quinta-feira, abril 28, 2011

Realidade


Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas, ama as tuas rosas.
O resto é a sombra de árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos do que nós queremos.
Só nós somos sempre iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues. Ela nada pode
Dizer-te. A resposta está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo no teu coração.
Os deuses são deuses porque não se pensam.

           
Fernando Pessoa (Odes de Ricardo Reis



 


terça-feira, abril 19, 2011

Planar com os ventos

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos»

 
A chuva dedilha lá fora a toada da noite cansada das vergastadas do vento e da chuva, dos gritos saídos das nuvens em clarões de luz ecoando depois em golpes em ondas de sons que se desfazem e somem no espaço longe. Tudo o mais se aquieta e procura refúgio ao troar da natureza ameaçadora, sabendo que a fúria se apaga em ternura na chuva mansa a acariciar as folhas, a escorrer pelos caules, a sulcar a terra e a alimentar as fontes.

Quem dera que a alma humana bebesse o húmus desta certeza e perdesse o medo. Quem dera que nela a escuridão se tornasse dia, ainda que as tempestades se abatessem, que os trovões ribombassem, que os raios ferissem o olhar de assombro, temor que fosse. Mas breve, logo o coração batendo com força e depois mais lento e leve, leve como as gotas que pingam e reflectem já o sol em diamantes puríssimos de múltipla cor.

Mas o homem é um ser feroz porque a sociedade lhe cravou a marca da impureza e ele não consegue libertar-se. Também não quer. Ou talvez não queira. É mais fácil embebedar-se nos males do mundo cavando-os mais, afundar-se na droga para não ter medo do que não existe para além da sua imaginação, em vez de simplesmente planar aproveitando os ventos altos da escrita. As palavras bastam para aquietar as emoções, o bico passando a lavar, a alisar as penas na lagoa tranquila, as primaveras chegando em cada novo ciclo, em volta procriando, os novos seres abrindo.

Já cruzou o mundo, arrostou as tempestades e remou nas galés. Agora há outros navios e outros mareantes, deixemo-los velejar.

É tempo de olhar em volta, saber colher os frutos.
E que belos são!

quinta-feira, abril 14, 2011

As palavras e as rosas



Queria deixar uma catedral de palavras e dou-me conta que a catedral não tem fim. Queria arredondar o edifício, fechá-lo, e dou-me conta, desolado, da impossibilidade desse fecho, dada a inevitável limitação da vida. Não morrerei satisfeito, morrerei com a dor de não ter tido tempo.. Construirei uma obra mais duradoira que o bronze, afirmava Horácio: isso julgo que consigo. Ou Ovídio: hei-de sobreviver ao tempo, ao ferro e ao fogo: isso acho que também consigo. Porém desejava mais do que isso: uma música sem fim, uma sinfonia total. Decerto o que digo é a frustração de todo o artista e o inevitável destino da condição humana.

António Lobo Antunes in revista «Visão» 7/Abril


 Rendo-me incondicionalmente ao esplendor das rosas.

Para além da beleza, para além da pujança de cada planta a explodir em rebentos de folhas, de flores, gemas ainda verdes, depois divulgando a cor, abrindo em botão, o odor da rosa aberta e ainda por fim desmaiadas, as pétalas desprendidas, marcadas, queimadas pelo sol, a sedução permanece.

Como as palavras que se constroem em edifícios e se asseguram mais perenes que o bronze, é preciso que a condição humana não se altere na submissão à matéria, porque só o espírito pode manter vivos os imortais desta estirpe. O bronze nem é um metal puro, é uma liga baseada em dois metais macios que, ligados, fundem as cores e originam a força e a perenidade do bronze. Passam pelo fogo. As palavras passam pela educação do espírito.

É preciso que se escreva, e se escreva bem.

É preciso que se passe alguma mensagem, é preciso que se registe a História das gentes, muitas vezes é preciso que o tempo passe, como o fogo passou pelo estanho e pelo cobre, antes de ser bronze. Agora, é preciso que aqueles que fundem o bronze saibam construir com ele a estátua, e para saberem construí-la, é preciso que a conheçam bem, que lhe notem o gesto e o tom, que lhe conheçam os músculos e as rugas.

