segunda-feira, novembro 22, 2010

Pétalas de Outono

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade


 O vento sopra em desatinos arreliando as roseiras que insistem em dar flor. 

As pétalas pousam e esperam que o sol as queime ou a chuva as escureça e então se apertam ao chão que as abraça para renovar a terra.

Como o poeta canta, elas vivem o presente e dão cor às pedras, enfeitam o verde enquanto são viçosas.

Há tempestades no céu que se adivinham, mas por enquanto as nuvens vagueiam mansas entre pedaços de azul, de cor cinzento escuro mas debruadas a branco luminoso, em folhos brilhantes como saiotes reflectindo o sol.

Uma vez só questionar o futuro ou o passado, traz arrepios que o vento transporta. 

Assim, entre cinzas e escolhos, sejamos solidários, dancemos com ele.

domingo, novembro 14, 2010

Fidelidade

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem. 

Jorge de Sena


Muda a paisagem e o olhar é novo, desvenda-se o casario colina acima, não apenas de brancura, mas cores fortes quebrando a monotonia, lembrando os novos tempos e os novos gostos.

Não mais os choupos respondendo ao vento, dobrando-se em vénias, semeando brancura nas primaveras, não mais os braços vazios enfeitando as nuvens por entre a bruma nos invernos frios, apenas um choupo varrendo as folhas balouçadas pelo chão, quem sabe chorando penas e ausências.

Nem melhor, nem pior, apenas diferente.
Como por dentro tem de mudar o que quer manter-se inteiro, não mais a plenitude e a força, mas a dignidade que o tempo não apaga e segue escolhendo o caminho das pedras que afloram para a travessia do rio que não se detém, mau grado a poluição que lhe tira o brilho. Mas as rochas estão lá, de pedra, firmes, cada vez mais a erosão dos ventos fortes, das águas moendo as arestas lhes dá a doçura do toque, a beleza do arredondado, quantas vezes vestindo de musgo os tons de cinza e negro.

A fidelidade ao que somos é um suspiro de vida, é um refúgio de ternuras e carências, de lágrimas e de risos, é a escrita real da nossa presença no mundo, sem outro espaço que o de partícula no núcleo. O átomo, somos nós.


terça-feira, novembro 09, 2010

Marcas, marcos


E ao entardecer, quando se firmar no alto dos pinhais a tentadora coroa de nuvens, não abrirei o meu caderno de apontamentos, e menos ainda a Monografia. Ficou-me de emenda. Para a próxima terei o cuidado de escolher outra leitura, de preferência um canto de alegria. Um livro deste tempo e desta hora, que não traga a lagartixa na portada como um ex-líbris ou como uma pluma imposta sobre o granito.

José Cardoso Pires in «O Delfim»


Não gosto de ouvir o vento a bater nas janelas despudorado a silvar nas frinchas em assobios.

Ele é o arauto do inverno, traz a chuva e o frio, despenteia as árvores e verga-as, leva-lhes a roupagem deixando-lhes os braços nus. Inquieto e repentino, como vem assim desaparece, levando consigo as nuvens. Limpa o céu, deixa pousar o frio e a geada.

É tempo do vinho novo, das castanhas, das azeitonas para colher, que o Natal vai precisar de azeite para as filhós e para acender as candeias. É hora de trazer para casa as pinhas e a lenha para a lareira.

A preciosidade destas fainas vai-se apagando com cada geração que passa, os ventos do progresso levam as cinzas que repousam depois do lume. Não há forma de escapar-lhes, há que seguir com eles sob pena de sucumbir à solidão e ao atraso (?)
.
À medida que os anos somam, as encruzilhadas da vida retêm pegadas que ajudam ao caminho a seguir, assim saibamos ler os sinais.


segunda-feira, novembro 01, 2010

Louvor de Halloween

 


Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.

 
Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, outubro 25, 2010

Fragilidade


Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”



Já não vou ao mar. Já só a areia me afaga os pés numa carícia morna, o olhar preso na onda breve que se chega de manso na maré vazia, quando o sol cruza menos alto a esfera azul que nos cobre.

Porém o mar é o mundo em que ainda mergulho inconsciente, tudo o que me atrai e assusta, dentro de cada onda quebrada um pedaço do que sou, rolada em caracol na areia mansa, espalmada contra o corpo da praia, a desmaiar em espuma com o calor da terra. Já antes o mar cresceu e rugiu nas pedras, os ventos colheram salpicos de sal trazidos do mar alto em vagas rugindo cavalgadas de esperança, já a preia-mar cobriu as pedras irisadas, as conchas coloridas, já desfez os castelos de areia, subindo devagar, uma e outra vez até desfazer e alisar de novo a areia na praia.

