quinta-feira, outubro 16, 2008

O Futuro


«[...] Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe, e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, (...), estende-lhe os braços, (...), lança-lhe os vestidos: aqui desprega, ali arruga, acolá reclama: e fica um homem perfeito, e talvez um santo, que se pode pôr no altar.»


Padre António Vieira



Esta não é decididamente a escola que eu gostaria de legar aos filhos novos.


Como no final dos impérios, o laxismo e a incúria produzem doutores por extenso que ficariam mal se ombreados com simples detentores da instrução primária de há um século, no que toca ao conhecimento da língua portuguesa que me é tão cara.


A oralidade reduz-se ao mínimo por falta de tempo até para refeições comuns nas casas de família, o contacto com os amigos faz-se por códigos através das novas tecnologias e até um sorriso – um sorriso! – se traduz em meio parêntesis e dois pontos.


Na escola de hoje não se ensina meninos, espera-se que eles aprendam. Esquecem porém os novos mestres que os meninos só vão querer ir aos ninhos, se antes virem os pássaros voando e alguém lhes anunciar que há passarinhos novos.


Por quatro décadas participei de aprendizagens em mais do que uma disciplina, ao longo de todo o ensino secundário. Os olhos abrem-se-me de espanto hoje, com crianças que, no terceiro ano de escolaridade, ainda não conhecem bem as letras depois do tê; alunos que têm, como leitura suplementar do sexto ano, um pequeno livro de menos de meia dúzia de contos, cada um dos quais com menos de meia dezena de páginas em letras garrafais. Quem se interessa por pesquisas na Web se não domina o código da escrita no início da puberdade, quando outros interesses despertam já, de acesso tão mais fácil para além da leitura e da escrita?


A escola pública que temos não dá ferramentas para a vida, no tempo certo. As Novas Oportunidades são úteis e devem ser facultadas a quem precisa e, principalmente, quer. Não é, não deve ser, não pode ser, para filhos de família a quem o pai paga (quatrocentos euros!) para ir à escola e tem o despautério de atirar ao rosto de quem o recebe o motivo por que faz o favor de estar ali , e altivamente acrescenta que é esse facto que lhe proporciona o emprego que tem – para que conste, professor licenciado, pago a recibo verde, a menos de dez euros a hora de trabalho, ilíquido. Não creio que muitos saibam que a escola pública não tem, actualmente, qualquer tipo de oferta para um adulto que queira iniciar uma língua estrangeira ou o que quer que seja, no domínio das Letras, das Artes ou das Ciências.


Não são só os professores que devem sair à rua. São os pais deste país. Os pais empobrecidos deste país que não podem pagar a escola privada, os pais que devem assumir as suas responsabilidades de progenitores e exigir uma escola que vá além de depósito de entretenimento e lazer. Estamos assim, por más razões, a empenhar o futuro.


terça-feira, outubro 14, 2008

PRÉMIO DARDOS



Informações sobre o Prémio Dardos:


Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web. Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita deve seguir algumas regras:


1. - Exibir a distinta imagem;

2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;

3. - Escolher quinze (15) outros blogs a que entregar o Prémio Dardos.




Hoje dei conta de ter recebido um prémio e é evidente que não me passaria pela cabeça recusar tão honrosa distinção, principalmente porque recebido em duplicado de duas pessoas que muito prezo e a quem atiro desde já o mesmo dardo. À Vida de Vidro e à M. eu agradeço a lembrança e sinto-me lisonjeada pela distinção, afinal uma prova de que criámos laços e encontrámos afinidades, para além de nos dar a certeza de que as nossas palavras e pensamentos encontram eco nestes espaços só aparentemente vazios.


O que me preocupa é a necessidade de encontrar o número de pessoas indicado, logo eu que disponibilizo tão pouco tempo para «navegar» tendo um número restrito de e-amigos. Poucos, mas decididamente importantes a quem devo aquisições relevantes para o meu crescimento como pessoa, a quem dedico o maior apreço e consideração.

Muito obrigada pelo carinho, uma vez mais.


