terça-feira, janeiro 29, 2008

Talvez o Vento...


How many times can a man turn his head

And pretend that he just doesn’t see?


How many ears must one man have

before he can hear people cry?


How many deaths will it take till he knows

that too many people have died?


The answer, my friend, is blowing in the wind

The answer is blowing in the wind…

Bob Dylan







Não é a primeira vez que a África em que nasci me acontece de forma inusitada.

Desta vez, foi no filme O Fiel Jardineiro (baseado num romance de John Le Carré) de Fernando Meirelles, que a imensidão da paisagem africana se abriu para mim em toda a sua intensidade e encanto e, na mesma proporção, na crueza da sua enorme fragilidade.

Puxando os cordelinhos no palco de marionetas, a ganância, a falsidade, a luxúria. No outro extremo, o idealismo, o amor e a fidelidade, a pureza de sentimentos; a confiança, que não mora no mesmo departamento da lucidez quando a falta de sinceridade abre espaço para a dúvida, em situações de beleza ímpar, pequenos quadros de imagens magníficas que sugerem todas as interpretações.

Sei que o filme já não é muito recente, mas recentes se mantêm as questões sociais e políticas num continente continuamente massacrado por todas as formas possíveis de corrupção e desumanidade. O título surgiu-me apenas familiar, mas revelou-se uma surpresa, encantou-me por todos os motivos que associo a largos minutos de evasão do quotidiano que caracteriza a vivência de um europeu médio, preocupado com simples contrariedades que lhe alteram a serenidade dos dias. É um libelo, uma acusação ao mundo de que faço parte e deveria envergonhar-me.

É sobre a impotência dos bons.


quarta-feira, janeiro 23, 2008

GENEROSIDADE

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinícius de Morais




Esta fotografia circula pela Internet.

Traz-me à memória décadas de luta pelos circos do ensino, pelos palcos da salas de aula, na partilha de outros mundos de crescimento mútuo. Dos tempos em que era preciso tratar temas diferenciados e únicos a um tempo: amor, solidariedade, fraternidade, igualdade, e por aí adiante.

É fácil acender nos jovens o espírito solidário quando os ideais são tudo, a amizade a vida, a curiosidade um vício a cultivar. Apontar caminhos é a função pedagógica e os exemplos abundam, se bem que as definições sempre mais difíceis, mais redutoras. Aprendi com a simplicidade dos mais novos que a solidariedade é a amizade como dádiva a quem não se conhece.

É mesmo isso. Mas muito mais fundo, raiando a utopia, porque teremos de nos despir de nós, teremos de sentir escorrer de nós o sangue dos outros para que a entrega não tenha sabor a caridade, palavra de que não gosto na conotação que me passa.

Esta imagem tira-me a voz.

Faz escorrer dos meus olhos o rio que escorre pela minha terra em doçura e beleza e prodigalidade, recebe nele o Luena, toma outros rumos, atravessa um continente distribuindo energia e espraia-se à chegada ao Índico num delta marcando o seu lugar entre os maiores. Agora a beleza do Zambeze semeia a fome e a dor.

Esta imagem também me lembra isso.

Mas vai muito mais fundo.

É a nobreza da generosidade.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O Poder da Vida


«Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. Está certo, sei. Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida.»

João Guimarães Rosa





Em conciliábulos com a razão da escrita, desta vez mais concretamente quanto à manutenção de um blogue, não me parece excessivo voltar ao tema. Já por mais de uma vez me referi ao que poderá estar bem no fundo de cada um de nós ao sermos tentados a passar à escrita – para um público que nos é, e para quem somos, totalmente desconhecidos – algo do que temos de mais íntimo, as nossas memórias mais cruas, as mais doces, quiçá as mais dolorosas e magoadas; aquele desabafo que às vezes ecoa em nós de modo insistente, ou tão só a expressão de um contentamento ou uma revolta momentâneos.

Escudados por anonimato a maior parte das vezes, um anonimato que se vai esbatendo à medida que se criam os laços de que falava Saint Exupéry – a domesticação do próprio perante os outros viajantes do espaço – emergem personalidades nem sempre visíveis no quotidiano apressado que nos distorce o corpo e o espírito que transparece. Por defesa, é claro.

É também um descobrimento de nós próprios em plena liberdade, deixando assomar o que guardámos fundo, o que nos afoga, sem peias, sem constrangimentos, sem receio de ironias, também sem ferir aqueles que já sabemos que não aceitam esta parte de nós, esta forma de ser que é parte integrante do que somos, aquilo que foi borbulhando e alterou no tempo o sorriso e o gesto.