A rebentação das ondas é o lugar de todos os acontecimentos, tão breve no tempo e tão forte, tão intensa, tão múltipla e fecunda depois da caminhada longa e poderosa pelos oceanos, que a sua explosão é um prazer de deuses. Poderia ficar ali, eternamente a olhar, a contar as ondas, uma atrás da outra, a vê-las espojar-se na areia e rolar-se e de novo encrespar-se e atirar-se nos rochedos.

Já não é tempo de ver a noite chegar, quente, só ouvir o mar e as reverberações que se misturam ao infinito do mundo estelar, o espaço é outro. O Outono das zonas temperadas arrasta um pincel de cores sem nome por sobre as árvores em volta, arrasta as folhas mortas cobrindo o chão de outra beleza, mais calma e mais doce.

São os caminhos do tempo.

domingo, outubro 17, 2010

Eco



[…]Foi esta a causa verdadeira
da guerra pertinaz, horrível, carniceira,
que as tribos dividiu. Na luta fratricida,
Omar, filho de Anru, perdera o alento e a vida.
Anru, que lanças mil aos rudes prélios leva
e que em sangue inimigo, irado, os ódios ceva,
incansável procura, e é sempre embalde, o vil
matador de seu filho, o tredo Mualhil.
Uma noite, na tenda, a um moço prisioneiro,
recém-colhido em campo, o indómito guerreiro
falou severo assim:
- "Escravo, atende e escuta:
Aponta-me a região, o monte, o plaino, a gruta
em que vive o traidor Mualhil; dize a verdade;
dá-me que o alcance vivo, e é tua a liberdade!"
E o moço perguntou:
- "É por Alá que o juras?"
- "Juro!" - o chefe tornou.
- "Sou o homem que procuras!
Mualhil é o meu nome: eu fui que despedacei
a lança de teu filho e aos pés o subjuguei!"
E, intrépido, fitava o atónito inimigo.
Anru volveu:
- "És livre! Alá seja contigo!"

Gonçalves Crespo, O Juramento do Árabe


 
Ouve-se o eco se gritarmos nas dunas?

Não queria alguma vez esquecer o som do eco quando subia ao alto da pedra do Kussava ou à serra do Andacá, à berma de um rasgão na pedra, ou então na barragem do Kuando se a água descia muito de nível. Colocar as duas mãos em tubo diante da boca e gritar: eco! E as pedras respondiam uma e outra vez modificando o tom até longe, longe, até deixar-se de ouvir.

Nunca estamos sós. Partilhamos a nossa estada no planeta com uma miríade de seres ocultos que só os sentidos apurados nos fazem encontrar e a necessidade de conhecimento nos faz compreender. Mas cada um de nós é um ser diferente consoante o horizonte onde nos movemos, o espaço que os passos nos concedem neste caminhar nem sempre de céu limpo e sereno.

Nunca estive uma noite no deserto. Mas a sensação de esmagamento, de poder sem limites, deve ser avassaladora. A estrada de luz pintalgada na capa negra que nos envolve, a silhueta das dunas, a sensação de nos vermos reduzidos a mais um grão de areia na imensidão, deve dar-nos aquela emoção doce de partilha sem reservas, o mundo inteiro bem dentro e nós desfalecidos na entrega da mente e do corpo. Hão-de ouvir-se os segredos do cosmos.

segunda-feira, outubro 11, 2010

Histórias


A pior pecha era a melancolia. Dava-lhe para a contemplação e passaria horas, sozinho, a olhar para uma bagatela do mundo, outras vezes para bagatela nenhuma, perdido nos meandros interiores, tão complexos e emaranhados que nem ele saberia dizer por onde lhe vadiara o juízo. Fora disto, revelava a mais completa indiferença pelas coisas do morgadio. Embora se soubesse o primogénito, os negócios da Casa Grande não lhe acarretavam a mais leve dor de cabeça. Pessoalmente, também pouco lhe importava andar roto ou bem vestido, comer do bom e do melhor, ou jejuar a pão e água.
Aquilino Ribeiro in «A Casa Grande de Romarigães»

 
- A Carochinha pensou «ai, como é que eu vou poder casar com alguém que tem esta voz tão feia ão, ão?» Não quero, não…
- Já sei, Voinha, ela quer casar com o João Ratão!
- E já sabes o fim da história?
- Já, gosto mais que contes aquela da formiguinha…
- Aquela que ficou presa na neve?
- Sim, mas quero que a formiguinha diga assim: tu qui éss tão fortxi, disprendxi o meu peziiiiiiiinho…!

