sexta-feira, outubro 26, 2007

A Descida

«Não posso adiar o amor para outro século

não posso

ainda que o grito sufoque na garganta

ainda que o ódio estale e crepite e arda

sob montanhas cinzentas

e montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio


Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação


Não posso adiar o coração»

António Ramos Rosa














































Eu tenho um pote de ouro, antigo.

Tiro a tampa devagar e está cheio de poalha solta e leve.

Meto os dedos nela e sinto um frio doce, macio ao toque, escorregadio.

Retiro uma porção e olho a mão aberta, brilhos espalhados, o mundo inteiro ali, pedaços de papel cor de sépia, dizendo lugares, momentos, gentes que eu nem sei, outras que não estão, outras estando, que já não são.

Assaltam-me frequentemente dúvidas quanto ao facto de sermos nós a escolher a vida que temos. Ela simplesmente acontece.

Nascer ou não em berço de ouro.

Nascer órfão de tudo.

Faz toda a diferença, cedo encontrar quem nos faça entender quanto é importante ter-se consciência do que somos e do que queremos ser, e que o sucesso de uma existência está na força interior que nos leva a ultrapassar barreiras, a derrubar obstáculos, a vencer os limites que nos são impostos. Mercê da idade, do sexo, da religião, da cor da pele, do clã a que pertencemos por nascimento, da sociedade que nos molda o carácter, que nos impõe as regras, que nos faz ver o mundo através do seu olhar.

A educação e a cultura devem facultar as outras objectivas, outros ângulos, outra luz.

Ver diversamente, alguns cedo, outros mais tarde, outros nunca conseguem.

Porém, todos rolam o seixo para a montanha, cada vez mais alta, cada vez mais íngreme.

A diferença, o que nos torna únicos, é o prazer na descida.



segunda-feira, outubro 22, 2007

Futuro



«Dor, amargura, melancolia. Quantas formas de se ser vencido no que desejávamos. Mas ao longo delas, o que varia é a parte de nós que se submete. E mesmo, paralelamente, a parte perversa de nós que se contenta com isso. Assim o que varia é a parte de nós que se mede com o destino. Mas com isso não variará também a qualidade do sofrimento?»

Vergílio Ferreira



Acordo na noite quieta, àquela hora em que os carros não passam e os ruídos das casas já se apagaram. Não há crepitar de lume nem as madeiras da escada rangem como nas casas antigas. Roedores também não. E daí não sei. Algum ratinho de campo esguio e lesto entrará pela portinha do cachorro, virá comer os pequenos grãos olorosos, ele não sabe que é comida de plástico. E farta.

Estico a lembrança bem fundo, mentalmente encostada às grades da cama niquelada, sentindo o leve aperto na minha daquela outra mão frágil, enquanto afago com o outro lado de mim a testa e o cabelo ralo, aquele rosto doce, adormecido e magro, um quase sorriso sob o tubo transparente que lhe sai da narina.

Lá longe, onde a memória chega, que hei-de eu ver? Uma casa de banho espaçosa, ao fundo da varanda exterior. Junto ao tecto uma janela de vidro a toda a largura da parede, deixa espreitar buganvílias e cachos de flores brancas de outra trepadeira qualquer. Por baixo a banheira, talvez de ferro, porque esmaltada por dentro e nos pés ondeados; por fora escura, quase negra. Ao lado a sanita com um autoclismo no alto e uma corrente pendendo, de puxador branco e liso na ponta. O pavimento de mosaico hidráulico fazia desenhos azuis no chão e um pequeno degrau levava à parede oposta, onde havia um lavatório. Logo abaixo, na parede, sobressaía um murete estreito, onde pousava um sabonete sobre um pires de louça.

Não sei que idade teria. Entrei da varanda, saltando uma bola viva, tão viva que foi logo atraída pelo sabonete de cor. E o pires de imediato no chão em cacos.

Foi na casa de meu primo Eduardo, o afilhado de meu pai e meu padrinho de registo. Tinha acabado de casar e morava numa casa ao lado da nossa. Era jovem e tinha o futuro grande e bonito. Agora o futuro é mais curto.