Há porém um aparente contra-senso nesta forma de liberdade que referi antes, porque os laços que se estabelecem são afinal tão fortes na sua delicadeza – hoje vou tomar chá ao PPP – que nem queremos imaginar que possam deixar de estar presentes no nosso mundo já não só virtual. E sentimo-nos de liberdade desprovidos, presos de afectos, de alguma forma obrigados a manter o contacto porque fazemos falta. Na mesa do chá. No túnel da vida.

Bom sentir isso na solidão dos passos.



domingo, janeiro 13, 2008

Sortilégio


«Agora, ao rever o passado, viu em que sulco profundo tinha mergulhado. O pior de cumprir um dever é que aparentemente não dava para fazer mais nada. Pelo menos era a opinião que os homens da sua geração tinham. As divisões constantes entre o certo e o errado, honesto e desonesto, o respeitável e o reverso, tinham deixado pouco espaço para o imprevisível. Há momentos em que a imaginação de um homem, tão facilmente subjugado à vida de todos os dias, repentinamente se ergue acima da rotina diária e avalia as longas espirais do destino.»

Edith Wharton




A escrita é sempre um acto solitário. E solitário porque é a expressão de pensamentos através da mão que escreve num papel ou dos dedos que digitam num teclado. E já agora, jogando com as palavras, é também um acto solidário, não necessariamente para com os outros, mas para com os próprios entendimentos.

Voltando à primeira palavra, direi que por aqui me faltam outras, parecendo incoerente com o título anterior de que não faltam as palavras. A solidão de quem escreve é relativa, ninguém escreve só, desacompanhado, sem espectadores ainda que fantasiosos. O povo humilde e sábio usa «falando com os seus botões»; em tempos da Antiguidade Clássica, Horácio, mais pretensioso, não sei se tão sábio, escreveu naquela ode sem par: «ergui um monumento mais alto que as pirâmides, mais perene que o bronze». Na imaginação pessoana presume-se «emissário de um rei desconhecido» e Agustina diz que «as memórias procriam como se fossem pessoas vivas».

O sortilégio da escrita acontece simplesmente. Como na praia, manhã cedo, quando dos orifícios na areia espreitam duas patas, três; depois os pequenos caranguejos espalham-se pela praia num rumorejar que se mistura com o bater manso das ondas na maré vazia. Outras vezes não acontece nada. Então, é preciso caminhar devagarinho e colher aqui e além, escolhendo, as pedras mais lisas, a concha mais colorida. Mesmo de Inverno quieto, sem chuva, sem marés vivas, quando as tardes já seguem espreguiçando-se pelas horas, o imprevisível acontece.

O problema surge quando o que desejamos contar é tão verdadeiro quanto é inverosímil, tão doloroso como incurável, tão gritantemente real que magoa. Aí há palavras para dizer, mas é preciso escolher tanto, é tudo tão ténue, tão frágil, tão subtil, que pode quebrar o equilíbrio.

Deixemo-nos então quietos, olhando o mar, protegidos pelas rochas do vento que ainda sopra.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Não Faltam Palavras


Sem pretender comentar afirmações de vários escritores actuais sobre a dificuldade de encontrar vocabulário em língua portuguesa para a temática do sexo na nossa literatura, transcrevo a seguir um trecho da prosa de Aquilino Ribeiro.

Talvez falte leitura, talvez falte alguma arte.

(Talvez sobejem os salões de depilação.)

Não faltam palavras.




«As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lanzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:

– Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal!

– Porquê?

– Se não tivesse, não era assim proibido!

Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:

– Mas não era melhor que o nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!

– Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!

– Tu serias capaz, eu não!

– Sei lá!

Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lha entre as suas, pronunciando:

– Olha para ali… olha como se enroscam as serpentes…!

E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.

– Faze-me como as serpentes e como a nuvem – disse para Adão a tentadora e subtil.

E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo – Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade…»

Aquilino Ribeiro, in «O Jardim das Tormentas»

sábado, janeiro 05, 2008

Afectuosamente



Lembras-te, meu amor,


Das tardes outonais,

Em que íamos os dois,

Sozinhos, passear,

Para fora do povo

Alegre e dos casais,

Onde só Deus pudesse

Ouvir-nos conversar?

Tu levavas, na mão,

Um lírio enamorado,

E davas-me o teu braço;

E eu triste, meditava

Na vida, em Deus, em ti…

Teixeira de Pascoaes






O mundo que eu construí é só meu, embora caiba por lá o mundo inteiro.

A minha casa à beira do rio, o rio que crescia nas Chuvas e enchia as lagoas das margens, o rio que subia, subia e cobria os capinzais e brilhava então para a casa grande. Os animais que moravam por ali tinham de sair desabrigados para as flechas ou tiros que os atingiam. Naquele tempo não me feria a desonestidade da astúcia humana para com os pobres animais indefesos, a minha insensibilidade habitava-me, completamente imune à dor alheia. Depois de mortos não passavam de carne para servir à refeição, eram tapetes lindos para o quarto, até carteira bonita para oferecer à mãe.

