domingo, abril 25, 2010

Depois do Adeus



Quis saber quem sou, o que faço aqui
Quem me abandonou, de quem me esqueci
Perguntei por mim, quis saber de nós
Mas o mar não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor, em tristeza e fim
Eu te sinto em flor, eu te sofro em mim
Eu
te lembro, assim
Partir é morrer como amar
É ganhar e perder.
Canção de Abril




Ler a nota de abertura duma revista semanal nesta manhã cálida, é suficiente para acordar memórias, vibrações, aquelas sensações indizíveis que mexem cá dentro quando se escreve do outro lado da barricada, realmente na construção de uma «memória colectiva em que se alicerça a identidade de um povo».

Tem pouco sentido nos jovens que vivem o Portugal de hoje, na faixa etária que chega aos 40 anos, porque desses, ninguém sabe o que foi Abril, o que significou para os que cresceram e se formaram dentro da ditadura. Nunca é demais lembrar-lhes como se depositaram esperanças de todas as vidas nessa Revolução dos Cravos de cor vibrante e intensa, destemperada como a água da represa quando se abre uma comporta. Brota esplendorosa em véus de noiva lavrados de espuma, concretizando os projectos de para sempre, até ao dia em que a seca vai reduzindo o caudal, até ao dia em que o rio não é mais do que um regato e a comporta nem tem mais razão para abrir.  

Porém, é preciso que se procure a origem da escassez, que se encontre dentro de nós a razão de ter descido o nível das águas, que outros afluentes foram desviados a montante, que sedes de excessos, que esquecimentos, que desatenções, que faltas de empenho, de amor pelo outro. Trinta e seis anos depois, continua a haver portugueses a morrerem de fome, a emigrarem, a irem para a guerra, não para defender outros portugueses, mas europeus e asiáticos. Continua a não haver, como nunca houve, espírito de grupo, de união, de solidariedade, de civismo, não há uma cultura instalada que nos ensine como a democracia joga falso em Portugal. É que a democracia dá expressão à maioria e Portugal continua a ser um país de gente inculta (ainda que muitos saídos das universidades e pólos universitários que cobrem o país) no que respeita aos valores fundamentais que nada têm a ver com euros. Assim, a maioria que ganha obriga à submissão da minoria que não sofre de iliteracia.

A Democracia em Portugal nunca vai funcionar em pleno, enquanto a Educação não for o princípio e o fim de todos nós.

quarta-feira, abril 21, 2010

Como as pedras


Acho que estou quase no fim. Vou despedir-me. Que trabalheira sorrir, apertar mãos. Que trabalheira anoitecer, que falta de dignidade a velhice e a doença. Óculos. Dificuldades nos ossos. Lentas misérias.
Quase no fim, disse eu. Subir para o quarto, sentar-me à mesa, fechar os olhos antes de começar. A Serra da Estrela inteira à minha frente, luzes de Seia, de Gouveia, de outras terras. Da varanda dos meus avós o alumínio dos grilos raspando, raspando. Continuarão depois de mim, continuarão para sempre, eternos como as pedras.

António Lobo Antunes in «Terceiro Livro de Crónicas




Acordo em mim a suavidade da manhã entre o orvalho da noite pousado sobre os botões de rosa a desabrochar e o esplendor daquela outra janela aberta para a Primavera.

Do outro lado do oceano, lá onde o coração se acolhe nas maravilhas da modernidade ainda mal desperta, numa comunicação que toca as raias do sonho, vejo florir a cerejeira, os plátanos cobrir-se de verde novo, as orquídeas desfilando em trajes coloridos, apresentando a nova estação. E o bichano enorme, senhor dos espaços, dono daquela janela sobre os pássaros e os esquilos, repousa estendido no parapeito absorvendo todo o sol que perdera no Inverno frio, atento às vibrações, ao despontar de cada folha nova. O pulsar da natureza, o pulsar de nós, vivo sob o manto frio da neve como dormem os bolbos que acordam ao primeiro chamado do sol e do calor que se agiganta.

