas dela, para além da clave, que também é chave, por via erudita.

Pois a chave é uma senhora muito esquiva, e afinal tão fácil de achar se nos dispusermos a isso sem preconceitos. Acode-me a história atribuída a Colombo, do problema de colocar o ovo de pé; a chave logo ali, ninguém tinha dito antes que não se podia quebrar. Preconceito, preconcebimento, se preferirem – não sei se a palavra existe dicionarizada. 

É isso mesmo. Há chaves e chaves. Chaves físicas e não físicas. Chaves de segredos que se procuram uma eternidade e palpitam tão perto de nós, prontos a satisfazer a curiosidade que acalma os sentidos. Ou não. Mas a descoberta da chave, só por si, é uma conquista, ainda que o segredo se mantenha inviolável, por mera decisão dos intervenientes. Também se chama livre-arbítrio. Pela negativa.

terça-feira, maio 31, 2011

Dimensão



E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
 
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

 
Acordo na escuridão e os sentidos são atraídos, cegados pela brancura, o brilho, as pétalas frágeis desvirginando a noite, acendendo desejos e cansaços de séculos. Corre a mansidão da brisa, depois da chuva no dia morno a lembrar outras latitudes.

Falta a terra húmida mais quente, logo o odor a evolar-se dela e a encher-nos as narinas, como ascende aos bichos na chana seca a adivinharem a estação das chuvas que traz a água benfazeja. No possível entremear de silêncios, ouço leves sons na corrente breve que acordou no fundo do valado, quem sabe de regozijo, quem sabe de lamento, chamamento do outro que se foi no levar da corrente.

Quase o som das rãs.
Quase o som dos noitibós.
Não, muito longe disso. Não há olhos a brilhar nem esvoaçar de pássaros.
Quando muito um quase crocitar quando os carros se esquecem de passar, um leve coro de relas talvez, uma brisa mais forte a provocar a resposta das ramadas de eucalipto, dos choupos junto à ribeira além.

É uma hora de paz. Sem jornais, telejornais, debates, maledicências, rostos de sorriso falso, cansado, forçado, beijos(?), abraços(?)apertos de mão sem ver de quem.

Tenho de ir votar neste fim-de-semana, o meu sentido cívico a isso me obriga, ainda que desta vez os dados já estejam lançados, quem for governo terá de cumprir o que já está decidido.

Mas não calo a minha voz de protesto. Nenhum governo faz aquilo que só a nós cabe fazer, nós, portugueses de lei, nós os que queremos um Portugal melhor, mais são, menos oportunista, menos corrupto, mais educado, mais modesto no ter, mais orgulhoso no ser da sua grandeza.

quinta-feira, maio 26, 2011

Tão fácil acrescentar um zero


Donde sou? Sou do meu tempo, bem o sei, ou bem o quero saber, porque não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu. Mas de vez em quando, a um aceno invisível e perceptível apenas no modo de haver uma perturbação no ar, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de ser pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?

Vergílio Ferreira in «Pensar»
 

Ontem medi o tempo entre os sete e setenta anos. Foi apenas acrescentar um zero e o tempo rodou. 

Havemos de nos encontrar sozinhas as três para conversarmos um dia inteiro
um dia inteirinho
para nos ouvirmos por dentro nos sessenta em que seguimos de mãos dadas, entre viagens e separações, entre continentes, naquele país que era Portugal e onde não nos sentíamos
nem pequenas, nem discriminadas, nem humilhadas, nem periféricas.

Estamos aqui juntas outra vez, depois dos partos, das cirurgias de peito aberto, dos acidentes vasculares, dos casamentos, dos divórcios, dos netos, depois de perdermos os Mais Velhos, alguns amigos do peito.
Depois de perdermos o chão, no sentido mais lato.

Depois de hoje, três pequeninos budas risonhos de jade hão-de manter-nos unidas para os dias que nos falta cumprir
eles hão-de  sorrir para nós em cada lágrima vertida, em cada hora de encantamento, em cada sonho erguido ainda.
Eles não vão deixar-nos perder os laços, as lembranças, a teia construída cedo, os lugares da infância comum, o riso, a alegria
ainda quando afundadas na mágoa da impotência.