Mas continua bonito porque embrulhado em afectos.


sexta-feira, outubro 19, 2007

A alma do Lobo


«Do ponto de vista da Arte recebi muito mais do que poderia ter desejado e no entanto trago as mãos vazias. Agora dei duas entrevistas, coisa que nunca deveria ter feito. Não ponho em causa a competência ou a honestidade dos jornalistas mas não me revejo em nada daquilo. Não sou assim e não sou capaz de exprimir o que sou. Os livros falam muito melhor do que eu. O que aparece nos jornais é um estranho e até as fotografias são mentira porque não me pareço comigo. Acho-me cansado desses jogos. Apetece-me desaparecer atrás das palavras, ser de facto o ninguém que sou: um nome apenas, numa capa. E deixar o resto para mim, dado que não tem nenhuma importância colectiva.»

António Lobo Antunes escreve cada vez melhor. A sua vontade de comunicar o que vai dentro de si é intensa e sempre o fez com algum recato, sem deixar que aflorasse completamente a grande pessoa que ele é. Porém, à medida que vai expondo cada vez mais livremente o que pensa de si próprio e dos outros, sem peias, melhora o escritor, consegue mais intimidade com quem acompanha os seus pensamentos. Pessoalmente, vejo nas crónicas a sua melhor expressão precisamente porque pouco trabalhadas, menos afagadas, mais à flor da pele, cada vez mais num tom coloquial em que é exímio.

A sinceridade da mágoa que transparece nas palavras citadas «Não ponho em causa a competência ou a honestidade dos jornalistas mas não me revejo em nada daquilo. Não sou assim…» comoveu-me, principalmente porque comentei aqui um laivo de vaidade sobre a sua própria escrita, que vem sublinhada numa das anteriores entrevistas que refere.

O contexto em que surgiram aquelas palavras espontâneas não apareceu na revista e é mister dos jornalistas encontrar frases bombásticas para chamar a atenção, para vender bem, o fim necessário e primeiro nos nossos dias, pervertendo completamente a intenção do autor. Lobo Antunes ter-se-ia manifestado na sequência de referências a «alguns autores», apenas isso. Crivado de razão.

Afinal, alguém que, sendo Médico interno numa psiquiatria, tem a coragem de aparecer ao serviço de cabeça rapada e de bata igual à dos doentes, para protestar em nome deles, arcando com as consequências previsíveis, não pode achar-se acima de ninguém. É profundamente humano.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Novos Tempos


«Na fímbria branca dos telhados, nas árvores ossificadas, no ar imóvel – o silêncio. Vibra, retine como um cristal, ouço-o. Então abruptamente atiro uma patada violenta: para desentorpecer um pé? para tomar posse do mundo: um estrondo reboa como o anúncio de um Deus. Sou eu, ó noite. Trémulo olhar de lágrimas, na solidão astral, e o frio, o frio, adstringente e nulo, restrito em mim, pequeno, tão só. Terei divindade que chegue? – tão grande o universo. Pequeno e medroso aqui. Atiro a minha patada violenta, respiro até aos ossos o universo inteiro. Sou eu. Regresso enfim a casa, acendo o lume. Terei de ir à mata cortar lenha. Amanhã? Talvez amanhã. Dorme. Estás tão cansado. Amanhã é um dia novo.»

Vergílio Ferreira



Por um instante – brevíssimo, tão breve como a história do Homem sobre a idade da Terra – você tirou-me a paz. A impulsividade construiu outra história, depois o reencontro, uma e outra vez, com os seus superlativos, a sua audácia, a sobriedade, a sageza, tudo retomou o seu tempo num caminho aberto, através de tempestades de água desordenada vazada sem tino de céus ignotos, por entre os arco-íris fincados na terra donde brotou a Humanidade. Num cais, à despedida dum continente.

O homem à procura de Deus e ele aqui tão perto, tão dentro. De nós.

Escrevo, sim. Sempre. Mas escrevo uma epopeia sem nome, sem povo, sem história para continuar porque eu não creio na vontade dos homens e o deus-pastor vai apagar tudo. A terra vai reverdecer de novo, outros virão, novos tempos, para fazer uma história que não a nossa.

Não creio na reencarnação, mas creio na força da natureza, no renovar das estações, no Cacimbo das queimadas, nas Chuvas que trazem a vida, na Primavera e no calor do Sol, no escurrentar da Lua derramando a geada, nos ventos das Monções. Na Paz que vai chegar depois da avalanche das neves eternas que o não são já e não conseguimos controlar.

Quando você fizer crer aos homens que Deus está dentro de nós (e pelo ADN somos apenas um bicho), que todos nascemos negros e a deslizar na neve nos fomos tornando claros, que a alvura se mescla de escuro e o cinzento não é luto, que a violência não tem lugar, que o pão partilhado é mais saboroso, então…

Então, Vergílio, «amanhã é um dia novo».