Mais fundo, no recôndito da camada exterior da Terra, a pedra ajusta-se, acomoda-se, estremece a espaços, declarando a sua força oculta. E das paisagens de neve pura surge então um sobressalto vindo das entranhas, intenso, brutal, aterrador. Mostra aos homens que o espírito da Terra está vivo, é ele que controla, que desgoverna, que força a que o mundo se olhe de outras perspectivas, esquecidas, perdidas, recuperadas agora, tão mais estremecidas.


quinta-feira, abril 15, 2010

A chuva, de novo

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Carlos Drumond de Andrade


Outra vez o dilúvio. A água batendo com força nos telhados, o céu de comportas abertas pela madrugada fora. 

Ontem Lisboa como já não lembrava, a chuva em rajadas irreverentes acordando risos sob guarda-chuvas e gabardines incapazes de cumprir o seu dever, incapazes de evitar que a água ensopasse as roupas de quem foi apanhado na rua. 

Agora o vento corre nas caleiras do telhado. A chuva cai mais mansa, ininterruptamente, mantendo o brilho das folhas, lavando os botões de rosa ainda fechados, abrindo o sorriso aos cravos. Cá dentro, a serenidade toma as rédeas das cavalgadas sem tino pelas anharas do tempo, os castelos de salalé dos Setembros do meu planalto soltando asas, nuvens de insectos entontecidos na noite, servindo de pasto às aves.

Aqui, o Abril floresce depois do Inverno duro, tal como o Setembro das minhas memórias trazia as primeiras chuvas depois do cacimbo agreste, com o cheiro a terra molhada a evolar-se do chão quente, as nuvens a surgirem no horizonte ao fim do dia, carregadas de chuva ou pintando céus de cores inigualáveis. Neste hemisfério, nesta latitude, Setembro traz consigo a suavidade do Outono depois do Estio escaldante. 

É o tempo mais bonito do ano, as noites mais apetecidas. 

Como o Outono da vida.

 

terça-feira, março 30, 2010

Encontro



Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas
Que felicidade é essa que pareces ter — a tua ou a minha?
A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?
Não, nem a ti nem a mim, pastor.
Pertence só à felicidade e à paz.
Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.
Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.
Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,
Que te bate nas costas e te aquece, e tu pensas
noutra cousa indiferentemente,
E me bate na cara e me ofusca. E eu só penso no sol.
Alberto Caeiro



Felicidade é apenas uma palavra. Questionarmo-nos sobre ela não é mais do que procurarmos na nossa vida aqueles pontos que servem de referência a acontecimentos breves que nos fizeram sentir bem e por tal nos deixaram a marca.

Como significante, é uma palavra ilusória, longa, pausada, de muitas sílabas, que demora tempo a dizer. Só é fiel ao seu significado nas duas sílabas finais porque, na pronúncia do português de Portugal a última sílaba quase desaparece, já mal se sente. Já no Brasil a felicidade parece mais venturosa, mais duradoura, a palavra é dita saboreando cada sílaba, alongando até a última - fe-li-ci-da-dji – como quem se recusa a deixá-la terminar. 

A felicidade é um bem fugaz, leve e efémero como uma borboleta. Quando se busca, quando se dá por ela, espanta-se e foge, ninguém lhe pode tocar. Mas ela pousa, suave e quieta, quando deixa os seus ovos no verso de uma folha de planta, num cálice, na pétala de uma corola qualquer. E vai permanecer para sempre, de cada ovo minúsculo vai um dia surgir outra borboleta e mais outra e outra ainda.

E é preciso estar atento, sentir, pressentir o bater de asas em cada voo iniciado.

sábado, março 20, 2010

Dia de Aniversáro

 


A máquina do tempo inventada pelos homens marca cinco horas passadas sobre o dia que assinala o equinócio da Primavera. Lá fora os pássaros acordam o dia novo e agora a chuva volta a cair para refrescar uma terra sempre sequiosa.

Não tenho por hábito assinalar a data, nem muitas vezes datas, mas há precisamente quatro anos, abri esta janela para o desconhecido e ensaiei o primeiro voo, ciente dos territórios que pretendia explorar, porém aberta a outros ventos e sóis, experiências de sensações novas que acrescentaram sabor aos meus dias.

