[...]Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!
Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.
Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.
Ernesto Lara Filho, in «Infância Perdida»

Fotografia da Web
Há pedaços de vida que encantam momentos, pedaços pequeníssimos de papel recortado em fina serrilha, colorido, desenhado em figuras preciosas, veneráveis, graciosas. Os selos, as estampilhas fiscais, os selos de Assistência, sempre verdes, que não tinham valor, tal como mais tarde os selos de Povoamento.
Desde muito cedo me assumi, a exemplo de meu irmão, coleccionadora de selos. Isso dava direito à recolha de todos os envelopes das cartas chegando pelo correio – no tempo em que se escreviam cartas – e também o direito a pedir, eventualmente numa ou outra casa de comércio ou repartição, a alguém conhecido, se podíamos retirar aqueles pedacinhos coloridos, antes do papel de embrulho ser atirado para o lixo. Mais tarde, a corrida aos envelopes de primeira tiragem, mas isso é outra história. Coleccionar selos significava um trabalho minucioso: primeiro mergulhar num recipiente com água os pedaços de papel e esperar que a cola se desfizesse e deixasse separar os selos sem ferir a serrilha, o que os tornaria imprestáveis. Secá-los depois ao sol, sobre jornais, e pôr de parte os repetidos para serem trocados entre amigos, guardando os mais perfeitos em pequenos envelopes brancos, assinalados com o nome do país de origem, eram afazeres prazeirosos que constituíam horas de entretenimento e auto-aprendizagem.
Os selos de Angola e Moçambique eram lindos, com pássaros, flores, borboletas, conchas, figuras indígenas diferentes de cada região. Mas eram sempre os mesmos e o passo seguinte foi encontrar correspondentes na Europa onde eram soberanamente apreciados, como percebemos bem mais tarde. Para nós, receber selos de países europeus era uma conquista invejável, pois chegavam às nossas mãos envelopes enormes carregados de novidades, países que fomos aprendendo a conhecer e a situar, quando mal conhecíamos a primeira língua estrangeira, deliciados com o remetente «Ton ami français de Nantes». Andorra, Liechtenstein, Mónaco, Nederland, Deutschland, England, Helvetia, faziam-nos correr ao Atlas da capa azul de João Soares.
Outros tempos, outras ocupações de criança, outras latitudes, sem a sombra inquietante, perversa, monstruosa, voraz, traiçoeira, aviltante, destruidora, que persegue os meninos de hoje. Decididamente, fomos mais felizes.