E eu cantarei o Homem na flauta de Pã.



domingo, outubro 14, 2007

Prémio Nobel


Rosalinda, se tu fores à praia, se tu fores ver o mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar,
cuidado não te descaia o teu pé de catraia em óleo sujo à beira-mar.

A branca areia de ontem está cheínha de alcatrão.
As dunas de vento batidas são de plástico e carvão,
e cheiram mal como avenidas, vieram para aqui fugidas a lama, a putrefacção.
As aves já voam feridas, e outras caem ao chão.

Mas na verdade, Rosalinda, nas fábricas que ali vês
o operário respira ainda, envenenado, a desmaiar, o que mais há desta aridez.
Pois os que mandam no mundo só vivem querendo ganhar,
mesmo matando aquele que morrendo vive a trabalhar.

Fausto



O prémio Nobel atribuído à causa nobre do ambiente parece vir repor em primeiro plano o que vinha sendo demasiado esquecido, principalmente pelos grandes do mundo. O homem que foi preterido para a Casa Branca – ao que parece, algo indevidamente – em favor de uma personalidade controversa no seu comportamento perante as sociedades vigentes, veio dar a razão ao povo de que, afinal, Deus escreve direito por linhas tortas.

Al Gore, se estivesse à frente do comando de um país que continua a dar cartas pela força do dólar, não teria tido tempo de empenhar-se em conferências, em livros, em filmes, em viagens contínuas por uma causa que interfere com a sobrevivência da humanidade. Na verdade, alertar a opinião pública para o aquecimento global, quando os factos surgem cada vez mais próximos, cada vez mais urgentes, em face do afastamento das maiores potências industriais do Protocolo de Quioto, obrigar a acordar para a preservação do meio, para a defesa do ambiente, foi um passo memorável.

Sem que se possa considerar já um reflexo do que é referido acima, acabo de ler a divulgação de uma iniciativa da revista Visão que irá emitir uma publicação ainda este mês, denominada VISÃO VERDE e vai estar na base de entrega de árvores aos municípios, anunciando oficialmente a plantação de um milhão de carvalhos, só na Serra da Estrela. Nada poderia vir tão a propósito. Aqui, como sempre, vai faltando o apoio estatal para a proibição – leram bem palavra, sim, numa altura em que tudo se controla, controle-se pelo menos o que se deve – de plantação desenfreada de eucalipto, uma árvore que todos sabemos não fazer parte da flora natural da Península, uma árvore que esgota rapidamente as reservas de água num país sobre o qual pende a ameaça de desertificação, uma árvore que propaga facilmente os incêndios. Também propaga o dinheiro mais rapidamente, mas para nosso bem e dos vindouros, nesta altura «outros valores mais altos se levantam».

O homem que inventou a dinamite, continua a dinamitar consciências.


segunda-feira, outubro 08, 2007

A Força do Amor

– Dotô, ela vai podê ainda pari?

– Vai, sim, Giribel. Não afetou em nada a patada da onça.

O doutor foi para o canto e riu para o povo.:

Pronto, minha gente. Agora toca todo o mundo a dormir. Estou um bocadinho cansado…

O pessoal foi saindo, respeitosamente. O cómodo ficou vazio. Só então apareceu a mulher-dama, enrolada em gaze.

Posso levá ela pro meu rancho?

Não, Giribel. Deite ela com cuidado ali naquele canto. Se você mexer nela, ela morre.

O menino, com uma ternura imensa, levou aquele corpinho adormecido para o local indicado. Era nada mais que um animalzinho… uma cadelinha…

Depois perguntou a Madrinha flor:

- Posso posá aqui, Madrinha? A muié-dama pode percisá de argumas coisa…

José Mauro de Vasconcelos






O poder dos afectos prolonga a vida.

Nem há muito tempo, um cão a fingir, sem dois quilos de peso, pelo raso em tons de mel, elegância de impala no corpo esguio, nas patas longas e orelhas em riste, por quase três lustres integrou a matilha humana de nossa casa.

Partilhou alcovas e sofás, praias e serões familiares, dentro de um bolso mais avantajado ou na sua cesta de vime própria de felino, em que vezes sem conta ficou a repousar na cozinha de restaurantes com o aviso prévio de que «não era para ser servido à mesa».

Deambulou de scooter com os donos mais novos por campos e praias, de orelhas ao vento, quantas vezes entre a t-shirt e o peito do seu menino, cabeça emergindo qual gravata original. Sofreu dissabores no receio de ver alterado o seu lugar na matilha por uma andorinha resgatada ao frio e ao abandono, por pouco tempo embora – só até ela poder voar no espaço da Fonte da Senhora.