É que, como diz Vergílio, não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu.
Então, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de ser pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?

domingo, maio 22, 2011

O Melro


       E quando a noite se aproximou, disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias do Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
       – O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro de riu!

Miguel Torga in «Os Bichos»





Deixo que os olhos se alonguem pela mancha verde que diviso no outeiro longe, pinheiros, eucaliptos talvez, a apetecer a frescura que falta neste ar que não bule. Ontem o mar chamou por mim, mas faltou-me a coragem para o seu abraço, já se foram os verdes anos e calor de então para lhe aceitar a frescura.

Mais perto, os fios dispersos sobre os telhados das casas desordenadas, desordenados eles, feios, grossos, suspensos em postes antigos, inclinados, com garras torcidas, que não impedem a cobiça dos que descobrem o valor do cobre e os cortam pela noite, indiferentes aos estragos causados de quem depende deles. A crise alimenta os vilões, a fome justifica tudo. A falta dela também, entre os homens, que se entregam a desvarios de toda a ordem.

Por isso eu gosto dos bichos que são menos maus, brigam pelo sustento e pela continuação da espécie e depois cantam, cantam que é bom viver, diz a novela da noite, das lendas e maldições dos Índios. Num atropelo ao Torga, eu não ouço gargalhadas do melro, depois de ter ouvido as dos sacanjuères, que ele não conheceu decerto. Ouço-lhe, sim, os assobios de escalas diversas com que me brinda, dia adiante, pousado nos fios, na falta do pinheiro vetusto que os homens abateram, e ontem em desafio com um arrulhar de rola curiosa.

Afinal os fios torcidos de cobre não servem só as comunicações e o apetite dos homens, também servem de palco ao orfeão dos pássaros.

domingo, maio 15, 2011

Devagar se vai longe


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina (Prémio Camões 2011)




No sorriso das palavras o mundo todo se aconchega.

É alegria e dor ao mesmo tempo, aberta e partilhada ou então escondida atrás dum rasgar de face que os olhos não acompanham no brilho.

Nada é totalmente como queremos, é sempre mais ou menos, daquilo que desejamos embora uma e outra, dor e alegria, se ofusquem num determinado momento, dando azo a momentos únicos de explosão de raiva ou alacridade que nos dão algum fôlego para continuar em frente, porque nada volta para trás.

Tudo se constrói a partir do momento em que vivemos e nos damos conta do terreno que pisamos, se é chão duro e seco, se dele ascende o odor da chuva fecundando a terra, se é lodaçal ou areia movediça onde o corpo se afunda devagar.

Portugal tem um chão de verdade, chão quase milenar, tem terra firme, donde sobe o cheiro doce da terra molhada, numa profusão de continentes, tem como senhora única uma Língua imensa e forte que está acima de todos os impérios, reis ou príncipes forjados pelos homens. É uma Língua que nasceu vulgar do Latim dos clássicos, que se misturou de celta, de galego e de lusitano, que mergulhou sem medo nos oceanos e as ondas levaram e semearam e germinaram em crioulos e em tonalidades doces de inflexão peculiar por essas praias além.

Havemos de fazer com ela o ramo de oliveira que um dia uma pomba branca trouxe para a Arca a dizer que os tempos maus já eram idos e que havia terra fecunda à vista.
 

domingo, maio 08, 2011

Fidelidade



Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena

 
Ouço a chuva lá fora caindo devagar, incerta, escuto para que possa sentir a verdade dela.

Contar os anos por rugas e cãs dá o poder dos passos imensos que mergulham no tempo, nos lugares perdidos, comparando os campos, as margens dos rios, o tamanho dos lagos, a lonjura dos horizontes. Eu não posso ser senão da terra onde nasci. E ainda que seja um lugar de ninguém, como Orfeu, eu procuro Eurídice, porque os espíritos disseram que era possível.

