Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
Teixeira de Pascoaes

O mundo que eu construí é só meu, embora caiba por lá o mundo inteiro.
A minha casa à beira do rio, o rio que crescia nas Chuvas e enchia as lagoas das margens, o rio que subia, subia e cobria os capinzais e brilhava então para a casa grande. Os animais que moravam por ali tinham de sair desabrigados para as flechas ou tiros que os atingiam. Naquele tempo não me feria a desonestidade da astúcia humana para com os pobres animais indefesos, a minha insensibilidade habitava-me, completamente imune à dor alheia. Depois de mortos não passavam de carne para servir à refeição, eram tapetes lindos para o quarto, até carteira bonita para oferecer à mãe.
Três, quatro dias, durava o espelhado junto ao rio lá em baixo e então muitas coisas aconteciam.
Um dia trouxeram-me uma espécie de cachorrinho que apenas chiava. Tinha sido resgatado quando a sua mãe raposa o transportava nos dentes para um lugar seguro e havia encontrado a morte. Cabia na palma da minha mão e escondia a cabeça e o corpo onde pudesse, assustadíssimo. Acabei criando-o a biberão e cresceu selvagem e bonito, apenas permitindo que eu me aproximasse dele, agredindo quem quisesse deitar-lhe a mão. Foi uma experiência fascinante porque fui dele a referência de protecção e ele foi-me fiel. Até ao dia em que eu fui obrigada a quebrar o elo que nos unia e a entregá-lo ao Jardim Zoológico, perante a ameaça que recairia sobre ele, caso o deixasse livre.
A outros animais servi de ama, principalmente cães e gatos, até a uma cabra doméstica.
Da minha relação com os animais prevalece uma intensidade emotiva nem sempre amável, quase sempre intransferível, sempre insondável para o ser humano comum.
Mas é o mais puro dos sentimentos que alguma vez conheci porque nada o distrai do puro afecto, nada o demove do ponto de referência.
Não falha. E confia. Não é humano.