Envelheceu ao mesmo tempo que os seus meninos ganhavam asas. Foi-se habituando a rituais mais calmos, o reumatismo chegando, o coração pequenino (grande!) cada vez mais frágil.

Um dia tombou ao fundo do corredor, de lado, ficando imóvel.

Corri para ele, levantei-o, abanei-o, lembrei-lhe repetidamente que estava ali e que gostava muito, muito dele. Em lágrimas vi que voltava à vida. Kwacha, a alvorada, o nosso cãozinho guerreiro recuperava as forças. Não voltou a ser o mesmo, a crise repetiu-se uma e outra vez.

Morreu no dia – lindo como ele – em que chegou a Primavera de 99. Igual a si próprio até ao fim, ladrou, agrediu ainda a Morte quando a sentiu chegar. Esticou muito as suas orelhinhas a ouvir até ao último momento a voz da dona que o acariciava repetindo o seu nome.

Repousa, frente à casa dos que partilharam tudo com ele durante os seus 14 anos de vida, debaixo de um vetusto sobreiro, e duas roseiras foram plantadas para que ele possa continuar a olhar-nos com aquele olhar doce de muito amor que sempre nos dedicou em exclusividade total.

Os homens também são bichos.

quarta-feira, outubro 03, 2007

A Força da Escrita


Também tenho o meu rosto na multidão: Joana estava a sorrir quando a vi de mais perto, talvez apanhada por essa coragem que parece tomar conta das pessoas na vertigem das maiores tragédias, e agora ainda a descortino imóvel, contra um oceano de mãos acenando freneticamente na direcção de todos nós. Há outros casos assim, gente rara, em estátua, ou chorando sem o menor sinal de alarme. (…)

(…) Baixo os olhos e aponto a caneta ao papel. E marco a folha, em raiva: «Já não sou capaz de olhar o homem que chora.» Fico com os dedos enclavinhados no bloco de notas e no jornal, comprimindo o corpo contra a amurada, contra o seu bordo de madeira e verniz, e oiço apenas os gritos da multidão a sangrar. Bruscamente, percebo que algo de indefinido se quebrou dentro de mim. Um fio de alma, uma força, uma ligação lógica entre afectos.»

Rocha de Sousa, in «Angola 61»





A escrita tem um poder enorme. Mais do que qualquer imagem, a escrita, a boa escrita, é tanto ou mais do que a imagem. Ela pinta várias imagens numa tela só, ela traduz um, vários sentimentos de uma, de várias pessoas, faz ver uma sucessão de quadros, veicula som, movimento, tacto e acorda sentimentos indizíveis nos leitores. Sou pouco versada em artes plásticas, já o disse aqui. Posso parar extasiada diante de uma obra de arte, ela passar para mim fortes emoções e sentimentos, mas a escrita é outra coisa. Gosto de ler. Sinto-me bem a olhar as letras entrecruzando-se em palavras, em frases, em sentido, em sentidos. Os meus e os de quem escreve.

Os meus aqui, porque são a outra face da moeda, que não vê esta, fera açulada na espera de que os seus venham em seu auxílio, e não pode ser tão doloroso assim estender uma mão a quem se afunda no medo do terror que alastra. «O meu filho vale mais que uma província!».

Como é que se pôde chegar a isto?

António Lobo Antunes tem mestria absoluta em algumas das suas crónicas. Quase todas, direi (não conheço a sua obra na totalidade, mas alguns livros custaram a ler: a compreender, a entender o conteúdo, a expressão e a forma. É natural – é voz do povo que Deus, que é Deus, não agradou a todos). Mas daí a que diga, numa das suas últimas entrevistas, não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares, vai um passo de gigante.

Porque há. Não quero citar nomes – quem sou eu –, mas há. Há também aqueles que já foram galardoados com Prémio Camões. E não só.



domingo, setembro 30, 2007

Melancolia


«O tipo tem tanto sentido de humor quanto um rafeiro com sarna. Não aprecia a vida. Na minha opinião passou demasiado tempo em Portugal. Eu também gosto de visitar Lisboa, vou às livrarias, ao cinema, vejo exposições de fotografia, e acho tudo isso muito bom para lavar a alma. Mas nunca fico mais de duas semanas. Três no máximo. A melancolia portuguesa corrompe o espírito, escurece-o, como o frio do Outono amarelece e mata as folhas das árvores.»