Escrevi sobretudo a minha infância perdida, escondida, afundada na arca de um esquecimento forçado, propositado. Relembrei leituras, desvendei outras, encontrei e reencontrei amigos, conheci familiares de familiares, dispersos pelo êxodo a que nos forçou a guerra do Ultramar. Foi uma experiência única, indizível no que toca ao meu enriquecimento interior, a tudo o que recebi de saberes e afectos, sinto-me por isso imensamente grata.

Tencionava hoje dar por terminado este espaço mas não tenho coragem. Não assim, antes de ter encontrado uma lagoa nova para a Jawaa. Para construir a casa nova é preciso formação, aliás como para tudo nos tempos que correm, e para isso tem-me faltado o tempo e a disposição. Trocar a carpete e o lugar das mobílias, renovar cortinados, é o que sei fazer, mas não chega. As cores da pintura esmoreceram, crescem rachas nas paredes e ervas nos telhados que não consigo retirar. Pensei mesmo mudar de casa, sair do blogger, tentar o sapo, sempre é um bicho e eu gosto de bicheza, dos que me vão lendo, já todos sabem.

Quando, e se isso acontecer, deixarei aqui um link com o novo endereço, mas por enquanto tudo não passa de boas intenções. Com a Primavera a chegar, os dias maiores e mais quentes, vão decerto crescer mais as flores na minha janela antiga.
 

segunda-feira, março 08, 2010

Encontros



Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar,
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas febrilmente sobre a colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!

Álvaro de Campos
 


Entre espaços, ocorrem-me fulgurações da minha terra perdida. 

Os documentários autênticos, de realidades atrozes perpetradas em actos de selvajaria por mentes insensatas, são por demais doentios para as acompanhar, basta-me saber que existem.

Da África representada no cinema, só a música e a paisagem são para mim verdadeiras e tocam o meu espaço interior. Tudo o que normalmente se acrescenta é pura ficção, o que não deixa de ser atractivo. Quando era pequena, e não conhecia outros lugares fora daquele continente, perdurei deslumbrada com as aventuras de Tarzan e sua Chita, com as Minas de Salomão, era uma mistura de encantamento e orgulho por eu própria pertencer ali, àquela fantasia afinal tão perto.

A distância, o tempo de ausência, a irreversibilidade dos caminhos percorridos, impõem uma realidade dolorida que acontece a cada esquina. São os mortos levados pelas enxurradas, as casas desmanchando-se pelas colinas, os braços estendidos em pedidos de socorro e despedidas que sabem ser para sempre.

O tempo corre devagar quando se trata de reconstruir.
 

segunda-feira, março 01, 2010

O poder da terra


Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele, mas lembre-se que o seu calor é
para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte, ele tem pressa
de chegar sabe-se lá onde.[…]
Álvaro de Campos



A terra tremeu aterradoramente no continente sul-americano e o mar ergueu-se, alongou-se por todo o Oceano Pacífico e foi levar o pânico às costas da Ásia. É assustador.

Glaciares colidem e desprendem-se do continente antárctico, com mais de dois milhares de quilómetros de superfície, quem sabe dando início a correntes de arrefecimento marítimo capazes de originar alterações climáticas relevantes e transfigurar a vida de populações inteiras de animais e seres humanos. É preocupante.

A evolução da Ciência que permite ao Homem identificar estes fenómenos e prever consequências que daí advenham, minimizando adversidades, é tranquilizador e reconfortante na sua justa medida. O conhecimento, a comunicação, a informação, são as armas que nos dão poder e orgulho, mas são as mesmas que devem reduzir-nos à humildade, ao reconhecimento de que somos uma ínfima parte do pequeno universo em que nos movemos e que ainda há forças poderosíssimas que não conseguimos prever e, muito menos, dominar.

A inteligência humana tem muito a percorrer no caminho de alguma modéstia perante a natureza de que somos parte intrínseca, e toda uma reeducação deve ser concretizada para evitar agressões a este planeta, usando, de preferência, a interacção em que investem os restantes seres vivos.

Teríamos muito a ganhar, e as novas gerações, em particular, agradecem. 


segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Olhar



O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar 
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora 
engrandecido dentro do novo olhar.
Fiama Hasse Pais Brandão
 

 Sei agora como a chuva cai por aqui, como gotejam os telhados e como soa o escoar das caleiras gorgolejando nas noites invernosas. 