Vida de Vidro

Reflexões Caseiras

Desenhamento

Construpintar

Naturalíssima

Lord of Erewhon

Herético

Eremitério

=AM’art=

Daniel Lopes

Tinta Permanente

Quarteto de Alexandria

Bettips

Menarazzi

Alienígena




segunda-feira, outubro 13, 2008

Sentir



Quando ontem adormeci

Na noite de S. João

Havia alegria e rumor

Estrondos de bombas luzes de Bengala

Vozes cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.


No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões passavam errantes

Silenciosamente

Apenas de vez em quando…

o ruído de um bonde

cortava o silêncio

como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?


- Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente.

Manuel Bandeira




As coisas exteriores aos homens não são importantes. Só a natureza humana interessa ao caminhar do mundo. Não é a riqueza, não é o título de nobreza, não é o estatuto social ou sequer o aspecto físico. Já deu para perceber que ser-se, sentir-se homem ou mulher, não depende dos órgãos exteriores que levam ao registo do sexo de um ser humano.


O que faz pulsar a humanidade é o que brama no cérebro de cada um, é a vontade, a força dos sentidos, as inquietações, os desejos. É a necessidade de ir mais além de si próprio, de quebrar os cânones, de vencer os obstáculos, de almejar o impossível. É a certeza de que a escalada se faz com determinação e ousadia, com firmeza e denodo, sem falhas. Com garra.


As ligações entre os homens não respeitam hoje as normas estabelecidas há séculos. As religiões foram – e ainda são – o sustentáculo da sociedade porque decretaram leis, instituíram regras, organizaram as relações entre as pessoas. Mas o homem reage como ser pensante, e de dentro dele brotam outros caminhos para que o respeito surja sem obrigações, sem medos, sem restrições, com a simplicidade da natureza em volta. Mas é preciso ter força e investir fundo nos sentimentos porque o caminho é longo e, sem voz, as montanhas calam-se.


Às vezes penso que o Homem caminha para a extinção porque adultera tudo.




terça-feira, outubro 07, 2008

Livros


E me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
a figueira, a sombra dos muros, o jasmineiro,
em que ficou gravada a tua mão e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.


Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Vínicius de Moraes



Há demasiados escritores. Demasiados livros publicados. Demasiadas pessoas a dizerem coisas em nome de outros. Demasiada informação e desinformação. Demasiadas árvores abatidas para o papel circular, demasiadas cópias, muita escrita além do necessário.

Num tempo a que procuro adaptar-me ainda a tanta coisa nova, há a fabulosa ferramenta da Web que diz tudo acerca de tudo, de muitas maneiras, que vai tendo cada vez mais bibliotecas inteiras ao dispor de todos, em todas as línguas, onde cada um de nós pode acrescentar sempre um ponto, abrir um pensamento. Eu nunca diria algo de novo, algo mais que já outros não tivessem dito, pensado, escrito.

Então para quê publicar um livro?

É uma questão que coloco a mim própria há muito, muito tempo – não se tem um filho só para nosso prazer, terá de ser para o prazer de o vermos ter prazer por o termos feito nascer. Ainda não encontrei resposta nem decerto a encontrarei porque é uma questão que ultrapassa a racionalidade como tantas outras do foro mais íntimo que só alguns – mesmo só alguns – conseguem exprimir por palavras. Só um Camus consegue mergulhar-se em nós e sentirmos cá dentro a pureza, a ingenuidade, a incredulidade de um assassino, condenado à morte por um crime, por crimes que (não) cometeu. Sem dolo.

Falta-me o tal golpe de asa, a imaginação, a invenção, a ferida que dilacera a alma e rasga os silêncios que se calam porque afinal pertenço aos oito por cento da população do planeta que tem obrigação de sentir-se feliz.

E ninguém escreve um livro de verdade quando é feliz.


sexta-feira, outubro 03, 2008

O que é ser Professor?