Três, quatro dias, durava o espelhado junto ao rio lá em baixo e então muitas coisas aconteciam.

Um dia trouxeram-me uma espécie de cachorrinho que apenas chiava. Tinha sido resgatado quando a sua mãe raposa o transportava nos dentes para um lugar seguro e havia encontrado a morte. Cabia na palma da minha mão e escondia a cabeça e o corpo onde pudesse, assustadíssimo. Acabei criando-o a biberão e cresceu selvagem e bonito, apenas permitindo que eu me aproximasse dele, agredindo quem quisesse deitar-lhe a mão. Foi uma experiência fascinante porque fui dele a referência de protecção e ele foi-me fiel. Até ao dia em que eu fui obrigada a quebrar o elo que nos unia e a entregá-lo ao Jardim Zoológico, perante a ameaça que recairia sobre ele, caso o deixasse livre.

A outros animais servi de ama, principalmente cães e gatos, até a uma cabra doméstica.

Da minha relação com os animais prevalece uma intensidade emotiva nem sempre amável, quase sempre intransferível, sempre insondável para o ser humano comum.

Mas é o mais puro dos sentimentos que alguma vez conheci porque nada o distrai do puro afecto, nada o demove do ponto de referência.

Não falha. E confia. Não é humano.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O Encontro



Encontrei-o no caminho.
A água não turvou seu sonho,
nem se abriram mais as rosas.
Mas o assombro entrou-me na alma.

Gabriela Mistral



A hora é o tempo certo para acabarem os minutos, tal como o dia acaba as horas, o mês os dias, o ano os meses, depois o lustro, a década, o século e por aí fora.

Só a eternidade não tem fim. Ela, supõe-se, acaba a vida. E eternidade é uma palavra bonita em que cabem todas as promessas, todos os credos, todos os desejos. É lá que vive o sempre.

O crescimento do ser humano, como tal, é proporcional à escravatura de si próprio. O instinto opõe-se de início a qualquer mudança porque é naturalmente livre e a História regista provas irrefutáveis dessa constatação a cada passo, paralelamente à sujeição imperativa do progresso.

Se de repente a denúncia desse cativeiro chamado organização das sociedades nos conduzisse a um acto terrorista cujo alvo a atingir fosse a notação do tempo, a resposta seria apenas uma questão de fantasia.

O tempo poderia não existir. Seria bom descontruí-lo como se tomando nas mãos um arco-íris e ir desembrulhando as cores.

Quebrando todos os relógios, acabando com os horários das escolas. As crianças teriam um lugar de encontro com o saber (Agostinho da Silva assim falou), quando quisessem, quando estivessem cansadas de brincar, quando sentissem necessidade de saber como construir um novo brinquedo. Não haveria professores, porque todos seriam mestres de um saber a partilhar. Haveria permuta de bens, uns viveriam de dia, outros de noite, sem hora marcada de comer ou deitar. Voltaria a haver quem olhasse as estrelas e tocasse umas cordas em melodia para acordar o sol.

Não haveria mulheres sós, aprisionadas, violentadas, excisadas, porque elas estariam unidas, seriam olhadas como as mães dos homens, elas decidiriam quando o tempo de parir.

Não haveria religiões porque todos saberiam dar-se as mãos no tempo certo.

Não haveria tempo, haveria paz.

domingo, dezembro 30, 2007

Dimensão



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Morais



Um dia de cada vez, sem olhar o calendário, sem olhar o espelho, sem olhar a natureza quieta, com a vida de mansinho a fervilhar por dentro dos troncos sem folhas.

Só a cadela além, do outro lado da rua, presa na corrente pesada, deitada de costas, a colher o calor do sol sobre o cimento, de patas erguidas. Aqui a toalha estendida no varal, a toalha bordada pela Mãe, as flores coloridas num desenho irregular sobre os quadrados do adamascado cru. Os guardanapos. O saco do edredão que faz esquecer os lençóis de bilros que não se usam mais. As azeitonas que restam, algumas ainda verdes. A magnólia cheia de promessas. A abóbora feia, torta, que ao primeiro golpe acende uma coloração de gema de ovo esplendorosa.

O silêncio da hora da sesta.

Não sei se o destino existe. Não sei também se somos nós que o determinamos, seja ele qual for. Sei que somos nós que escolhemos os destinos nas encruzilhadas da vida. E são tantas. A senda que nos parece certa numa determinada altura, porque a mais fácil, a mais plausível, a mais natural, foi um logro. Mas percorreu-se. Nem vale a pena voltar para trás, apenas procurar uma nova encruzilhada e arrepiar caminho. Olhar o trilho do sol e enquadrar o novo espaço com o nascente e o poente. Olhar os seres que cruzam os céus, os mares, ver como seguem a rota dos seus antepassados. Quem sou eu? Partir de onde vim e aprender com o que já percorri. Quero o fulgor do sol? O calor do deserto? A alvura da neve?

