domingo, outubro 14, 2007

Prémio Nobel


Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.

A branca areia de ontem está cheínha de alcatrão.
As dunas de vento batidas são de plástico e carvão,
e cheiram mal como avenidas, vieram para aqui fugidas a lama, a putrefacção.
As aves já voam feridas, e outras caem ao chão.

Mas na verdade, Rosalinda, nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda, envenenado, a desmaiar, o que mais há desta aridez.
Pois os que mandam no mundo só vivem querendo ganhar,
mesmo matando aquele que morrendo vive a trabalhar.

Fausto



O prémio Nobel atribuído à causa nobre do ambiente parece vir repor em primeiro plano o que vinha sendo demasiado esquecido, principalmente pelos grandes do mundo. O homem que foi preterido para a Casa Branca – ao que parece, algo indevidamente – em favor de uma personalidade controversa no seu comportamento perante as sociedades vigentes, veio dar a razão ao povo de que, afinal, Deus escreve direito por linhas tortas.

Al Gore, se estivesse à frente do comando de um país que continua a dar cartas pela força do dólar, não teria tido tempo de empenhar-se em conferências, em livros, em filmes, em viagens contínuas por uma causa que interfere com a sobrevivência da humanidade. Na verdade, alertar a opinião pública para o aquecimento global, quando os factos surgem cada vez mais próximos, cada vez mais urgentes, em face do afastamento das maiores potências industriais do Protocolo de Quioto, obrigar a acordar para a preservação do meio, para a defesa do ambiente, foi um passo memorável.

Sem que se possa considerar já um reflexo do que é referido acima, acabo de ler a divulgação de uma iniciativa da revista Visão que irá emitir uma publicação ainda este mês, denominada VISÃO VERDE e vai estar na base de entrega de árvores aos municípios, anunciando oficialmente a plantação de um milhão de carvalhos, só na Serra da Estrela. Nada poderia vir tão a propósito. Aqui, como sempre, vai faltando o apoio estatal para a proibição – leram bem palavra, sim, numa altura em que tudo se controla, controle-se pelo menos o que se deve – de plantação desenfreada de eucalipto, uma árvore que todos sabemos não fazer parte da flora natural da Península, uma árvore que esgota rapidamente as reservas de água num país sobre o qual pende a ameaça de desertificação, uma árvore que propaga facilmente os incêndios. Também propaga o dinheiro mais rapidamente, mas para nosso bem e dos vindouros, nesta altura «outros valores mais altos se levantam».

O homem que inventou a dinamite, continua a dinamitar consciências.


segunda-feira, outubro 08, 2007

A Força do Amor

– Dotô, ela vai podê ainda pari?

– Vai, sim, Giribel. Não afetou em nada a patada da onça.

O doutor foi para o canto e riu para o povo.:

Pronto, minha gente. Agora toca todo o mundo a dormir. Estou um bocadinho cansado…

O pessoal foi saindo, respeitosamente. O cómodo ficou vazio. Só então apareceu a mulher-dama, enrolada em gaze.

Posso levá ela pro meu rancho?

Não, Giribel. Deite ela com cuidado ali naquele canto. Se você mexer nela, ela morre.

O menino, com uma ternura imensa, levou aquele corpinho adormecido para o local indicado. Era nada mais que um animalzinho… uma cadelinha…

Depois perguntou a Madrinha flor:

- Posso posá aqui, Madrinha? A muié-dama pode percisá de argumas coisa…

José Mauro de Vasconcelos






O poder dos afectos prolonga a vida.

Nem há muito tempo, um cão a fingir, sem dois quilos de peso, pelo raso em tons de mel, elegância de impala no corpo esguio, nas patas longas e orelhas em riste, por quase três lustres integrou a matilha humana de nossa casa.

Partilhou alcovas e sofás, praias e serões familiares, dentro de um bolso mais avantajado ou na sua cesta de vime própria de felino, em que vezes sem conta ficou a repousar na cozinha de restaurantes com o aviso prévio de que «não era para ser servido à mesa».

Deambulou de scooter com os donos mais novos por campos e praias, de orelhas ao vento, quantas vezes entre a t-shirt e o peito do seu menino, cabeça emergindo qual gravata original. Sofreu dissabores no receio de ver alterado o seu lugar na matilha por uma andorinha resgatada ao frio e ao abandono, por pouco tempo embora – só até ela poder voar no espaço da Fonte da Senhora.

Envelheceu ao mesmo tempo que os seus meninos ganhavam asas. Foi-se habituando a rituais mais calmos, o reumatismo chegando, o coração pequenino (grande!) cada vez mais frágil.

Um dia tombou ao fundo do corredor, de lado, ficando imóvel.

