quarta-feira, setembro 28, 2011

Coincidências



Há dois ou três anos, ao contrário da minha ausência nos espelhos, para onde olhava por vezes sem formar a percepção do meu rosto, comecei a deter-me nos lugares onde esses misteriosos objectos me fitam, imobilizando a face e os olhos. Queria rodar os olhos e ter consciência disso, mas só dava por eles depois de parados, atrasada irremediavelmente a minha percepção ao apropriar-se, enfim, dessa imagem. Agora, como acontece com a pele das mãos, outros sinais e mudanças vieram alterar a identidade anterior deste rosto que eu espreitava num rápido reconhecimento. De frente para mim, o que vejo, surpreendido, é outra pessoa, é outra face, embora a experiência de dezenas de anos me diga que ninguém pode, neste instante, subtrair o retorno da minha imagem à consciência que consegue ainda reconhecer-me. 

Rocha de Sousa in «Coincidências Voluntárias» 


A figuração do mundo é o retrato de nós. 

É o espelho primeiro antes de encontrarmos a água plana e rasa de um lago onde mora o espanto da figura de ser humano que acena e nos traz de volta o que nem sempre coincide com o modelo que antes nos construíramos por dentro. Esse primeiro encontro pode ser determinante, eu diria que é sempre determinante no acabamento dos interiores de nós, no acerto dos tons da pintura, o desenho das sancas do tecto, os azulejos, o mosaico hidráulico, a madeira do chão que pisamos pelo resto dos nossos dias. 

Vem-me à ideia aquela estreita tábua de madeira grossa, quando não apenas um tronco, que eu atravessava lesta e sem receio, colocada sobre um qualquer regato ou vala acidental, nas caçadas às perdizes com meu pai, pelas madrugadas frias ou pela tardinha no capim ainda morno do sol forte de cacimbo. O equilíbrio inato do ser que caminha erecto sobre os membros posteriores, braços abertos como asas planando no espaço.

Em cada momento, é o mundo em volta que nos modela a imagem, como as dunas sopradas pelo vento, as falésias erodidas, as rochas sovadas pelo mar. Não temos como fugir da natureza de que somos parte, da semente que nos gerou, dos lugares onde nos plantaram, mas temos a vida toda para seguir adiante, não somos flores presas à terra pela tirania do caule. Os anos não contam senão para acrescentar a maleabilidade no processo de crescimento que não termina antes do último estertor. 

Cada dia que nasce traz uma luz nova para podermos abarcar o mundo com mais transparência, olhar para trás e ver o caminho pisado, olhar adiante e caminhar com a serenidade da experiência, da sabedoria conquistada ao abrir os braços para o equilíbrio. Sabendo embora que não podemos voar. 

Sabendo que a qualquer momento podemos cair.

quinta-feira, setembro 15, 2011

A importância de chamar-se Americano

De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fernando Pessoa


Americano dos Estados Unidos, leia-se no título, porque a América é todo um continente e um mexicano dizer-se americano seria uma ofensa para os estadunidenses, como bem lhes chamam os brasileiros, uns e outros com o mesmíssimo direito de se dizerem americanos. Até na expressão linguística, para além da língua tornada universal, até nisso o poder dos Estados Unidos se estendeu pelo mundo, com o direito de se considerar a maior potência mundial quando outras potências se erguem já, perto e longe, paulatina e seguramente, em todos os sectores, desde a economia ao armamento. 

O 11 de Setembro não mudou coisa alguma na vida efectiva do comum dos americanos, para além de acender guerras sem quartel que em dez anos lhes desmantelou a economia, os obrigou a suspender o investimento na Investigação e Ciência, deixou os pobres mais pobres e fez florescer as indústrias ligadas à guerra tornando os ricos ainda mais ricos. Combater o terrorismo é uma falácia perante as evidências dos interesses económicos subjacentes, falar em defender os direitos humanos é uma enormidade, se atendermos às necessidades prementes de povos subjugados e massacrados em vários países africanos, se olharmos à miséria que as guerras provocadas no Médio-Oriente produzem em grande escala.

Ser americano é sentir-se protegido em qualquer ponto do globo, só por sê-lo. Ser americano é ser intocável, e apenas esta noção mudou na consciência de alguns, poucos, que deram conta da sua vulnerabilidade da maneira mais cruel. Não foi pelo número de pessoas desaparecidas que o mundo se chocou, porque muitas mais se afundam em valas comuns em genocídios que continuam a perpetrar-se sem que haja disso visibilidade. O que chocou verdadeiramente foi a forma utilizada – à altura de uma América – atingida no centro vital, na cidade vital, no centro vital da defesa, no pulsar da economia, na certeza da segurança. 

