
Os pastores de Virgílio tocavam avenas e outras coisas
E cantavam de amor literariamente.
(Depois - eu nunca li Virgílio.
Para que o havia eu de ler?)
Mas os pastores de Virgílio, coitados, são Virgílio,
E a natureza está aqui mesmo.
«A partir de rosas / Começo o caminho visível pela ladeira diurna / Uma pacificação do espírito bem diversa / Da passividade, mas igualmente dócil» Fiama Hasse Pais Brandão
Há quem o ouça muitas vezes,
Há quem o ouça raras vezes,
E há quem o ouça
Uma única vez na vida.
Por isso vale a pena
Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia,
Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós,
No fundo, lá bem no fundo do corpo.
Michal Snunit
O medo é um sentimento poderoso que nunca consegui descrever e continuarei a sentir para sempre. Creio em relação a isto que o tempo vai amainando a sensação, e apenas porque o consigo racionalizar, assim foi sendo ao longo dos anos. Em mim, o medo que prevalece é o receio de estar só e não conseguir orientar-me. Aliás esta perturbação está presente com muita frequência nos meus sonhos. É assustador.
Da intensidade do sentir?
«O João dorme… (Ó Maria,
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá, o João, acordar…).»
António Nobre

Vergílio Ferreira
Se não tivesse desistido de viver há mais de quarenta anos, faria hoje 108.
A chamado de seus irmãos mais velhos, logo a seguir à Primeira Guerra, Angola o enfeitiçou para todo o sempre e ao lado de suas gentes construiu uma vida. Dela deixou relatos de 45 anos ininterruptos na terra que escolheu também para repousar.
O reportar-me à Gandavira é reportar-me à época mais difícil da minha vida. Senão vejamos:
Fui para uma casa onde se cometiam todos os latrocínios a título de abandonar Angola para não voltar. Liquidar. Um preto devia, era zurzido, estuprado, espoliado. Se achava a conta elevada para o que fiou, então nem é bom falar. O mínimo era a palmatória e o chicote, independente da multa que lhe era aplicada pelo que disse.
Depois era o Posto Administrativo que tinha de fornecer tantos homens válidos. Como era feito o angariamento do pessoal? Não era certamente com prédicas, elucidando-o da necessidade de produzir, fazendo-lhes ver que Angola não era o seu kimbo e que havia muitas necessidades afins à nossa espécie de que eles enfermavam e não conheciam.
Começava o angariamento pelo cipaio. O que era o Cipaio ?...
Era um indesejável no seu meio, um homem à margem dos outros homens. Um criminoso convicto, com a moral do latrocínio. Fugia do seu meio e ia pedir serviço ao Posto. Quanto mais carrasco fosse, mais convinha para o ofício.
Aviltaram-se, degradaram-se em relação ao Selvagem que também tem as suas leis, os seus costumes que respeitam com tanta devoção ou temor, consoante os casos, como nós mesmos, os Europeus, os brancos.
O ignorá-lo, tendo de viver entre eles e utilizá-los, é já grave isso; mas ir ao cúmulo de os maltratar pela simples razão de serem negros, sem uma razão sequer aparente, sem pelo menos o fazerem por piedosa mentira cria complexos que se repercutem longe.
Aconteceu, como sempre acontecia afinal, não falando já de latrocínios e violações de toda a ordem quando os agentes negros operavam, ter-se finado um preto, dois ou mais em consequência de maus tratos. Diziam, porque eu nunca vi.
Não me recordo de me ter rido nos primeiros dias, não me ri quando vi bater em pretos como nunca vi bater em irracionais, ou tão pouco me ri quando via uma mulher da minha cor banhada em pranto.
Ter que assistir impassível a tudo isto era sem dúvida mais pesado que os sacos de farinha e cevada com que alombava no quartel da Graça em Coimbra.
«Não sei porque Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história de meu velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da tristeza dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que destapei as lembranças.