Corri para ele, levantei-o, abanei-o, lembrei-lhe repetidamente que estava ali e que gostava muito, muito dele. Em lágrimas vi que voltava à vida. Kwacha, a alvorada, o nosso cãozinho guerreiro recuperava as forças. Não voltou a ser o mesmo, a crise repetiu-se uma e outra vez.

Morreu no dia – lindo como ele – em que chegou a Primavera de 99. Igual a si próprio até ao fim, ladrou, agrediu ainda a Morte quando a sentiu chegar. Esticou muito as suas orelhinhas a ouvir até ao último momento a voz da dona que o acariciava repetindo o seu nome.

Repousa, frente à casa dos que partilharam tudo com ele durante os seus 14 anos de vida, debaixo de um vetusto sobreiro, e duas roseiras foram plantadas para que ele possa continuar a olhar-nos com aquele olhar doce de muito amor que sempre nos dedicou em exclusividade total.

Os homens também são bichos.

quarta-feira, outubro 03, 2007

A Força da Escrita


Também tenho o meu rosto na multidão: Joana estava a sorrir quando a vi de mais perto, talvez apanhada por essa coragem que parece tomar conta das pessoas na vertigem das maiores tragédias, e agora ainda a descortino imóvel, contra um oceano de mãos acenando freneticamente na direcção de todos nós. Há outros casos assim, gente rara, em estátua, ou chorando sem o menor sinal de alarme. (…)

(…) Baixo os olhos e aponto a caneta ao papel. E marco a folha, em raiva: «Já não sou capaz de olhar o homem que chora.» Fico com os dedos enclavinhados no bloco de notas e no jornal, comprimindo o corpo contra a amurada, contra o seu bordo de madeira e verniz, e oiço apenas os gritos da multidão a sangrar. Bruscamente, percebo que algo de indefinido se quebrou dentro de mim. Um fio de alma, uma força, uma ligação lógica entre afectos.»

Rocha de Sousa, in «Angola 61»





A escrita tem um poder enorme. Mais do que qualquer imagem, a escrita, a boa escrita, é tanto ou mais do que a imagem. Ela pinta várias imagens numa tela só, ela traduz um, vários sentimentos de uma, de várias pessoas, faz ver uma sucessão de quadros, veicula som, movimento, tacto e acorda sentimentos indizíveis nos leitores. Sou pouco versada em artes plásticas, já o disse aqui. Posso parar extasiada diante de uma obra de arte, ela passar para mim fortes emoções e sentimentos, mas a escrita é outra coisa. Gosto de ler. Sinto-me bem a olhar as letras entrecruzando-se em palavras, em frases, em sentido, em sentidos. Os meus e os de quem escreve.

Os meus aqui, porque são a outra face da moeda, que não vê esta, fera açulada na espera de que os seus venham em seu auxílio, e não pode ser tão doloroso assim estender uma mão a quem se afunda no medo do terror que alastra. «O meu filho vale mais que uma província!».

Como é que se pôde chegar a isto?

António Lobo Antunes tem mestria absoluta em algumas das suas crónicas. Quase todas, direi (não conheço a sua obra na totalidade, mas alguns livros custaram a ler: a compreender, a entender o conteúdo, a expressão e a forma. É natural – é voz do povo que Deus, que é Deus, não agradou a todos). Mas daí a que diga, numa das suas últimas entrevistas, não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares, vai um passo de gigante.

Porque há. Não quero citar nomes – quem sou eu –, mas há. Há também aqueles que já foram galardoados com Prémio Camões. E não só.



domingo, setembro 30, 2007

Melancolia


«O tipo tem tanto sentido de humor quanto um rafeiro com sarna. Não aprecia a vida. Na minha opinião passou demasiado tempo em Portugal. Eu também gosto de visitar Lisboa, vou às livrarias, ao cinema, vejo exposições de fotografia, e acho tudo isso muito bom para lavar a alma. Mas nunca fico mais de duas semanas. Três no máximo. A melancolia portuguesa corrompe o espírito, escurece-o, como o frio do Outono amarelece e mata as folhas das árvores.»

José Eduardo Agualusa



Eu não me recordo se trouxe a melancolia comigo, aquela dorzinha no peito que deixa a gente lassa, sem força para rir com gosto, para rir bonito, apenas sorrir com trejeito amargo, sem voz, sem alma, sem vida. Às vezes vive cá dentro, escurece a minha alma, tira-me o sorriso, mas procuro que uma brisa a espante, leve que seja, nunca deixo que me danifique por inteiro.