Então teremos uma estátua, uma catedral, e não importa que não esteja terminada. Gaudí deixou a catedral de pedra inacabada e não lhe tirou beleza, as capelas imperfeitas do Mosteiro de Santa Maria da Vitória não impedem de celebrar a Batalha.

terça-feira, abril 12, 2011

Um Inquieto Acontecer

Não é propriamente um romance, mas um longo testemunho, de quase quinhentas páginas, entre a crónica e o diário, sobre a guerra colonial. Embora muito bem escrito, por um pintor e excelente crítico de arte, Rocha de Sousa, falta-lhe talvez vibração e arte literária para ser o texto fundamental que poderia ser sobre a monstruosa e tão dramática aventura que tantos portugueses viveram e que os marcou para sempre. No entanto, está lá todo o essencial: a chegada das tropas a Luanda logo no início da guerra, em 1961, a escassez de tudo, o tempo do marasmo e o tempo do horror, os feridos e os mortos, a tortura dos guerrilheiros presos, o seu silêncio sobre o que não deviam dizer e o modo impressionante como tratavam por «meninos» os jovens oficiais milicianos da tropa portuguesa. Há a saudade da mulher amada, as histórias dos soldados, o medo das minas e os estropiados. Há a habituação a tudo, o desprezo pela retórica bélica do regime. Há o bom senso. Há neste livro uma honestidade absoluta.


Urbano Tavares Rodrigues, 1999

sobre «"Angola 61: Uma Crónica de Guerra ou a Visibilidade da Última Deriva»


Os dias sucedem-se amenos numa natureza quieta, a primavera enchendo tudo de verde e colorido, enquanto do outro lado do mundo a terra treme continuamente e os homens tentam em vão emendar os erros cometidos, erros que irão afectar todos nós, mais tarde ou mais cedo.

Mas por aqui a hora é de vésperas e não é justo sofrer por antecipação,
que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                (Enlacemos as mãos).

Vai ser lançado mais um livro de Rocha de Sousa, «Talvez Imagens e Gente de um Inquieto Acontecer», para mim a quinta obra sua lida, depois da que vem citada na abertura deste post, numa recensão de Urbano Tavares Rodrigues.

E porque estarei presente no lançamento e a bondade do autor e do editor me estenderam um tapete de responsabilidade, sinto agora aproximar-se uma leve inquietude na hora do acontecer.

sexta-feira, abril 01, 2011

A tarde chega devagar



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios, a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa
 

 Por vezes os laços desenrolam-se, desmancham-se, desfazem-se, e dois fios pendem sem alma nem vida escurecidos do tempo, do pó, do abandono.

Quando são rudes e bem laçados, duram muito, muito tempo. Se de matéria mais fina, sedosos, desmancham-se mais precocemente, deslizam sem que se lhes toque, formam um nó e descem em fitas brilhantes, misturam-se aos tecidos leves que os rodeiam, embrulham-se neles mas resplendem no brilho da seda, tocam-se, brilham lado a lado, um mais longo outro mais curto, um mais acima outro mais abaixo, mas um nó cego os mantém juntos lá no alto.

Como os afectos ecoam pelos anos, laços desfeitos, vidas perdidas, lembranças vagas, esporádicas e um dia um clarão acende e afinal nos entendemos na mesma linguagem que um dia aprendemos na escola.

Eu vou continuar a olhar o pôr do sol atrás dos ulmeiros, dos eucaliptos altos, dos pinheiros que bordejam as praias ainda, vou ver o sol esconder-se no mar do Oeste sabendo que ele brilha ainda alto mais além, onde o coração mora, do outro lado do oceano. Vou continuar a sonhar as pedras da Ilha, imbondeiros de múcuas pendentes, cafezeiros vestidos de noiva ou de vinho, anharas secas e morros crescendo em direcção ao céu.

Afinal tudo muda sem apelo nem agravo, tudo gira e eu não comando. Só sei que o sol é o mesmo, o céu igual, mais azul, menos azul, e a luz cá dentro, cada vez mais mansa, a querer chegar à noite.

sexta-feira, março 25, 2011

Flor de Sombra

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.



Fiama Hasse Pais Brandão



A ameixoeira floriu. Foi o sol, o calor, o seu tempo de repouso chegando ao fim, chegando a dizer da primavera, a lembrar a fruta nova que o verão traz consigo no ventre.


Já se ouve o melro em toadas nos dias mais quentes, os passarinhos novos procurando lugar para os ninhos nas roseiras que se cobrem de folhagem brilhante e fecham o gradeamento.


Mas a floração é breve, breve a brancura porque as folhas despontam e a pureza foi-se.


Assim tudo se repete, uma a e outra vez, quantas primaveras, quantas folhas caídas, quantos anseios, ternuras, abraços e logo depois a lonjura a separar os continentes, as vidas.