José Eduardo Agualusa



Eu não me recordo se trouxe a melancolia comigo, aquela dorzinha no peito que deixa a gente lassa, sem força para rir com gosto, para rir bonito, apenas sorrir com trejeito amargo, sem voz, sem alma, sem vida. Às vezes vive cá dentro, escurece a minha alma, tira-me o sorriso, mas procuro que uma brisa a espante, leve que seja, nunca deixo que me danifique por inteiro.

O tempo invade a minha disposição, entra na pele, mergulha nos ossos e a alma treme. Muitas vezes sofrendo por antecipação. Este Outono manso, a encolher os dias, puxando a noite com uma brisa que já não é, antes vento que sopra e se entranha, lembra-me o Inverno que vai chegar e me pára o sangue.

Agora a chuva é bem-vinda para eu respirar mais fundo e aceitar os dias menos quentes, as noites mais longas. Vou ter por companhia o crepitar do lume na lareira, o estalido dos troncos de azinho, oliveira, contando histórias de gentes e bichos de outros tempos, de Torga e Aquilino e até Junqueiro, com melros zombeteiros de alma romântica no seu melhor.

Mas as noites anunciam-se demasiado longas. Como a vida se espreguiça para além do que é lucidamente desejável. Como o progresso alucinado que torna tudo breve, sem tempo para bater compassado, numa arritmia que incomoda porque o corpo já perdeu a firmeza, a agilidade, a fortaleza, a magnitude. E a graça.

Resta a experiência de vida que obriga a fincar os pés no chão, a olhar a chuva miudinha que faz brotar a relva, a ouvir a música dos beirados, a deixar que os ventos troquem o rumo dos dias de ontem e de amanhã.

E não perder a capacidade de amar.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Luuanda


«Luanda. Ou Lua, como é conhecida na intimidade. Também Loanda. Literariamente Luuanda (veja-se Luandino Vieira). De seu nome completo, S. Paulo da Assunção de Luanda, foi fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais (…)

(…) Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isto junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos do hebreu ressuscitado, colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um ou outro cubano que ficou para trás.

E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada. Chineses (de novo) em revoada. Meninos vendendo cigarros, chaves, pilhas, pipocas, cadeados, almofadas, cabides, perfumes, telemóveis, balanças, sapatos, rádios, mesas, aspiradores. Meninas vendendo-se à porta dos hotéis. Meninos apregoando quimbembeques, espelhos, colas, colares, bolas de plástico, elástico para o cabelo. Meninas negociando cabelo loiro, «cem por cento humano», em tranças, para tiçagem. Mutilados hipotecando as próteses. Quitandeiras mercadejando mamões, maracujás, laranjas, limões, peras, maçãs, uvas suculentas e remotos quivis.

Tio! Paizinho! Meu padrinho! Ai, olha aqui o teu amigo.

Carapauê!

Vai por quinhentos o disco, meu brother!

…Lavo…

…Guardo…

…Engraxo…

Se fosse uma ave, Luanda seria uma imensa arara, bêbada de abismo e de azul…»

José Eduardo Agualusa

quinta-feira, setembro 27, 2007

Missangas



«Moi je t’offrirai

Des perles de pluie

Venues de pays

Où il ne pleut pas

Je creuserai la terre

Jusqu’après ma mort

Pour couvrir ton corps

D’or et de lumière

Je ferai un domaine

Où l’amour sera roi

Où l’amour sera loi

Et tu seras reine»

Jacques Brel




O som seco de um tiro ao longe vem lembrar-me que hoje é quinta-feira e acabou o defeso – abriu a época de caça aos bichos de aviário – e já o ar fresco da manhã se deixa marcar pelo bafo quente da respiração.

Eis o Outono que vem chegando.

Mergulho agora as mãos numa taça de missangas cor de marfim pequeníssimas e, de repente, elas saltam coloridas como se reagissem à cor imposta. Querem ser incertas de muitas cores, misturadas de céu e de terra, de relva e de sangue, de milho e de prata. Querem cingir os pulsos das meninas negras, o colo e os cabelos, querem alegrar o fato da menina branca mascarada em cigana.

Os fios de gelatina longos e ondeantes, descendo na correnteza leve da nascente acima, colares de missangas de uma só cor, prendidos aqui e além por pedras e tufos de erva dos bordos da vala. Escorregadias, missangas negras enroladas nos tornozelos, nos pés descalços, deslizam, fugidios, por entre os dedos das mãos que os querem prender.