O tempo invade a minha disposição, entra na pele, mergulha nos ossos e a alma treme. Muitas vezes sofrendo por antecipação. Este Outono manso, a encolher os dias, puxando a noite com uma brisa que já não é, antes vento que sopra e se entranha, lembra-me o Inverno que vai chegar e me pára o sangue.

Agora a chuva é bem-vinda para eu respirar mais fundo e aceitar os dias menos quentes, as noites mais longas. Vou ter por companhia o crepitar do lume na lareira, o estalido dos troncos de azinho, oliveira, contando histórias de gentes e bichos de outros tempos, de Torga e Aquilino e até Junqueiro, com melros zombeteiros de alma romântica no seu melhor.

Mas as noites anunciam-se demasiado longas. Como a vida se espreguiça para além do que é lucidamente desejável. Como o progresso alucinado que torna tudo breve, sem tempo para bater compassado, numa arritmia que incomoda porque o corpo já perdeu a firmeza, a agilidade, a fortaleza, a magnitude. E a graça.

Resta a experiência de vida que obriga a fincar os pés no chão, a olhar a chuva miudinha que faz brotar a relva, a ouvir a música dos beirados, a deixar que os ventos troquem o rumo dos dias de ontem e de amanhã.

E não perder a capacidade de amar.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Luuanda


«Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, S. Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais (…)

(…) Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos do hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.

E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada. Chineses (de novo) em revoada. Meninos vendendo cigarros, chaves, pilhas, pipocas, cadeados, almofadas, cabides, perfumes, telemóveis, balanças, sapatos, rádios, mesas, aspiradores. Meninas vendendo-se à porta dos hotéis. Meninos apregoando quimbembeques, espelhos, colas, colares, bolas de plástico, elástico para o cabelo. Meninas negociando cabelo loiro, «cem por cento humano», em tranças, para tiçagem. Mutilados hipotecando as próteses. Quitandeiras mercadejando mamões, maracujás, laranjas, limões, peras, maçãs, uvas suculentas e remotos quivis.

Tio! Paizinho! Meu padrinho! Ai, olha aqui o teu amigo.

Carapauê!

Vai por quinhentos o disco, meu brother!

…Lavo…

…Guardo…

…Engraxo…

Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul…»

José Eduardo Agualusa

quinta-feira, setembro 27, 2007

Missangas



«Moi je t’offrirai

Des perles de pluie

Venues de pays

Où il ne pleut pas

Je creuserai la terre

Jusqu’après ma mort

Pour couvrir ton corps

D’or et de lumière

Je ferai un domaine

Où l’amour sera roi

Où l’amour sera loi

Et tu seras reine»

Jacques Brel




O som seco de um tiro ao longe vem lembrar-me que hoje é quinta-feira e acabou o defeso – abriu a época de caça aos bichos de aviário – e já o ar fresco da manhã se deixa marcar pelo bafo quente da respiração.

Eis o Outono que vem chegando.

Mergulho agora as mãos numa taça de missangas cor de marfim pequeníssimas e, de repente, elas saltam coloridas como se reagissem à cor imposta. Querem ser incertas de muitas cores, misturadas de céu e de terra, de relva e de sangue, de milho e de prata. Querem cingir os pulsos das meninas negras, o colo e os cabelos, querem alegrar o fato da menina branca mascarada em cigana.

Os fios de gelatina longos e ondeantes, descendo na correnteza leve da nascente acima, colares de missangas de uma só cor, prendidos aqui e além por pedras e tufos de erva dos bordos da vala. Escorregadias, missangas negras enroladas nos tornozelos, nos pés descalços, deslizam, fugidios, por entre os dedos das mãos que os querem prender.

Era o recomeço da vida nas primeiras chuvas de Setembro.



segunda-feira, setembro 24, 2007

Globalização



«O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de altos muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de travar e vencer. E que nessa primeira luta teria de lutar consigo mesmo. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.»

José Saramago




Numa das suas últimas crónicas, e com a lucidez que lhe é peculiar, António Mega Ferreira toca uma ocorrência de ordem universal, que vai longe, vai até ao âmago do problema que nos vai conduzir à extinção: o domínio intenso, a prevalência, cada vez mais desproporcionada, da língua a que ele chama anglo-americana, sobre todas as outras.

Essa força que nos faz pensar a nós, Portugueses – um povo com quase nove séculos de História independente, duzentos milhões de falantes espalhados pelos cinco continentes –, que conhecer devidamente a nossa língua (ler Aquilino…) é de somenos importância quando se domina bem o inglês. Se, como se constata, os interesses económicos prevalecem sobre todos os outros, é bem certo que os milhares de milhões gerados pelos mais de milhão de chineses vão justificar que nos rendamos rapidamente ao mandarim…

Esqueçamos agora a língua, que deve permanecer traço de união entre povos, sim na sua divulgação e estudo nas várias vertentes, não na simplificação grosseira que apenas alimente a preguiça universal.