Quero ainda acreditar no amor como um direito à vida mas os anos marcam o pensamento e creio no amor como um dever dela para que os mundos se repitam, não um amor de exaltação mas um amor de beatitude que contém a lucidez para suportar a rigidez do inverno, a falta de folhas nos troncos retorcidos, a seiva correndo com força por dentro, cada vez mais densa, cada vez mais dependente das raízes fundas, a encontrar nelas alimento novo.


Mais uma flor abriu. Há-de ser uma violeta.

quarta-feira, março 02, 2011

Quatro Mãos



… Morei numa casa velha,
Velha, grande, tosca e bela,
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de Sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos…


José Régio in «Toada de Portalegre»


 Pintura de Rocha de Sousa


Em passos mansos, eis chegado Março cheio de sol, temperatura amena, a trazer o Carnaval a desoras, a dizer da Primavera que nasce.

O dia fica aberto mais tempo, preso às camélias, às magnólias, ao cheiro forte dos jacintos. Os pessegueiros já coram, em breve as amendoeiras, as cerejeiras, as ameixoeiras se vestem de noiva a anunciar os frutos que virão.

Não é para mim um Março qualquer. Será com certeza um Março diferente dos anteriores, e eu afinal deveria estar exultante por abrir os olhos de manhã e ver o sonho ali à minha frente: o céu azul vibrante, os pássaros as borboletas as flores o rio as tempestades, a casa grande dominando tudo.

A casa grande que ruiu e se desfez em pó, donde emerge agora o espírito a atravessar vidas, a unir vidas em cores e palavras.

Eu olho e sinto. Inquieta.

domingo, fevereiro 20, 2011

Passos de dança

O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade


Talvez a chuva nos dê uma trégua neste domingo que acorda, uma trégua à magnólia para que as flores se encham de sol, uma trégua a mim para que tudo se aquiete, uma trégua a todos os que precisam de retemperar forças para iniciar mais uma semana de trabalho. Afinal o domingo é dia de descanso, assim foi para o Senhor que nos criou, assim reza a Bíblia, o sétimo dia.

Mas os Homens são mesmo complicados na interpretação das coisas ditas sagradas e o sétimo dia tem que se lhe diga. Objectivamente, linguisticamente falando, os portugueses descansam no primeiro dia, pois amanhã já é o dia segundo de feira. Se quisermos extrapolar e ir por aí fora, isto diz muita coisa acerca do nosso povo. Este povo múltiplo onde cada um se rege como cada qual e onde todos se vão entendendo, diga-se em abono da verdade.

Acerca dos dias de folga semanais, recordo bem uns vizinhos dos tempos de infância, cujo filho andava no colégio comigo, foi meu colega de carteira em algumas aulas onde os alunos eram colocados por ordem alfabética, ele chamava-se João Emílio. Nunca ia às aulas ao sábado, era-lhe permitido devido à sua religião, era protestante, e o dia de descanso para a sua família era ao sábado, não ao domingo. E eu sei bem que era um descanso levado a sério, porque a empregada da casa passava o dia no fundo do quintal a costurar, a fazer as coisas dela, porque em casa não lhe era permitido fazer rigorosamente nada, a louça acumulava-se numa enorme bacia dentro de água para ser lavada no dia seguinte, supostamente o dia de descanso da empregada que professava o catolicismo.

Afinal, gerir os comportamentos e as liberdades de cada um nem sempre é justo para todos, nem sempre é fácil, muito menos se todos quiserem tomar ao pé da letra tudo o que se faz ou diz. Há que dar corda ao pensamento, dar conta que a tolerância é a pedra com que tudo se constrói, é a batuta que rege os comportamentos, os afectos, tanto mais fácil se estes estiverem realmente bem treinados e os instrumentos afinados pelo respeito pelo outro.

domingo, fevereiro 13, 2011

Desligar

Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano

Ruy Belo in «País Possível»



A Primavera espreguiça-se já pelas manhãs soalhentas, chuvaradas lavando os telhados, a acender mais o verde das folhas, semeando de brancura os campos, os dias de luz mais comprida.

Às vezes é preciso cerrar as portas do armário onde o mundo espreita e insiste em mostrar a face mais dura, a mais amarga, a mais insana, a mais inútil quantas vezes. Os telejornais das oito perderam a noção do que é, ou deve ser um noticiário. Espalham-se por longuíssimos minutos numa abertura sangrenta, violenta sempre, em dias seguidos repetem as mesmíssimas imagens recolhidas,  os mesmos comentários dos locutores, alguns num entusiasmo que chega a ser mórbido.

