sábado, setembro 04, 2010

Intercâmbio



[...]Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava dos meninos.

Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.

Ernesto Lara Filho, in «Infância Perdida»



Fotografia da Web

Há pedaços de vida que encantam momentos, pedaços pequeníssimos de papel recortado em fina serrilha, colorido, desenhado em figuras preciosas, veneráveis, graciosas. Os selos, as estampilhas fiscais, os selos de Assistência, sempre verdes, que não tinham valor, tal como mais tarde os selos de Povoamento.

Desde muito cedo me assumi, a exemplo de meu irmão, coleccionadora de selos. Isso dava direito à recolha de todos os envelopes das cartas chegando pelo correio – no tempo em que se escreviam cartas – e também o direito a pedir, eventualmente numa ou outra casa de comércio ou repartição, a alguém conhecido, se podíamos retirar aqueles pedacinhos coloridos, antes do papel de embrulho ser atirado para o lixo. Mais tarde, a corrida aos envelopes de primeira tiragem, mas isso é outra história. Coleccionar selos significava um trabalho minucioso: primeiro mergulhar num recipiente com água os pedaços de papel e esperar que a cola se desfizesse e deixasse separar os selos sem ferir a serrilha, o que os tornaria imprestáveis. Secá-los depois ao sol, sobre jornais, e pôr de parte os repetidos para serem trocados entre amigos, guardando os mais perfeitos em pequenos envelopes brancos, assinalados com o nome do país de origem, eram afazeres prazeirosos que constituíam horas de entretenimento e auto-aprendizagem.

Os selos de Angola e Moçambique eram lindos, com pássaros, flores, borboletas, conchas, figuras indígenas diferentes de cada região. Mas eram sempre os mesmos e o passo seguinte foi encontrar correspondentes na Europa onde eram soberanamente apreciados, como percebemos bem mais tarde. Para nós, receber selos de países europeus era uma conquista invejável, pois chegavam às nossas mãos envelopes enormes carregados de novidades, países que fomos aprendendo a conhecer e a situar, quando mal conhecíamos a primeira língua estrangeira, deliciados com o remetente «Ton ami français de Nantes». Andorra, Liechtenstein, Mónaco, Nederland, Deutschland, England, Helvetia, faziam-nos correr ao Atlas da capa azul de João Soares.

Outros tempos, outras ocupações de criança, outras latitudes, sem a sombra inquietante, perversa, monstruosa, voraz, traiçoeira, aviltante, destruidora, que persegue os meninos de hoje. Decididamente, fomos mais felizes.

segunda-feira, agosto 30, 2010

Indigestão

Não te mostres triste, porque ofendes. Não te mostres glorioso, porque ofendes. Não te mostres envaidecido, mesmo com discrição, porque ofendes. Não te mostres caloroso, porque ofendes. Não te mostres frio, porque ofendes. Não te mostres a existir, porque ofendes. Não te mostres.

Vergílio Ferreira, in «Pensar»


Na era bizarra que vivemos actualmente, em que tudo o que parece não é, em que tudo o que é, não aparece, haja o retorno a Deus e às Divindades Pagãs para que nos protejam da má fama. Como a mulher de César, com ou sem razão, podemos ser para sempre votados ao ostracismo. Até há relativamente pouco tempo, ainda acreditávamos no Estado de Direito e havia que confiar na Justiça, mas o meu velho Meursault é eterno e adapta-se a todas as circunstâncias. Nem sempre podemos estar na defensiva, por vezes entra-se no jogo de outrem e de repente, sem nos darmos conta, porque o sol, a luz, o calor, o ruído nos altera os sentidos, dispara-se e quebra-se o equilíbrio do dia. Não deveria ter acontecido, mas depois da pedra atirada, nada a fazer.

