sábado, março 31, 2012

Lírica do Desassossego

Foi publicado este mês um novo romance de Rocha de Sousa, um romance diferente, na semelhança do que nos habituou a sua escrita sensível, de um realismo que leva à reflexão, onde os espaços e as pessoas têm nome, onde tudo se abre aos nossos olhos como o argumento de um filme que só ficou gravado em palavras de pintura por vezes surrealista, de que deixo aqui um excerto.


«Morri ontem, com a boca cheia de palavras e os olhos tapados de imagens […]

[…] Estou a caminho do cemitério, não sei onde, mas estou morta e sinto-me tranquila. Os anjos são masculinos ou não têm mesmo sexo? Minha mãe percorria as senzalas e procurava, de uma conversa vulgar, criar sinais legíveis sobre a vida, a família, os filhos, a história dos povos, o seu papel no mundo. Era um catolicismo sem pompa nem circunstância, não dependia da missa nem de outras liturgias. Talvez ela tivesse reencarnado de um verdadeiro missionário.
Agora sim, estão a baixar o caixão, nave estreita e em madeira, que entra na terra fresca da cova e aí fica, autónoma. Choram não sei bem onde. Pazadas de terra começam a cair sobre o meu rosto protegido. Mas é como se a minha boca fosse bloqueada, completamente entulhada de papéis e terra. Nos olhos, agora, só passam, contra o escuro, imagens fragmentadas de gente conhecida, familiares, tios, primos, amigos correndo, ao longe, como se holofotes rasgassem a noite e mostrassem, só por instantes, um rosto espantado ou um animal a correr. Nesse minuto nunca vi nenhum anjo, nem pessoas que conhecera através de velhos retratos.

Pela primeira vez, em muitos anos, não sinto o corpo. Esta suspensão é irrepreensível. Será este o lado sensível da alma? Apenas tenho a certeza de que morri ontem. Ou hoje de madrugada.»

quinta-feira, março 15, 2012

Espera


Do outro lado da parede fibrosa, atrás da mesa verde, um sonho de retorno identifica-se com o nosso próprio corpo rendido, com os degraus do espaço e do tempo, acabando por se contrair para a dimensão corrente do visível, de novo o lado de cá dos cenários, copos sujos, nódoas, as coisas comuns de um quotidiano feito de esperas ou impulsos disfarçadamente primitivos. Posso ver, em vez do papel molhado, uma superfície de mármore, lisa e larga, um azul infiltrando-se liquidamente no espaço de súbito cheio de claridades, mas algo em mim destrava o aviso das horas, um anoitecer vermelho e roxo que oscila na orla da retina, que se converte nos reflexos crepusculares ainda suspenso dos vidros.
Rocha de Sousa in «Angola 61»

                     
Há sempre um outro lado da história que fica no verso, que ninguém pode ler sem se deslocar nos degraus do espaço e do tempo. E como é difícil contornar esse aparentemente leve pormenor, direi antes, o pormaior de simplesmente virar a página entre as mãos.

Cada um de nós vê perto de si o que quer ver, na página esplendorosamente branca aquele levíssimo ponto negro a manchar todo o cenário, um cão negro correndo no campo de neve, na estrada limpa e larga um cadáver qualquer. E os corvos cumprindo um primitivo impulso cívico.

Há uma tendência natural para o equilíbrio, cada um complementando o outro, limando arestas, adoçando o presente intolerável com a intensidade das cores, o mar pintando tudo de azul, o crepúsculo presenteando uma tela de espanto. Quando o corpo se rende à beleza palpável do presente que o rodeia, quando numa curva da cidade emerge de repente um canteiro de flores, entre massa verde umas pinceladas de amarelo forte raiadas de castanho, talvez malmequeres, olhando para nós, o espírito esquece por momentos todos os males, as preocupações do mundo inquieto que vivemos.

Logo depois o sonho perdido do retorno quebra o corpo de cansaço, a espera do esplendor das rosas dilui-se no céu sem nuvens, os dias sucedendo aos dias, o tempo morno aquietando tudo, aplacando a ânsia do ver, do sentir, as mãos quietas sobre o regaço.

domingo, março 04, 2012

Secura

Que Portugal se espera em Portugal?
Que gente ainda há-de erguer-se desta gente?
Pagam-se impérios como o bem e o mal
- Mas com que há-de pagar-se quem se agacha e mente?
Jorge de Sena


Entre o sono e a perplexidade deixo que os sentidos acordem, se abram ao presente que se instala, os ruídos mordendo a impotência de sentir qualquer palpitação da natureza, pássaro ou vento em namoro das árvores, o cicio da folhagem em resposta mansa.