A Europa quedou-se estarrecida porque se sabia vulnerável, jogando com a única arma que a pode salvar: a educação para a civilidade, a tolerância entre os povos, a compreensão e a verdadeira democracia que tem de unir todos os estados europeus, se quiserem continuar na linha da frente no que toca à preservação dos valores universais de humanidade, igualdade e fraternidade, que conduzem à paz possível, à liberdade possível. 

É a velha Europa que tem de saber dar-se as mãos e partilhar a prosperidade, não mais desejar perder-se na ostentação à custa dos mais fracos. Exigir, sim, um esforço comparável entre os seus membros para um resultado favorável a todos; dar o mau exemplo de explorar os mais desatentos ou menos hábeis é desumano e inglório. Os europeus querem o respeito que a sua História lhes merece, só a união e a harmonia lhes darão a sabedoria necessária para enfrentar os novos desafios do século.

Saibamos ganhar pela força da inteligência.

domingo, setembro 11, 2011

Pedaços


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
António Ramos Rosa

 
Não há tempo perdido quando se encontra um amigo e as horas passam. 

Quando se perde um amigo, encontra-se o tempo que nos sobra depois dele, o tempo a mais a que temos direito para pensar sobre a razão que nos leva a estabelecer laços que perduram no tempo, sem que a distância, o eventual afastamento, nos faça perder a memória dos afectos. 

Não foi sem razão que Cícero escreveu uma obra inteiramente dedicada a este impulso da natureza que leva ao estabelecimento de laços de amizade. Deu-lhe um conceito moral: a amizade nasce da virtude e só pode existir entre os homens bons (uiri boni), não no sentido idealizado e absoluto, mas na perspectiva da sociedade romana: dotados de virtudes como a fidelidade, a integridade, o sentido de justiça, da liberalidade e da constância.

Porque se alterou a sociedade, também mudou a perspectiva dela, mas mantém-se o conceito de que a amizade cresce entre homens dotados de valores como a lealdade, a rectidão, a generosidade, que, em algum momento prolongado no tempo, coincidiram em projectos de trabalho norteados por objectivos comuns. 

Eu perdi um amigo generoso com o qual partilhei vinte anos cruciais da minha vida de trabalho. São vinte anos de memórias numa casa comum, serões repartidos de conversa amena, sonhos nascidos, alguns frustrados, outros concretizados, alargados depois por mãos que cresceram connosco. A obra erguida desde então existe e permanece. 

Ficaram as lágrimas dos amigos que ficaram.

Ficámos ainda nós. 

quinta-feira, setembro 01, 2011

Vastidão



Mas ia-te a dizer eu que era a hora em que a morte – já não sei o que ia a dizer sobre a morte. Talvez que ela é mais plausível de noite pela imensa solidão. Já me vou acomodando, mas mesmo assim. A hora em estamos a sós connosco, com esta coisa terrível que somos nós por dentro vivíssimos e não há público nenhum para nos ajudar. A hora em que tudo é imenso como um olhar cego.
Vergílio Ferreira in «Em Nome da Terra»


Há dias assim. Terão sido imensos, cheios, nem provavelmente plenos de contentamentos, pejados até de melancolias, de tormentos, contradições, revolta, mas intensos, cheios de vida. Agarrado a ela e tornando-a a razão dela própria, o ser enquanto pulsar, espírito e matéria juntos, sentindo bater ao lado uma outra presença, nela pousando o olhar como fera lambendo a cria.

Há entardeceres assim. É o dia a não querer deixar a terra, desfazendo-se em cor, gritando que não, que ainda precisa de estar ali. Mas é inexorável o rodar do planeta e chegou a hora do descanso, a noite devagarinho subindo pelas sombras, dando lugar aos que fazem dela o seu reino, adormecendo uns, acordando outros ruídos inquietos, fugazes ou repetitivos, a acender a vida que brota com a mesma intensidade numa outra perspectiva.

Há madrugadas assim. Cheias de magia, em que tudo acontece num repente, as recordações e as saudades e as presenças, e logo a vida retoma a normalidade perdida. O primeiro dia de Setembro deu à vida minha Mãe, faz 92 anos. De repente, recordo que deixou a minha companhia precisamente com a idade que tenho hoje. Viveu muito? Deveria ter vivido mais tempo? Viveu o tempo que teve. Sei que viveu um tempo que não queria, mas também sei que ficou por viver um tempo que ela gostaria muito de partilhar comigo.