Queremos saber, sim, o que se passa no mundo, queremos saber a evolução do que vai pelo Egipto, pelos países árabes, mas eu, pessoalmente, não quero esperar uma longa meia hora até ouvir falar do país que é meu, ainda que dele apenas ouça os casos de faca e alguidar, as palavras pouco edificantes trocadas entre os seus mais altos representantes, raramente exaltar o que também vai surgindo aqui e além, pela Cultura, a Ciência, as Artes.

Resta a palavra escrita, onde por vezes surgem ideias que me surpreendem pela positiva. Fechar por um dia as portas ao exterior, não sair de casa. Imaginar que vivemos num país rico, onde não há necessidade de mendigar dinheiro pelo mundo (pedir fiado, dizia-se nas mercearias dos tempos antigos, pôr no prego o país, mais duramente), onde há condições básicas de saúde, onde se pratica uma justiça em que os corruptos e os pedófilos sejam mesmo punidos, onde a educação e o estado social não permita que os idosos permaneçam sem vida nem sepultura durante quase uma década, onde há emprego para todos, onde não há sopa dos pobres, onde as crianças vivem em segurança, respeitam os mais velhos e são respeitadas. Um país em que se saiba pensar e aceite organizar-se com vista a um Futuro para todos.

É fácil ser feliz por um dia, embrulhar o pensamento na magnólia que floresce, nas camélias, nos pássaros que pedem comida, nos jogos do PPP. E no resto.
É preciso, para respirar.

domingo, fevereiro 06, 2011

De mãos dadas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina


Olharmos o mar de África de alma dada, numa quietude de infância das vidas.

Sérios, medrosos, compondo agora os tijolos caídos depois da derrocada, nos ouvidos os sons repetidos das G3, helicópteros rendando os ares como gafanhotos de ficção a poluir o horizonte.

Nada voltou a ser igual.

Olhar as imagens nas máquinas inventadas pelos homens trazem assomos de ternura, pulsar mais sentido nas veias, arrepios de saudade e dor misturadas, humedecem os olhos, mas o que foi já não é e não se volta aos lugares que se amou.

São os lugares que guardam as memórias, são os lugares que acendem os sentidos, são os lugares que fazem a história de nós.

Mas os lugares são povoados de gentes que já não estão, e isso muda tudo.  

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Respirar


Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios, a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa


 
Às vezes o tempo passa mais devagar, assim como que um balão enchendo-se de ar pela boca de uma criança. Sabe-se que vai crescer e voar bem alto se o não prenderem, mas em qualquer momento sabemos que vai rebentar.

Entretanto enche de alegria os olhos pelo colorido, a leveza, a transparência e a forma. Redondo como a lua, como a terra, como um planeta pequenino onde cabem todos os sonhos de uma criança. Até o sonho de querer subir alto com ele, como ele. Sem medos. O pulsar apressado nas veias não é de inquietação, é de excitação e alegria.

Em tempos gratos de pausa conseguida, tudo acontece devagar, como as manhãs abrindo nas madrugadas de bruma, a luz coando pelo nevoeiro, o silêncio esquecido da noite quebrado já pelas poeiras do ruído que cresce. Seja o chilrear dos ninhos, o bater das asas, a codorniz fugindo, o rastejar dos bichos, o cão parado de pata erguida à espera do que não acontece, o tiro que não ouve. Ainda.

Seja o barulho dos carros com gente dentro, correndo em fúria pelas serpentes de asfalto, gente cansada, gente com sono, gente fazendo a barba, pintando os olhos, os lábios, gente de telefone na mão em despedidas que não fez, em recomendações atrasadas, em promessas adiadas.

Gente que não tem tempo para olhar a mão pousada àespera de um afago.
Gente que deixa passar a vida sem ver.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Dificuldade

A torre albergava sinos que dobravam aos domingos.
Tínhamo-nos enganado rotundamente sobre  a amnésia de Albi. Estranha e assustadoramente, a Catedral de Sainte-Cécile nunca irá permitir que os habitantes da cidade se esqueçam das suas ligações com os Albigenses. Erigida entre 1282 e 1392, esta construção é um compacto ferrabrás que amesquinha e domina os seus vizinhos. Não existe um transcepto; assim, a igreja nem sequer  possui o formato redentor da cruz. Durante séculos, apenas teve um pequeno portal. Contrariamente às outras grandes catedrais de Paris, Chartres, Reims, Bourges, Rouen e Amiens, não havia desordenados mercados sob as altaneiras abóbadas de Sainte-Cécile, nem peregrinos a ressonar dormindo pelo chão, nem bostas de gado para limpar ao chegar a manhã, nem amplos portais que  permitissem a entrada de ar respirado por homens mortais. O exterior da igreja era – e continua a ser – um monumento ao poder.
Stephen O’Shea  in «A Heresia dos Cátaros»

