Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.
A branca areia de ontem está cheínha de alcatrão.
As dunas de vento batidas são de plástico e carvão,
e cheiram mal como avenidas, vieram para aqui fugidas a lama, a putrefacção.
As aves já voam feridas, e outras caem ao chão.
Mas na verdade, Rosalinda, nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda, envenenado, a desmaiar, o que mais há desta aridez.
Pois os que mandam no mundo só vivem querendo ganhar,
mesmo matando aquele que morrendo vive a trabalhar.
Fausto

O prémio Nobel atribuído à causa nobre do ambiente parece vir repor em primeiro plano o que vinha sendo demasiado esquecido, principalmente pelos grandes do mundo. O homem que foi preterido para a Casa Branca – ao que parece, algo indevidamente – em favor de uma personalidade controversa no seu comportamento perante as sociedades vigentes, veio dar a razão ao povo de que, afinal, Deus escreve direito por linhas tortas.
Al Gore, se estivesse à frente do comando de um país que continua a dar cartas pela força do dólar, não teria tido tempo de empenhar-se em conferências, em livros, em filmes, em viagens contínuas por uma causa que interfere com a sobrevivência da humanidade. Na verdade, alertar a opinião pública para o aquecimento global, quando os factos surgem cada vez mais próximos, cada vez mais urgentes, em face do afastamento das maiores potências industriais do Protocolo de Quioto, obrigar a acordar para a preservação do meio, para a defesa do ambiente, foi um passo memorável.
Sem que se possa considerar já um reflexo do que é referido acima, acabo de ler a divulgação de uma iniciativa da revista Visão que irá emitir uma publicação ainda este mês, denominada VISÃO VERDE e vai estar na base de entrega de árvores aos municípios, anunciando oficialmente a plantação de um milhão de carvalhos, só na Serra da Estrela. Nada poderia vir tão a propósito. Aqui, como sempre, vai faltando o apoio estatal para a proibição – leram bem palavra, sim, numa altura em que tudo se controla, controle-se pelo menos o que se deve – de plantação desenfreada de eucalipto, uma árvore que todos sabemos não fazer parte da flora natural da Península, uma árvore que esgota rapidamente as reservas de água num país sobre o qual pende a ameaça de desertificação, uma árvore que propaga facilmente os incêndios. Também propaga o dinheiro mais rapidamente, mas para nosso bem e dos vindouros, nesta altura «outros valores mais altos se levantam».
O homem que inventou a dinamite, continua a dinamitar consciências.