Está tudo do avesso. Ou talvez não, afinal as crianças só querem ouvir o som que lhes faz sentir a diferença entre o bicho e a pessoa que lhes conta a história, tão simples quanto isso. Já não há crianças atentas como antigamente, são muito mais exigentes porque a TV já lhes mostrou tudo, antes ainda de saberem articular palavras. Nada é novidade, nada é igual ao que ouvem dos avós, eles emendam-nos porque a história que conhecem é mais bonita, mais colorida, mais activa, mais divertida, já não lhes basta o som da voz, muito menos o recorte das letras.

Depois, os velhos já nem sabem contar histórias, perderam a fala, eles passam os dias à porta de casa sentados, as muletas arrumadas ao lado, ou arrastando-se nelas pela ladeira acima, os olhos presos ao que já não são capazes de fazer, sem ninguém que lhes dê uma palavra, que lhes conte as histórias que agora gostariam de ouvir, outra vez meninos. Há os que passeiam ao cair da noite devagar, nos dias quentes, mãos atrás das costas, afagando a solidão com a luz da lua quando ela tem a face aberta, outros atirados para os albergues a prolongar o que não é nada, suspensos das pílulas que engolem a cada refeição, esquecidos do nome, dos nomes, os rostos apagados para não verem o espelho dos que comem com eles à mesma mesa. E há aqueles que ainda desejam contar aos filhos a história antiga do velho pai que rasga a manta ao meio para dar ao filho, no último momento, quando ele vai deixá-lo caridosamente na montanha, mas os filhos, ou não aparecem, ou não têm tempo para ouvir histórias. Têm de viver depressa todos os momentos onde não cabem os pais.

Onde não cabem os próprios filhos.
 

terça-feira, outubro 05, 2010

Res publica


«Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.»

Bernardo Soares,  in O Livro do Desassossego

 

Gosto das vozes sem tino sopradas na rouquidão dos dedos por onde escapam a solidão e o cansaço, quando os homens se perguntam onde o caminho é mais breve, onde o rodopio cessa, onde os leva a expansão do universo que são. Gosto das vozes serenas, pensadas, escritas com alma e cautela, como a suavidade das manhãs. Gosto das vozes de ledas ironias onde a perspicácia impera. Todo o caminho é redondo, não tem princípio nem fim, todo o recomeço é pausa, a ilusão da lua que se não vê mas permanece.

Na evasão necessária os caminhos são múltiplos, Tchaikovsky ou U2 que importa, o silêncio da noite também chega neste debruar de Outono, na limpidez que a chuva propicia, no vento que traz as folhas que arrasta as cores esmaecidas na beleza que lhe compete. Há sempre as palavras que se querem dizer, os gritos maiores, os sussurros, tudo cabe no escuro sem lua nem estrelas, quem dera longe os candeeiros do progresso. Há sempre as palavras dos outros, as palavras actuais, as palavras antigas, as palavras que nos embalam porque nos saem do peito como respiração nossa, como se todo o sentir do mundo estivesse ali, naquele momento, bem dentro de nós.

Mas há também as palavras do momento. E o momento hoje é a celebração da República. Com maiúscula, sim, como se a república não fosse apenas a res que respeita a todos. Gosto pouco que se celebre alguma coisa que nasceu sobre os corpos de mortos inocentes, apenas isso, nada contra a República – ainda por cima representada por uma figura de mulher. Não sou monárquica pela simples razão (democrática) de ter eu também direito à nobreza. Não aceito que alguém nasça predestinado a representar um povo apenas pelo berço, pelo sangue, quantas vezes impuro. Prefiro a escolha da razão, afinal eu tenho imagens de probidade daqueles que me deram a oportunidade de escolher para Presidentes da República do meu país.

Se este país do fado não consegue sair das vielas, não é pelo facto de ter um rei ou um presidente, isso não muda nada. Só iria incentivar, adulterar ainda mais a informação que nos chega em catadupa de factos não sérios, não importantes, não pertinentes. A república, a democracia, a monarquia que possam desejar alguns, não tem lugar neste país fantasma, onde os condenados pelos tribunais saem em liberdade porque são médicos, porque são juízes, porque são jornalistas, porque são embaixadores.

Cada um de nós tem de comportar-se como rei de si próprio, da sua razão, da sua honestidade. Direi como Almada Negreiros «Eu creio na transmigração das almas por isto de Eu viver em Portugal.»

domingo, outubro 03, 2010

Sal da vida

Moi quand je serai vieux
tout sera encore mieux
Même si j'ai plus qu''une dent
j'en grincerai joyeusement
Elle mordra dans la vie
avec la même envie
Même si j'ai plus qu'un cheveu
je le peignerai de mon mieux
J'irai lhe cheveu au vent
je prendrai du bon temps
je ferai des projets
des projets d'avenir
Et si ma mémoire m'oublie j'en profiterai
pour oublier de mourir

  1º Prémio num concurso do Metro de Paris, Pierre Bichaud



As estações do ano deixaram de ser importantes até na língua portuguesa, passaram a escrever-se com letra minúscula. Já a natureza as tinha atirado para a vulgaridade das massas, já não se distinguem como outrora pelos rígidos limites do tempo dos homens.