Era o recomeço da vida nas primeiras chuvas de Setembro.



segunda-feira, setembro 24, 2007

Globalização



«O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de altos muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de travar e vencer. E que nessa primeira luta teria de lutar consigo mesmo. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.»

José Saramago




Numa das suas últimas crónicas, e com a lucidez que lhe é peculiar, António Mega Ferreira toca uma ocorrência de ordem universal, que vai longe, vai até ao âmago do problema que nos vai conduzir à extinção: o domínio intenso, a prevalência, cada vez mais desproporcionada, da língua a que ele chama anglo-americana, sobre todas as outras.

Essa força que nos faz pensar a nós, Portugueses – um povo com quase nove séculos de História independente, duzentos milhões de falantes espalhados pelos cinco continentes –, que conhecer devidamente a nossa língua (ler Aquilino…) é de somenos importância quando se domina bem o inglês. Se, como se constata, os interesses económicos prevalecem sobre todos os outros, é bem certo que os milhares de milhões gerados pelos mais de milhão de chineses vão justificar que nos rendamos rapidamente ao mandarim…

Esqueçamos agora a língua, que deve permanecer traço de união entre povos, sim na sua divulgação e estudo nas várias vertentes, não na simplificação grosseira que apenas alimente a preguiça universal.

A globalização da economia parece que dói. Só não dói, antes apetece cada vez mais, a quem está no topo da cadeia. Ao homem não custa a destruição em massa, a extinção das espécies animais que todos os dias se verifica por falta de espaço no planeta que partilhamos.

O Ocidente impõe a «sua» democracia em todas as partes do mundo, mesmo onde é uma ideia peregrina, inaceitável, incompreensível para as civilizações que não fizeram o percurso devido para que essa forma de enquadramento sócio-político surgisse naturalmente como a mais respeitadora do «outro».

Uma enormidade quando olhada com singeleza: a democracia original floresceu num povo de escravos e estes não contavam, eram carta fora do baralho. Os ocidentais são mais hipócritas: dizem-se preocupados com os povos de África e Médio-Oriente, quando apenas têm interesse nos seus diamantes e seu petróleo. Que importa o povo do Darfur ou do Ruanda, do Iraque ou do Afganistão?

São escravos.

Continuemos a consolidar a nossa «democracia».

Até quando?




quinta-feira, setembro 20, 2007

Infância


O regresso às origens deve ter o seu tempo em cada um de nós.

Nunca voltar porque os outros voltam.

Não voltar se nunca o tempo for propício.

Viriato da Cruz é um nome grande na poesia primeira africana de expressão portuguesa sem necessitar de apresentação. Por puro acidente, num livro de Cartas de África e Alguma Poesia coligidas e seleccionadas por Salim Miguel, revelando correspondência assídua, em meados do século passado, entre jovens escritores brasileiros de Santa Catarina e as então províncias portuguesas de África, encontrei um poema de Viriato da Cruz – dedicado a Agostinho Neto – que me encontra menina, quando anseia que «cada criança goze a infância como se comesse uma maçã de aurora e de mel» na terra em que nasci:

«Para além da alegria multímoda deste parque acolhedor

– tarde soalheira! Florões amarelos o cicio do vento

nos ramos balançando balançando dos altos eucaliptos.

Para além do olhar amplo mar manso das crianças

um olhar contendo a confiança nos homens

e a certeza de vida no futuro

Para além deste par enamorado um ao outro harpando

a doce música do amor

Para além desta meiga presença de minha mãe

na carta que ontem me escreveu

Para além de quanto me dá esta emoção positiva, eu vejo

a mão no arado, a mão no tear, a mão na enxada, eu vejo

o tubo de ensaio suspenso da mão paredes subindo debaixo

da mão

a agulha na mão debaixo da mão tachos no fogo que a mão

domou, eu vejo

cabeças na escora da mão pensando aumentar da mão o

poder, eu vejo

o livro na mão o Homem a Mão, eu vejo

o trabalho crescendo na Paz criadora oh a Paz

– o modo humano da existência fecunda!»

Viriato da Cruz

Nova Lisboa – Angola, 1953

terça-feira, setembro 18, 2007

sexta-feira, setembro 14, 2007

Comunicação

«Se um homem escreve bem só porque está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.»

Bernardo Soares




Isto não é um diário.