Bater as asas e deixar-me levar pelas correntes, dissolver-me no azul. Do céu. Do mar. Perder o horizonte.

Passar para a outra dimensão.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Noite de Natal

«Mais la plus belle de toutes les étoiles, maîtresse, c’est la nôtre, c’est l’Étoile du Berger, qui nous éclaire à l’aube, quand nous sortons le troupeau, et aussi le soir, quand nous le rentrons. Nous la nommons encore Maguelone, la belle Maguelone qui court après Pierre de Provence (Saturne) et se marie avec lui tous les sept ans.

– Comment ! berger, il y a donc des mariages d’étoiles?

– Mais oui, maîtresse.»

Alphonse Daudet




– Sozinha aqui na fogueira? A matar saudades, ou quê?

– Nada disso. Estava a ver se lobrigava daqui a Estrela Polar…

– Cuidado, prima! «Nã fiar no céu estrelado, quando o grelo sai do nabo!» Nã conhece este provérbio?


Não conhecia não senhor. E ele tinha a razão consigo, que a chuva não se fez esperar no dia a seguir.


O Leonel é o guardião da fogueira.

Ele a acende todos os anos para a Consoada e cuida por que não esmoreça, arrastando com uma grande forquilha aqueles toros e raízes enormes que lhe mantêm o coração de brasa, apesar da chuva. Os ajudantes variam, ausentes os homens mais velhos que já não tornam, ou os mais novos que demandaram outros fogos mais longe, nem sempre presentes.

O Leonel é o mais novo dos primos – da nossa geração – que partilham desde há décadas o calor e a harmonia desta labareda em cada Natal.

Ribatejano dos quatro costados, de poucas falas, amigo, ele conhece as saudades de todos os que se rolam à fogueira e param o olhar nas chamas, os clarões de fogo que trazem os rostos de outros natais. Nós nos confessamos a ela e ele conversa com a fogueira. Pelo menos assim parece.


Da geração que se segue para manter a tradição, os sorrisos que nos dão alegria.

E a mais nova é a filha do Leonel.


sábado, dezembro 22, 2007

A Consoada


Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe:

– Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas, crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

– É servida?

A santa pareceu-lhe sorrir outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

– Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga



terça-feira, dezembro 18, 2007

Sinestesia


«O amor, a amizade e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara, 
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixado só, nulo, atónito, 
A mim, que tanto esperara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia…»
José Régio



Quero entrar na serenidade do tempo que a quadra me proporciona, mas a angústia prevalece.

Não consigo criar empatia com esta natureza sem viço, as folhas sem tom, tristes, caindo doídas, os ramos negros de humidade nas árvores, esta morrinha a carpir a saudade dos que me deixaram nestes outonos.

Sei, sei! Que a Idade Média não foi um tempo de trevas porque possibilitou o Renascimento. Sei que é preciso esperar a manhã num sono quieto, sei que a natureza descansa mas não dorme. As crias desenvolvem-se no ventre dos troncos escuros, como os ursos procriam na profundeza dos gelos. Por enquanto.

Até os pardais deixaram os telhados, não os vejo nem ouço, nem me recordo de outro Inverno com eles ausentes. Deixaram campo aberto aos piscos que debicam as azeitonas maduras, já vi uma ou outra arvéola de cauda balouçante e o melro, sempre presente. Vivo, ladino, o bico amarelo espalhando o cascalho à procura do sustento, mal o dia aponta, ainda a geada cobrindo a relva.

O Natal chegando devagar, já sem o sabor de outrora, da azáfama dos dias ansiados por cada ano longo e demorado, a seira cheia de figos a anunciar os sonhos e rabanadas, a Consoada enfim, os presentes no Dia de Natal pela manhã cedo.

Agora o ano é mais curto, só os sonhos persistem, sonhos que são mentira na boca, sonhos que são mentira na alma. Quando são verdade, deixam de ser sonhos.

Dos sonhos, sonhos, a sinestesia que permanece no murmúrio do odor, do paladar, do calor, com os olhos da alma.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Não Esquecer


Estou só. Mas é-me impossível gritar – para quê?

Às vezes, mas raramente, o grito sobe, enrola-se-me na garganta e o mundo recua bruscamente para uma estranheza absurda. Mas é raro e tudo reflui de novo como uma pedra que subisse muito alto e desistisse no fim. E ainda bem, porque os sentimentos são um vício – ou não? O povo diz «o comer e o ralhar vai do começar». Mas tudo vai do começar: o amor o ódio, o choro, a ternura, o medo.»

Vergílio Ferreira



Não me apetece escrever.