Ainda assim, a chuva cai hoje por aqui e, mal digerido ainda o calor excessivo do verão passado, pé ante pé, o inverno anuncia-se, vai recordando que é preciso acautelar o combustível para a lareira, colher e rachar lenha, ou simplesmente engrossar a conta da electricidade ou do gás. Isto para aquela parte dos portugueses que ainda tem conta no banco capaz de cobrir as facturas que lá vão chegando, para os que têm lareira e fósforos e pinhas para a acender, para os que têm casa onde morar.

Sim, porque há muitos sem-abrigo por opção, por necessidade também, valha a verdade dos últimos factos. Depois, é uma questão de hábito. Não há renda de casa, impostos para pagar, não há IRS, IRC, IVA, IMI e mais outras iniciais – essas sim, com letra maiúscula! – para preencher por meios electrónicos porque escrever em papéis já foi tempo, ninguém sabe ler, muito menos escrever garatujas do século passado. Depois, há que ter em conta que o papel sai caro à Natureza, estão todos muito preocupados com isso, já que não há as outras inquietações, até há a sopa dos pobres que vai dando para o gasto, a obesidade grassa por aí e é uma boa oportunidade para combatê-la, diz o SNS. As férias são só no próximo verão, entretanto a banca lucrou milhões, os offshores (seja lá isso o que for) cresceram e multiplicaram-se tal como diz o Génesis na Criação do Mundo e nessa altura haverá mais facilidade para pedir empréstimos.

Não é meu hábito (não sou monge para usá-lo) este destilar de fel, mas por vezes apetece ser Frei Tomás, embora me falte a mim o verbo para remediar os males do nosso mundo. Quem sabe da China, incómoda e incorrecta, nos venha o apoio oferecido pelo Primeiro Ministro, algures por um dos países da nova Europa, que parece ter muito que aprender com a velha China, quanto mais não seja, nós, Portugueses ainda com maiúscula, saber honrar os quase 900 anos de História.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Encruzilhada


O lobo recebe cada momento individualmente. E é isso que para nós é tão difícil. Para nós, cada momento é deferido interminavelmente. Cada momento tem um significado que depende da sua relação com outros momentos e um conteúdo que é irremediavelmente assombrado por esses outros momentos. Nós somos criaturas do tempo, os lobos são criaturas do momento. Os momentos para nós são transparentes. São aquilo que procuramos quando tentamos possuir coisas. São diáfanos. Para nós os momentos nunca são completamente reais. Não existem. Os momentos são fantasmas do passado e do futuro, os ecos e antecipações do que foi e do que poderá ser.

Mark Rowlands,  in O Filósofo e o Lobo

 
Abrir os olhos à claridade das manhãs e descer depois as pálpebras para ordenar os pensamentos como quem conduz um rebanho encosta acima, colina abaixo, para o repouso no pasto verde da planície ao longo do regato que corre. Como aqueles desenhos da professora da escola primária, no quadro de xisto negro, como o conto suave de Trindade Coelho.

A idade pousa como um abutre sobre a cabeça, finca as garras entre as espáduas, anula o movimento dos braços e o resto do corpo passa a boneco desarticulado. É o caminho de todos os amimais do planeta, de um ou outro modo o fim é inexorável. Mas o animal-homem tem outra força, outras defesas, a razão que o elevou acima de todos os outros dá-lhe a mobilidade de escapar, não ao fim, mas à tragédia deste tipo de sofrimento. E os abutres afinal preferem as presas já inertes.

Afastar o zumbido das abelhas, deixar que a chuva nos encharque de braços abertos, correr para o regato, o rio, o lago, mergulhar na onda antes de quebrar na praia, apenas olhar o mar batendo nas rochas, tudo são caminhos a percorrer. Ficar parado é que não. Ficar à espera do predador revela pouca inteligência e o mais ínfimo animal sabe esconder-se. Se estiver atento. Se estiver à escuta. Se souber ouvir a natureza quando os próprios meios falham. Há sempre um grito, um piar, um voo, um galho seco no chão a avisar. A vida está sempre do nosso lado, deste lado, basta sentir, basta saber olhar.

Bem sei que é difícil lutar contra os mais fortes, principalmente se estão dentro da nossa casa, mas a união faz a força e deveríamos gritar bem alto as injustiças de que somos alvo. Não sei se a Europa é já uma família, mas se pretende sê-lo realmente, tem de assumir todas as responsabilidades, não pode haver filhos tratados com desigualdade na sociedade que se deseja e por que sempre lutámos. Afinal, parece que fomos regulados por igual quando se tratou de unir obrigações para erguer a banca que agora nos afunda sem remissão.