Sei como as mulheres se protegem do frio com galochas à altura das saias de fazenda escura, chapéu enterrado na cabeça e casacos cobrindo parte do avental lavado. A idade já não permite que trabalhem fora e os anos mal deixam erguer os braços para dependurar a roupa na corda, o corpo mal se equilibrando nas pernas arqueadas, quando carregam a lenha no carro de mão. 

Sei do tempo de espera, do olhar ansioso de fera acossada daqueles dois irmãos que escondem misérias sob a miséria do telhado aberto da casa em ruínas, e do velho pequenino que passa na beira da estrada carregando às costas os troncos húmidos do pinheiro caído com a força dos ventos, arrastando-os pelo asfalto. 

Sei que o fumo que sobe dos telhados deixa o lar aquecido, que por detrás das janelas cerradas há lida e há vida. Há vidas borbulhando como nos troncos das roseiras cortadas, há crianças à espera do sol como as sardinheiras plantadas na soleira das portas. 

Sei quando as manhãs abrem mais cedo e o melro levanta o cascalho do jardim à procura de alimento na humidade do chão, quando os pardais discutem em bandos a hora da procriação, quem sabe o território ou a fêmea mais requestada.

Sei também que Deus nem sempre parece justo e perfeito como dizem que é, e assim há hoje um pedaço de terra que é parte de nós, onde os telhados se abriram, as paredes ruíram, o chão se esventrou, filhos e mães se perderam, rolaram nas águas e jazem em lama no fundo das trevas.


quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Luz


«Estou velho. Há o sol e a neve e a aldeia deserta. O meu corpo o sabe, na humildade do seu cansaço, do seu fim. Alegria breve, este meu sabê-lo, esta posse de todo o milagre de eu ser. E a deposição disso para o estrume da terra. Sento-me ao sol, aqueço. Estou só, terrivelmente povoado de mim. Valeu a pena viver? Matei a curiosidade, vim ver como isto era, valeu a pena. É engraçado, a vida e a morte. Tem a sua piada, oh, se tem. Vim saber como isto era e soube coisas fantásticas. Vi a luz, a terra, os animais.» 

 Vergílio Ferreira, in «Alegria Breve»



Não há paisagem. A névoa na estrada, por vezes o nevoeiro cerrado, dissolve as casas e as árvores que passam à velocidade em que pouso sobre o asfalto, na mesma ilusão de antes de Copérnico, Apolo guiando a quadriga, a cegar os olhos dos simples mortais e a noite trazendo a luz mansa que faz erguer os oceanos, acender as lendas de lobisomens e dar a voz aos poetas. 


O manto negro pontilhado de estrelas desce agora em fantasia de Carnaval, preso aos ombros de figuras míticas da História e das Lendas, homens tornados deuses para apagar a dura realidade dos mortais. Escondem a tristeza pregada nos rostos, afivelando máscaras grotescas e exorcizam a seu modo frustrações e carências.

É isto o Carnaval e por isso gosto pouco dele. Deveria ser antes a festa da alegria e da graça, o teatro e a fantasia, o encanto das crianças. Mas, como é hábito, tudo se adultera: uma coisa são as ideias, outra coisa a concretização delas, nada que se não saiba já, vem de muito longe, de milénios atrás.



sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Amanhãs



– Está bem, dou-lhes todos os informes que desejam ter, mas sejam francos: quem são vocês e a que andam? Declaro-vos à fé de quem sou que nunca na vida vi em naus mercantes tanto mancebo junto, com ares de tudo menos de pegar fardos às costas. E não levem a mal que vos diga, ou na vossa terra as sedas da China são tão baratas que andam aos pontapés, ou tão pouco vos custaram que não lhes ligais grande estimação. Se assim não fosse, não estariam ali aqueles amigos a jogar aos dados peças de damasco, como se se tratasse de feijões!

Fernão Mendes Pinto in «Peregrinação

 


Apetece rasgar a névoa, a cassa que cobre o horizonte por detrás do cortinado de chuva branda em que acordou a manhã. Afinal, os dias crescem devagar, e os bolbos que ficaram na terra despontam em promessas de cor a anunciar a Primavera, a mesma que os ciclamens oferecem já ao calor e à luz que se entrevê.