A geada cai despudoradamente sobre tudo o que sobra do jardim, garimpando pelas sombras até manhã bem alta. O sol corre baixo, muito baixo, e ilumina os dias até ao fim de tarde chegando cedo, que a noite impera.

Sei que os homens inventaram o Natal colorido, as árvores gigantes, o brilho das luzes que enfeitam as ruas, que fazem sonhar as crianças e esquecer os adultos das outras, famintas, de barriga crescida e ossos salientes, que a Cimeira de África na Europa prometeu não esquecer.

Mas não esquecer é um pouco diferente de lembrar, que lembranças são algo que existe, que tem corpo, seja uma rosa, seja uma daquelas Torres Eiffel pequeninas que até serve de lima para as unhas, seja uma tartaruga de jade que significa longevidade e se compra em Chinatown para recordação, seja o que está bem guardado nos escaninhos da memória. Sempre algo palpável.

Não esquecer é uma coisa mais vaga. Há demasiadas coisas misturadas para «lembrar de não esquecer». É assim como uma prateleira de várias estantes onde há muitos livros, novos, antigos, de capas brilhantes e outros já sem lombada, à mistura com bibelots, fotografias, caixas com novelos de linha, dicionários, dossiers, cds, até um candeeiro. Porventura o mais valioso, o mais urgente para ser lembrado está naqueles livros cuja lombada já nem é, que é preciso manusear com cuidado, de papel escuro e baço. Aí a maior riqueza a não esquecer.

Mas essa urgência de encadernar os livros antigos é disfarçada pelas molduras de exóticos trajes de nómada, de negros de óculos brilhantes e pele luzidia, de senhores que se eternizam no poder de esmagar os mais fracos.

Que mão tem força para os afastar e encadernar os livros?



sábado, dezembro 08, 2007

Esperança



«Só desejava a campina

colher as flores do mato.

Só desejava um espelho

de vidro, para se mirar.

Só desejava do sol

calor, pra bem viver.

Só desejava o luar

de prata, pra repousar.

Só desejava o amor

dos homens, pra bem amar.

Oh! que fizeste, Sultão,

de minha alegre menina?»

Jorge Amado






Aqui onde moro, vive uma ribeira.

Há algumas décadas, fertilizava campos de arroz; há séculos teve direito a uma ponte romana, entretanto desaparecida sob camadas de cimento e asfalto. Para ela descia um pequeno córrego da colina além, córrego que já não é, ficando a marca que divide duas propriedades.

Actualmente um dos proprietários, nonagenário, magro, escorreito ainda, desce o pequeno vale, enxada na mão, a limpar a sua margem. Deliberadamente, ao longo dos anos, foi desviando o caminho do córrego, gradualmente retirando uns centímetros de terra ao vizinho, no seu afã de limpeza. Hoje é notória a linha curva que parte do marco que divide as duas propriedades, nogueiras e pessegueiros convenientemente plantados ao longo da berma.

Nada a fazer, há sempre quem conte com a educação dos outros.

A cimeira de África mereceu-me estes pensamentos comezinhos. África de falsas fronteiras, que os Europeus dividiram a seu bel-prazer, a régua e esquadro, sem respeito pelas fronteiras naturais. E quando falo de fronteiras naturais, não digo as fronteiras físicas do terreno, porque nem sempre os rios dividiram gentes, antes as uniam em suas margens. Falo de fronteiras humanas, o respeito pelos povos, pelas suas afinidades culturais.

A cimeira, que junta em Lisboa este fim-de-semana os representantes dos povos africanos e europeus, é por si só uma conquista. A primeira batalha, depois da outra, já ganha com demasiado sangue e sofrimento de ambos os povos, brancos e negros, da outorga de África aos autóctones.

À distância de meio século, saibam os antigos colonizadores despertar os novos – da mesma raça – para o respeito étnico dos valores de cada um, dentro do mesmo país.

Que o esforço gere polémica e a refrega seja útil, principalmente para os direitos humanos.

Assim teremos um mundo melhor.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Máquina



«E o jantar veio para a mesa; rompeu a agradável orquestra de garfos e facas, para muito boa gente mais harmoniosa que as melhores partituras de Bellini ou Donizetti; e todos empreendemos, como aliados, numa batalha, cujos destinos não podiam ser duvidosos.

O médico e o abade, esqueceram por um pouco a recíproca antipatia; contudo esta afabilidade diminuía na razão directa do apetite. À sopa, eram quase amigos, ao cozido, tolerantes apenas; mas quando chegou o prato de meio, já os primeiros assomos de hostilidade começavam a transparecer. Um frango guisado foi o pomo da discórdia.»

Júlio Dinis


Fascinam-me as máquinas, por simples que sejam.