Pior do que a desactivação da economia, parece-me bem mais grave a «desactivação da acção» nas escolas. O que a seguir transcrevo dá uma ideia correcta (mas não completa) do caos que se instalou actualmente numa classe (já de si oriunda de educações diversas) em que vencer passou a ser sinónimo de empurrar o colega mais próximo para poder saltar o muro. É de tal monta o esforço feito para chegar à frente ou para tão só não sucumbir, que os alunos deixaram de ser o principal objectivo da presença na escola, já nem falo da sua aprendizagem que todos sabemos ser o menos importante.  


«…o português voltou à inércia e à passividade face às transformações inelutáveis que abalaram a sua existência como um destino. A esse estado de espírito acrescentou-se recentemente um processo de interiorização do novo modo de vida a que a modernização o vai condenando. Um grupo social tornou-se emblemático desta conjuntura: o dos professores.
A sua situação não mudou. Justificaria ainda a saída à rua de 100 mil pessoas. Mas, precisamente, uma tal manifestação seria hoje impensável. O Governo e a ME ganharam. Os espíritos estão parcialmente domados. Quebrou-se-lhe a espinha, juntando ao desespero anterior, um desespero maior. O ambiente das escolas é agora de ansiedade, com a corrida ao cumprimento das centenas de regulamentações que desabam todos os dias do Ministério para os docentes lerem, interpretarem e aplicarem. Uma burocracia inimaginável, que devora as horas dos professores, em aflição constante para conciliar com uma vida privada cada vez mais residual e mesmo com a preparação das lições, em desnorte com as novas normas (tal professor de filosofia a dar aulas de «baby sitting» em cursos profissionalizantes) – tudo isso sob a ameaça da despromoção e do resultado da avaliação que pode terminar no desemprego.

[…] No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento, e de fabricação de subjectividades obedientes. Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz, “a desactivação da acção”. É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política, à maneira de certos processos psicóticos.»

José Gil in «Visão»


terça-feira, setembro 30, 2008

Antes do Tempo

 
Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuíssima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horizonte e repintando a abóbada imensa dos Céus.
Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido e nivelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias de Estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda de vale fechado.
Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, afogueado, como a atmosfera que pesava em cima dele: e, além, jazia o cadáver do mar.
Eu, o silêncio e a solidão éramos quem estava aí.

Alexandre Herculano


Como por encanto, pousei um destes dias algumas, muitas, décadas atrás, no tempo em que eu ainda não tinha lugar para memórias. Retomo assim o sentido das referências que alicerçam a vida de cada um de nós.

A minha ligação a meu pai construiu-se das memórias dele, homem solitário, de fortes vínculos à terra e à família que deixara para sempre, distantes no espaço, depois no tempo. Na minha infância pausada, os fins de tarde na fazenda, o tempo do Natal, trazia as memórias de sua casa, dos doces de abóbora – os bilharacos –, do vinho deixado na Consoada sobre a mesa para lembrar os que partiram e eu não conheci, dos folares com ovos vermelhos na Páscoa, as histórias repetidas dos primeiros anos de África no início do século.

Os nomes dos familiares ficaram ligados às fotografias, poucas, esmaecidas pelo tempo, mantidas guardadas numa carteira a que só tarde tive acesso. Provas da vida que era quando nasci, agora retomada neste encontro familiar, com fios ligados, os nós que nunca havia desatado.

O caminho é cada vez mais em declive e afloram em mim, em nós, todas as imperfeições, como no fim da estrada alcatroada o caminho ainda afeiçoado, as valetas limpas, as bermas cuidadas, depois o asfalto esburacado, por fim o caminho de terra batida, as pedras saltando, a chuva abrindo leitos.

Porém em horas de solidão, se olhar para trás, a paisagem, as cores do arco-íris, as nuvens plúmbeas também, ainda permanecem.


terça-feira, setembro 23, 2008

Referências

O branco dos livros aviva-se extraordinariamente, tem o deslumbramento de uma cal intensa, de um leite fresco iluminado por dentro. Mil vezes eu já vi esta iluminação de vertigem e já a terei anotado. Mas ela tem em si um milagre bastante para ser sempre pela primeira vez. E tudo o que se sente nunca se aprendeu de cor como uma ideia que se teve. A vida é tão extraordinária em tudo quanto a revela. Perdemos tanto tempo a saber tanta coisa e o mais simples é tão cheio de infinito. A nossa mente e o nosso olhar estão obstruídos por uma massa espessa de um saber secundário. Olhar apenas, olhar. O que é simples é que é complexo, de uma complexidade onde cabe o universo.