Não se trata aqui da morte do corpo de alguém, mas por vezes a morte do espírito é bem mais dura. Porque nada é claro, porque nada é honesto, porque a frontalidade é coisa do passado, tudo gira em volta deste excesso de informação que nos é imposta como um McDonald de que todos devem gostar, atirado sobre a presa que tem de alimentar-se e nem sabe como encontrar um alimento são, não geneticamente modificado, não aquarificado, não aviculturado, não pesticificado. Tudo é falsificado, afinal. Os comportamentos não são francos, não há responsabilidade, todos têm medo porque há demasiados tectos envidraçados por onde penetra a corrupção imparável, a camada de ozono cada vez mais frágil, o sol queimando cada vez mais, também aos que não se expõem nas praias para bronzear-se, aos que procuram esconder-se na sombra que não existe. 

Não entendo nada do desporto que já nem é, esse mundo do futebol que me parece de pura ficção. Sempre li que o Prof. Carlos Queirós era um excelente professor, orientador de jovens, mas que lhe faltava pulso para orientar estrelas de alto gabarito a quem é preciso mostrar que o campo é aqui no planeta Terra e não no Cosmos. Demasiado educado, demasiado prudente, talvez. Não sei, não conheço Carlos Queirós, nem pessoal, nem profissionalmente, a minha relativa simpatia pela pessoa advém de ambos termos nascido no continente africano. Acompanhei os despedimentos sucessivos de vários treinadores que não levaram os respectivos países onde se esperava no recente Mundial da África do Sul. Portugal quis ser diferente e disse que mantinha o seu treinador, contra muitas opiniões de adeptos e dirigentes. Não tenho a certeza de terem sido sérios os mais altos representantes do país em relação a ele.

António Lobo Antunes é um Senhor das Letras, reconhecido neste país e no mundo. As suas obras denotam que foi marcado profundamente pela sua prestação como médico na guerra de Angola. Septuagenário, recentemente saído da convalescença de um cancro, continua a escrever, a verter em palavras, em frases belíssimas, quantas vezes desconexas, a marca dos seus pensamentos sofridos. Como é possível que, precisamente aqueles que sempre o veneraram pela solidariedade demonstrada no tempo certo, possam agora esgrimir acintosamente com palavras ditas (palavras leva-as o vento) numa qualquer entrevista de há anos. Ele disse uma frase profunda e séria: «Não se desce vivo de uma cruz».

É para ler, ouvir, pensar.

domingo, agosto 22, 2010

Assombração



Toda a explicação assenta no inexplicável. Não tentes pois explicar seja o que for até aos últimos filamentos da explicação, ou seja, inexplicáveis. Equilibra-te no instável do que se diz e do que se não pode dizer. Se atinges o limite, cala-te. E é aí, nesse silêncio, depois de dizeres tudo, que possivelmente começas a dizer alguma coisa.

Vergílio Ferreira, in «Pensar»




O que fazer com a liberdade?

Que fazer com a imensidão no meio de um oceano quieto, sem amarras que o prendam, sem ruídos de motor, sem remos, sem velas? Não há brilho do sol, nem chuva, nem vento, nem sequer a brisa passa. Só a lua resplende pintando brilhos na superfície das águas.

Ocorre-me a história da raposa daquele romance agora arredado dos meninos, a raposa matreira que fez o lobo engolir toda a água do poço onde ele viu um queijo tentador que ela sabia ser a imagem daquela lua magana postada no céu.

E vejo agora, nítida, como há muito não via, a sombra do homem castigado pelos deuses, carregando um feixe de lenha às costas.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Pintar o céu


A poesia, não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas,
A poesia acontece.
Fernando Vieira




Os tempos modernos trazem sempre o esquecimento da sabedoria dos antigos, a pouco e pouco apagando a arte e a técnica. Ficam depois as memórias, aqui e além recuperadas, mas já não usáveis porque outras formas mais céleres e eficientes as superaram há muito. Nada contra. Relembro a forma elaborada em peças de fio entrançado tipo macramé usadas pelos Incas para o registo de datas e factos, na irresistível necessidade dos homens escreverem a vida.