Acabado está o tempo dito de férias ainda para quem as não teve, não mudou de lugar, não percorreu caminhos, não cruzou oceanos nem deu pela chuva que passou. Mas foram férias profícuas enquanto tempo de encontro com a paz interior. 

domingo, agosto 14, 2011

Devaneio

Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu;
isto que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto que não és tu nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir – só isto,
apenas isto, isto unicamente: não queiras,
não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.
Jorge de Sena (14/7/58)


Esta manhã quente e nublada descansa placidamente embalada pela brisa.

Nem sei se merece a pena perguntar-lhe por que veio, para quê, porque acontece em cada dia esta luz nem sempre coada, por vezes já vibrante a esta hora matinal. É porque a vida acontece e é de todos a mesma. Basta folhear um livro e lá está tudo o que já dissemos por outras palavras, outros escreveram que não em versos melódicos, o que nós pensamos aqui e agora.

É este o milagre da escrita, a adoçar os dias que medimos e ainda falta cumprir, a recordar as falas dos que partiram mas não morreram para nós, que nos hão-de pegar pela mão sempre que fechamos os olhos e nos entregamos ao que não é mister discutir porque é intrinsecamente único. A escrita do outro onde nos vemos ao espelho e as imagens retornam muitas vezes em retratos de magia de espelhos côncavos ou convexos, quem disse que o real é um espelho raso?

Mas do tempo que medimos realmente, só podemos medir o que passou, e dele transportarmos para diante o lastro que carregamos, que faz equilibrar o barco, tantas vezes batido por ondulações fortes, de uma beleza invulgar, ou tempestades que exigem uma força insana. Até um dia. E por que não esperar um dia de mar azul, quieto, calmo como um lago, o risco branco atrás de espuma branca, a abrir como uma renda? Adiante o mar acaba, num repente, mas então já nos embrulhámos na onda branca e já não sentimos. E o fundo do mar é só de outra cor.

sexta-feira, julho 29, 2011

Regresso

Eu sei como respira. Não soubesse,
ou docemente em mim não respirasse,
e mesmo assim de amor eu ouviria,
dormindo ou acordado, o eco naqueles poços
do amor que me rodeia e toca, enchendo-os
com mais fervor que a vida, mais ternura, mais
carinho, e com silêncio, lágrimas, sorrisos,
e sobretudo, ah sobretudo, numa só mão que pousa.
Jorge de Sena, em 27/1/59
Pela manhã, no quintal, a frescura ainda da madrugada na coloração que o sol depõe na linha rasa que atravessa os campos, os troncos da oliveiras velhas, as copas dos sobreiros, um ou outro pinheiro entortado pela solidão no castigo do vento.

Por trás dos vidros da janela, as orquídeas sorriem à luz que as acaricia, cada flor em ramos arqueados, oferecendo-se em entrega total ao calor que se adivnha. Dentro da casa, a mão humedece e aduba, entreabre o cortinado, cerra a persiana, não vá o ardor do sol tirar-lhes o viço.

As flores, como os filhos. Ornamentando os espaços a exalar perfume, derramando a cor e a vida. Mas a face voltada para o apelo do sol e do futuro, o olhar perdido no longe, preso à luz que vem de fora.

Na memória da pele que as rega e afaga, as rugas escrevem as histórias de cada primavera, da chuva que fustiga as janelas e escorre pelos vidros, das luzes que rasgam o céu e acordam o troar da terra. As rugas cada vez mais fundas que guardam segredos de amores vadios, de sombras coladas, de espaços roubados, veredas achadas, caminhos perdidos.

O regresso enfim à paz consentida, conseguida, guardada no entulho que sobra da vida.

quarta-feira, julho 20, 2011

Desassossego



 Senti o gosto da mortalidade na minha boca e nesse momento compreendi que não ia viver para sempre. Demoramos muito tempo a aprender isso, mas quando finalmente aprendemos, tudo muda dentro de nós, um tipo nunca mais volta a ser o mesmo. Eu tinha dezassete anos e, de uma forma absolutamente inopinada, compreendi – sem qualquer espécie de dúvida – que a minha vida era só minha, que a minha vida me pertencia a mim e a mais ninguém.
«É de liberdade que estou a falar, Fogg. De liberdade. Um sentimento de desespero que se torna tão imenso, tão esmagador, tão catastrófico, que uma pessoa só tem uma alternativa – ser libertada por ele. É a única hipótese. Enfim, claro que há outra, que é um tipo enfiar-se num canto e morrer.»
  