Os sentidos, adormecidos, nem sempre assomam por entre os dedos. Quando acontece, surgem em catadupa e nem dá tempo de traduzir em palavras o que vai dentro de nós. Ou brotam de manso, depois deslizam em torrente, por vezes em cascata, em cachoeira por entre as pedras roladas e afeiçoadas, caem no vale, formam rio caudaloso e desaguam no mar. Outras vezes serpenteiam pelos vales e perdem-se na chana, depois no deserto e infiltram-se nas areias fugindo ao mundo sequioso.
«Ceifeira que andas à calma, no campo ceifando o trigo
Ceifa as penas da minh’alma, ceifa-as e leva-as contigo.
Adeus terra da minh’alma, tão longe me vais ficando…»




Depois da flor quieta e doce em que o meu tronco floresceu, um botão irrequieto e vivo brotou a completar o sonho de copa larga e refrescante.
O que hoje tenho a meus pés é tudo aquilo que, naquele tempo, desejei ver. Por isso tem para mim um sabor que os outros não provam.Antero de Quental

“ (…)Nos primeiros dias do ano escolar, acontece-me pedir aos meus alunos que me descrevam uma biblioteca. Não uma biblioteca municipal, não, o móvel, aquele onde arrumo os meus livros. E o que eles me descrevem é um muro. Uma falésia de saber, rigorosamente ordenada, absolutamente impenetrável, uma parede contra a qual apenas podemos debater-nos.
- E um leitor? Descrevam-me um leitor.
- Um verdadeiro leitor?
- Se quiserem, embora não saiba a que chamam um verdadeiro leitor.


«Toda a gente gosta de saber, e muitas vezes pergunta, se existiu e quem era na realidade tal personagem romanesca. Mas nunca ninguém perguntou o que era na realidade uma pedra depois de ela ser estátua.»
Virgílio Ferreira
Acompanhar a adolescência de grupos de jovens de espírito inquieto, de que destaco o Quinzé, com ele outro José e um João, dos quais a inteligência, a argúcia e a sensibilidade deixaram marcas na minha (re)construção, em tempos de alguma má memória do meu processo de vida, terá sido um privilégio. Na arte, na economia e na saúde, eles brilham algures, ainda com o fulgor da juventude, a exemplo de muitos outros, alguns deles meus actuais distintos colegas de trabalho, que muito prezo.
Com emoção encontro esporadicamente Joaquim Sapinho, desta vez em entrevista ao Público dada a propósito dos seus «Diários da Bósnia», que não tive oportunidade de ver, mas que a crítica enaltece.
Da sua entrevista destaco: «Uma comunidade fortíssima é precisamente a dos judeus portugueses, marranos. E eu cheguei a Sarajevo e encontrei pessoas que falam português, não se pode imaginar a emoção que isso é. Tive a noção clara de que, quando a nossa língua desaparecesse em todo o mundo, haveria pequenas comunidades judaicas que continuariam a falar português»
Numa altura em que se comemoram 10 anos sobre a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, vem a propósito lembrar que a comunidade lusófona não nasceu há 10 anos, ela nasceu há séculos, quando os nossos navegadores demandaram o além-mar. Li, algures, que a China já deu a saber que gostaria que Macau entrasse como membro-observador da CPLP, a que não será estranho, decerto, o grande interesse económico que tal representa para esta potência emergente que se propõe reconstruir a linha mestra da economia angolana, o Caminho de Ferro de Benguela, que atravessa o país em todas as suas longitudes.
Parece que os membros desta Comunidade ainda não perceberam o óbvio: os países de língua portuguesa poderiam impor-se ao mundo, não pela violência, mas pelo desenvolvimento da sua economia – para a solidariedade – e da empatia natural dos povos, unidos já por tanta coisa bonita: artes, cultura, desporto, gastronomia, pela grandiosidade de um idioma comum. Assim tivessem a coragem de esquecer quezílias, assumir a sua condição incontornável de nações livres e autónomas e, principalmente, deixassem de olhar apenas para o seu umbigo.
Já o disse aqui e repito-o: Portugal não é só parte da Europa, é também, e principalmente, do Mundo Lusófono.

Quando vi estas camisolinhas penduradas numa corda dentro do celeiro antigo, lembrei-me daquele texto bonito sobre um rapazinho a quem o vento brejeiro arreliava soprando a folha de papel em que pintava, sobre a mó de um moinho, no alto de uma colina. E como o vento fala com as crianças – no tempo em que elas tinham tempo para estar com o vento – este lá lhe disse que só o deixaria em paz quando ele conseguisse pintá-lo. «Como, se não te vejo?» «Então como sabes que eu existo?» O pequenito pensou um pouco, olhou as velas do moinho a rodar, a rodar, e… «Ah, já sei! Desenho as velas do moinho, folhas das árvores a voar, roupa na corda a doidejar…»







Imagens de Cpicard

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