Eu vou falar das palavras escritas, e já nem sequer aquelas torneadas em caligrafias belíssimas, em ornatos coloridos nas iluminuras dos livros antigos; apenas a palavra dedilhada aqui, em teclas escurecidas, desbotadas, onde só o hábito nos leva a conduzir os dedos ao lugar exacto pretendido. A palavra sozinha, uma ou outra vez, só por si tem um poder imenso, cresce, matiza-se, é desprezível, macabra, lúgubre, mas também alegre e bonita, quente, musical, azougada até. É uma questão de disposição de espírito no momento que faz com que lhe demos configurações autenticamente ficcionadas. E com elas fazem-se os poemas!

Tudo isto para chegar ao nome por que respondia o meu estimado companheiro-bicho de quase 12 anos, tempo normal de vida para a espécie. Não fui eu quem lhe atribuiu a graça, mas vinha a condizer com a pelagem brilhante e macia, de tons suavíssimos que iam do quase negro ao quase branco, passando por tonalidades de castanho e creme e cinza numa mistura que se foi alterando com os anos, mas sem nunca perder a beleza ímpar. Era o Matisse.

Como no blogue do Chatgris – gato que só hoje percebeu a ausência (parece) do amigo e mia e mia e se esfrega por todos os lugares percorrendo os lugares comuns – foi divulgada a sua partida da casa, outros companheiros do éter deixam mensagens de solidariedade na dor da perda do Amigo. E então umas letras bonitas, lindas como ele, deixam assim as palavras arrumadas:

«O Matisse está a pintar o céu».

sexta-feira, agosto 13, 2010

Incertezas



Quando se é jovem, prefere-se os meses vulgares, a plenitude das estações. À medida que se envelhece, começa-se a gostar das épocas intermédias, dos meses que não conseguem decidir-se. Talvez seja uma maneira de admitir que as coisas não podem ter para sempre a mesma certeza.

Julian Barnes, in «O Papagaio de Flaubert»




Onde é que eu já li que o Homem pode fazer de Deus?

Quantas vezes se deseja ter o dom da omnipotência que Lhe atribuem, mas não se escolhe, talvez Ele escolha o momento e nunca coincide com o que nós desejamos. Como é que eu posso ser crente? Recuso completamente esse deus castigador que as três grandes religiões de Abraão nos legaram, embora compreenda a necessidade delas para obviar os excessos dos homens da terra, para melhorar o sentido da vida, para criar a mens sana in corpore sano. Porém o homem usou-as no pior sentido, adulterou os ideais de todas as formas e arvorou-se através delas em senhor do mundo dos outros para proveito próprio.

Não quero, não quero, não quero usar-me na sua pele para meu proveito, mas a verdade é que o sofrimento é um reino em que me debato para não ocupar. E esta ideia de sofrimento colou-se no meu imaginário pela via da religião que eu hoje recuso, porque a minha razão me diz que morrer é só o fim da vida. E é natural entre os bichos matar para saciar a fome, morrer para dar lugar aos outros. Normalmente morrem os menos aptos, os mais fracos, também os que foram grandes e perderam a força.

O companheiro leal das horas dos meus dias mais e menos bons, das noites sem sono, aquele ser minúsculo que preencheu vazios inenarráveis, que adoptou a nossa família como a sua matilha há quase 12 anos, jaz há três dias na sua cesta, agravada a sua insuficiências renal, sem forças para andar, comer, beber, gemer sequer. Os seus olhos vêem mal, continua a ouvir, porém, como as pessoas, no fim, dizem. No Hospital Veterinário, propõem-me fazer de deus, pobre deus misericordioso que não pode prometer-lhe a eternidade, apenas um sono mais longo e sem sofrimento. 

Mas, por enquanto, vai reagindo ao soro diário, ainda mostra que quer estar connosco, embora os médicos achem que ele, deixando de comer, está a dizer-nos que não. Depois, não tenho a certeza de conseguir enfrentar essa enorme responsabilidade. Acaso terei sequer esse direito?

sábado, agosto 07, 2010

Pássaros


 
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoas, chuvas, escuros – isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Álvaro de Campos



 Ando de roda dum livro que, por sua vez, anda à roda de Flaubert.