Em volta, o progresso, a velocidade, a impermanência enrolando as vidas, o destempo para os afectos, os abraços, a pausa, o silêncio para apenas ouvir.

Só o destempero duma tempestade pode alterar o processo por poucas horas, pode falar mais alto, abafar tudo em redor mas o temporal não se abate. As promessas de chuva ficam-se por isso mesmo, uma revoada de nuvens que mostra o satélite, mas a terra continua seca, as árvores de citrinos queimadas das geadas das noites deixam pender os frutos amolecidos, vazios, sem sumo.

Como as pessoas que não sorriem porque secaram por dentro.

quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Encontro



Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou (…)

Fernando Pessoa

  
Dentro do quarto, a meio da noite, a porta de entre salas rangeu de leve quando lhe toquei.

A porta girou nos gonzos e o espectáculo era simplesmente aterrador naquela gruta húmida e escura. Como as histórias de antigamente, dos livros de aventuras da adolescência, foram as palavras que me acudiram à ideia com um sorriso naquele castelo antigo onde pernoitei, no mesmo quarto - sete, o número mágico - onde Agatha Christie escreveu decerto largas páginas dos policiais mais famosos do século em que viveu. 

Fui desligar o aquecimento e abri a portada da janela, mas por baixo entrava um friozinho gelado que me fez fechá-la de novo, logo a seguir. Lá fora o vento soava com força sacudindo a folhagem das árvores que dobravam ondeantes. Estremeci ao pensar nos frades da Ordem dos Carmelitas Descalços que habitaram o convento ao lado, sem sombra de conforto, visíveis as lajes frias do chão, também os tectos cobertos de casca de sobreiro, como as portas baixas e as cruzes sobre cada uma delas. Ouvi o silêncio a que se votaram perante a voz da natureza forte, os cedros e araucárias por entre as espécies naturais, junto ao pavilhão de caça japoneiras frondosas, o chão atapetado de camélias, uma magnólia branca desafiando o azul.

Gostei de estar ali e sentir-me dentro do bosque sagrado que fascinou reis e príncipes de todas as artes ao longo dos tempos. Gostei de saborear o facto de saber que algures por perto, bem na serra do Bussaco, cresceram as minhas raízes do lado paterno, raízes que se afundam e de onde medram rebentos novos, aqui e além, raízes que secam encarquilhadas e belas junto ao carvalho secular.

Não tenho a certeza de voltar tão cedo ou alguma vez mais palmilhar a estrada ondulada que vai do Luso ao Vale da Mó, onde procurei em vão o solar antigo. Mas tenho a certeza de que me fez bem passar por ali, colher os pedaços da vida que o tempo levou.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Esperança


Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.

      A quem deuses concedem
      Nada, tem liberdade.
Ricardo Reis



Escutem, dizem os deuses. Aqueles deuses que Camões colocou ao nosso lado a soprar os ventos a favor das naus, a aplacar a consciência dos reis do Olimpo e os reis do Oriente, a conduzir os homens para recantos de prazer naquele empreendimento maior que nos encheu de glória, nos trouxe a riqueza, mas afundou nos mares impérvios a nossa força de alma.
 
Escutem, eles dizem. Mas como escutar se o martelo hidráulico fala mais alto, destrói o tecido já contaminado dos séculos de cansaço, levanta a poeira que sobe e rodopia e se entranha em cada estria, em cada ruga, destrói a visão e corta a respiração do corpo exausto. Como escutar se o ruído é tão intenso, se os deuses não se distinguem, como adivinhar os avatares de Zeus na noite sem lua que só as estrelas espreitam no seu piscar calado de testemunha distante, sem voz, sem presença corpórea para prestar juramento nos tribunais dos homens. Como provar a inocência se a transgressão deixou marcas, escreveu em pedra a vergonha que os dicionários deixaram de grafar, se o pecado se esconde nas vestes dos sacerdotes dos media, já não os que conduzem as almas mas os que violam os corpos e as mentes com o poder que a avidez e a ignorância fazem saltar para as primeiras páginas dos nossos dias desumanos.