Ver, olhar, andar para trás no tempo, passear no reino dos mortos, não me dá o direito de tocar, de alterar coisa nenhuma, muito menos de guardar para mim algo mais do que a memória. Nem mais é preciso, nem mais importa, porque a fortuna de chegar aqui, de entrar no reino dos deuses, é um prazer sem tamanho, quase dor, néctar sagrado que nem todos podem degustar. Não ter nada e ter tudo. Não ser dona de nada e possuir o mundo de Zeus, de Poseidon e Hades. Ser como Prosérpina, habitar dois mundos, a complementaridade deles.

A sabedoria inteira na simplicidade das histórias dos deuses antigos, a mitologia a anunciar as histórias dos deuses recentes, a soberba (poder), a avareza (offshors), a gula (capital), a luxúria (pedofilia), a ira (desporto), a inveja e a preguiça iludindo tudo. No Ocidente, dois mil anos de Cristianismo não dirimiram os pecados capitais, antes agudizaram o seu apetite. Na outra face da Terra, nem as religiões de Abraão nem as filosofias orientais impediram a globalização destes desejos humanos.

Nas franjas do mundo, sobrevivem as ninfas, as nereides, os faunos, os seguidores de Pã.

Ando no seu encalço.

quinta-feira, maio 05, 2011

Determinação


     Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino.
     Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo, e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus! Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos comandados pela sua implacável tirania.
     Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço foi devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca, que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
 Miguel Torga in «Bichos»


 Quase me sinto perdida enrolada por ventos marés, circunstâncias do tempo marcadas por relógios humanos sem alma, rodando no mostrador. Passando sem ver uma e outra vez sobre os algarismos gravados a negro, quietos parados, iguais na noite e no dia, no escuro e na luz.

O relógio cá dentro não sabe das horas mecânicas, certas, pausadas, soadas, marcadas pelo arco do pêndulo. O relógio cá dentro vive dos sons das madrugadas, quando a noite ainda cobre os telhados, as sebes, os muros pintados lavados, a casa em ruínas, o musgo lavrando nas fendas, as silvas espreitando à janela.

O relógio cá dentro vive dos sinos que soam repicam que dobram finados, vive das noites abertas ao sono e ao sonho, ao som dos beirados pingando a chuva que o céu entorna. Vive dos passos nos jardins nas praias de sol dos dias fechados a lacre – como as cartas antigas. É um relógio sem mostrador, sem ponteiros rodando, sem algarismos a deslizar, sem corda sem pilha, sem corrente sem caixa sem pulseira.

É uma arca antiga onde palpitam fragrâncias de rendas que fincam os pés no desandar da maré. O relógio de dentro não é de metal, não é frio, não conta os minutos as horas. O relógio cá dentro escuta, vê, sente, sofre, seduz, vibra até ao último crepitar de chama, estremece até ao último pulsar.

quinta-feira, abril 28, 2011

Realidade


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas, ama as tuas rosas.
O resto é a sombra de árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos do que nós queremos.
Só nós somos sempre iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues. Ela nada pode
Dizer-te. A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo no teu coração.
Os deuses são deuses porque não se pensam.

           
Fernando Pessoa (Odes de Ricardo Reis



 


terça-feira, abril 19, 2011

Planar com os ventos

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos»

 
A chuva dedilha lá fora a toada da noite cansada das vergastadas do vento e da chuva, dos gritos saídos das nuvens em clarões de luz ecoando depois em golpes em ondas de sons que se desfazem e somem no espaço longe. Tudo o mais se aquieta e procura refúgio ao troar da natureza ameaçadora, sabendo que a fúria se apaga em ternura na chuva mansa a acariciar as folhas, a escorrer pelos caules, a sulcar a terra e a alimentar as fontes.

Quem dera que a alma humana bebesse o húmus desta certeza e perdesse o medo. Quem dera que nela a escuridão se tornasse dia, ainda que as tempestades se abatessem, que os trovões ribombassem, que os raios ferissem o olhar de assombro, temor que fosse. Mas breve, logo o coração batendo com força e depois mais lento e leve, leve como as gotas que pingam e reflectem já o sol em diamantes puríssimos de múltipla cor.