Gustave Flaubert, o homem que deu vida a Mme Bovary, o homem que divulgou o segredo guardado de todas as Bovary que povoam o lado feminino do planeta porque o outro lado o possibilita ainda, ou, quem sabe, porque nem eles nem elas alguma vez leram Flaubert. Mas não foi sobre esta personagem poderosa que trouxe aqui Flaubert – e digo poderosa, porque Emma Bovary foi tão perfeitamente concebida que viveu para além da sua morte no livro, atormentando o resto da vida do seu criador. Ele escreveu muito mais, mais e melhor, mas ela tomou conta dele, misturou-se com o seu nome, absorveu-o.

Flaubert, ao que leio, tinha uma grande simpatia por papagaios, para além de canídeos e outras espécies de animais, nomeadamente ursos, de que possuía uma pele servindo de tapete em sua casa. Um dia leu uma história de alguém que perdera a sua amada e se tornara misantropo, vivendo os seus dias com um papagaio que repetia o nome da mulher que perdera e com isso se mantinha vivo. Quando o papagaio morreu, o homem perdeu a razão. Começou a imaginar-se ele próprio um papagaio e repetia grasnando o mesmo nome de mulher, enquanto se empoleirava na mobília e batia os braços como asas. A família pretendeu interná-lo num hospício e só o conseguiu construindo uma enorme gaiola, onde ele entrou, fascinado.

Flaubert tece considerações sobre orgulho e vaidade numa carta a Louise Colet, a «sua musa», dizendo que o orgulho é um animal feroz que vive só e vagueia pelas grutas, enquanto a vaidade é um papagaio. Há diferenças, realmente, entre uma palavra e outra, pena é que os papagaios humanos de hoje não se assumam pássaros, para que se pudessem engaiolar como o tal conhecido de Flaubert. 

quinta-feira, julho 29, 2010

Impaciência


"E agora que fazer? Gostava tanto de levar até ao fim os dois livros começados. O romance. Sei agora mais claramente o que queria. O périplo de uma vida à procura da palavra. Viemos ao mundo para a encontrar. A palavra total, a que nos diga inteiros, a que nos diga a vida toda. Procurei a minha e não a encontrei. E estou a chegar ao fim. Ou encontrei apenas a do silêncio.»


Vergílio Ferreira, in «Conta Corrente»


Deve ser deste calor intenso que grassa por aqui, estou sem vontade de teclar um texto; vou tentar escrever  à mão e depois passar, é uma outra solução a que por vezes recorro. Deixo hoje as palavras dos outros que também dizem de mim, como dizem! A seguir, palavras de Mia Couto, o escritor moçambicano que enfeita a nossa língua com novíssimos vocábulos cheios de vida.

«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
 – Pai!
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez. "Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra." »

quarta-feira, julho 28, 2010

O Mar une, não separa


O poema me levará no tempo
quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas, ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo



Sophia de Mello Breyner Andresen in «Livro Sexto»






Ao meu estimado amigo Rafael, eu desejo aqui agradecer, comovida, esta gentileza a que só agora tive acesso, ainda que me tenha sido dedicada há quase dois anos! Foi um acaso que me levou até ela, e eu diria que chegou a mim no tempo certo. O Rafael acredita profundamente num Deus omnisciente e eu me curvo perante a sua fé, que fez com que a mensagem chegasse quando o meu coração mais precisava de um lenitivo. As palavras não me acodem precisas para louvar toda a sensibilidade e beleza inigualável da mensagem escolhida. Comovidamente obrigada, Rafael.