A função da escrita é inata a quem é alfabetizado e lê. Gosta de ler, entenda-se. Quem é estimulado a ver desenhos e pinturas, a apreciá-las desde cedo, desenvolve a vontade de também criar. Como a música, como a construção na areia, como qualquer outra actividade. Este o grande desafio da educação que, como é mais do que óbvio, não começa propriamente na escola.

E assim aprendem as crianças, repetindo o rito. Principalmente se os assuntos surgem naturalmente, como algo que dá prazer, pouco a pouco inferindo que vale a pena conhecer melhor, saber mais, tirar prazer e proveito ao mesmo tempo.

Escrever é também comunicar. Para estabelecer empatia, seduzir à leitura, transcrevem-se vivências que nos tocaram a nós, desvenda-se o que a noite nos disse em segredo, o que trouxe o dia em alvoroço. Nessa escrita é reconfortante ter algum retorno, a mensagem fundamental de valer ou não a pena continuar. Que seja para rebater, qualquer função é aceitável, desde que conduza ao diálogo, ao aperfeiçoamento, se possível. O prazer de brincar com as palavras, o que se vai construindo, o limar das arestas, pintar, matizar as cores, leva à ficção, conduz ao nascimento de personagens, lugares, figuras, sensações pessoais em universo novo, criado, imaginado. Nem sempre real. E, se real, tão real como o cachimbo de Magritte.

É um percurso natural. Comunicar, apenas isso. Outras vezes ponderar as razões do leite derramado.

E deixá-lo infiltrar-se no solo, alimentar a Geia.

terça-feira, setembro 11, 2007

Adeus praia...

«O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo»


Sophia de Mello Breyner Andresen







domingo, setembro 09, 2007

Setembro


«…Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...»

Álvaro de Campos






Setembro é um mês mágico.

Lembra-me o entardecer do Verão exalando todos os odores da fruta colhida, assomando pela casa um cheiro à compota que vai adoçar o rigor das estações seguintes, o acender da esperança num novo ano de trabalho.

Os dias serenos, mais curtos já, nem sempre menos quentes, derramando-se pelas praias num estertor luminoso e numa quietude que nos deixa ouvir o mar, apenas o mar, e nele ponteando em grupos, aqui e além, os surfistas parados à espera do vento que não sopra e das ondas largas que não acontecem.

Recordar Sophia a ver o mar não é inédito. Sophia de Mello Breyner Andresen está presente em todos os lugares que o lembram. No Oceanário de Lisboa. Nas vagas alterosas das escolas também. Os programas de LP do E. Básico têm Sophia como sugestão de leitura orientada (obrigatória?): desde A Fada Oriana no 1º Ciclo, passando pela Menina do Mar, A Floresta, A Árvore, O Rapaz de Bronze no 2º Ciclo e ainda O Cavaleiro da Dinamarca no 3º Ciclo. A par de outros autores, entenda-se.

Mas a publicidade sempre esteve mais ao serviço dos que sabem usá-la e as desigualdades de oportunidades sucedem-se, isto sem pretender – nem por sombras! – desmerecer a qualidade de uma autora, de uma poetisa, deste gabarito (saiu a talhe de foice, foi o mar que a trouxe aqui) e de outros que lhe sucedem. Sempre me pareceu despropositado o excesso de obras dum mesmo autor para leitura recomendada, tendo em vista o universo alargado que felizmente existe de literatura infanto-juvenil.

Nesta linha de pensamento surgem alguns bons escritores contemporâneos que se debatem por “um lugar na frente”, ofuscados quase sempre por uma implacável máquina publicitária que impõe a massa informe de literatura de consumo corrente. Como o vinho: misturado, mas serve, haja o que beber.

Aquietem-se porém os escritores dignos desse nome que deixam a marca sentida do seu testemunho em letras que honram a nossa língua. Por entre o nevoeiro espesso da manhã, o sol vai romper. Melhor. À hora em que o ardor da chama já não queima, num areal comprido em que as pegadas prevalecem ao vazar da maré.

Ainda há lugares como este. Sem casas brancas nem dunas.

Apenas falésia.



quinta-feira, setembro 06, 2007

Cantigas de Amigo


«…Bailemos nós já todas três, ai amigas,
so aquestas avelaneiras frolidas
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar…»


Airas Nunez de Santiago (séc. XIII)



Os pássaros da felicidade enfeitam ainda hoje a memória dos acontecimentos no Oriente, nomeadamente os vestidos de noiva na China. São na verdade magníficos na sua elegância estes grous sem coroa.