Mas o homem é um ser feroz porque a sociedade lhe cravou a marca da impureza e ele não consegue libertar-se. Também não quer. Ou talvez não queira. É mais fácil embebedar-se nos males do mundo cavando-os mais, afundar-se na droga para não ter medo do que não existe para além da sua imaginação, em vez de simplesmente planar aproveitando os ventos altos da escrita. As palavras bastam para aquietar as emoções, o bico passando a lavar, a alisar as penas na lagoa tranquila, as primaveras chegando em cada novo ciclo, em volta procriando, os novos seres abrindo.

Já cruzou o mundo, arrostou as tempestades e remou nas galés. Agora há outros navios e outros mareantes, deixemo-los velejar.

É tempo de olhar em volta, saber colher os frutos.
E que belos são!

quinta-feira, abril 14, 2011

As palavras e as rosas



Queria deixar uma catedral de palavras e dou-me conta que a catedral não tem fim. Queria arredondar o edifício, fechá-lo, e dou-me conta, desolado, da impossibilidade desse fecho, dada a inevitável limitação da vida. Não morrerei satisfeito, morrerei com a dor de não ter tido tempo.. Construirei uma obra mais duradoira que o bronze, afirmava Horácio: isso julgo que consigo. Ou Ovídio: hei-de sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo: isso acho que também consigo. Porém desejava mais do que isso: uma música sem fim, uma sinfonia total. Decerto o que digo é a frustração de todo o artista e o inevitável destino da condição humana.

António Lobo Antunes in revista «Visão» 7/Abril


 Rendo-me incondicionalmente ao esplendor das rosas.

Para além da beleza, para além da pujança de cada planta a explodir em rebentos de folhas, de flores, gemas ainda verdes, depois divulgando a cor, abrindo em botão, o odor da rosa aberta e ainda por fim desmaiadas, as pétalas desprendidas, marcadas, queimadas pelo sol, a sedução permanece.

Como as palavras que se constroem em edifícios e se asseguram mais perenes que o bronze, é preciso que a condição humana não se altere na submissão à matéria, porque só o espírito pode manter vivos os imortais desta estirpe. O bronze nem é um metal puro, é uma liga baseada em dois metais macios que, ligados, fundem as cores e originam a força e a perenidade do bronze. Passam pelo fogo. As palavras passam pela educação do espírito.

É preciso que se escreva, e se escreva bem.

É preciso que se passe alguma mensagem, é preciso que se registe a História das gentes, muitas vezes é preciso que o tempo passe, como o fogo passou pelo estanho e pelo cobre, antes de ser bronze. Agora, é preciso que aqueles que fundem o bronze saibam construir com ele a estátua, e para saberem construí-la, é preciso que a conheçam bem, que lhe notem o gesto e o tom, que lhe conheçam os músculos e as rugas.

Então teremos uma estátua, uma catedral, e não importa que não esteja terminada. Gaudí deixou a catedral de pedra inacabada e não lhe tirou beleza, as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória não impedem de celebrar a Batalha.

terça-feira, abril 12, 2011

Um Inquieto Acontecer

Não é propriamente um romance, mas um longo testemunho, de quase quinhentas páginas, entre a crónica e o diário, sobre a guerra colonial. Embora muito bem escrito, por um pintor e excelente crítico de arte, Rocha de Sousa, falta-lhe talvez vibração e arte literária para ser o texto fundamental que poderia ser sobre a monstruosa e tão dramática aventura que tantos portugueses viveram e que os marcou para sempre. No entanto, está lá todo o essencial: a chegada das tropas a Luanda logo no início da guerra, em 1961, a escassez de tudo, o tempo do marasmo e o tempo do horror, os feridos e os mortos, a tortura dos guerrilheiros presos, o seu silêncio sobre o que não deviam dizer e o modo impressionante como tratavam por «meninos» os jovens oficiais milicianos da tropa portuguesa. Há a saudade da mulher amada, as histórias dos soldados, o medo das minas e os estropiados. Há a habituação a tudo, o desprezo pela retórica bélica do regime. Há o bom senso. Há neste livro uma honestidade absoluta.