Para o menino meu amigo do outro lado do oceano, eu escolhi «O Poema», de Sophia de Mello Breyner Andresen, a nossa mais bela poetisa do mar.

domingo, julho 18, 2010

Sunrise, sunset



Príncipe:
Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
 Ana Hatherly



Ainda que me abrace a suavidade das manhãs numa claridade baça, colorida pelo chilrear dos pássaros ainda no ninho, ainda que o sol pouse nas lágrimas coloridas de poentes esplendorosos, eu só ouço, eu só desejo o mar revolto, as vagas chegando uma após outra, erguidas longe e chegando em fragor para o beijo nas rochas, para a alegria branca de espuma saltando, no rolar descansado de depois, dos passos leves, redondos, mansos, lambendo a areia da praia. A seguir outra onda, outras ondas.

Há o lago quieto, largo, brando, o horizonte imenso com brilhos de vento sobre as águas, os pássaros, os patos, os barcos. Há os campos de relva, as árvores – ah, as árvores! – e os bancos vazios.  A plenitude de uma natureza afável, imensa, com tufos de verdura húmida onde a serenidade impera, ordenada e branda. 

Em cada um de nós há silêncios que pousam no fundo e sedimentam o sofrimento calado no lodo dos pantanais. A fúria das águas, a fúria do vento nas tempestades, os raios, os trovões, estremecem, destelham a casa, fendem os ramos, deixam ruínas, estilhaços e pó. Mas o rio corre sempre para a foz e a natureza tudo repõe em nova ordem.

Eu só procuro o calor humano que dá vida à vida, que acende o rubor cá dentro, que desvenda as pérolas nos lábios, que corre e lança gritos nas areias, que mergulha nas águas e lhes colhe a frescura. Que enche os bancos de sonhos. Ainda que não se concretizem.

quinta-feira, julho 15, 2010

Palavras tisnadas



Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

Alberto Caeiro


 Não tenho a certeza de ter alma de mulher.

Do que me lembro de mim, uma fixação sem nome naquele menino dócil e livre, as idas aos pássaros e aos ninhos, os jogos de cowboys e os tiros, a caça, as conversas na fogueira sentado entre os risos dos criados, partilhando os cheiros e os sons. Os ralhos depois, mas a liberdade que eu não tinha. 

Alma de pássaro crescendo, olhando por detrás da cortina de cassa fina, tecendo a renda em que me esconderia dos cortes de asas, de bico, só os olhos brilhando no escuro das noites acordada. Os livros lidos no afago das horas de sesta, pérola crescendo em camadas de nácar, uma sobre a outra, lisas, doloridas, cuspidas, esculpidas na dor calada do temor e da dúvida, a ansiedade crescendo.

Homem ou mulher, que seria de mim sem a carícia das palavras, sem a identidade nos poemas dos outros, nas prosas sentidas, passeando pelas estrelas, pelos desertos, mergulhando nas ondas de outros mares, os que conheço, os que não conheço, sei lá quantas mágoas, sei lá quantas saudades, sei lá quanto amor vertido, derramado, escoando-se pela terra adentro.

Um dia vou ter a certeza se valeu a pena, para lá do poeta.

Palavras tisnadas



Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. e eu só penso no sol.

Alberto Caeiro


 Não tenho a certeza de ter alma de mulher.

Do que me lembro de mim, uma fixação sem nome naquele menino dócil e livre, as idas aos pássaros e aos ninhos, os jogos de cowboys e os tiros, a caça, as conversas na fogueira sentado entre os risos dos criados, partilhando os cheiros e os sons. Os ralhos depois, mas a liberdade que eu não tinha. 

Alma de pássaro crescendo, olhando por detrás da cortina de cassa fina, tecendo a renda em que me esconderia dos cortes de asas, de bico, só os olhos brilhando no escuro das noites acordada. Os livros lidos no afago das horas de sesta, pérola crescendo em camadas de nácar, uma sobre a outra, lisas, doloridas, cuspidas, esculpidas na dor calada do temor e da dúvida, a ansiedade crescendo.

Homem ou mulher, que seria de mim sem a carícia das palavras, sem a identidade nos poemas dos outros, nas prosas sentidas, passeando pelas estrelas, pelos desertos, mergulhando nas ondas de outros mares, os que conheço, os que não conheço, sei lá quantas mágoas, sei lá quantas saudades, sei lá quanto amor vertido, derramado, escoando-se pela terra adentro.