A globalização da economia parece que dói. Só não dói, antes apetece cada vez mais, a quem está no topo da cadeia. Ao homem não custa a destruição em massa, a extinção das espécies animais que todos os dias se verifica por falta de espaço no planeta que partilhamos.

O Ocidente impõe a «sua» democracia em todas as partes do mundo, mesmo onde é uma ideia peregrina, inaceitável, incompreensível para as civilizações que não fizeram o percurso devido para que essa forma de enquadramento sócio-político surgisse naturalmente como a mais respeitadora do «outro».

Uma enormidade quando olhada com singeleza: a democracia original floresceu num povo de escravos e estes não contavam, eram carta fora do baralho. Os ocidentais são mais hipócritas: dizem-se preocupados com os povos de África e Médio-Oriente, quando apenas têm interesse nos seus diamantes e seu petróleo. Que importa o povo do Darfur ou do Ruanda, do Iraque ou do Afganistão?

São escravos.

Continuemos a consolidar a nossa «democracia».

Até quando?




quinta-feira, setembro 20, 2007

Infância


O regresso às origens deve ter o seu tempo em cada um de nós.

Nunca voltar porque os outros voltam.

Não voltar se nunca o tempo for propício.

Viriato da Cruz é um nome grande na poesia primeira africana de expressão portuguesa sem necessitar de apresentação. Por puro acidente, num livro de Cartas de África e Alguma Poesia coligidas e seleccionadas por Salim Miguel, revelando correspondência assídua, em meados do século passado, entre jovens escritores brasileiros de Santa Catarina e as então províncias portuguesas de África, encontrei um poema de Viriato da Cruz – dedicado a Agostinho Neto – que me encontra menina, quando anseia que «cada criança goze a infância como se comesse uma maçã de aurora e de mel» na terra em que nasci:

«Para além da alegria multímoda deste parque acolhedor

– tarde soalheira! Florões amarelos o cicio do vento

nos ramos balançando balançando dos altos eucaliptos.

Para além do olhar amplo mar manso das crianças

um olhar contendo a confiança nos homens

e a certeza de vida no futuro

Para além deste par enamorado um ao outro harpando

a doce música do amor

Para além desta meiga presença de minha mãe

na carta que ontem me escreveu

Para além de quanto me dá esta emoção positiva, eu vejo

a mão no arado, a mão no tear, a mão na enxada, eu vejo

o tubo de ensaio suspenso da mão paredes subindo debaixo

da mão

a agulha na mão debaixo da mão tachos no fogo que a mão

domou, eu vejo

cabeças na escora da mão pensando aumentar da mão o

poder, eu vejo

o livro na mão o Homem a Mão, eu vejo

o trabalho crescendo na Paz criadora oh a Paz

– o modo humano da existência fecunda!»

Viriato da Cruz

Nova Lisboa – Angola, 1953

terça-feira, setembro 18, 2007

sexta-feira, setembro 14, 2007

Comunicação

«Se um homem escreve bem só porque está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.»

Bernardo Soares




Isto não é um diário.

A função da escrita é inata a quem é alfabetizado e lê. Gosta de ler, entenda-se. Quem é estimulado a ver desenhos e pinturas, a apreciá-las desde cedo, desenvolve a vontade de também criar. Como a música, como a construção na areia, como qualquer outra actividade. Este o grande desafio da educação que, como é mais do que óbvio, não começa propriamente na escola.

E assim aprendem as crianças, repetindo o rito. Principalmente se os assuntos surgem naturalmente, como algo que dá prazer, pouco a pouco inferindo que vale a pena conhecer melhor, saber mais, tirar prazer e proveito ao mesmo tempo.

Escrever é também comunicar. Para estabelecer empatia, seduzir à leitura, transcrevem-se vivências que nos tocaram a nós, desvenda-se o que a noite nos disse em segredo, o que trouxe o dia em alvoroço. Nessa escrita é reconfortante ter algum retorno, a mensagem fundamental de valer ou não a pena continuar. Que seja para rebater, qualquer função é aceitável, desde que conduza ao diálogo, ao aperfeiçoamento, se possível. O prazer de brincar com as palavras, o que se vai construindo, o limar das arestas, pintar, matizar as cores, leva à ficção, conduz ao nascimento de personagens, lugares, figuras, sensações pessoais em universo novo, criado, imaginado. Nem sempre real. E, se real, tão real como o cachimbo de Magritte.

É um percurso natural. Comunicar, apenas isso. Outras vezes ponderar as razões do leite derramado.