Há outros caminhos que é preciso abrir com as armas que temos e são valiosas. Há caminhos abertos há séculos e actualmente mal cuidados. Também duvido da expressão «dar emprego». Está provado à exaustão que ninguém dá nada a ninguém, parece que temos de viver da caridade dos outros. Por que não tentar olhar em volta de maneira diferente?

quarta-feira, setembro 22, 2010

Quietude



A obra de arte inacabada ou mutilada, o esboço, o fragmento. Mais do que nunca isso nos fascina. Porque o que mais importa numa obra de arte é o que ela não diz. É o não dizer que hoje sobretudo se pode dizer. O fragmento ou o inacabado acentua a voz do imaginário, antes de ser a do verdadeiro silêncio. E o silêncio sem mais é o nosso modo de falar. Ou seja, a forma única de a razão ter razão.

Vergílio Ferreira,  in Pensar

 
Uma lua branca olhou-me serena e interrogadora e um brilho de prata tremeluziu mais longe aquietando a minha solidão. A noite quieta disse que tudo permanece, o caminho aberto, os caminhos, abertos aos passos ainda firmes, os cães ladrando longe e perto, um ou outro carro fazendo rodar as sombras, primeiro devagar depois sumindo com o som da máquina.

Outra vez os cães.

Outra vez a lua.

A lua igual, parada, à espera, a olhar de frente. Até quando?

Até quando o implacável girar dos astros lhe desfaça o sorriso, lhe retire a claridade, meia-lua, lua minguante, e se vire de costas, a renovar-se.

Como eu, como as primaveras, deixando-se cortar para voltar inteira, assim o lembram os poetas.


sábado, setembro 11, 2010

Retiro


Torno a pisar, com a emoção da primeira vez, este reduto ibérico da insubmissão e da esperança, e junto honradamente à soma do que senti então e sinto agora, num preito que talvez simbolize outros preitos, a gratidão permanente de quem, desde que dura o fascismo peninsular, aqui mandou diariamente o espírito em peregrinação retemperar as energias da resistência. Sim, há também santuários miraculosos da rebeldia. Sítios sagrados, onde a máscara rugosa da natureza é o rosto severo da própria liberdade.

Miguel Torga,  in Diário XIII - Covadonga, 3 de Setembro de 1962

Fotografia de Fernando Costa

As palavras que usamos no nosso quotidiano, aquelas que nos surgem em momentos mais intensos, aquelas que parecem caídas não sei de onde, se memórias de leituras esconsas, se herdadas de memórias de infância, primeiras palavras ouvidas, ainda sem capacidade de modular a voz para as repetir, as que parecem sopradas nos dedos que escrevem, as que se engolem com as lágrimas e se dissolvem cá dentro, as palavras não conseguem dizer tudo.

E se dizem, falseiam a realidade que não é, porque o real é imaginário, depende de motivações que nos tolhem ou exaltam o que o corpo sente em momentos de euforia, de dor ou inquietação, em momentos severos de uma escuridão sem clarões, de uma lucidez sem névoa, em cavalgadas de sonhos desfeitos. Nem sei onde já li que «cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus», assim, tal e qual.

Então a tristeza invade-nos porque nada se faz como queremos, como desejamos, como nos cultivamos, imersos nos anos que galgámos, na raça a que pertencemos, nos genes que nos passaram e moldaram o carácter, a forma de ver e sentir o mundo, os outros, nós próprios divididos entre a sociedade que nos tolhe o coração, que não a razão.

A ausência dos que nos querem bem, os homens e os bichos, as ausências que fazem iluminar a saudade, aquele meio-termo entre alegria e tristeza, que nos faz sentir sós. Que nos faz sentir que as palavras dizem mas os olhos dizem mais, o gesto é mais inteligível. Porque nos parece tão fácil dizer que a terra é o centro do universo. Então não é tão real que o sol é que roda à nossa volta em cada dia?


sábado, setembro 04, 2010

Intercâmbio



[...]Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Ernesto Lara Filho, in «Infância Perdida»



Fotografia da Web

Há pedaços de vida que encantam momentos, pedaços pequeníssimos de papel recortado em fina serrilha, colorido, desenhado em figuras preciosas, veneráveis, graciosas. Os selos, as estampilhas fiscais, os selos de Assistência, sempre verdes, que não tinham valor, tal como mais tarde os selos de Povoamento.