Vergílio Ferreira


Nem há domingo sem sol e ele chegou vibrante, depois da chuva, deixando aquela luz de fim de dia que borda a ouro as pétalas envelhecidas já cor de sépia e se infiltra nas parras afagando os cachos orvalhados que pendem maduros e oferecidos.
A beleza acontece em cada momento nosso, consoante outros momentos de outros seres que se conjugam para proporcionar um instante de luz. Quase sempre um acto solitário e tem um travo doloroso. Se tem o condão de ser partilhado, é um deslumbramento.
Mas a verdade da beleza tem o valor de qualquer verdade: tarde ou cedo se acende outro foco de luz a pôr em causa o perfil desenhado na caverna. Este pensar é corroborado de forma perfeita num daqueles documentos, de autor desconhecido, que circulam no espaço Web. Limita-se a referir, de forma muito sucinta, máximas dos cinco Judeus que mais mudaram o mundo: Moisés – a lei é tudo; Jesus – o amor é tudo; Marx – o capital é tudo; Freud – o sexo é tudo. Einstein não contesta qualquer dos temas, porém a todos arrasa de uma cegada: o «tudo» é relativo. 
São as referências que constroem, que suportam a beleza e a verdade em cada um de nós. Se falham as referências quebra-se o equilíbrio e há que repor tudo de novo. Nem sempre é fácil.
O mar da ilha de Luanda, da restinga do Lobito, da praia morena de Benguela; os rios, a travessia em jangada do Kunene, do Zambeze, do Lucala; o Kuando, o Keve, as lagoas, a vala. A nascente. As águas quentes do Lubiri, a Ilha dos Amores no Kuito. O verde intenso da vegetação dos trópicos, os tons de areia e de barro, da praia, da anhara e do capim seco, o negro das queimadas, o cinza das tempestades. Mas o arco-íris.
Um dia o fulgor de um Van Gogh.


terça-feira, setembro 16, 2008

Contexto


Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna

salina, imagem fechada em sua força e pungência.

E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado

em torno das violas, a morte que não beijo,

a erva incendiada que se derramana íntima noite

- e o que se perde de ti, minha voz o renova

num estilo de prata viva.

Herberto Helder




Quantas vezes brota em mim a sensação de ser tão só uma parte humilde da natureza!
A chegada do Outono ou da Primavera mexe comigo de todas as formas. Controversas, estranhas, não pensadas, não lidas, sentidas. O Verão ou o Inverno situam-se apenas no gosto, não gosto. Mas o Outono chega e as madrugadas quietas incomodam-me pelo silêncio que escuto quando passa um carro, depois outro, na estrada perto. Apaga-se por momentos o ruído ao longe e a quietude permanece. Olho para trás no tempo e não me recordo de terem sumido completamente os pardais pelas redondezas. Pela tardinha, ontem, o pisco fez-me vénias no telheiro vizinho, quem sabe agradecendo os grãos de arroz que permanecem no muro, as migalhas trincadas da comida do cachorro.
Apeteço-me a lareira a quebrar as solidões, faz falta um gato, dois gatos, enrolados juntos no cesto das lãs. Recorro aos fios, às linhas, aos linhos, mas a vontade foi-se com os pardais. Até rareiam os corvos na estrada em seu labor competente na recolha de animais atropelados, abandonados, assustados. Entristeço, definho com os dias, em cada dia. Pergunto-me se devo morrer num cinzento outonal como meu pai, como meu irmão, como é natural fenecer a natureza inteira. Ou se, como minha mãe, devo deixar a vida quando ela renasce, resplandece de força – por que morreste na Primavera, Mãe? – Quando os dias acendem mais cedo e antes da luz os ninhos abrem em chilreios e o galo canta, o cão ladra, ao longe?
Decididamente vou escolher o Outono tranquilo e sereno, como deve ser a morte, com as lágrimas da chuva a preencherem as saudades que deixo em cada pulsar de vida. A chuva a levar as cinzas. A atravessar com elas o oceano até ao lago gelado dum continente, depois voltar e descer a outro, subir finalmente o meu rio e repousar naquele diamante que permanece à minha espera.


quinta-feira, setembro 11, 2008

A propósito de uma crónica, hoje



Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,

Alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,

Em que todos se debruçavam

Na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.


Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes

E roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.

Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava

Que rebentava daquelas páginas.

Carlos Drummond de Andrade




Rendo-me completamente às palavras de António Lobo Antunes.

Cada vez mais ele perde o pudor de dizer que ama e isso é de uma beleza sem limites.

Dá a volta e enrola e diz e repete e reitera o que eu já antes tinha lido sobre a sua ligação ao irmão que se lhe seguiu. Aquele irmão que continuou a exercer a medicina com dedicação, com dignidade, com proficiência, aquele irmão que também é escritor, que também tem uns olhos azuis que afagam só de nos olhar, aquele irmão só seu que ninguém mais tem. Nem os outros irmãos. Este é só dele, António. Deve ser aquela outra parte de si que ele não foi capaz de cumprir porque, além de digno, era também nobre e solidário e não foi capaz de lidar com o tormento que sentia na carne quando procurava sanear o sofrimento dos outros.

Foi essa dor que moldou a mão deste grande escritor, um sofrimento calado na infância, revoltado na adolescência e gritado a um tempo em renúncia e entrega, vertidas ambas na profundidade e beleza de sua escrita. Foi a certeza da estima dos que o lêem e admiram que lhe deram força para vencer a doença que o minava, foi a estima dos que o ajudaram a debelar a doença que lhe deu força para verter os seus sentimentos sem rebuço, justificando os humores, confessando as dores, dizendo os amores.

Uma das crónicas mais tocantes que li deste autor reportava-se à morte de seu pai. Palavras doridas, doloridas, dolorosas, palavras de espanto por sentir o peso de ocupar agora o lugar que fora de seu pai à mesa. Palavras de infinita solidão. De franqueza: «amava-o?» De saudade, já.

«Não pense que me esqueço. Não esqueço. Paizinho».




quinta-feira, setembro 04, 2008

Jardim de Palavras




Eu gosto muito de flores.

De todas as flores, da orquídea à urze. E o que nelas mais me seduz é a cor, sobretudo. As cores, a textura, o brilho, o bordado delas. Como elas afrontam o sol, como elas se entregam. Como elas se escondem, se protegem dele, algumas enrolando as pétalas na hora de maior calor, outras fechando-as pela noite, dando os bons dias logo ao primeiro sorrir do senhor da luz.

Minha mãe passava horas do seu dia plantando, regando, cortando, limpando as folhas. Tinha dedo verde, tudo o que plantava, pegava, crescia, floria. Aliás, gozava duma intimidade com as flores que ia além da razão. Comigo nunca funcionou: sempre que pretendi ler delas uma mensagem, não anunciaram o que interpretei, e assim desisti. Também não gosto de mexer na terra, senti-la secar nos dedos; incomoda-me, tal como a farinha, é uma sensação desagradável.

Mas a magia das flores permanece e surge em flashes no meu pensamento agora.

Os cosmos em volta da casa nova, antes das novas construções. Os canteiros de gipsofila do quintal, das gerberas, as selhas dos craveiros, as buganvílias ao longo do ferro forjado no muro. A exposição anual de dálias na minha cidade. A época das «bonecas», recolhidas na caça às perdizes, flores cor de terra, de corola em bola redonda constituída por pétalas longas e compridas como cabelos. A profusão de plantas na varanda larga da fazenda, as sardinheiras, a trepadeira de «gaitinhas» que o Rui Pestana me fez reencontrar. A minha primeira chegada à Ilha da Madeira – nos Idos sessenta – o esplendor das coroas olhando-nos em cada recanto da estrada no meio do verde, as estrelícias como pássaros em voo quieto no alto da Ilha. E as rosas do jardim, lá e aqui.

As palavras também são flores.