O poder corrompe.
Todas as variadíssimas e infindáveis sendas do poder, até o do amor. Nem há dito popular mais firme e mais enraizado nas profundezas de nós, pois faz parte da idiossincrasia de qualquer ser humano a ânsia de poder. Mesmo os mais simples, os mais ingénuos, os mais puros. As crianças procuram dominar desde o berço, com dias de vida. Faz parte da luta, da nossa luta pela sobrevivência.
Crescer significa adquirir consciência do poder que se desenvolve dentro de nós por cada ano, por cada degrau que se sobe na escada da vida. Crescer é ter a sabedoria de usar a lucidez para estabelecer os próprios limites e conhecer os limites dos outros. Dito assim, com a verdadeira percepção de nós e da missão que nos cumpre, nada é fácil. E só nos parece difícil quando temos noção da complexidade disso.

Assim, a vida decorre na fragilidade do acontecer, e na facilidade de deixar passar os dias, um sobre do outro. Todavia a hora de descanso acontece, ainda que raramente, porque o poder da vida é intenso, porque o poder de ser-se alguém – e nem sequer falo no poder mefistofélico do TER – nos faz esquecer a pausa devida para o equilíbrio, quantas vezes imposta por uma doença súbita do corpo. É preferível que aconteça por motivação sã da consciência, para que não se repita a construção de uma Sainte-Cécile, O Profeta pregou a igualdade, não a iniquidade.

Às vezes sinto-me um cátaro perdido no coração de Portugal.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Um passo em frente


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade


O sol chegou pela manhã a dar um ar de sua graça, mas não chegou para acender a Primavera.

Não a dos calendários, mas da natureza a encher os campos rasos de branco e amarelo, a abrir as magnólias antes do verde cobrir as árvores. Ainda é cedo. Por agora só o sorriso das camélias, esplêndido e breve como Marguerite Gautier, logo escurecidas pela humidade.

Os pombos passam, pesados, em grupos, o pisco cumprimenta de longe, o melro esconde-se nas madrugadas.

Mas a Terra gira sem detença em dois tons de volta, rotação e translacção, eu ainda sem acertar a órbita das palavras escritas como ditas, rasantes, sem consoantes escondidas a lembrar os ancestrais, as origens clássicas, mortas há tantos séculos!

O ano novo custou a abrir. Não sei se da chuva, se dos dias curtos, bisonhos, se do frio, se da falta das flores e dos bichos e da gente que eu amo e sinto longe. Se dos livros que não leio, se das palavras que não assomam aos dedos. Se das nozes que vão sobrando e dos dentes que vão faltando.  

Há dias assim, mas logo passam, como passam os sonhos, como passa a vida.
Às vezes devagarzinho.
 

quinta-feira, dezembro 30, 2010

O dobrar dos sinos

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

Alberto Caeiro in «O Guardador de Rebanhos»


Aldeia é um dos nomes bonitos da língua portuguesa. Como rainha. Como menina. Como Campolide, um nome que sabe bem dizer, embora eu não tenha uma referência muito correcta do seu espaço entre os bairros de Lisboa. Aldeia era a terra dos meus pais, de meus avós, era o lugar de que sentiam saudades e eu não conhecia. Onde se faziam as desfolhadas, se matavam os porcos, se faziam romarias e promessas de subir escadarias sem fim, onde se ia ao monte pastar as cabras, comer pão com azeitonas, pão com uvas, pão com figos. Liberdade para andar pelos campos, para comer apenas o que gostava.

Aldeia, eram os desenhos que a minha professora da primária fazia no quadro para ilustrar a palavra paisagem – ao tempo ainda considerado um galicismo. Aldeia, eram os livros que fui lendo de Trindade Coelho (Os Meus Amores), Eça (A Cidade e as Serras), Júlio Dinis, Aquilino e Torga.

Mas a aldeia cá dentro encontrei-a muitas décadas depois, quando aprendi a voz dos sinos. Os sinos tocam matinas, também as vésperas, repicam as aleluias, os baptizados e dobram nas manhãs dos Outonos gelados numa cadência, um lamento de alguém que partiu.