Desde muito cedo me assumi, a exemplo de meu irmão, coleccionadora de selos. Isso dava direito à recolha de todos os envelopes das cartas chegando pelo correio – no tempo em que se escreviam cartas – e também o direito a pedir, eventualmente numa ou outra casa de comércio ou repartição, a alguém conhecido, se podíamos retirar aqueles pedacinhos coloridos, antes do papel de embrulho ser atirado para o lixo. Mais tarde, a corrida aos envelopes de primeira tiragem, mas isso é outra história. Coleccionar selos significava um trabalho minucioso: primeiro mergulhar num recipiente com água os pedaços de papel e esperar que a cola se desfizesse e deixasse separar os selos sem ferir a serrilha, o que os tornaria imprestáveis. Secá-los depois ao sol, sobre jornais, e pôr de parte os repetidos para serem trocados entre amigos, guardando os mais perfeitos em pequenos envelopes brancos, assinalados com o nome do país de origem, eram afazeres prazeirosos que constituíam horas de entretenimento e auto-aprendizagem.

Os selos de Angola e Moçambique eram lindos, com pássaros, flores, borboletas, conchas, figuras indígenas diferentes de cada região. Mas eram sempre os mesmos e o passo seguinte foi encontrar correspondentes na Europa onde eram soberanamente apreciados, como percebemos bem mais tarde. Para nós, receber selos de países europeus era uma conquista invejável, pois chegavam às nossas mãos envelopes enormes carregados de novidades, países que fomos aprendendo a conhecer e a situar, quando mal conhecíamos a primeira língua estrangeira, deliciados com o remetente «Ton ami français de Nantes». Andorra, Liechtenstein, Mónaco, Nederland, Deutschland, England, Helvetia, faziam-nos correr ao Atlas da capa azul de João Soares.

Outros tempos, outras ocupações de criança, outras latitudes, sem a sombra inquietante, perversa, monstruosa, voraz, traiçoeira, aviltante, destruidora, que persegue os meninos de hoje. Decididamente, fomos mais felizes.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Indigestão

Não te mostres triste, porque ofendes. Não te mostres glorioso, porque ofendes. Não te mostres envaidecido, mesmo com discrição, porque ofendes. Não te mostres caloroso, porque ofendes. Não te mostres frio, porque ofendes. Não te mostres a existir, porque ofendes. Não te mostres.

Vergílio Ferreira, in «Pensar»


Na era bizarra que vivemos actualmente, em que tudo o que parece não é, em que tudo o que é, não aparece, haja o retorno a Deus e às Divindades Pagãs para que nos protejam da má fama. Como a mulher de César, com ou sem razão, podemos ser para sempre votados ao ostracismo. Até há relativamente pouco tempo, ainda acreditávamos no Estado de Direito e havia que confiar na Justiça, mas o meu velho Meursault é eterno e adapta-se a todas as circunstâncias. Nem sempre podemos estar na defensiva, por vezes entra-se no jogo de outrem e de repente, sem nos darmos conta, porque o sol, a luz, o calor, o ruído nos altera os sentidos, dispara-se e quebra-se o equilíbrio do dia. Não deveria ter acontecido, mas depois da pedra atirada, nada a fazer.

Não se trata aqui da morte do corpo de alguém, mas por vezes a morte do espírito é bem mais dura. Porque nada é claro, porque nada é honesto, porque a frontalidade é coisa do passado, tudo gira em volta deste excesso de informação que nos é imposta como um McDonald de que todos devem gostar, atirado sobre a presa que tem de alimentar-se e nem sabe como encontrar um alimento são, não geneticamente modificado, não aquarificado, não aviculturado, não pesticificado. Tudo é falsificado, afinal. Os comportamentos não são francos, não há responsabilidade, todos têm medo porque há demasiados tectos envidraçados por onde penetra a corrupção imparável, a camada de ozono cada vez mais frágil, o sol queimando cada vez mais, também aos que não se expõem nas praias para bronzear-se, aos que procuram esconder-se na sombra que não existe. 

Não entendo nada do desporto que já nem é, esse mundo do futebol que me parece de pura ficção. Sempre li que o Prof. Carlos Queirós era um excelente professor, orientador de jovens, mas que lhe faltava pulso para orientar estrelas de alto gabarito a quem é preciso mostrar que o campo é aqui no planeta Terra e não no Cosmos. Demasiado educado, demasiado prudente, talvez. Não sei, não conheço Carlos Queirós, nem pessoal, nem profissionalmente, a minha relativa simpatia pela pessoa advém de ambos termos nascido no continente africano. Acompanhei os despedimentos sucessivos de vários treinadores que não levaram os respectivos países onde se esperava no recente Mundial da África do Sul. Portugal quis ser diferente e disse que mantinha o seu treinador, contra muitas opiniões de adeptos e dirigentes. Não tenho a certeza de terem sido sérios os mais altos representantes do país em relação a ele.