Havia dantes, em casa de meus pais, enormes fogões a lenha que eu admirava. Havia um na fazenda e um outro enorme na cidade. A minha cidade. E era tão grande e pesado que, quando mudámos para a casa nova, ele não foi para a cozinha. Talvez porque não coubesse, talvez porque não se coadunasse com a decoração, mas principalmente para que não fumasse na casa, escurecendo as paredes.

Então foi preciso construir para ele um alpendre no quintal, por trás dos anexos. Tudo porque não se passava sem aquela máquina multifuncional, de forma alguma substituível por um moderníssimo fogão a gás de quatro bocas embora a meio com uma placa para grelhados. Este ficava bem na cozinha, pouco mais que para enfeitar, uma ou outra vez experimentar um bolo no forno.

O Cozinheiro era um maquinista atento e cuidadoso. Pela manhã cedo o acendia, como eu hoje ligo o computador. Era todo em ferro escuro, com as bocas tapadas por discos que se tiravam (ou não, porque o central tinha um buraco onde cabia um dedo), consoante fosse preciso mais ou menos calor, de acordo também com o tamanho da panela a aquecer. Os discos sobrepunham-se perfeitamente uns sobre os outros. Na frente, uma barra grossa de metal reluzia a toda a largura, à força de solarine, tal como a torneira pequena de uma só haste, que só deitava a água da caldeira de cobre quando em posição vertical à face do fogão. Posicionava-se à esquerda, pois que à direita havia o forno, com um tabuleiro a meio, e, abaixo dele ainda um espaço para guardar as travessas sem deixar arrefecer a comida. Ao centro o fogueirão, onde entravam os toros de lenha logo trancados pela porta de aldraba, como todas as outras, com punhos enegrecidos, que só brilhavam em dias de grande limpeza.

Aquela máquina era a força da casa, o seu arrimo.

Fervia o leite para os meninos, logo cedo, aquecia a água para o café e para o jarro nas manhãs frias de cacimbo, iniciava o ritual da sopa, preparava as refeições da casa, cozia os bolos, grelhava os bifes de caça na chapa. Fazia a goiabada e o doce de loengo. Cedia as brasas para o ferro de engomar a roupa, fazia a comida dos cães. Pela tarde ainda se aproveitava dele a cinza para arear as panelas e os talheres de alpaca. E para estrumar a horta.

Naquele alpendre das traseiras, batia o coração da casa. O ruído das conversas que eu não entendia, as risadas, os cheiros, os sabores dos fritos de canela e açúcar roubados antes da mesa, o cão à espera.

Anos volvidos, quando regressei do outro continente, o coração já não batia.

A casa grande e bonita estava lá.

Mas eu não a encontrei.



sábado, dezembro 01, 2007

Viver do Sonho


«As quatro velas nos ângulos do caixão, derreadas de cansaço, endireito-as, esforço-me por, pingavam para o chão.

– Por que é que foste para jornalista? Uma vez contaste-me, achei tanta piada. Mas o que tem mais piada é tu acreditares na causa e efeito. Porque primeiro é-se e depois demonstra-se por que se é. E à beira do mar devias ter frio. Sinto-o mesmo aqui. Se fechasses a porta?

A sós contigo. Toda a história do mundo reduzida a mim e a ti. Com muitas circunstâncias adjacentes sem importância nenhuma.»

Vergílio Ferreira




Os sonhos, só porque são sonhos, nunca se assemelham à realidade. Brotam da exaltação do sono num contexto febril: quando são bons, são sempre em versão melhorada do real, quando são maus, são infinitamente piores.

Um dia sonhei a morte de meu pai. Não sei precisar os motivos ou os acontecimentos que o cercaram, situa-se algures pela infância. Recordo apenas que sofri desabaladamente durante meses, senão anos, com a ideia de o perder. Era o tempo em que o meu mundo só fazia sentido com a sua presença, a segurança da sua alegria, a sua imortalidade.

Quando a sua morte me foi anunciada – por ele, por aquela força que nos unia – e, logo a seguir, pelos telefonemas que exigiam a minha presença longos quilómetros além de mim, eu reagi com dor, sim, mas com beatitude, iniciando a vida que se me oferecia com novo espanto, com novas certezas. Afinal com as certezas em que me fui afirmando, a exemplo de tudo o que me transmitira. Não fui ao seu enterro.

As consequências foram devastadoras. Devastadora terá sido também a dor dos que então o acompanharam e nunca me perdoaram a decisão. Lamento e sinto remorso por isso, pelo sofrimento causado aos vivos, mas não me arrependo. Afinal, fui coerente comigo. E com ele. Com o nosso espírito que planava em paz.

Quando acordo numa manhã fria, na certeza dum sol que não aquece, eis que as nuvens marcham caudalosamente e preenchem o espaço antes azul e se enovelam sem chuva, adoçando o ar, em abraços sozinhas, afagando-se.