Havia uma igreja a encimar não mais de cem metros de rua – a Avenida da Igreja – e se enchia de povo, vestes escuras, passos cuidados, flores, terço ou chapéu na mão, e seguia em silêncio saindo do adro, a curvar ao fundo em direcção ao cemitério da aldeia.

Resignado, aliviado da vida, obediente, o morto segue o cortejo, entre as tábuas que lhe destinaram, quieto na sua última viagem sem retorno. Ao fundo, na esquina da rua, a nazarena que ali vende peixe fresco há quase 30 anos limpa as mãos ao avental colorido, ajeita o nó do lenço sob o queixo e benze-se à passagem do carro funerário.

Os sinos dobram e dobram, marcando os passos. 

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Discriminar, não vale!

São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Gonçalves Dias


Na minha comunidade, o meu clã familiar da Web, pede-se «briga» esta semana. Perto do Natal, quando se fala de solidariedade nem sempre cumprida, ou não cumprida simplesmente, ou cumprida por coacção, para proveito maior dos que menos necessitam (estou a falar obviamente das grandes empresas que aproveitam a época para auferirem lucros, descontos nos impostos, em nome dos necessitados – vá lá, sempre ajudam afinal! – com o dinheiro dos outros, o dinheiro que muitos nem têm), foi complicado encontrar a foto desejada para enviar.  
Para cumprir o meu dever de briga a preceito, precisava de ter a máquina a postos naquele momento certo, que é curto e breve. Não acontece, é claro, o tempo e a lembrança dela fogem, no mesmo tempo que sorrio e me espanto. Eu conto:

Na aldeia onde moro há gatos, como não podia deixar de ser. Há gatos e gatos. Há a gataria de bairro, que é livre e vadia, que briga e que grita pelas noites de cio, saltando telhados e muros em disputas de liderança a deixar marcas fundas de carnes rasgadas e olhos sem ver, antes ainda do inverno abalar. São malhados, coloridos, misturados de pêlos curtos e longos, esquivos, esguios, fariam um belo desfile de moda.

Depois há os outros gatos, os bem nascidos, os bem criados, pelo menos. Não são gatos nobres, siameses ou persas ou de outra estirpe de nobreza, mas são castrados, usam gravata ao pescoço, pêlo brilhante e bem escovado. Boa comida, bom trato, fazem deles uns burgueses bonacheirões. Nas redondezas há o Kido, o Mashroom, o Chatgris e um outro ainda novo, parece acabado de sair chamuscado de alguma lareira, coleira vermelha, brilhante, que se fica pelo telhado do alpendre a «ver as vistas», não vá o diabo tecê-las. Convivem aqui pelos quintais, visitam-se, andam aos pássaros, às lagartixas, correm para dentro de casa a qualquer ruído  anormal, de mais decibéis.

Pois há uns tempos, alguém abandonou por aqui uma gata listrada, uma tigresa linda, muito magra e ferida. Esquiva, assustada, foi ficando por onde lhe davam de comer e os meus vizinhos adoptaram-na, mas mora no quintal. Sabe bem quando eu saio a porta da cozinha, e logo salta o muro a pedir uma festa com uns olhos verdes de perder a cabeça. Quando não há Chatgris, bem entendido. 

Porque nenhum dos senhores burgueses a suporta: arqueiam o corpo, alteiam a cauda, crescem os pêlos e sopram. Qualquer deles o faz, nunca tinha visto antes. 

Ela simplesmente desaparece.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Procura

Olhava-me a desafiar-me, pensa, discute comigo, anda lá, a sua voz era suave e os seus olhos insolentes, diz-me são uns ateus, ardentes, contraria-me, anda lá, inteligentes, e tu, pensa, ouvi-la assustado e admirado: aquilo existia, Zavalita. Pensa: foi nessa altura que me apaixonei?

Mario Vargas Llosa in «Conversa n’A Catedral»

Foto oferecida por Teresa Deillot (Obrigada, Teresa!)

Não tenho a certeza de quando acordei para a consciência do amor à terra em que nasci. Quando procuro, quando olho para trás, parece-me que fui acordando aos poucos, como o dia esquentava nas manhãs frias de cacimbo atrás das perdizes, as nuvens de nevoeiro pousadas ainda nas faldas da serra do Andacá, depois o sol a abrir, a aquecer, a incendiar tudo.

Deve ter começado quando me empolgava com Eurico, nos morros do Calpe a responder ao grito Allah hu Acbar! de Tárique: «Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei contigo». Terá sido quando senti o meu chão tremer, a minha terra agredida no despertar da adolescência, terá sido quando pela primeira vez deixei que o oceano se interpusesse entre nós, quando aceitei mais tarde viver longe dela, e depois, um depois que não devera ter existido, quando a abandonei.