Um dia vou ter a certeza se valeu a pena, para lá do poeta.

quinta-feira, julho 01, 2010

Visão



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as dores que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa




Na quietude da noite ergue-se um canto negro de rouquidão e angústia, um soar de medo como o desabar de terras no estremecer do terramoto. Como as sirenes avisam o perigo eminente, há uma luz de farol intermitente que não pára nos caminhos da razão quando o coração se esboroa de ternura ao mesmo tempo que arde em convulsões.

Para quando o fragor sentido algures, aquele mar em sobressalto, lá em baixo, longe, ondeando e encrespando-se ao vento em cristas de espuma branca alongando-se, espreguiçando-se sobre as águas a um tempo temidas e desejadas? Para quando a tempestade, o mar subindo e batendo em fúria na rocha? O som do mar. No fim de tarde quente. Na noite soando manso e aquietando-se depois em carícias doces subindo a areia da praia.

Os sonhos semeiam-se e florescem em cachos de glicínias, em tufos de hortenses, em buganvílias sangrentas, em campos de papoilas brancas também. Em malmequeres pequeníssimos cobrindo o chão de amarelo pelas primaveras abrindo.

Contento-me de ser a terra escura e fértil.


domingo, junho 27, 2010

A mentira dos astros


E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos têm que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois.
Vinicius de Morais




A alegria e a dor convivem sob o mesmo tecto.

Nem é possível amar a lua e apenas senti-la quando parece virar-nos as costas, numa lua nova que se renova para depois nos dar de mansinho uma levíssima curva de luz, como porta entreaberta para chegar ao esplendor da lua cheia, numa claridade de luz branca, apaziguadora de todas as incertezas, numa entrega total.

Mas ainda assim, quantas vezes escondida atrás das nuvens, do nevoeiro que cai antes da noite, atrás de tempestades que se arrastam por dias, semanas, e a lua de novo fechando a porta, de manso, para dar tempo aos homens de olhar as estrelas, para não ofuscar o brilho delas. Porque essas estão lá, para esplendor dos nossos olhos ainda que desaparecidas há anos-luz, séculos para o tempo dos homens na Terra.

O que construímos, o que criámos, aquilo a que demos vida e cresce, cresce, fugindo das raízes, organizando-se em árvore, flores, fruto, ou apenas crescendo enrolando o que toca, tapando, escondendo, debruando de verde as ruínas, os cacos entretanto abandonados, o que fazemos aqui depois?

Tudo se renova de uma forma ou de outra. Nós também, assim queiramos guiar a energia que os astros atiram para nós, incansavelmemente. Mas é preciso muita força.

sexta-feira, junho 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO


O primeiro leitor da carta foi o secretário de estado pêro de alcáçova carneiro que a entregou ao rei, ao mesmo tempo que dizia, Morreu salomão, meu senhor. Dom joão terceiro fez um gesto de surpresa e uma sombra de mágoa cobriu-lhe o rosto. Mande chamar a rainha, disse. Dona catarina não tardou, como se adivinhasse que a carta trazia notícias que lhe interessavam, talvez um nascimento, talvez uma boda. Nascimento e boda não deveriam ser, a cara do marido contava outra história. Dom João terceiro murmurou, Diz aqui o primo maximiliano que o salomão. A rainha não o deixou acabar, Não quero saber, gritou, não quero saber. E correu a encerrar-se na sua câmara, onde chorou todo o resto do dia.

José Saramago in «A Viagem do Elefante»




Apagou-se uma voz.

Nem sempre a mais amada pelos seus pares, pelos leitores mais conservadores, apreciadores de uma escrita melodiosa que ele não dominava. Nem quereria, quem sabe. A mensagem que tinha para divulgar passou-a sobre todos os outros, foi ele o escolhido, foi ele quem trouxe para a Língua Portuguesa o primeiro Prémio Nobel de Literatura. 