Bem hajam os que acreditam, bem hajam os que lutam ainda pela verticalidade, com as defesas possíveis, sem outra arma para além da palavra, o livro de Eli grafado em Braille, gravado também na memória, para memória dos tempos, mesmo depois da catástrofe.


segunda-feira, janeiro 23, 2012

Sobressalto



Deuses secretos passeiam no território dos homens.
Tramam, destramam nossa realidade.
Os deuses ostentivos, nossos protectores,
tudo ignoram.
Neste momento, um deus perverso e anónimo
fustiga-me.
Rolo no ladrilho, contorço-me,
sem gritar.
Não tenho a quem dirigir
palavras de ira ofendida.
Sei que é um deus inominado.
Sei que passará,
e vou respirar, aliviado.


Carlos Drumond de Andrade


Pouco a pouco alongam-se as horas de luz pelas tardes serenas deste inverno sem chuva, geada pousando nas noites, ainda assim permitindo que os campos se abram já naquelas flores minúsculas que atapetam o chão com a cor do sol.

Chega-se o início do ano oriental mais chegado ao pulsar da natureza, às palpitações dela. Ano Novo cavalgando o Dragão, ser mitológico de que sentimos o odor aqui e além, de que já vimos o fogo a dar chama à luz que governa o nosso dia-a-dia moderno e dependente. Longe vão os candeeiros a petróleo, as candeias de azeite fazendo parte de uma história já não vivida, as tochas, a descoberta do fogo.

Que seja o ano do dragão auspicioso para nós como o vêem no Oriente, senhor das águas e da sabedoria, tudo o que nos vai faltando em Portugal. A sabedoria por exemplo de manter viva a Língua Portuguesa naquela livraria Camões, bem no centro histórico do Rio de Janeiro, aquela livraria de mais de quatro décadas que a Casa da Moeda decidiu encerrar em nome da crise.

Olho ainda Drumond e Camões a brotar-lhe dos dedos decerto antes ainda das máquinas a darem-lhe forma às letras, corridas, cursivas, inclinadas, delineadas em caligrafia, a debitarem no papel o que sopra de dentro:

«…Já tenho uma palavra pré-escrita
que tudo exprime quanto em mim se turva.
Pelos antigos e pelos vindouros,
foste discurso de geral amor.
Camões – oh som de vida ressoando
em cada tua sílaba fremente
de amor e guerra e sonho entrelaçados…»


 O que importa o acordo ortográfico, o que importa a grafia, o que importa a entoação, se esta língua nossa é tão vária mesmo dentro dos limites deste país tão pequeno. Eu queria que a Língua Portuguesa vivesse para sempre nos cinco continentes, enquanto o Homem conseguir sobreviver à sua própria destruição.

domingo, janeiro 08, 2012

As coisas dos homens

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Fernando Pessoa



Regresso à inebriação dos sentidos fugindo à temperatura real naquele registo das águas murmurantes onde me banho entre rochas e areias, tufos de capim e nascentes de água límpida, ou prosaicamente debaixo de um chuveiro mecânico, invenção dos homens.

Os sentidos acolhem o palpitar de todos os sonhos vividos ou sonhados, afinal é neles que se sustenta todo o movimento que o cérebro comanda, é através deles que a fruta apetece madura ou repugna quando se desfaz em podridão atraindo a ela outra classe de seres que seguem o seu ritmo, as horas contadas mais breves, necessidades cumpridas sem esperas.
 

Só o Homem consegue dominar a natureza guardando-a intacta para quando os sentidos acordam para o desejo dela, assim eles se espraiam a olhar as cores das coisas dos homens ou a seguir o movimento da borboleta ou a fragilidade das asas que se desfazem em pó se apertadas entre os dedos. O tempo que sobra do tempo em que os outros seres procuram a sobrevivência na busca do alimento, na fuga aos predadores, no prolongamento da espécie.

Porque os homens têm tempo para pensar, eu olho-me por dentro e vejo que o meu modo de estar e de ser tem a ver com o meu país, como dizia Drumond, essa parte de mim fora de mim a procurar-me. E porque eu sou dois países num só, penso e repenso e tento encontrar em mim o que é de um e o que é do outro, desejando quantas vezes identificar-me com um só de entre os dois mas não consigo. Como se olha alguém cujo progenitor se conheceu na infância e nele o reconhece se for o pai ou se for a mãe, esquecendo que é um ser diferente e único, ele só, de per si.