A paixão viveu dentro de mim escondida por muito tempo, por muitos anos de pudor. Foi sedimentando e sarando feridas abertas por lá, o tempo não é o nosso maior inimigo – discordo de ti, meu Camus! Agora, esse tempo que me cobriu de rugas e de cãs, trouxe serenidade às duas, à terra e a mim. A guerra insana parou, ficaram as lutas pequenas que mantêm, que dão sentido à vida.

Por vezes é bom olhar para trás, a saudade faz tudo tão bonito, tão doce, tão macio e suave ao toque! Pode escolher-se os caminhos, evitar os pedregulhos, as rochas que rasgaram a carne, esquecido já o sabor do sangue. E esperar que se cumpram os ritos.


sexta-feira, dezembro 10, 2010

(In) Segurança


"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."

João Guimarães Rosa

  
Um dia destes o céu bramiu, troou com fúria, acendeu-se repetidamente. Abriu-se em sopros assustadores e derramou-se em cortinas de chuva.

Quase assomaram os medos de outrora naquele desabar de água tocada por um vento feroz, entre ribombos e luzes que acendiam o mundo a um tempo.

Inconscientemente, a exemplo da infância longínqua, a cama parece ser o refúgio perfeito para a tempestade lá fora. Parece, não. Não é, porque tudo mudou entretanto. Já não há cobertores «de papa» para nos proteger dos relâmpagos, não mais a voz da Mãe a repetir Santa Bárbara! a cada trovão, não mais os risos do irmão para espantar os medos.

O medo agora é diferente, já não é por nós. É a consciência da segurança e do conforto, ao lado da precariedade dos outros, os sem-abrigo da sociedade que construímos com muros de betão a separar os homens, sem portas, sem janelas, sem poderem dar-se as mãos e contar os segundos depois do raio, até chegar o som do trovão.

Sobram os encontros da web, os facebooks, os twitters e os outros, mas a natureza que pulsa, benigna ou assustadora, não está presente.

E ela é parte de nós.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Esperança

Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-Ia não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem…

António Ramos Rosa

 A vida não é, decididamente, a preto e branco.
Há momentos de rara intensidade, de dor e impotência, de prazer que tolda os sentidos, riscados a carvão que se fixam com aqueles esquissos por mão segura que conduzem depois à obra final, onde se marcam com firmeza os verdadeiros contornos.
A vida é feita de cor e de momentos, não é sempre um lago tranquilo, antes um mar ondeado e vário sem cor definida, do azul ao verde, perdendo-se em cinzentos esbatidos de uma profundidade a que nem sempre acedemos, onde nos afundamos para o melhor e o pior.
Nada está bem ou mal, não há mentira sem fundo de verdade, menos ainda verdades sem remissão. Não há amor nem ódio, há desamor que se constrói em indiferença e esquecimento, há os contornos dos afectos que se enrolam em ondas, em rituais familiares que atravessam gerações, há as memórias a preservar. 
E finalmente há a esperança.
A esperança que nos faz ser eternos enquanto vivemos, porque nada se constrói quando o espectro do escuro nos tira o prazer de cada dia de luz. Como parece estar a acontecer neste país de sol, onde se vive de uma morte anunciada, como se a morte fosse o fim de todas as coisas, como se sobre cada fenecer não se erguesse outra, outra Primavera.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Pétalas de Outono

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade


 O vento sopra em desatinos arreliando as roseiras que insistem em dar flor. 

As pétalas pousam e esperam que o sol as queime ou a chuva as escureça e então se apertam ao chão que as abraça para renovar a terra.

Como o poeta canta, elas vivem o presente e dão cor às pedras, enfeitam o verde enquanto são viçosas.

Há tempestades no céu que se adivinham, mas por enquanto as nuvens vagueiam mansas entre pedaços de azul, de cor cinzento escuro mas debruadas a branco luminoso, em folhos brilhantes como saiotes reflectindo o sol.

Uma vez só questionar o futuro ou o passado, traz arrepios que o vento transporta. 

Assim, entre cinzas e escolhos, sejamos solidários, dancemos com ele.

domingo, novembro 14, 2010

Fidelidade

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem. 

Jorge de Sena


Muda a paisagem e o olhar é novo, desvenda-se o casario colina acima, não apenas de brancura, mas cores fortes quebrando a monotonia, lembrando os novos tempos e os novos gostos.