E o cinza aquece o pinheiro alto que se destaca e, nele, o ninho de Inverno do melro negro.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Amargamente

«Gabriel Garcia Marques referiu-me, muito ofendido, que lhe tinham suprimido em Moscovo alguns trechos eróticos do seu maravilhoso livro Cem Anos de Solidão.

– Isso foi muito mal feito – disse eu aos editores.

– O livro não perde nada – responderam-me; e percebi que o tinham cortado sem má vontade. Mas podaram-no.»

Pablo Neruda




Acidentalmente.

Encontrei esta noite Maria João Rodrigues, no Clube de Imprensa, no Canal 2, a defender com galhardia a importância da União Europeia no mundo actual (obstinado em dominar pelo poder económico e político) no que toca principalmente a Educação e a Cultura – contra uma outra ideia de decadência.

Curiosamente.

«La Consistencia de los Sueños» é uma exposição que encerra as comemorações dos 85 anos de José Saramago, o Prémio Nobel, o nosso primeiro Nobel de Literatura, e tem um título que não é escrito em português.

Esta mostra, que lhe retrata a vida desde a infância e adolescência através de milhares de documentos, fotografias e variado suporte informático em cartas, traduções, críticas literárias e todos os seus livros, mesmo os primeiros poemas do escritor, não é escrita em português.

A exposição que deverá chegar a outros continentes, que permite divulgar quem foi o homem, o intelectual e o activista político e social que é José Saramago não é escrita em português.

Lamentavelmente.

Eu sei que o Prémio Nobel de Literatura 1998 causou muitos engulhos aos portugueses: a sua escrita de um fôlego só – eu, que venero Eça e me enterneço com Lobo Antunes – o seu activismo político, o seu radicalismo, o seu iberismo.

Mas há o homem: Português. Dorido. Frontal. Determinado. Lutador. Ganhador.

Há o Escritor fecundo que foi crescendo e nos deixa uma obra memorável.

Não sei se merecemos estar na União Europeia. Espanha merece.

O Ministro da Cultura de Espanha esteve presente.

A Ministra da Cultura de Portugal não esteve presente.

Deve ter marcado cabeleireiro.



terça-feira, novembro 27, 2007

As Horas









«Parece, de súbito, que não está na sua cama, mas sim num jardim incrivelmente viçoso, de um verde mais do que verde: uma visão platónica de um jardim simultaneamente simples e misterioso, sugerindo, como todos os jardins sugerem, que, enquanto a velha de xaile dormita no banco de ripas, qualquer coisa viva e antiga, uma coisa que não é nem benévola nem malévola e exulta apenas na continuidade, entrelaça e une o mundo de quintas e prados, florestas e parques. Virgínia move-se pelo jardim sem poder dizer-se que anda: flutua nele, qual pluma de percepção, incorpórea. O jardim revela-lhe os seus canteiros de lírios e peónias, os seus caminhos de saibro debruados a rosas cor de creme. Uma donzela de pedra que o tempo se encarregou de amaciar ergue-se na beira de um tanque cristalino e medita de olhos postos na água. Virgínia desliza pelo jardim como que impelida por uma almofada de ar; começa a compreender que existe outro jardim debaixo deste, um jardim do mundo subterrâneo, mais maravilhoso e terrível do que este e que é a raiz de que nascem estes relvados e estas pérgulas. É a genuína ideia de um jardim e está longe de ser tão simples quanto é belo.»

Michael Cunningham



sexta-feira, novembro 23, 2007

Guerra perdida?



Antes de entrar no remanso do fim-de-semana, dei com um desafio «que anda por aí» e de que já tinha dado conta: abrir o livro que tiver mais perto na página 161 e transcrever a 5ª frase inteira. Não participo, por norma, nestas correntes, mas passei agora pela APC e ela limita-se sugerir a continuação da brincadeira a quem achar por bem fazê-lo.

Acedi.

Como quem não quer a coisa, deito mão ao livro que tinha aqui ao lado, em cima da mesa, procuro a página apenas para ver se a frase me passaria algum sentimento, impressão, alguma sensação que me tocasse. Aconteceu.

Era como que uma guerra perdida de antemão, algo de indefinível. Isto diz Pablo Neruda em «Confesso que Vivi».

Não li o antes nem o depois, mas acendeu aquele sentimento indelével de que algo se vai passando de inexorável no nosso tempo presente que prenuncia uma luta que quer começar mas ainda não teve início, a batalha que se quer travar mas tarda em reunir armas e munições, gentes, vontades; mais do que isso, empenho, entusiasmo, força, desafio. E depois, quero dizer, antes, medo, mas medo a sério da guerra em que todos seremos o inimigo.

De alguém forte, mas tão forte, que só todos os povos aliados da Terra poderão fazê-la recuar.