 E é assim que eu me penso e me organizo, é assim que eu sonho e que eu vivo, castelã e plebeia, as mãos que escrevem tecem rendas, conduzem a máquina dos tempos que surgem conturbados, sem outra saída, rendidos ao culto do inominável.
 

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Permanecer


Nos nossos dias, as pessoas atiram-se a tudo o que alguma vez foi escrito para o transformarem em filme, em série de televisão ou em banda desenhada. E como o essencial, num romance, é o que só pode ser dito por um romancista, em qualquer adaptação só fica o inessencial. Quem foi suficientemente louco para continuar hoje a escrever romances, tem de os escrever, se quiser garantir protecção dele, de tal maneira que não possam ser adaptados, por outras palavras, que não possam ser contados.
Milan Kundera in «A Imortalidade»



Escrever um romance tem sempre uma apresentação narrativa e uma narrativa tem por suporte alguma forma de história, histórias, de vida ou ficcionadas, sempre histórias de algum modo construídas, paralelas, sobrepostas, separadas no tempo ou no espaço pelas mais variadas condicionantes. A banda desenhada ou o audiovisual, são outras formas de apresentação narrativa, daí o romance poder ser convertido, na sua totalidade ou em parte, numa destas variantes de narrativa.

Esta preocupação de autor registada acima, faz-me lembrar a situação actual da nossa construção europeia, faz-me lembrar o episódio do Velho do Restelo, faz-me lembrar o Acordo Ortográfico, faz-me lembrar o medo intrínseco que mora cá dentro. Faz-me lembrar o medo legítimo de perdermos a nossa identidade.

A história dos homens, da humanidade, a História com maiúscula, a história humilde de cada um de nós, prova que a identidade é uma força que se constrói arrostando o medo, o medo que segue à nossa frente como a lebre nas corridas de atletismo, fazendo-nos correr mais depressa precisamente na construção, no fortalecimento da nossa identidade.

O medo do Velho do Restelo não dizimou as vidas, não acabou com um país entalado entre a terra e o mar, acossado por um continente, antes o projectou no mundo inteiro e lhe deu grandeza, acrescentou valor. O Acordo Ortográfico de 1923 receou o desaparecimento do trema em Portugal (no Brasil só agora) receou que o «tranquilo» perdesse a calma e alterasse a fonética, o que não aconteceu; o novo Acordo vai permitir a união pela língua de uma comunidade que vai a caminho dos 300 milhões de falantes e é indubitavelmente uma mais-valia ainda pouco explorada, mas de potencialidades sem tamanho. A nossa integração total numa Europa comum só nos pode engrandecer, só nos molda ainda mais a identidade, o orgulho de um país diferente, coeso, com fronteiras definidas a caminhar para um milénio, recheado de História, repleto de genes aventureiros que deixaram a marca da língua pelos quatro cantos do mundo, que florescem hoje aqui e além, na Ciência, nas Artes, marcando a nossa identidade, sem fronteiras. Apesar da crise.

Voltando aos livros, as grandes obras não deixam de o ser pelo facto de serem mediatizadas através do teatro, do cinema, da televisão, de folhetins de BD, em adaptações adulteradas sempre, ainda que valorizadas porque chegam mais longe. A palavra escrita mantém-se um registo inalterado da vida de um escritor.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

A cave



Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
 
Fernando Pessoa


Acho que perdi a voz.

Não vou ouvir este ano o crepitar da fogueira mansa na Noite mais longa, já sem chama a lamber os troncos grossos e informes. Da gruta incandescente emanando o calor das décadas, o fumo escrevendo no ar frio o nome dos ausentes que permanecem nas conversas dos que se quedam parados, curvados do peso dos anos, um ou outro riso, uma imprecação na hora de dar mais vida ao fogo. Quando as memórias de alargam, sobem no espaço do tempo que passou e galgam oceanos, continentes, a crescer o sentido de pertença a um povo, uma identidade, a ideia do regresso ao ninho de que partimos antes de nós.