Urbano Tavares Rodrigues, 1999

sobre «"Angola 61: Uma Crónica de Guerra ou a Visibilidade da Última Deriva»


Os dias sucedem-se amenos numa natureza quieta, a primavera enchendo tudo de verde e colorido, enquanto do outro lado do mundo a terra treme continuamente e os homens tentam em vão emendar os erros cometidos, erros que irão afectar todos nós, mais tarde ou mais cedo.

Mas por aqui a hora é de vésperas e não é justo sofrer por antecipação,
que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                (Enlacemos as mãos).

Vai ser lançado mais um livro de Rocha de Sousa, «Talvez Imagens e Gente de um Inquieto Acontecer», para mim a quinta obra sua lida, depois da que vem citada na abertura deste post, numa recensão de Urbano Tavares Rodrigues.

E porque estarei presente no lançamento e a bondade do autor e do editor me estenderam um tapete de responsabilidade, sinto agora aproximar-se uma leve inquietude na hora do acontecer.

sexta-feira, abril 01, 2011

A tarde chega devagar



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios, a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa
 

 Por vezes os laços desenrolam-se, desmancham-se, desfazem-se, e dois fios pendem sem alma nem vida escurecidos do tempo, do pó, do abandono.

Quando são rudes e bem laçados, duram muito, muito tempo. Se de matéria mais fina, sedosos, desmancham-se mais precocemente, deslizam sem que se lhes toque, formam um nó e descem em fitas brilhantes, misturam-se aos tecidos leves que os rodeiam, embrulham-se neles mas resplendem no brilho da seda, tocam-se, brilham lado a lado, um mais longo outro mais curto, um mais acima outro mais abaixo, mas um nó cego os mantém juntos lá no alto.

Como os afectos ecoam pelos anos, laços desfeitos, vidas perdidas, lembranças vagas, esporádicas e um dia um clarão acende e afinal nos entendemos na mesma linguagem que um dia aprendemos na escola.

Eu vou continuar a olhar o pôr do sol atrás dos ulmeiros, dos eucaliptos altos, dos pinheiros que bordejam as praias ainda, vou ver o sol esconder-se no mar do Oeste sabendo que ele brilha ainda alto mais além, onde o coração mora, do outro lado do oceano. Vou continuar a sonhar as pedras da Ilha, imbondeiros de múcuas pendentes, cafezeiros vestidos de noiva ou de vinho, anharas secas e morros crescendo em direcção ao céu.

Afinal tudo muda sem apelo nem agravo, tudo gira e eu não comando. Só sei que o sol é o mesmo, o céu igual, mais azul, menos azul, e a luz cá dentro, cada vez mais mansa, a querer chegar à noite.

sexta-feira, março 25, 2011

Flor de Sombra

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.



Fiama Hasse Pais Brandão



A ameixoeira floriu. Foi o sol, o calor, o seu tempo de repouso chegando ao fim, chegando a dizer da primavera, a lembrar a fruta nova que o verão traz consigo no ventre.


Já se ouve o melro em toadas nos dias mais quentes, os passarinhos novos procurando lugar para os ninhos nas roseiras que se cobrem de folhagem brilhante e fecham o gradeamento.


Mas a floração é breve, breve a brancura porque as folhas despontam e a pureza foi-se.


Assim tudo se repete, uma a e outra vez, quantas primaveras, quantas folhas caídas, quantos anseios, ternuras, abraços e logo depois a lonjura a separar os continentes, as vidas.


Quero ainda acreditar no amor como um direito à vida mas os anos marcam o pensamento e creio no amor como um dever dela para que os mundos se repitam, não um amor de exaltação mas um amor de beatitude que contém a lucidez para suportar a rigidez do inverno, a falta de folhas nos troncos retorcidos, a seiva correndo com força por dentro, cada vez mais densa, cada vez mais dependente das raízes fundas, a encontrar nelas alimento novo.