Paul Auster in «Palácio da Lua»

 
Outrora era uma palavra bonita, agora já não se usa. Outrora éramos jovens de corpo e a alma entontecia sem pouso num alvoroço que nem se dava conta de existir. Agora a alma quer ser jovem mas o corpo afunda-se em mediocridades que não queremos aceitar, agora que a alma se rege ainda pelas noções de outrora, com mais perícia nos sentidos, mais ponderação, mais controle das sensações quando elas invadem os espaços em que não cabem.

O outrora não existe. Paira quieto no coração de alguns, daqueles que têm passado, daqueles para quem o passado é a raiz que não negam, daqueles para quem o passado é o princípio da construção de nós. Mas são cada vez mais poucos.

Eu penso que os novos – e os velhos – têm medo da franqueza da sua origem. Meu pai tinha apenas a quarta classe. Meu pai era comerciante e filho de lavradores, como consta na sua certidão narrativa. Meu pai era respeitado. Alguns pais de colegas meus eram médicos, ou advogados, ou engenheiros e por isso se achavam superiores. E alguns não eram respeitados. Razões haveria para um e outro caso, outrora. Que agora já não contam essas razões, eu acho. Dizia-me então meu pai que no tempo do Império Romano, o deus Mercúrio (e Hermes, já antes, na Grécia), era o protector dos viajantes, dos mercadores, dos comerciantes e dos ladrões. Mas também o deus da eloquência e da inteligência, ele era o mensageiro dos deuses. Muito ágil, era representado com asas, jovem e esbelto. À minha interrogação muda explicava que os comerciantes eram normalmente associados aos ladrões e daí o mesmo deus para os proteger.

Mas hoje não há viajantes nem mercadores nem comerciantes nem ladrões, há empresários e banqueiros. E é claro que nem tudo o que parece, é. Outrora já era assim, agora é muito mais assim, ou pior. O que parece, não é mesmo. Também eu não sou o que pareço. Ou sou?

segunda-feira, julho 04, 2011

Logro


Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?
Jorge de Sena



A escrita e a leitura cumprem uma relação de fidelidade que se alimenta uma à outra, da outra.

A fidelidade à escrita advém da fidelidade à leitura e desta aos escritores, aos livros impressos, aos jornais, aos panfletos da política e religião, aos papéis velhos, amarelecidos, enrolados, atados, que nos fazem contar os anos decorridos, aos escritos nas paredes sem sentido, com sentido, sentidos, desenhados, velados, fechados, rasgados como gritos.

A fidelidade às palavras, a fidelidade às coisas, a fidelidade às pessoas. Dizendo a palavra muitas vezes, pegando nela como se de um objecto se tratasse, palavra como coisa, voltando-a, torcendo-a, lendo-a ao contrário, pegando-lhe por uma ponta e deixando-a deslizar para baixo como um enfeite, balançá-la como um pêndulo, a páginas tantas ela desaparece. Afinal não é mais que um nome abstracto. Não existe definido, não é palpável, é maleável e leve como a nuvem que paira em cada manhã sobre o horizonte.

Só posso afinal ser fiel a mim própria, àquilo que sou, ao que me fiz e me transformei. Não sou igual em cada dia que passa, Eu cresço e multiplico-me e diversifico-me a cada instante, as células cada vez mais raras tentando a fidelidade ao que já nada é.

O poeta chama-lhe flor. E ainda assim atraiçoa-a.

quinta-feira, junho 16, 2011

Eclipse


São contra a morte, ou contra a vida, as vozes
que tão fugatamente desconversam?
São contra a terra ou contra o céu as pausas
quase imperceptíveis que retornam?
São contra as coisas ou são contra os homens
certas singelas notas que persistem?

Ou a favor? Não sei. Talvez que sejam
uma existência que se vive ouvindo
apenas o fluir da música nascida
de não fluir mais nada que não seja a vida.
Jorge de Sena


Gosto de dormir num quarto com janela virada a Nascente. 

Que a luz me chegue ténue pelas madrugadas e eu possa sentir-lhe a coloração logo mais intensa e colorida pousada na parede em frente, filtrada pelas persianas, quieta, ou de preferência em sombras bruxuleantes de folhagem através do vidro transparente.  

O começo do dia, o acordar das manhãs, trazem-me sabores, odores, acordam-me os sentidos devagar, quantas vezes deleitados nas recordações dos tempos da infância, olhos fechados a tentar recordar os sons, os sons esperados, os sons ansiados, os sons que ficaram gravados, as vozes.