António Lobo Antunes é um Senhor das Letras, reconhecido neste país e no mundo. As suas obras denotam que foi marcado profundamente pela sua prestação como médico na guerra de Angola. Septuagenário, recentemente saído da convalescença de um cancro, continua a escrever, a verter em palavras, em frases belíssimas, quantas vezes desconexas, a marca dos seus pensamentos sofridos. Como é possível que, precisamente aqueles que sempre o veneraram pela solidariedade demonstrada no tempo certo, possam agora esgrimir acintosamente com palavras ditas (palavras leva-as o vento) numa qualquer entrevista de há anos. Ele disse uma frase profunda e séria: «Não se desce vivo de uma cruz».

É para ler, ouvir, pensar.

domingo, agosto 22, 2010

Assombração



Toda a explicação assenta no inexplicável. Não tentes pois explicar seja o que for até aos últimos filamentos da explicação, ou seja, inexplicáveis. Equilibra-te no instável do que se diz e do que se não pode dizer. Se atinges o limite, cala-te. E é aí, nesse silêncio, depois de dizeres tudo, que possivelmente começas a dizer alguma coisa.

Vergílio Ferreira, in «Pensar»




O que fazer com a liberdade?

Que fazer com a imensidão no meio de um oceano quieto, sem amarras que o prendam, sem ruídos de motor, sem remos, sem velas? Não há brilho do sol, nem chuva, nem vento, nem sequer a brisa passa. Só a lua resplende pintando brilhos na superfície das águas.

Ocorre-me a história da raposa daquele romance agora arredado dos meninos, a raposa matreira que fez o lobo engolir toda a água do poço onde ele viu um queijo tentador que ela sabia ser a imagem daquela lua magana postada no céu.

E vejo agora, nítida, como há muito não via, a sombra do homem castigado pelos deuses, carregando um feixe de lenha às costas.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Pintar o céu


A poesia, não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas,
A poesia acontece.
Fernando Vieira




Os tempos modernos trazem sempre o esquecimento da sabedoria dos antigos, a pouco e pouco apagando a arte e a técnica. Ficam depois as memórias, aqui e além recuperadas, mas já não usáveis porque outras formas mais céleres e eficientes as superaram há muito. Nada contra. Relembro a forma elaborada em peças de fio entrançado tipo macramé usadas pelos Incas para o registo de datas e factos, na irresistível necessidade dos homens escreverem a vida.

Eu vou falar das palavras escritas, e já nem sequer aquelas torneadas em caligrafias belíssimas, em ornatos coloridos nas iluminuras dos livros antigos; apenas a palavra dedilhada aqui, em teclas escurecidas, desbotadas, onde só o hábito nos leva a conduzir os dedos ao lugar exacto pretendido. A palavra sozinha, uma ou outra vez, só por si tem um poder imenso, cresce, matiza-se, é desprezível, macabra, lúgubre, mas também alegre e bonita, quente, musical, azougada até. É uma questão de disposição de espírito no momento que faz com que lhe demos configurações autenticamente ficcionadas. E com elas fazem-se os poemas!

Tudo isto para chegar ao nome por que respondia o meu estimado companheiro-bicho de quase 12 anos, tempo normal de vida para a espécie. Não fui eu quem lhe atribuiu a graça, mas vinha a condizer com a pelagem brilhante e macia, de tons suavíssimos que iam do quase negro ao quase branco, passando por tonalidades de castanho e creme e cinza numa mistura que se foi alterando com os anos, mas sem nunca perder a beleza ímpar. Era o Matisse.

Como no blogue do Chatgris – gato que só hoje percebeu a ausência (parece) do amigo e mia e mia e se esfrega por todos os lugares percorrendo os lugares comuns – foi divulgada a sua partida da casa, outros companheiros do éter deixam mensagens de solidariedade na dor da perda do Amigo. E então umas letras bonitas, lindas como ele, deixam assim as palavras arrumadas:

«O Matisse está a pintar o céu».

sexta-feira, agosto 13, 2010

Incertezas



Quando se é jovem, prefere-se os meses vulgares, a plenitude das estações. À medida que se envelhece, começa-se a gostar das épocas intermédias, dos meses que não conseguem decidir-se. Talvez seja uma maneira de admitir que as coisas não podem ter para sempre a mesma certeza.

Julian Barnes, in «O Papagaio de Flaubert»




Onde é que eu já li que o Homem pode fazer de Deus?