Flores que sempre admirei e que agora, com mais tempo, também vou semeando, nem sempre sozinha. E os jardins se fazem com elas, plantas verdes, árvores, flores mais singelas, pedras e água correndo. Assim, plantando o que temos – 12 sementes apenas – cresceu no Eremitério o nosso primeiro jardim. E porque cresceu bonito, vamos apresentá-lo a todos, vaidosos que estamos, no próximo dia 22 de Novembro às 16:00 horas, no Palacete Balsemão, à Praça Carlos Alberto, no Porto.

Ei-lo:




domingo, agosto 31, 2008

Culturas


Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra

Não tenho a a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.

A minha tristeza é a da sede e a da chama.

Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.

O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.

Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.

Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.

Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.

Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


António Ramos Rosa



terça-feira, agosto 26, 2008

Cansaço


(…) Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.


Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijámos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis



Os amigos que comigo de mãos dadas saltaram décadas, estão todos velhos. Mergulhando já na idade dita terceira, vá lá saber-se a razão desse nome, quando me vejo eu própria, na primeira de muitas coisas. Não direi as mais importantes da vida, mas muito importantes. Impensáveis há uns tempos largos. Inusitadas.

Somos aquela geração que viveu a outra guerra fria, os mísseis ali em Cuba, a guerra colonial, fomos descolonizados, retornados poeticamente a uma terra que alguns nem sequer conheceram antes, inseridos, emigrados, unidos pela voz de um Portugal imenso, que não cabe neste rectângulo do mapa. Como não cabe no túmulo o grito de Camões «o dia em que nasci moura e pereça», como a voz de Pessoa não cabe nos Jerónimos.

Unidos pelas memórias. «A minha cabeça está cheia de recordações e hoje, vasculhando o meu missal, dei com esta coisa linda (um «santinho»), lembras-te? Qual a data? Creio em que no ano em que fui para o colégio em Sá da Bandeira e recebi-o com uma carta que a freira chamada “Camila” – que na altura superintendia a carneirada – depois de eu a ler, retirou-ma com a proibição de eu responder. Muitas lágrimas correram e eu sem entender nada. Como o mundo é e foi sempre MAU!» Desabafos, mágoas, intolerâncias. Revolta.

A idade não desarma a dureza da vida de que ela é um vírus mutante, mas amacia se conseguirmos ver e não só olhar, sentir que o mundo mudou e nós também temos de nos adaptar para sobreviver. Os mais de quarenta anos de vida em comum nem sempre é salvo-conduto para a felicidade quando os interesses divergem – se não divergiram sempre – pelas experiências não comungadas, pelos tombos mal digeridos, pelas recusas, pela fortaleza que cada um de nós cimenta nos cacimbos galgados.

Nem a natureza nos acolhe – pedras quebradas, nuvens que já não trazem chuva, alguns de nós erguidos ainda, altaneiros – cada vez mais dura, mais agreste, mais revoltada. Com os novos, com os velhos, com o micróbio humano, esse microrganismo impuro que a si próprio tira o alimento que mina a saúde do planeta, lhe suga o sangue e não repõe sustento. Somos aquela geração de gente que ainda grita contra a voracidade crescente de riqueza, que clama contra a violência e a fome que não teria razão de existir se os homens fossem humildes perante a natureza e os outros.

Se os homens não fossem realmente MAUS.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Convicção

 

Na ardência da palavra
A pele gretada, o sulco sobre a terra.
Mater no húmus da espera
O som da semente. O odor lento.
O caminho. Esta fraga de dor
Despenhada sobre o tempo...

Apenas a águia (ou o corvo branco)
Se atrevem na voragem
Deste horizonte....

Quem colhe a manhã que teima
Na brisa dos dedos?

Quem de tão néscio se obriga
A caminhar ignorante da água
E do lume no interior da pedra?
Quem nesta brida se atreve além
Do curto olhar do dia?

Como se chama fosse o voo da ave
Saturnina...

Herético



Há momentos em que a percepção do mundo nos chega com uma clareza inusitada.