As vozes que não voltam mas que identificaria entre mil, com o instinto de uma andorinha dos trópicos ou um pinguim na Antárctica. É o tempo mais prenhe do dia, em breves minutos o pensamento a ordenar o que surge em catapulta do que há para concretizar, logo depois olhar em volta e ter a certeza de que o mundo não foi escrito a preto e branco. Entre o nascer e morrer existe a vida que os meus sentidos captam decididamente em tonalidades múltiplas, das mais suaves às mais vibrantes, capazes de ferir o olhar ou dar-lhe encantamento.  Também nas duas tintas sem cor, quando a Lua se recorta envergonhada a subir no horizonte, a fugir do beijo da Terra.

Sou eu que tenho de usar esse pincel de luz matinal quando tudo se esvai, quando não há sol ou a tempestade ruge apagando todas as vozes.

quarta-feira, junho 08, 2011

O segredo da chave


Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.

Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
 

Um segredo só é segredo se for solitário, se pertencer a um só. A partir do momento em que se partilha com alguém deixa logo de o ser, perde a magia.

O vento sopra os segredos pela folhagem e ela logo enceta um cicio, uma dança, um farfalhar que acorda os sentidos dos seres que pululam, se acolhem, se escondem nos ramos, nos troncos, na manta rasteira circundante. E eis que adivinham a chuva ou o fogo, o suão ou o frio do inverno a chegar. Ou algum predador.

Os segredos que o são de verdade têm a chave dentro deles como a lua nova, há que esperar que o sol nos mostre o caminho da face, paulatinamente, primeiro um sorriso tímido, depois mais rasgado, até ao descobrimento final do riso aberto, o rosto deslumbrante.

A palavra pequenina «chave» consta no dicionário com mais de uma vintena de entradas, para além das palavras compostas dela, para além da clave, que também é chave, por via erudita.

Pois a chave é uma senhora muito esquiva, e afinal tão fácil de achar se nos dispusermos a isso sem preconceitos. Acode-me a história atribuída a Colombo, do problema de colocar o ovo de pé; a chave logo ali, ninguém tinha dito antes que não se podia quebrar. Preconceito, preconcebimento, se preferirem – não sei se a palavra existe dicionarizada. 

É isso mesmo. Há chaves e chaves. Chaves físicas e não físicas. Chaves de segredos que se procuram uma eternidade e palpitam tão perto de nós, prontos a satisfazer a curiosidade que acalma os sentidos. Ou não. Mas a descoberta da chave, só por si, é uma conquista, ainda que o segredo se mantenha inviolável, por mera decisão dos intervenientes. Também se chama livre-arbítrio. Pela negativa.

terça-feira, maio 31, 2011

Dimensão



E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.
 
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

 
Acordo na escuridão e os sentidos são atraídos, cegados pela brancura, o brilho, as pétalas frágeis desvirginando a noite, acendendo desejos e cansaços de séculos. Corre a mansidão da brisa, depois da chuva no dia morno a lembrar outras latitudes.

Falta a terra húmida mais quente, logo o odor a evolar-se dela e a encher-nos as narinas, como ascende aos bichos na chana seca a adivinharem a estação das chuvas que traz a água benfazeja. No possível entremear de silêncios, ouço leves sons na corrente breve que acordou no fundo do valado, quem sabe de regozijo, quem sabe de lamento, chamamento do outro que se foi no levar da corrente.

Quase o som das rãs.
Quase o som dos noitibós.
Não, muito longe disso. Não há olhos a brilhar nem esvoaçar de pássaros.
Quando muito um quase crocitar quando os carros se esquecem de passar, um leve coro de relas talvez, uma brisa mais forte a provocar a resposta das ramadas de eucalipto, dos choupos junto à ribeira além.

É uma hora de paz. Sem jornais, telejornais, debates, maledicências, rostos de sorriso falso, cansado, forçado, beijos(?), abraços(?)apertos de mão sem ver de quem.

Tenho de ir votar neste fim-de-semana, o meu sentido cívico a isso me obriga, ainda que desta vez os dados já estejam lançados, quem for governo terá de cumprir o que já está decidido.

Mas não calo a minha voz de protesto. Nenhum governo faz aquilo que só a nós cabe fazer, nós, portugueses de lei, nós os que queremos um Portugal melhor, mais são, menos oportunista, menos corrupto, mais educado, mais modesto no ter, mais orgulhoso no ser da sua grandeza.

quinta-feira, maio 26, 2011

Tão fácil acrescentar um zero


Donde sou? Sou do meu tempo, bem o sei, ou bem o quero saber, porque não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu. Mas de vez em quando, a um aceno invisível e perceptível apenas no modo de haver uma perturbação no ar, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de ser pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?