Quantas vezes se deseja ter o dom da omnipotência que Lhe atribuem, mas não se escolhe, talvez Ele escolha o momento e nunca coincide com o que nós desejamos. Como é que eu posso ser crente? Recuso completamente esse deus castigador que as três grandes religiões de Abraão nos legaram, embora compreenda a necessidade delas para obviar os excessos dos homens da terra, para melhorar o sentido da vida, para criar a mens sana in corpore sano. Porém o homem usou-as no pior sentido, adulterou os ideais de todas as formas e arvorou-se através delas em senhor do mundo dos outros para proveito próprio.

Não quero, não quero, não quero usar-me na sua pele para meu proveito, mas a verdade é que o sofrimento é um reino em que me debato para não ocupar. E esta ideia de sofrimento colou-se no meu imaginário pela via da religião que eu hoje recuso, porque a minha razão me diz que morrer é só o fim da vida. E é natural entre os bichos matar para saciar a fome, morrer para dar lugar aos outros. Normalmente morrem os menos aptos, os mais fracos, também os que foram grandes e perderam a força.

O companheiro leal das horas dos meus dias mais e menos bons, das noites sem sono, aquele ser minúsculo que preencheu vazios inenarráveis, que adoptou a nossa família como a sua matilha há quase 12 anos, jaz há três dias na sua cesta, agravada a sua insuficiências renal, sem forças para andar, comer, beber, gemer sequer. Os seus olhos vêem mal, continua a ouvir, porém, como as pessoas, no fim, dizem. No Hospital Veterinário, propõem-me fazer de deus, pobre deus misericordioso que não pode prometer-lhe a eternidade, apenas um sono mais longo e sem sofrimento. 

Mas, por enquanto, vai reagindo ao soro diário, ainda mostra que quer estar connosco, embora os médicos achem que ele, deixando de comer, está a dizer-nos que não. Depois, não tenho a certeza de conseguir enfrentar essa enorme responsabilidade. Acaso terei sequer esse direito?

sábado, agosto 07, 2010

Pássaros


 
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoas, chuvas, escuros – isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos



 Ando de roda dum livro que, por sua vez, anda à roda de Flaubert.

Gustave Flaubert, o homem que deu vida a Mme Bovary, o homem que divulgou o segredo guardado de todas as Bovary que povoam o lado feminino do planeta porque o outro lado o possibilita ainda, ou, quem sabe, porque nem eles nem elas alguma vez leram Flaubert. Mas não foi sobre esta personagem poderosa que trouxe aqui Flaubert – e digo poderosa, porque Emma Bovary foi tão perfeitamente concebida que viveu para além da sua morte no livro, atormentando o resto da vida do seu criador. Ele escreveu muito mais, mais e melhor, mas ela tomou conta dele, misturou-se com o seu nome, absorveu-o.

Flaubert, ao que leio, tinha uma grande simpatia por papagaios, para além de canídeos e outras espécies de animais, nomeadamente ursos, de que possuía uma pele servindo de tapete em sua casa. Um dia leu uma história de alguém que perdera a sua amada e se tornara misantropo, vivendo os seus dias com um papagaio que repetia o nome da mulher que perdera e com isso se mantinha vivo. Quando o papagaio morreu, o homem perdeu a razão. Começou a imaginar-se ele próprio um papagaio e repetia grasnando o mesmo nome de mulher, enquanto se empoleirava na mobília e batia os braços como asas. A família pretendeu interná-lo num hospício e só o conseguiu construindo uma enorme gaiola, onde ele entrou, fascinado.

Flaubert tece considerações sobre orgulho e vaidade numa carta a Louise Colet, a «sua musa», dizendo que o orgulho é um animal feroz que vive só e vagueia pelas grutas, enquanto a vaidade é um papagaio. Há diferenças, realmente, entre uma palavra e outra, pena é que os papagaios humanos de hoje não se assumam pássaros, para que se pudessem engaiolar como o tal conhecido de Flaubert. 

quinta-feira, julho 29, 2010

Impaciência


"E agora que fazer? Gostava tanto de levar até ao fim os dois livros começados. O romance. Sei agora mais claramente o que queria. O périplo de uma vida à procura da palavra. Viemos ao mundo para a encontrar. A palavra total, a que nos diga inteiros, a que nos diga a vida toda. Procurei a minha e não a encontrei. E estou a chegar ao fim. Ou encontrei apenas a do silêncio.»


Vergílio Ferreira, in «Conta Corrente»


Deve ser deste calor intenso que grassa por aqui, estou sem vontade de teclar um texto; vou tentar escrever  à mão e depois passar, é uma outra solução a que por vezes recorro. Deixo hoje as palavras dos outros que também dizem de mim, como dizem! A seguir, palavras de Mia Couto, o escritor moçambicano que enfeita a nossa língua com novíssimos vocábulos cheios de vida.

«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
 – Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez. "Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra." »