Não mais os choupos respondendo ao vento, dobrando-se em vénias, semeando brancura nas primaveras, não mais os braços vazios enfeitando as nuvens por entre a bruma nos invernos frios, apenas um choupo varrendo as folhas balouçadas pelo chão, quem sabe chorando penas e ausências.

Nem melhor, nem pior, apenas diferente.
Como por dentro tem de mudar o que quer manter-se inteiro, não mais a plenitude e a força, mas a dignidade que o tempo não apaga e segue escolhendo o caminho das pedras que afloram para a travessia do rio que não se detém, mau grado a poluição que lhe tira o brilho. Mas as rochas estão lá, de pedra, firmes, cada vez mais a erosão dos ventos fortes, das águas moendo as arestas lhes dá a doçura do toque, a beleza do arredondado, quantas vezes vestindo de musgo os tons de cinza e negro.

A fidelidade ao que somos é um suspiro de vida, é um refúgio de ternuras e carências, de lágrimas e de risos, é a escrita real da nossa presença no mundo, sem outro espaço que o de partícula no núcleo. O átomo, somos nós.


terça-feira, novembro 09, 2010

Marcas, marcos


E ao entardecer, quando se firmar no alto dos pinhais a tentadora coroa de nuvens, não abrirei o meu caderno de apontamentos, e menos ainda a Monografia. Ficou-me de emenda. Para a próxima terei o cuidado de escolher outra leitura, de preferência um canto de alegria. Um livro deste tempo e desta hora, que não traga a lagartixa na portada como um ex-líbris ou como uma pluma imposta sobre o granito.

José Cardoso Pires in «O Delfim»


Não gosto de ouvir o vento a bater nas janelas despudorado a silvar nas frinchas em assobios.

Ele é o arauto do inverno, traz a chuva e o frio, despenteia as árvores e verga-as, leva-lhes a roupagem deixando-lhes os braços nus. Inquieto e repentino, como vem assim desaparece, levando consigo as nuvens. Limpa o céu, deixa pousar o frio e a geada.

É tempo do vinho novo, das castanhas, das azeitonas para colher, que o Natal vai precisar de azeite para as filhós e para acender as candeias. É hora de trazer para casa as pinhas e a lenha para a lareira.

A preciosidade destas fainas vai-se apagando com cada geração que passa, os ventos do progresso levam as cinzas que repousam depois do lume. Não há forma de escapar-lhes, há que seguir com eles sob pena de sucumbir à solidão e ao atraso (?)
.
À medida que os anos somam, as encruzilhadas da vida retêm pegadas que ajudam ao caminho a seguir, assim saibamos ler os sinais.


segunda-feira, novembro 01, 2010

Louvor de Halloween

 


Quando eu vir vaguear por dentro da casa
o abeto que cresceu no bosque, hei-de
ajoelhar no soalho. Todas as coisas
comunicam entre si a totalidade das suas formas.
A mão que vai surgir do abeto apontará para mim.

Tenho de despir as tiras de brocado que envolvem as veias,
as cadeias de ouro dos rins. Deixar
que as unhas longas da árvore passem
entre mim e o imo dos quartos interiores da casa.

Se essa figura imponente, a árvore, me reconhecer,
vou interromper o que escrevo, esperar ansiosa
atracção que a insónia desse vulto
há - de exercer sobre mim. Rodo
até à tontura da morte.
Torturo-me
até à alegria. Encontro na casa
o tema da despossuição e a agonia.

A pobreza antiga com que o corpo cai
para uma vala. Preso apenas às pérolas
que tinem nas orelhas. Dante deixou-nos resvalar,
com os cânones clássicos, como se o poema
fosse uma escada. É-o, quando as figuras austeras
da Natureza perseguem os mortais. Querem confirmar
a sua configuração. Querem ser
reais, quando se aproximam.
Vai para diante da minha face, ao fundo.
Vem dos recantos, onde já não é a silhueta volúvel
enovelada pelo vento, à janela. Com lentidão
arrasta a forma táctil até à passagem do poema.

Sou eu que me vergo ao domínio.
Que me poise a marca incandescente na testa.
Tocará na meninge como num cofre.
Aceito coroas para depor sobre mim.
Deixo os pés do abeto empurrar
com a biqueira violetas. A fragrância
delas leva-me a imaginar poemas
em branco. Depois de percorrer um longo encadeamento
de sílabas sou outra. Vejo assomar a natureza nua.

 
Fiama Hasse Pais Brandão