Cresce a lembrança daqueles que depois nasceram longe, os que não fugiram, os que arrostaram a guerra e lutaram pela terra, os que foram fustigados, maltratados, castigados pela cor da pele, os que lutaram por um ideal de solidariedade, os que quiseram dar as mãos, os que foram persistentes até ao limite – para alguns a morte. Anos, décadas volvidas, a força da chama apagou-se devagar, ficou o calor que não morre senão depois das cinzas. Também esses, poucos, voltaram à terra dos seus pais, também eles pousaram no ninho antigo, prostrados diante da fogueira secular.

A crise apregoada bateu-me enfim da maneira mais dura.

Continua a haver os troncos grossos, as raízes altas e secas, continua a haver o tractor e o motorista para os transportar. Continua a haver o espaço. Ainda há braços suficientemente fortes para acender e alimentar a fogueira na noite fria. Mas falta a vontade dos Homens, quem sabe o calor dos afectos.

Na voz de Caeiro, hoje, só Pessoa me diz.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.  
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.  
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.  
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...  

segunda-feira, dezembro 12, 2011

À espera de Godot

Moi quand je serai vieux
tout sera encore mieux
Même si j'ai plus qu''une dent
j'en grincerai joyeusement
Elle mordra dans la vie
avec la même envie
Même si j'ai plus qu'un cheveu
je le peignerai de mon mieux
J'irai lhe cheveu au vent
je prendrai du bon temps
je ferai des projets
des projets d'avenir
Et si ma mémoire m'oublie j'en profiterai
pour oublier de mourir


 1º Prémio num concurso do Metro de Paris, Pierre Bichaud




Acordo dentro do nevoeiro, a chuva o frio lá fora e cá dentro o meu corpo grita de desconforto.
Decididamente não fui programada para uma natureza longamente agreste, sem a doçura de alguma luz abrindo a janela que ainda mantém os vidros, frágeis, mas onde a humidade chora por dentro em sulcos que escorrem como lágrimas. O abandono, o desafago, o desprazer, a desesperança, a solidão, tudo me ocorre em sopetão no calor da casa.

Ouço dizer que os ricos não querem falar do muito que possuem, menos ainda dividir com aqueles que têm pouco. As pessoas, as famílias, os concidadãos, os estados, os países do mundo. Mas ocorre-me pensar se todos os que realmente têm pouco – ou os que nada têm – desejam por acaso a riqueza dos outros. É que, para além de eu ter a certeza de haver quem não deseje, resta ainda descortinar o que significa ter muito ou ter pouco, qual é o modelo, quem é que define, quem estabelece os limites, que limites. 

E neste afã de tentar encontrar respostas que não existem, está subjacente uma ideia de hierarquia que as religiões logo usurparam do inconsciente humano, a existência de alguém que nos possa orientar quando o nevoeiro desce sobre o mundo, sobre nós. Se queremos caminhar e não estamos sós, por que não dar as mãos e seguir, na certeza de que, se algum cair, o outro, os outros, não deixarão que aquele se afunde no abismo?

Por que não acreditar na nossa força de crescer e seguir em frente em vez de ficarmos sentados à espera de um ente supremo, um qualquer D. Sebastião?

 

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Pulsar

Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada
Vejo os rastros que ele traz
Numa sequência arrastada
Do que ficou para trás
Vou vendo e vou meditando
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando…
Fernando Pessoa


 
Não sou capaz de levantar voo no mar encapelado em que me debato para não submergir. Sinto-me um albatroz desajeitado sem saber como e para onde estender as asas, com tanto ar acima, com tanto espaço para se sentir dono do mundo em redor.

Há sempre momentos destes em que, se por um lado nada nos impede de sair da letargia em que mergulhámos mercê de condições que nos são estranhas, nada nos impele também a abandonar o remanso imposto pelo cansaço. É difícil reagir quando todas as condicionantes são adversas a qualquer alteração, quando tudo parece tão natural acontecer nesta pobreza de espírito em que tudo é suficiente, sem esforço nem é preciso alimento, sem fome o cheiro da comida traz náusea.

É o rio a passar devagarinho, a levar com ele as memórias da fonte que lhe deu vida, a alegria de ser um regato alegre a serpentear entre campos, depois a saltar entre pedras, em rápidos e cachoeiras, a despenhar-se de muito alto e a reviver sempre espargindo arco-íris a brincar com o sol. E seguir em frente, a caminho da foz, o mar à espera no abraço final, já não mais rio, já não mais doce, já seduzido pelo oceano em vagas ondulantes, vogando na eternidade.