Oriundo de famílias humildes, nunca escondeu a sua origem, antes adoptando como sobrenome um apelido que o ligava a ela indissoluvelmente. Foi coerente com os seus ideais, sempre de olhar crítico e duro sobre a sociedade onde subiu a pulso, riscando a direito, sem ouvir outros sons. Assim se isolou em Lanzarote, cercado de pedras e mar, suavizado por Pilar, a mulher que lhe deu vida quando a vida começou a faltar.

Estou de luto. Calou-se mais uma voz nas Letras portuguesas.


segunda-feira, junho 14, 2010

Caminhos



Mon amour pour avoir figuré mes désirs
Mis tes lèvres au ciel de tes mots comme un astre
Tes baisers dans la nuit vivante
Et le sillage de tes bras autour de moi
Comme une flamme en signe de conquête
Mes rêves sont au monde
Clairs et perpétuels.

Et quand tu n'es pas là
Je rêve que je dors je rêve que je rêve.

Paul Eluard



Não sei o caminho. Só quando o tecto se abrir e o azul derramar sobre a anhara, de novo a desenhar o caminho que conduz ao rio, então saberei olhar outra vez as tonalidades de sépia do capim seco, dos morros de salalé subindo em prece, das lagoas lamacentas que ladeiam o rio, da areia fina por entre os tufos de ervas altas, verdes, encharcadas.

Aqui o sol também aquece e as flores desdobram as cores sem nome em cambiantes de luz, flores mais perfeitas em jardins cuidados, cheirando a perfumes e perfumes cheirando a flor. Os caminhos são marcados e lisos, há túneis e pontes pousadas de leve nas águas, caminhando nelas por entre a bruma, galgando o rio. Nem há que enganar. É só seguir o rio até à foz e o estuário mostra os pássaros classificados que em cada ano passam e pousam e procriam. Os homens passam longe e são delicados, não espantam, não caçam, não têm espingardas.

Segundo os clássicos latinos e gregos (conforme refere a obra «Le Livre des Êtres Imaginaires»), as Lamies eram seres que habitavam a África e cujo corpo de mulher belíssima até à cintura continuava depois em forma de serpente. Alguns as consideravam feiticeiras, outros monstros malfeitores. Não tinham o dom da fala, mas o seu canto era melodioso e enfeitiçava quem o ouvia. Nos desertos, atraíam os viajantes para em seguida os devorar, e dizia-se que tinham uma longínqua origem divina, eram fruto dos muitos amores de Zeus. Moviam-se com tal agilidade que se confundiam com pássaros.

Não tenho a certeza se as aves se importam, sei que hoje, aqui, as gaivotas enchem a cidade, as cidades, não procuram o peixe para alimento, antes as sobras dos homens. E sei, porque me dizem, que há muitas aves a caminho da extinção.

sábado, junho 05, 2010

Força




Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
Dói-te alguma coisa?
– Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está a ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
O que fazes quando te assaltam essas dores?
– O que melhor sei fazer, excelência.
– E o que é?
– É sonhar.
Mia Couto



Quando não se tem corpo para acompanhar o desejo não cumprido, ou porque a idade ainda não baste ou porque o corpo já não suporte, as dores cumprem-se com o ritual que cada um define à sua medida. O pássaro que existe dentro de nós, se não há grades que o sustenham, abre as asas e voa, luta pela vida e sobrevivência; se a porta se mantém fechada, queda-se embalado no poleiro que balança no ar que respira, ciente da água e alimento sempre ao alcance do bico.

E então os mais loucos fantasiam em trinados por entre as grades, que ecoam nas paredes lisas e duras dos prédios, perambulam nos ventos, soam perdidos enfim na folhagem, nas ramarias onde pertencem. Se o canto se repete e é sentido, se a força permanece, talvez os canaviais recolham a melodia e a façam soltar um dia na flauta dos pastores.

Escrever – sonhar – é assim o que resta quando as grades são mais fortes, quando a portinhola não roda, quando é mais precioso o brilho das penas do que o chamamento dos ares que nos despenteiam e fazem a vida girar de assombro.