Mais uma flor abriu. Há-de ser uma violeta.

quarta-feira, março 02, 2011

Quatro Mãos



… Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de Sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos…


José Régio in «Toada de Portalegre»


 Pintura de Rocha de Sousa


Em passos mansos, eis chegado Março cheio de sol, temperatura amena, a trazer o Carnaval a desoras, a dizer da Primavera que nasce.

O dia fica aberto mais tempo, preso às camélias, às magnólias, ao cheiro forte dos jacintos. Os pessegueiros já coram, em breve as amendoeiras, as cerejeiras, as ameixoeiras se vestem de noiva a anunciar os frutos que virão.

Não é para mim um Março qualquer. Será com certeza um Março diferente dos anteriores, e eu afinal deveria estar exultante por abrir os olhos de manhã e ver o sonho ali à minha frente: o céu azul vibrante, os pássaros as borboletas as flores o rio as tempestades, a casa grande dominando tudo.

A casa grande que ruiu e se desfez em pó, donde emerge agora o espírito a atravessar vidas, a unir vidas em cores e palavras.

Eu olho e sinto. Inquieta.

domingo, fevereiro 20, 2011

Passos de dança

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade


Talvez a chuva nos dê uma trégua neste domingo que acorda, uma trégua à magnólia para que as flores se encham de sol, uma trégua a mim para que tudo se aquiete, uma trégua a todos os que precisam de retemperar forças para iniciar mais uma semana de trabalho. Afinal o domingo é dia de descanso, assim foi para o Senhor que nos criou, assim reza a Bíblia, o sétimo dia.

Mas os Homens são mesmo complicados na interpretação das coisas ditas sagradas e o sétimo dia tem que se lhe diga. Objectivamente, linguisticamente falando, os portugueses descansam no primeiro dia, pois amanhã já é o dia segundo de feira. Se quisermos extrapolar e ir por aí fora, isto diz muita coisa acerca do nosso povo. Este povo múltiplo onde cada um se rege como cada qual e onde todos se vão entendendo, diga-se em abono da verdade.

Acerca dos dias de folga semanais, recordo bem uns vizinhos dos tempos de infância, cujo filho andava no colégio comigo, foi meu colega de carteira em algumas aulas onde os alunos eram colocados por ordem alfabética, ele chamava-se João Emílio. Nunca ia às aulas ao sábado, era-lhe permitido devido à sua religião, era protestante, e o dia de descanso para a sua família era ao sábado, não ao domingo. E eu sei bem que era um descanso levado a sério, porque a empregada da casa passava o dia no fundo do quintal a costurar, a fazer as coisas dela, porque em casa não lhe era permitido fazer rigorosamente nada, a louça acumulava-se numa enorme bacia dentro de água para ser lavada no dia seguinte, supostamente o dia de descanso da empregada que professava o catolicismo.

Afinal, gerir os comportamentos e as liberdades de cada um nem sempre é justo para todos, nem sempre é fácil, muito menos se todos quiserem tomar ao pé da letra tudo o que se faz ou diz. Há que dar corda ao pensamento, dar conta que a tolerância é a pedra com que tudo se constrói, é a batuta que rege os comportamentos, os afectos, tanto mais fácil se estes estiverem realmente bem treinados e os instrumentos afinados pelo respeito pelo outro.

domingo, fevereiro 13, 2011

Desligar

Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano

Ruy Belo in «País Possível»



A Primavera espreguiça-se já pelas manhãs soalhentas, chuvaradas lavando os telhados, a acender mais o verde das folhas, semeando de brancura os campos, os dias de luz mais comprida.