Na vastidão da praia mansa e viva, os corpos bronzeados despidos na orla da praia, esguios circulando de sorriso fácil, o pontão além, aquela sucessão de tábuas entrando pelo mar, fervilhando de gente logo pela manhã. Crianças subindo aos magotes pela única escada que se ergue das águas transparentes, mergulhando logo em seguida, pujantes de vida, risos misturados ao marulhar das ondas. Os barcos, pequenos batéis que chegam com um atum, depois um peixe-vela, uma dourada, logo amanhados e mãos recolhendo as cabeças enormes, quem sabe a refeição aguardada para uma família. Também os ovos de tartaruga. E as pequenas logrando o oceano, escapando aos predadores do ar, nem sempre aos humanos, mau grado a vigilância dos guardas.

Ouço aquele homem dono do mundo, senhor da ilha, das ilhas – poliglota, parente de todos os políticos, debitando cultura aos turistas, democracia, Mandela, Luther King, ideais do mundo, dos não brancos, recordando uma América onde não teve lugar – sob as tamareiras, palmeiras empurrando-se sobre hibiscos coloridos, cachos de aloendros e alegrias brancas semeadas de lilás. Palmas oferecendo-se ao vento, em leque, em setas ponteagudas, em longas saias balouçando qual havaianas em dança de vénias. Cactos e folhas carnudas de sisal apontando o céu, alguma outra verdura, sensitivas fechando envergonhadas do sol que nos obriga a cerrar os olhos à reverberação que o mar reflecte em ondas puríssimas. Um ou outro veleiro de proa apontada à praia a revelar o descer da maré. Pela noite, Luci cantando a esperança de nos terra num sorriso bonito, timbrado a doce, debaixo das acácias frondosas.

Penso então o meu lugar dentro de mim, as praias bonitas repletas de gente, o clima ameno, os rios de encanto riscando o solo em meneios, as gentes enrugadas nas casas de granito, pedra sobre pedra, esquecidas, perdidas num tempo que já não lhes pertence. Que os novos têm outros prazeres de convívio onde a natureza não tem lugar. Portas adentro, o ruído não é trovoada a anunciar tempestade, o líquido não cai do céu, não molha o corpo, jorra do vidro, do plástico, entra na alma, incendeia e queima. Nem há granizo que se desmanche em água, há saraiva que se faz em pó, a apagar memórias.

Há falta de brio em Portugal, obviamente.

E não só nos atletas.

terça-feira, agosto 12, 2008

Morabeza


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.

Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.

Tenho alegria e pena porque perco o que sonho

E posso estar na realidade onde está o que sonho.

Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.

Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.

Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

A.Caeiro



Tocam de mim, para mim, todos os sinos do mundo.

Da terra cresce a minha anhara imensa, mais agreste, mais nua, mas soando ao meu continente.

É antes uma paisagem lunar: imensidão de areia e pedras vulcânicas, escuras, semeadas por todo o espaço até o horizonte surgir com a imagem precisa de uma pirâmide. Depois o mar.

No ar um cheiro vazio, feito de mar e de sol, um bafo quente como o odor de um corpo que é o nosso. Porque há gentes, há olhares doces, há suavidade no trato, há vozes que cantam as melodias do som, só porque falam em sorrisos que encontram os nossos. Os olhos não se esquivam, antes afagam, comovem, trazem lágrimas doces de outros lugares. Os lugares que vivem dentro de nós porque não há morte para o amor que ainda pulsa.

O vento sopra dobrando as acácias sem flor, levando rasteiro o vapor quente que nasce do chão e se desfaz em água brilhante num esplendor de miragem.



E o sal. O sal da Ilha do Sal tem as tonalidades róseas do deserto. Tem poder curativo – dizem – tal a concentração na lagoa imensa represada. É para mim outro fausto sob um sol inclemente, outro ainda o olho azul que se avista nas profundezas da gruta na rocha alta, aberta sobre o mar.



Compreendo o inconformismo dos outros, de alguns outros. Só quem sabe vestir-se de mar consegue suportar a humidade colada à pele, o ardor do sol, o ar quente.

Hei-de voltar, mesmo grãozinho de pó cavalgando a areia.