Também temos os nossos símbolos de ventura, amuletos da sorte, fascinação por alguma espécie de magia ou encantamento, independentemente da condição de cada um de nós. Benzer com o sinal da cruz a boca de uma criança que boceja, dizer «santinha» quando espirra, por exemplo, tem explicações que remontam a crenças antigas, e ainda as há por aí. Ainda digo «saúde!» a quem tenta perto de mim controlar um espirro, que os micróbios vicejam mesmo sem essas manifestações intempestivas.

Pois eu sou fã dos «lenços de namorados» indispensáveis nos enxovais da região do Minho, para darem sorte nos amores, bordados geralmente durante o pastoreio do gado pela rapariga apaixonada que ia transpondo para o lenço os sentimentos que lhe iam na alma em poemas, verdadeiras cantigas de amigo, escritas na repetição da oralidade. A rapariga passaria a usá-lo ao domingo na missa, no bolso do avental; mais tarde oferecê-lo-ia somente ao rapaz que amava como compromisso de amor, e este deveria usá-lo ao pescoço ou no bolso do casaco do fato domingueiro.

Os que conheço mais elaborados têm belíssimas bainhas abertas ao redor, tecidas em várias cores e quase sempre uma quadra de amor onde predominam os tons vivos e populares. Pássaros, flores, corações, chaves e coroas, pode dizer-se que são os motivos que os adornam repetidamente, sendo alguns bordados num único tom. Actualmente retomado o gosto pelos «lenços de namorados», é usual enfeitarem paredes de salas mais íntimas, devida e singelamente emoldurados.

Eu gosto de bordar, gosto de linhas e cores e passo muito do meu tempo – agora mais longo – de agulha e dedal, às vezes bastidor. Invento lenços de namorados que disso não têm tudo. São marcadores, com datas, com ditos, com nomes, com gregas e galões, mantenho os símbolos da chave do amor guardado, mia senhor, meu rei. É certo que os tenho feito apenas para os amigos, as amigas, personalizo cada um, se o desejam. Não faço dois iguais e tiro prazer disso. As férias acabaram, o calor já não deixa suar as mãos.

Deixo aqui o último que fiz para o meu querido amigo, o meu «filho» mais novo que é um pingo de ternura. Este é oferecido para a sua casa nova, aqui perto, no casal, em tons a condizer com o ambiente que ele criou. Embora singelo, sei que vai gostar.



domingo, setembro 02, 2007

En Attendant Godot

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [...]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos [...]

Guerra Junqueiro




Vai mais de cem anos, o nosso país era assim caracterizado por quem pertencia a uma elite de pensadores que deixaram marca na nossa história literária. Seria exagero, mas um crítico que se preze caricaturiza, para além de redigir meros aspectos da realidade que lhe dói.

Um bom escritor é tanto maior, quanto as suas palavras possam parecer ainda reais, séculos volvidos; é sinal de que os seus olhos viam para além das aparências, tocavam mais fundo na alma dos povos. Daí a perenidade de Camões, a eternidade de Pessoa.

Tenho entre mãos uma obra de Rocha de Sousa, um livro que vou digerindo porque não cabe numa refeição só. Do que conheço de sua vivência – seus blogs, pintura, desenhos, fotografia, escritos – o autor está lá, nas sucessivas referências à pintura surrealista – Magritte, Magritte, que, ao que sei, não se queria nessa gaveta – saltos pontuais mas repetitivos a fagulhas de guerra em África, referências a Camus e Sartre e Beckett, na pele de um narrador em procura de resposta sem réplica da presença de Deus em quadros sucessivos de Hieronymus Bosh, como ele em virar de século.

A escrita é impetuosa, fluente, a parte formal lembra António Lobo Antunes. Não só. As referências ao período de guerra, o horror dos hospitais para dementes que – ao que conheço, não li toda a sua obra – Lobo Antunes apenas aflora e Rocha de Sousa descreve com todo o realismo, com a segurança de quem fez o trabalho de casa, com intensidade e sentimento.

Estou a ler « A Culpa de Deus» na hora certa: quando são reveladas as cartas de Madre Teresa de Calcutá – Diga-me Padre, porque há tanta dor e escuridão na minha alma? – e eu me pergunto se é lícito divulgá-las, quando ela tinha deixado expresso que as queria destruídas, embora o seu conteúdo venha acrescentar a minha paz.

Vou continuar a ler. Até aqui, partilho as considerações sobre o livre arbítrio, as decisões que cabem a cada um de nós para que se cumpram os limites que impomos a nós próprios.

Aquilo a que chamo dignidade.