E deixá-lo infiltrar-se no solo, alimentar a Geia.

terça-feira, setembro 11, 2007

Adeus praia...

«O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo»


Sophia de Mello Breyner Andresen







domingo, setembro 09, 2007

Setembro


«…Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...»

Álvaro de Campos






Setembro é um mês mágico.

Lembra-me o entardecer do Verão exalando todos os odores da fruta colhida, assomando pela casa um cheiro à compota que vai adoçar o rigor das estações seguintes, o acender da esperança num novo ano de trabalho.

Os dias serenos, mais curtos já, nem sempre menos quentes, derramando-se pelas praias num estertor luminoso e numa quietude que nos deixa ouvir o mar, apenas o mar, e nele ponteando em grupos, aqui e além, os surfistas parados à espera do vento que não sopra e das ondas largas que não acontecem.

Recordar Sophia a ver o mar não é inédito. Sophia de Mello Breyner Andresen está presente em todos os lugares que o lembram. No Oceanário de Lisboa. Nas vagas alterosas das escolas também. Os programas de LP do E. Básico têm Sophia como sugestão de leitura orientada (obrigatória?): desde A Fada Oriana no 1º Ciclo, passando pela Menina do Mar, A Floresta, A Árvore, O Rapaz de Bronze no 2º Ciclo e ainda O Cavaleiro da Dinamarca no 3º Ciclo. A par de outros autores, entenda-se.

Mas a publicidade sempre esteve mais ao serviço dos que sabem usá-la e as desigualdades de oportunidades sucedem-se, isto sem pretender – nem por sombras! – desmerecer a qualidade de uma autora, de uma poetisa, deste gabarito (saiu a talhe de foice, foi o mar que a trouxe aqui) e de outros que lhe sucedem. Sempre me pareceu despropositado o excesso de obras dum mesmo autor para leitura recomendada, tendo em vista o universo alargado que felizmente existe de literatura infanto-juvenil.

Nesta linha de pensamento surgem alguns bons escritores contemporâneos que se debatem por “um lugar na frente”, ofuscados quase sempre por uma implacável máquina publicitária que impõe a massa informe de literatura de consumo corrente. Como o vinho: misturado, mas serve, haja o que beber.

Aquietem-se porém os escritores dignos desse nome que deixam a marca sentida do seu testemunho em letras que honram a nossa língua. Por entre o nevoeiro espesso da manhã, o sol vai romper. Melhor. À hora em que o ardor da chama já não queima, num areal comprido em que as pegadas prevalecem ao vazar da maré.

Ainda há lugares como este. Sem casas brancas nem dunas.

Apenas falésia.



quinta-feira, setembro 06, 2007

Cantigas de Amigo


«…Bailemos nós já todas três, ai amigas,
so aquestas avelaneiras frolidas
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar…»


Airas Nunez de Santiago (séc. XIII)



Os pássaros da felicidade enfeitam ainda hoje a memória dos acontecimentos no Oriente, nomeadamente os vestidos de noiva na China. São na verdade magníficos na sua elegância estes grous sem coroa.

Também temos os nossos símbolos de ventura, amuletos da sorte, fascinação por alguma espécie de magia ou encantamento, independentemente da condição de cada um de nós. Benzer com o sinal da cruz a boca de uma criança que boceja, dizer «santinha» quando espirra, por exemplo, tem explicações que remontam a crenças antigas, e ainda as há por aí. Ainda digo «saúde!» a quem tenta perto de mim controlar um espirro, que os micróbios vicejam mesmo sem essas manifestações intempestivas.

Pois eu sou fã dos «lenços de namorados» indispensáveis nos enxovais da região do Minho, para darem sorte nos amores, bordados geralmente durante o pastoreio do gado pela rapariga apaixonada que ia transpondo para o lenço os sentimentos que lhe iam na alma em poemas, verdadeiras cantigas de amigo, escritas na repetição da oralidade. A rapariga passaria a usá-lo ao domingo na missa, no bolso do avental; mais tarde oferecê-lo-ia somente ao rapaz que amava como compromisso de amor, e este deveria usá-lo ao pescoço ou no bolso do casaco do fato domingueiro.

Os que conheço mais elaborados têm belíssimas bainhas abertas ao redor, tecidas em várias cores e quase sempre uma quadra de amor onde predominam os tons vivos e populares. Pássaros, flores, corações, chaves e coroas, pode dizer-se que são os motivos que os adornam repetidamente, sendo alguns bordados num único tom. Actualmente retomado o gosto pelos «lenços de namorados», é usual enfeitarem paredes de salas mais íntimas, devida e singelamente emoldurados.