Vergílio Ferreira in «Pensar»
 

Ontem medi o tempo entre os sete e setenta anos. Foi apenas acrescentar um zero e o tempo rodou. 

Havemos de nos encontrar sozinhas as três para conversarmos um dia inteiro
um dia inteirinho
para nos ouvirmos por dentro nos sessenta em que seguimos de mãos dadas, entre viagens e separações, entre continentes, naquele país que era Portugal e onde não nos sentíamos
nem pequenas, nem discriminadas, nem humilhadas, nem periféricas.

Estamos aqui juntas outra vez, depois dos partos, das cirurgias de peito aberto, dos acidentes vasculares, dos casamentos, dos divórcios, dos netos, depois de perdermos os Mais Velhos, alguns amigos do peito.
Depois de perdermos o chão, no sentido mais lato.

Depois de hoje, três pequeninos budas risonhos de jade hão-de manter-nos unidas para os dias que nos falta cumprir
eles hão-de  sorrir para nós em cada lágrima vertida, em cada hora de encantamento, em cada sonho erguido ainda.
Eles não vão deixar-nos perder os laços, as lembranças, a teia construída cedo, os lugares da infância comum, o riso, a alegria
ainda quando afundadas na mágoa da impotência.

É que, como diz Vergílio, não é fácil assumirmo-nos com o tempo que nos aconteceu.
Então, sinto que sou de outro tempo, de outro destino, de outro signo de ser pessoa. Que outro tempo? Não sei. Não deve ser mesmo tempo nenhum. Deve ser apenas localizável onde não esteja bem e me pergunte donde sou. Donde sou?

domingo, maio 22, 2011

O Melro


       E quando a noite se aproximou, disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias do Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
       – O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro de riu!

Miguel Torga in «Os Bichos»





Deixo que os olhos se alonguem pela mancha verde que diviso no outeiro longe, pinheiros, eucaliptos talvez, a apetecer a frescura que falta neste ar que não bule. Ontem o mar chamou por mim, mas faltou-me a coragem para o seu abraço, já se foram os verdes anos e calor de então para lhe aceitar a frescura.

Mais perto, os fios dispersos sobre os telhados das casas desordenadas, desordenados eles, feios, grossos, suspensos em postes antigos, inclinados, com garras torcidas, que não impedem a cobiça dos que descobrem o valor do cobre e os cortam pela noite, indiferentes aos estragos causados de quem depende deles. A crise alimenta os vilões, a fome justifica tudo. A falta dela também, entre os homens, que se entregam a desvarios de toda a ordem.

Por isso eu gosto dos bichos que são menos maus, brigam pelo sustento e pela continuação da espécie e depois cantam, cantam que é bom viver, diz a novela da noite, das lendas e maldições dos Índios. Num atropelo ao Torga, eu não ouço gargalhadas do melro, depois de ter ouvido as dos sacanjuères, que ele não conheceu decerto. Ouço-lhe, sim, os assobios de escalas diversas com que me brinda, dia adiante, pousado nos fios, na falta do pinheiro vetusto que os homens abateram, e ontem em desafio com um arrulhar de rola curiosa.

Afinal os fios torcidos de cobre não servem só as comunicações e o apetite dos homens, também servem de palco ao orfeão dos pássaros.

domingo, maio 15, 2011

Devagar se vai longe


Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina (Prémio Camões 2011)




No sorriso das palavras o mundo todo se aconchega.

É alegria e dor ao mesmo tempo, aberta e partilhada ou então escondida atrás dum rasgar de face que os olhos não acompanham no brilho.

Nada é totalmente como queremos, é sempre mais ou menos, daquilo que desejamos embora uma e outra, dor e alegria, se ofusquem num determinado momento, dando azo a momentos únicos de explosão de raiva ou alacridade que nos dão algum fôlego para continuar em frente, porque nada volta para trás.

Tudo se constrói a partir do momento em que vivemos e nos damos conta do terreno que pisamos, se é chão duro e seco, se dele ascende o odor da chuva fecundando a terra, se é lodaçal ou areia movediça onde o corpo se afunda devagar.

Portugal tem um chão de verdade, chão quase milenar, tem terra firme, donde sobe o cheiro doce da terra molhada, numa profusão de continentes, tem como senhora única uma Língua imensa e forte que está acima de todos os impérios, reis ou príncipes forjados pelos homens. É uma Língua que nasceu vulgar do Latim dos clássicos, que se misturou de celta, de galego e de lusitano, que mergulhou sem medo nos oceanos e as ondas levaram e semearam e germinaram em crioulos e em tonalidades doces de inflexão peculiar por essas praias além.