Eu vejo sempre o rio a passar, não me esqueço de o ver ondear, de o ouvir sussurrar, de sentir-lhe a frescura, de pressentir-lhe a imensidão quando as chuvas permanecem por dias sem conta.

O meu rio é fiel e eu sei, sou, o caminho dele.

sábado, novembro 26, 2011

A Terceira Guerra


Não houve decerto a gota que fez transbordar o vaso, mas o simples reconhecimento de que tinha já transbordado. Aconteceu foi que a humanidade em geral se modificou e no quadro universal a persistência no logro a denuncia como logro. Um novo equilíbrio se instaurou no modo generalizado de se ser humano por sobre o desgaste do anterior, e o erro denunciou-se como a ausência do cómico da graça de que ríramos ou da sedução da mulher que amámos.
Virgílio Ferreira in «Pensar»


Ontem ouvi o Fausto soando pelas Montanhas Azuis, o mesmo Fausto que conheci na sua juventude, dedilhando a guitarra no final de curso liceal, num espaço de Portugal antigo, nos idos sessenta do outro século.

Ontem ouvi falar do percurso de um país de quase 900 anos de História, um país de diáspora, um país que pulsa em arritmias de crises mal curadas, incapaz de tomar decisões próprias, saudosista eterno dum Sebastião diluído no nevoeiro dos séculos, sujeito aos Wellington e Beresford, sem se dar conta que existe em cada um de nós aquela gota de água capaz de formar um curso de água, capaz de formar um rio, capaz de afastar por largos quilómetros a fúria do mar pintando-o de barro, como o Zaire ou o Amazonas.

Por querer ou sem querer, estamos em guerra. Não uma guerra de trincheiras, não uma guerra de aviões e torpedeiros, não uma guerra de catanas e canhangulos. Digo de uma outra Grande Guerra, saída do século novo, uma guerra de números, num terrorismo novo, comandado por agências ditas de rating. E não é uma guerra leal.

O dia apaga as cores devagar quando a noite vem. É a hora mágica do acender das fogueiras eternas de todos os lugares da Terra, onde o lebréu de aquece e os pensamentos dos Homens passam a uma nova dimensão.



domingo, novembro 13, 2011

Continuidade


Contava-se uma anedota acerca do meu pai, que era músico. Encontrava-se ele algures com uns amigos, quando, provindos de um rádio ou de um gramofone, ecoam os acordes de uma sinfonia. Os amigos, todos eles músicos ou melómanos, reconhecem imediatamente a Nona de Beethoven e perguntaram ao meu pai: «Esta música é o quê?» E ele, após uma longa reflexão: «Isso parece ser Beethoven.»
Milan Kundera in «A Cortina»



Os conselhos dos velhos perdem-se pelas décadas tempestuosas da vida, lembrados fugazmente, respeitados raramente, mas marcando a presença deles quando um dia há tempo para recordá-los, tarde da vida.

Olha, minha filha: não te deixes por lá ficar em casa; se o teu marido te convidar a ires ver um burro pendurado pelo rabo, vai ver o burro pendurado pelo rabo!

Pode ficar ciente de que não esquecerei o conselho, tomado na devida conta, mas não esquecerei, avozinha!

Como não esqueceu o avô, que se perdia pelo jogo e queria a neta a jogar bridge, mas ela sempre embirrava com «o morto» quando lhe calhava em sorte. Afinaria a inteligência e a concentração, mas o jogo sempre lhe parecera uma perda de tempo. No xadrez segue os cavalos, minha filha, segue os cavalos!

A mãe e os avisos surgindo a todo o propósito, com segundas intenções: segura a malha, minha filha, segura a malha, se a perdes é um trabalhão ir buscá-la!

Que dizer agora aos mais novos quando há um sol que se sente coado pelas cinzas que cobrem este céu, há um calor meigo na tarde quieta a falar de mansinho, a dizer que vai embora porque é outro tempo, é o tempo das neves brancas na serra, da geada a cobrir os campos pelas madrugadas frias? Que dizer quando as cores esmaecidas das folhas anunciam os esqueletos esguios das árvores em prece além de que a primavera as vai ouvir? Que dizer quando eles já sabem tudo, que dizer mais, senão que as estações se sucedem, se renovam, se pintam de cores, se desfazem em cor de terra, parece que tudo arde e de repente a chuva acontece?