Eu gosto de bordar, gosto de linhas e cores e passo muito do meu tempo – agora mais longo – de agulha e dedal, às vezes bastidor. Invento lenços de namorados que disso não têm tudo. São marcadores, com datas, com ditos, com nomes, com gregas e galões, mantenho os símbolos da chave do amor guardado, mia senhor, meu rei. É certo que os tenho feito apenas para os amigos, as amigas, personalizo cada um, se o desejam. Não faço dois iguais e tiro prazer disso. As férias acabaram, o calor já não deixa suar as mãos.

Deixo aqui o último que fiz para o meu querido amigo, o meu «filho» mais novo que é um pingo de ternura. Este é oferecido para a sua casa nova, aqui perto, no casal, em tons a condizer com o ambiente que ele criou. Embora singelo, sei que vai gostar.



domingo, setembro 02, 2007

En Attendant Godot

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [...]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos [...]

Guerra Junqueiro




Vai mais de cem anos, o nosso país era assim caracterizado por quem pertencia a uma elite de pensadores que deixaram marca na nossa história literária. Seria exagero, mas um crítico que se preze caricaturiza, para além de redigir meros aspectos da realidade que lhe dói.

Um bom escritor é tanto maior, quanto as suas palavras possam parecer ainda reais, séculos volvidos; é sinal de que os seus olhos viam para além das aparências, tocavam mais fundo na alma dos povos. Daí a perenidade de Camões, a eternidade de Pessoa.

Tenho entre mãos uma obra de Rocha de Sousa, um livro que vou digerindo porque não cabe numa refeição só. Do que conheço de sua vivência – seus blogs, pintura, desenhos, fotografia, escritos – o autor está lá, nas sucessivas referências à pintura surrealista – Magritte, Magritte, que, ao que sei, não se queria nessa gaveta – saltos pontuais mas repetitivos a fagulhas de guerra em África, referências a Camus e Sartre e Beckett, na pele de um narrador em procura de resposta sem réplica da presença de Deus em quadros sucessivos de Hieronymus Bosh, como ele em virar de século.

A escrita é impetuosa, fluente, a parte formal lembra António Lobo Antunes. Não só. As referências ao período de guerra, o horror dos hospitais para dementes que – ao que conheço, não li toda a sua obra – Lobo Antunes apenas aflora e Rocha de Sousa descreve com todo o realismo, com a segurança de quem fez o trabalho de casa, com intensidade e sentimento.

Estou a ler « A Culpa de Deus» na hora certa: quando são reveladas as cartas de Madre Teresa de Calcutá – Diga-me Padre, porque há tanta dor e escuridão na minha alma? – e eu me pergunto se é lícito divulgá-las, quando ela tinha deixado expresso que as queria destruídas, embora o seu conteúdo venha acrescentar a minha paz.

Vou continuar a ler. Até aqui, partilho as considerações sobre o livre arbítrio, as decisões que cabem a cada um de nós para que se cumpram os limites que impomos a nós próprios.

Aquilo a que chamo dignidade.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Sinais

Eu vigio a minha permanência na terra,

leito eficaz para cada um engrandecer

diariamente. Não posso portanto permitir

que alguém, de quem não considera este clarão

diáfano necessário à compreensão,

queira incutir no espírito humano

a ideia de uma essencialidade colectiva

desenraizada daquele fundo com que cada um

se torna essencialmente em ocasiões únicas

o ordenador de rosas registadas por sinais.

Fiama Hasse Pais Brandão




O mar é sempre aquele esplendor, misto de beleza, domínio sobre a areia que move a seu bel-prazer, sobre as rochas onde se quebra e revolta e vai e retorna e não desiste no seu bailar de força e submissão. Em dias de vento, longe, longe, encaracola e desliza em cabeleiras de espuma, corre, corre até à areia que o espera para os abraços e requebros qual dança de salão, abrindo as saias em rodopios, em sons e suspiros de compasso nunca esgotado.

O mar atrai e mete medo a um só tempo. Deve ser atávico o chamamento da água, quem sabe a ancestralidade da nossa vocação marítima, nem só os descobrimentos, antes, muito antes Ulisses, antes muito antes os Fenícios, antes muito antes e sempre e sempre o líquido amniótico.

«Eu vigio a minha permanência na terra,

leito eficaz para cada um engrandecer

diariamente.»

Olhar só por olhar, o mar engrandece e enobrece tudo. A alma, o espírito, os sentidos, até os ócios, as vontades, as mágoas, as saudades. É um leito macio que embala só de olhar as ondas. O tempo passa e o mar permanece porque é eterno o seu marulhar escutado no búzio malhado, é eterna a volúpia a afagar os corpos, será eterno o prazer de velejar, de cavalgar a onda, de desvendar as profundezas, tão só de mergulhar e conhecer segredos guardados pelos séculos.