Havemos de fazer com ela o ramo de oliveira que um dia uma pomba branca trouxe para a Arca a dizer que os tempos maus já eram idos e que havia terra fecunda à vista.
 

domingo, maio 08, 2011

Fidelidade



Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
Jorge de Sena

 
Ouço a chuva lá fora caindo devagar, incerta, escuto para que possa sentir a verdade dela.

Contar os anos por rugas e cãs dá o poder dos passos imensos que mergulham no tempo, nos lugares perdidos, comparando os campos, as margens dos rios, o tamanho dos lagos, a lonjura dos horizontes. Eu não posso ser senão da terra onde nasci. E ainda que seja um lugar de ninguém, como Orfeu, eu procuro Eurídice, porque os espíritos disseram que era possível.

Ver, olhar, andar para trás no tempo, passear no reino dos mortos, não me dá o direito de tocar, de alterar coisa nenhuma, muito menos de guardar para mim algo mais do que a memória. Nem mais é preciso, nem mais importa, porque a fortuna de chegar aqui, de entrar no reino dos deuses, é um prazer sem tamanho, quase dor, néctar sagrado que nem todos podem degustar. Não ter nada e ter tudo. Não ser dona de nada e possuir o mundo de Zeus, de Poseidon e Hades. Ser como Prosérpina, habitar dois mundos, a complementaridade deles.

A sabedoria inteira na simplicidade das histórias dos deuses antigos, a mitologia a anunciar as histórias dos deuses recentes, a soberba (poder), a avareza (offshors), a gula (capital), a luxúria (pedofilia), a ira (desporto), a inveja e a preguiça iludindo tudo. No Ocidente, dois mil anos de Cristianismo não dirimiram os pecados capitais, antes agudizaram o seu apetite. Na outra face da Terra, nem as religiões de Abraão nem as filosofias orientais impediram a globalização destes desejos humanos.

Nas franjas do mundo, sobrevivem as ninfas, as nereides, os faunos, os seguidores de Pã.

Ando no seu encalço.

quinta-feira, maio 05, 2011

Determinação


     Terra! Mas uma porção de tal modo exígua, que até os mais confiados a fixavam ansiosamente, como a defendê-la da voragem. A defendê-la e a defender Vicente, cuja sorte se ligara inteiramente ao telúrico destino.
     Ah, mas estavam «rotas as fontes do grande abismo, e abertas as cataratas do céu»! E homens e animais começaram a desesperar diante daquele submergir irremediável do último reduto da existência activa. Não, ninguém podia lutar contra a determinação de Deus! Era impossível resistir ao ímpeto dos elementos comandados pela sua implacável tirania.
     Transida, a turba sem fé fitava o reduzido cume e o corvo pousado em cima. Palmo a palmo, o cabeço foi devorado. Restava dele apenas o topo, sobre o qual, negro, sereno, único representante do que era raiz plantada no seu justo meio, impávido, permanecia Vicente. Como um espectador impessoal, seguia a Arca, que vinha subindo com a maré. Escolhera a liberdade e aceitara desde esse momento todas as consequências da opção. Olhava a barca, sim, mas para encarar de frente a degradação que recusara.
 Miguel Torga in «Bichos»


 Quase me sinto perdida enrolada por ventos marés, circunstâncias do tempo marcadas por relógios humanos sem alma, rodando no mostrador. Passando sem ver uma e outra vez sobre os algarismos gravados a negro, quietos parados, iguais na noite e no dia, no escuro e na luz.

O relógio cá dentro não sabe das horas mecânicas, certas, pausadas, soadas, marcadas pelo arco do pêndulo. O relógio cá dentro vive dos sons das madrugadas, quando a noite ainda cobre os telhados, as sebes, os muros pintados lavados, a casa em ruínas, o musgo lavrando nas fendas, as silvas espreitando à janela.

O relógio cá dentro vive dos sinos que soam repicam que dobram finados, vive das noites abertas ao sono e ao sonho, ao som dos beirados pingando a chuva que o céu entorna. Vive dos passos nos jardins nas praias de sol dos dias fechados a lacre – como as cartas antigas. É um relógio sem mostrador, sem ponteiros rodando, sem algarismos a deslizar, sem corda sem pilha, sem corrente sem caixa sem pulseira.