Às vezes é preciso cerrar as portas do armário onde o mundo espreita e insiste em mostrar a face mais dura, a mais amarga, a mais insana, a mais inútil quantas vezes. Os telejornais das oito perderam a noção do que é, ou deve ser um noticiário. Espalham-se por longuíssimos minutos numa abertura sangrenta, violenta sempre, em dias seguidos repetem as mesmíssimas imagens recolhidas,  os mesmos comentários dos locutores, alguns num entusiasmo que chega a ser mórbido.

Queremos saber, sim, o que se passa no mundo, queremos saber a evolução do que vai pelo Egipto, pelos países árabes, mas eu, pessoalmente, não quero esperar uma longa meia hora até ouvir falar do país que é meu, ainda que dele apenas ouça os casos de faca e alguidar, as palavras pouco edificantes trocadas entre os seus mais altos representantes, raramente exaltar o que também vai surgindo aqui e além, pela Cultura, a Ciência, as Artes.

Resta a palavra escrita, onde por vezes surgem ideias que me surpreendem pela positiva. Fechar por um dia as portas ao exterior, não sair de casa. Imaginar que vivemos num país rico, onde não há necessidade de mendigar dinheiro pelo mundo (pedir fiado, dizia-se nas mercearias dos tempos antigos, pôr no prego o país, mais duramente), onde há condições básicas de saúde, onde se pratica uma justiça em que os corruptos e os pedófilos sejam mesmo punidos, onde a educação e o estado social não permita que os idosos permaneçam sem vida nem sepultura durante quase uma década, onde há emprego para todos, onde não há sopa dos pobres, onde as crianças vivem em segurança, respeitam os mais velhos e são respeitadas. Um país em que se saiba pensar e aceite organizar-se com vista a um Futuro para todos.

É fácil ser feliz por um dia, embrulhar o pensamento na magnólia que floresce, nas camélias, nos pássaros que pedem comida, nos jogos do PPP. E no resto.
É preciso, para respirar.

domingo, fevereiro 06, 2011

De mãos dadas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina


Olharmos o mar de África de alma dada, numa quietude de infância das vidas.

Sérios, medrosos, compondo agora os tijolos caídos depois da derrocada, nos ouvidos os sons repetidos das G3, helicópteros rendando os ares como gafanhotos de ficção a poluir o horizonte.

Nada voltou a ser igual.

Olhar as imagens nas máquinas inventadas pelos homens trazem assomos de ternura, pulsar mais sentido nas veias, arrepios de saudade e dor misturadas, humedecem os olhos, mas o que foi já não é e não se volta aos lugares que se amou.

São os lugares que guardam as memórias, são os lugares que acendem os sentidos, são os lugares que fazem a história de nós.

Mas os lugares são povoados de gentes que já não estão, e isso muda tudo.  

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Respirar


Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios, a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa


 
Às vezes o tempo passa mais devagar, assim como que um balão enchendo-se de ar pela boca de uma criança. Sabe-se que vai crescer e voar bem alto se o não prenderem, mas em qualquer momento sabemos que vai rebentar.

Entretanto enche de alegria os olhos pelo colorido, a leveza, a transparência e a forma. Redondo como a lua, como a terra, como um planeta pequenino onde cabem todos os sonhos de uma criança. Até o sonho de querer subir alto com ele, como ele. Sem medos. O pulsar apressado nas veias não é de inquietação, é de excitação e alegria.

Em tempos gratos de pausa conseguida, tudo acontece devagar, como as manhãs abrindo nas madrugadas de bruma, a luz coando pelo nevoeiro, o silêncio esquecido da noite quebrado já pelas poeiras do ruído que cresce. Seja o chilrear dos ninhos, o bater das asas, a codorniz fugindo, o rastejar dos bichos, o cão parado de pata erguida à espera do que não acontece, o tiro que não ouve. Ainda.

Seja o barulho dos carros com gente dentro, correndo em fúria pelas serpentes de asfalto, gente cansada, gente com sono, gente fazendo a barba, pintando os olhos, os lábios, gente de telefone na mão em despedidas que não fez, em recomendações atrasadas, em promessas adiadas.

Gente que não tem tempo para olhar a mão pousada àespera de um afago.
Gente que deixa passar a vida sem ver.