É um tálamo fecundo para quem é temerário.

«Não posso portanto permitir

que alguém, de quem não considera este clarão

diáfano necessário à compreensão,

queira incutir no espírito humano

a ideia de uma essencialidade colectiva

desenraizada daquele fundo com que cada um

se torna essencialmente em ocasiões únicas

o ordenador de rosas registadas por sinais.»

Nem todos sabem ler os clarões que diviso diáfanos, quem sabe os vejam velados, toldados pela razão dos dias, sem a razão dos séculos entretanto guardada nos fundos da memória. Espanto-me frequentemente com o caminhar do sol, com a volta da lua, com o céu carregado, que num repente se rasga em luz, destapa em água e sorri num – quantas vezes dois! – arco-íris.

Nem sempre soube ler os sinais; continuo a procurar a mestria.

Sei que eles ocorrem no tempo certo.

Como as rosas sempre florescem.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Ouvir a Paz

«Tristeza é notícia? Tanto eu tinha um aperto de desânimo de sina, vontade de morar em cidade grande. Mas que cidade mesma grande nenhuma eu não conhecia, digo. Assim eu aproveitei para olhar para a banda de donde ainda se praz qualquer luz da tarde. Me lembro do espaço, pensamentos em minha cabeça. O riacho-cão, lambendo o que viesse. O coqueiro se mesmando. A fantasia, minha agora, nesta conversa – o senhor me atalhe. Se não, o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade.»

João Guimarães Rosa




Também é preciso saber ouvir a paz.

A paz que se abeira com a noite quieta, morna, sem brisa, deste Estio que nos chega moderado.

A meio da noite, a lua consegue chamar a si a atenção por entre os focos de luz com que os homens quiseram destroná-la. Mas ela impõe-se já, na luminosidade branca que nos seduz. Só as estrelas se apagam quase; só a Estrada de Santiago se envergonha diante do progresso. E é pena. Olhar o céu na noite é o ioga dos campesinos, dos pastores, dos simples: «le jour, c’est la vie des êtres; mais la nuit, c’est la vie des choses». E que coisas bonitas sabem…

Quase não passam carros. Ouve-se o ladrar muito longe, que os lebréus dos casais dormem tranquilos na soleira das portas. O casebre defronte guarda os segredos da desventura de mais e menos jovens que apostam a vida numa jogada em que já estão a perder.

Mas ouvir a noite, aspirar o silêncio, olhar o carvalho majestoso, o pinheiro inclinado pelos ventos, as oliveiras que ainda permanecem, sentir a relva nas mãos, o pêlo macio do companheiro fiel, não pensar para além de tudo isto, é parar para sentir a vida, na água que cresce nos olhos.

É ter capacidade para ser feliz.


domingo, agosto 12, 2007

Riqueza

Amanhã chegam as águas.

– Ti Chico, mas isso foi noutro século!

– Pois foi! Que idade julgam voceses que teria o pai de meu pai se fosse vivo? Que idade julgam voceses que eu tenho?

É verdade. O Ti Chico é mais velho do que podemos supor assim à primeira vista, a olhar para o seu corpo ainda rijo e… enxuto.

Talvez por isso não tenha querido as guelras. Prefere a injecção e escreveu isso – com um X – no quadradinho respectivo. Que está demasiado velho para se reciclar em peixe.

Muitos velhos preferem a injecção. Pode parecer macabro, mas a Comunidade viu-se obrigada, por razões de pragmatismo e também de respeito pela escolha individual, a implementar esta forma, o mais indolor possível, de as pessoas dos povoados a submergir perderem a condição de vivos, em absoluto, e não apenas a condição humana, ainda que apenas num plano parcial. Que posso eu dizer? São escolhas. Apesar de tudo, a alternativa entre a operação e a injecção ainda é uma das provas de que a Comunidade é uma sociedade livre.

– E o que eu ia fazer para debaixo d’auga? – resmunga o Ti Chico – só ia empatar – acrescentando: – Ao menos assim sei o que me acontece.

Rui Zink


Uma semana longe da casa lusitana, bem aqui ao lado, pelas calles da capital, chegou para ouvir com mais realismo o fado português.

Parece que a música e o folclore revelam bem o espírito de um povo: desde o samba no Brasil, onde o fado nem sempre foi (nem é para a maioria) auspicioso, ao bailado flamengo que passa a quem assiste – mesmo perante a intensidade dum dedilhar de guitarra e uma voz dorida clamando a dor – uma entrega ao movimento, ao silêncio que se mantém até o apelo para as palmas e o incentivo que surge da plateia a louvar a garra do sapateado.