É uma arca antiga onde palpitam fragrâncias de rendas que fincam os pés no desandar da maré. O relógio de dentro não é de metal, não é frio, não conta os minutos as horas. O relógio cá dentro escuta, vê, sente, sofre, seduz, vibra até ao último crepitar de chama, estremece até ao último pulsar.

quinta-feira, abril 28, 2011

Realidade


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas, ama as tuas rosas.
O resto é a sombra de árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos do que nós queremos.
Só nós somos sempre iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues. Ela nada pode
Dizer-te. A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo no teu coração.
Os deuses são deuses porque não se pensam.

           
Fernando Pessoa (Odes de Ricardo Reis



 


terça-feira, abril 19, 2011

Planar com os ventos

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos»

 
A chuva dedilha lá fora a toada da noite cansada das vergastadas do vento e da chuva, dos gritos saídos das nuvens em clarões de luz ecoando depois em golpes em ondas de sons que se desfazem e somem no espaço longe. Tudo o mais se aquieta e procura refúgio ao troar da natureza ameaçadora, sabendo que a fúria se apaga em ternura na chuva mansa a acariciar as folhas, a escorrer pelos caules, a sulcar a terra e a alimentar as fontes.

Quem dera que a alma humana bebesse o húmus desta certeza e perdesse o medo. Quem dera que nela a escuridão se tornasse dia, ainda que as tempestades se abatessem, que os trovões ribombassem, que os raios ferissem o olhar de assombro, temor que fosse. Mas breve, logo o coração batendo com força e depois mais lento e leve, leve como as gotas que pingam e reflectem já o sol em diamantes puríssimos de múltipla cor.

Mas o homem é um ser feroz porque a sociedade lhe cravou a marca da impureza e ele não consegue libertar-se. Também não quer. Ou talvez não queira. É mais fácil embebedar-se nos males do mundo cavando-os mais, afundar-se na droga para não ter medo do que não existe para além da sua imaginação, em vez de simplesmente planar aproveitando os ventos altos da escrita. As palavras bastam para aquietar as emoções, o bico passando a lavar, a alisar as penas na lagoa tranquila, as primaveras chegando em cada novo ciclo, em volta procriando, os novos seres abrindo.

Já cruzou o mundo, arrostou as tempestades e remou nas galés. Agora há outros navios e outros mareantes, deixemo-los velejar.

É tempo de olhar em volta, saber colher os frutos.
E que belos são!

quinta-feira, abril 14, 2011

As palavras e as rosas



Queria deixar uma catedral de palavras e dou-me conta que a catedral não tem fim. Queria arredondar o edifício, fechá-lo, e dou-me conta, desolado, da impossibilidade desse fecho, dada a inevitável limitação da vida. Não morrerei satisfeito, morrerei com a dor de não ter tido tempo.. Construirei uma obra mais duradoira que o bronze, afirmava Horácio: isso julgo que consigo. Ou Ovídio: hei-de sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo: isso acho que também consigo. Porém desejava mais do que isso: uma música sem fim, uma sinfonia total. Decerto o que digo é a frustração de todo o artista e o inevitável destino da condição humana.

António Lobo Antunes in revista «Visão» 7/Abril


 Rendo-me incondicionalmente ao esplendor das rosas.

Para além da beleza, para além da pujança de cada planta a explodir em rebentos de folhas, de flores, gemas ainda verdes, depois divulgando a cor, abrindo em botão, o odor da rosa aberta e ainda por fim desmaiadas, as pétalas desprendidas, marcadas, queimadas pelo sol, a sedução permanece.

Como as palavras que se constroem em edifícios e se asseguram mais perenes que o bronze, é preciso que a condição humana não se altere na submissão à matéria, porque só o espírito pode manter vivos os imortais desta estirpe. O bronze nem é um metal puro, é uma liga baseada em dois metais macios que, ligados, fundem as cores e originam a força e a perenidade do bronze. Passam pelo fogo. As palavras passam pela educação do espírito.

É preciso que se escreva, e se escreva bem.

É preciso que se passe alguma mensagem, é preciso que se registe a História das gentes, muitas vezes é preciso que o tempo passe, como o fogo passou pelo estanho e pelo cobre, antes de ser bronze. Agora, é preciso que aqueles que fundem o bronze saibam construir com ele a estátua, e para saberem construí-la, é preciso que a conheçam bem, que lhe notem o gesto e o tom, que lhe conheçam os músculos e as rugas.

Então teremos uma estátua, uma catedral, e não importa que não esteja terminada. Gaudí deixou a catedral de pedra inacabada e não lhe tirou beleza, as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória não impedem de celebrar a Batalha.