É a ferocidade de uma Natureza ferida, continuamente agredida e desonrada na grandeza que sempre disponibilizou para nós, na prosperidade que nos concedeu ao permitir que nos servíssemos dela, na beatitude do seu equilíbrio.

Temos pouco tempo para a conquistarmos de novo.

Cada vez menos tempo.



terça-feira, novembro 20, 2007

Ironias...

«É por isso que a liberdade de expressão (e, em geral, as dos direitos humanos) na China não é um problema chinês, mas algo que nos diz respeito a todos. A China, onde se realizarão no próximo ano os Jogos Olímpicos e onde, segundo a Amnistia Internacional, são executados por ano entre mil e oito mil pessoas, tem neste momento presos centenas de jornalistas, internautas e activistas dos direitos humanos. »(...)

(...) «A China gastou, em 2006, 19 mil milhões de euros em investigação de tecnologias de censura da net. E está já a exportá-las para outros países. Esperemos não vir a descobrir à nossa própria custa que, quando um homem não é livre, a liberdade de todos os outros está em risco.»

Manuel António Pina


Ler é um atentado à nossa integridade emocional. E nem digo ler um manual de filosofia ou uma grande obra de um escritor conceituado, um qualquer prémio Nobel. Felizmente basta-nos ler o que sai da pena leve de um simples fazedor de crónicas, daqueles seres como nós, companheiros semanais que até nos olham com bonomia do fundo da página, de cigarro na mão politicamente incorrecto.

Politicamente correcto, Manuel António Pina, na última página da Notícias Magazine, traz-nos a Grande Muralha da China, uma das maravilhas do mundo, e com ela nos acena sentindo nós a dor dos operários que a construíram sabe-se lá com que coacções – a palavra do presente.

Sou coagida a acordar para o que tenho entre mãos, este computador que até tem um IP que eu desconheço e a Microsoft conhece, mais a Google que controla o diário que não tenho mas poderia ter, mas sabe dos meus desabafos e conversas íntimas com os meus filhos e parentes, amigos e amigas, que conhece as minhas passwords para entrada nas minhas contas bancárias, que tem afinal o segredo dos meus segredos.

Ler tudo o que nos aparece é presentemente um desassossego. Estava eu decidida a deixar de comprar uma determinada marca de comida para o meu cachorro, porque tinha sido confrontada com os horrores praticados sobre animais em experiências feitas pela empresa que é detentora da marca, e eis que o animal adoece sempre que mudo de marca de comida. Horrorizada com as actividades da Yahoo! fornecendo às autoridades chinesas informações particulares sobre um jornalista que o conduziram a uma prisão injusta, eis que reparo que a Google e a Microsoft se prestam a actividades semelhantes.

Eu não vivo sem computador, sem um motor de busca.

O meu cachorrinho morre com outra marca de comida.

Tenho de optar: dou de presente o computador no próximo Natal e passo a cozinhar para o cachorro ou fecho os olhos à evidência.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Comportamentos


Não vale a pena no fundo planearmos coisa nenhuma para a nossa vida. As nossas vidas serão sempre mesquinhas se elas se incluírem dentro do restrito tempo e dentro do restrito espaço em que nossas vidas podem desenvolver. Elas só são grandes, quando nós incluímos, juntamente com a vida dos que viveram antes de nós e juntamente com a vida daqueles que são nossos contemporâneos, a vida daqueles que virão depois de nós.

Agostinho da Silva




Parece que os outonos se desdobram, cada vez mais frequentemente, em primaveras serenas, cheias de beleza nos dias sossegados, sem vento, só a temperatura lentamente a trocar as voltas.

Até as rosas permanecem, quase pondo em questão aquela outra de el-rei trovador – «Rosas em Janeiro?» – que consagrou santa uma rainha no nosso Portugal ainda menino, recém-nascido para a língua portuguesa. Na lucidez dos dias que correm, santa seria, não pelas rosas que ao calor do regaço se fizeram pão, mas pelos sorrisos ao senhor seu rei, que em trovas de amor cantava loas às suas aias.

Mas o cair de chuva faz-me falta. O que mais fortemente marcou a minha infância foram as nuvens escuras troando, riscando o céu de luz, aglomerando-se diariamente em castelos no horizonte, pela tarde, e as cordas de água que se soltavam pesadamente, em torrentes, os arco-íris enfeitando os céus e logo depois aquele ar limpo, de sol outra vez, deixando o brilho e o cheiro da chuva.

O tempo mudou e os tempos mudaram.

Nas flores, nos amores, nas trindades que já não tocam nos sinos da aldeia.

O progresso trouxe as máquinas que dizem as horas, que fingem os amores, que fabricam as flores sem perfume. E trazem a morte mais cedo pelas estradas onde rolam.

O tempo mudou e os tempos mudaram.

Nós também temos de mudar.