É verdade que ali se abre o telejornal com a notícia de que a Espanha está em alta na economia – como todos sabem, diz a locutora com um sorriso – e em Portugal uma notícia de melhores perspectivas se anuncia logo com dúvidas implícitas, de cara fechada – parece-me que isso faz a diferença. Em Portugal vive-se mal, todos sabemos, cada vez pior (alguns cada vez melhor, assim acontece também nas guerras) mas não me recordo de ver mais alegria nos rostos quando houve o bodo aos pobres nas últimas décadas do século passado.

Voltando à música, felizmente o fado tem seguido em frente com outros contornos de que podemos orgulhar-nos, mas o folclore português é pobre de movimentos, austero, monocórdico, fechado, do vira nortenho ao corridinho algarvio fica-se pela beleza dos trajes, quando existe. Parece que lhes falta a alma.

Diz António Barreto, com propriedade, que a riqueza em Portugal é escondida, as pessoas querem ser moderadas no gesto, manter uma aparência humilde, cultivar a modéstia à boa maneira de outros tempos.

Não ostentar, sequer o riso.

Pois eu gosto de sair e olhar a diferença, reconhecendo a minha ânsia de espaço, não só de quintal mas de bosque, floresta, rio, mar. Gosto do meu canto, da minha sala, da minha casa, do meu país. Acho-o lindo. Mas precisa de mais alma. Terão sido os anos da ditadura que nos marcaram e a marca de água permanece para além da imigração que aceitamos por vezes à boa maneira colonialista, da emigração que continua a verter o sangue arterial deixando o venoso circular nas veias esclerosadas.

Pelas calles (de las Huertas), pisam-se pomares de Calderón, de Vega e Cervantes, em letras de ouro; mantém-se a traça dos edifícios e mora gente na cidade antiga; o Prado aparece nos varandins do Paseo, que não se fez avenida. A água e o frescor das árvores cortam o excesso de calor no Verão e os teatros enchem-se à hora certa. Em época baixa, os Espanhóis acorrem a Madrid com as crianças pela mão, para que conheçam o seu país e a sua História.

Em Portugal, a escassos 100 km da capital, os alunos das escolas esperam que os professores os levem aos Jerónimos, à Torre de Belém, ao Panteão, quando semanalmente acompanham os pais à «catedral» da Luz, onde passam o dia no «mosteiro» de Colombo.

Nós temos tudo o que eles têm. Mais ainda, desculpem a imodéstia.

Falta-nos saber clamar a nossa riqueza!

sexta-feira, agosto 10, 2007

Regresso



A vida, como a morte, é uma contingência. Acontece. Uma mescla de sorte, agilidade e colocação conveniente na grelha de partida, fez de cada um de nós o espermatozóide vencedor. Depois tudo aconteceu, tudo acontece em função de condicionantes cuja opção consciente é demasiado humilde para ser tomada em conta. É a gota no mar, o ar na espuma, o planeta no cosmos.

Voar baixo, rente ao chão, não chega a dar prazer. E é arriscado. Tão perigoso que a Java que vive em mim foi alvejada e deixou de voar.

Não tem qualquer importância porque todos estamos condenados à morte, como bem disse Meursault no seu último dia. Como ele também, ela estava inocente na sua pureza, ela não mentiu nunca, ela foi dona de todas as sensações que poderão ter sido inusitadas para quem olha de cima, de fora, do lado, mesmo de muito perto, mas não sabe entender a enormidade, a complexidade da condição humana quando se trata de ligações umbilicais que passam por afectos, por admiração, deslumbramento, respeito, temor sem dúvida, de uma ligação que elimina as distâncias e se concretiza em vibrações para além do real.

Mas doeu a injustiça do tiro.

Como doeu a notícia com que me recebeu o meu país, hoje estampada nos dois semanários que leio regularmente, da demissão de Dalila Rodrigues, a mulher valorosa que conseguiu dar o relevo merecido ao MAA, o Museu dito das Janelas Verdes porque era dele o que mais se via quando se passava junto ao Tejo… Logo agora, quando venho de um mergulho na vida cultural madrilena, deslumbrada com o Centro de Arte Rainha Sofia onde encontrei uma sala exclusivamente ocupada com a projecção de arte visual em língua portuguesa!

Que fazem as mulheres da política no meu país?

Que fazem as ministras da Cultura e da Educação?

O contributo que eu esperava das mulheres na política do meu país, é tudo aquilo que lhes falta: sensibilidade, rigor, justiça.

Ainda bem que nos vamos dando conta: não há homens nem mulheres; há pessoas, mais ou menos competentes.

O nosso Primeiro Ministro teve azar com as mulheres.

Apenas isso.