Não há bem que sempre dure, nem mal que não cure, diz a sabedoria do povo. As mesinhas caseiras ou os remédios que propõe a indústria farmacêutica resolvem sempre a questão, quanto mais não seja, dando novo rumo aos males a que continuamos sujeitos, acordando outros piores ou alongando o sofrimento até à exaustão.

Assim parece acontecer na política que conduz os destinos deste país pequeno e bonito, que sofre de doença não diagnosticada ou de incapacidade dos médicos resolverem o que os exames confirmam. Não sei se é este o caso. Sei, com certeza, que é ao doente que compete ter vontade de ser restabelecido da doença que o consome. Sem isso, nada feito.

Mas nada é irreparável, também as flores morrem, que o fruto vem aí com as sementes para uma nova vida. Tudo se renova naturalmente, só o bicho-homem teima em permanecer, só o Homem insiste em perpetuar-se, como se não houvesse outro amanhã.
 
 

terça-feira, janeiro 26, 2010

Desígnios


Toda a experiência do amor tem o gosto melancólico de uma simulação. Talvez o amor seja uma terceira entidade que se interpõe entre duas pessoas, suscitando-lhes desejos de aperfeiçoamento incompatíveis com a consumação que define a humanidade. Acabei por reconhecer que não é de mim nem do Álvaro que eu tenho pena; lastimo o exílio sobrenatural dessa terceira entidade, rodando no vazio de um firmamento demasiado alto.


Inês Pedrosa in «Nas Tuas Mãos»





As certezas não são pródigas, não conduzem a nada. Só as dúvidas trazem vontade de enxergar mais longe, procurar algo que nos satisfaça, que nos dê firmeza naquilo que consideramos as nossas convicções e o tempo nos mostra que não eram assim tão seguras. O que ontem era verdade já não nos parece tão real assim nos tempos que passam, porque nós também mudámos, se não tão depressa, pelo menos fomos acompanhando de longe com alguma relutância essas novas esferas e o tempo se encarregou de provar que os outros é que tinham razão.

Não é muito agradável, claro. Custa muito menos escrever ou dizer, do que sentir cá dentro e dói um pedaço, sejamos honestos. Mas a César o que é de César e dou comigo a ponderar até que ponto temos razão defendendo a todo o custo alguns valores que, não deixando de sê-lo, não estão à altura já de servir os interesses que se impõem no mundo globalizado que impera nas nossas vidas, ainda que queiramos a todo o custo negá-lo. As malhas envolvem todos, cada vez mais finas, nem há como escapar. Todos nos acorbertamos debaixo do mesmo gosto pelas calças de ganga e sapatos desportivos, cozinhas funcionais e sem alma, casas movidas a computador, as artes digitais, as viagens low-coast, as comunicações em escrita digital. É tudo rápido, tudo tem de ser feito muito depressa que a vida não chega para tantas solicitações e é preciso experimentar tudo. 

Eu tenho dúvidas quando se vai alertando para a necessidade – urgente, essa sim! – de reprogramarmos a nossa postura perante o planeta, de refrear o consumismo para evitar desperdícios estendendo a vida de cada um dos nossos teres, de ensaiar moderação nos gastos de energia, de lembrar alguns procedimentos antigos e recuperá-los, renovando-os. É tudo possível, desde que tenhamos a consciência do mal que fazemos, desde que tenhamos força para mudar.

E mudar começa por nós. Mudar porque o sol que brilha agora é diferente do que ontem se escondia atrás das nuvens que prometiam chuva. Às vezes mudar apenas a forma de amar.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Hora dos Mais Novos


Pergunto ao vento que passa notícias do meu país
E o vento cala a desgraça e o vento nada me diz

Pergunto aos rios que levam tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam, levam sonhos deixam mágoas

Levam sonhos deixam mágoas, ai rios do meu país
Minha pátria à flor das águas, para onde vais? Ninguém me diz.

Se o verde trevo desfolhas, pede notícias e diz
Ao trevo de quatro folhas que eu morro por meu país

Pergunto à gente que passa por que vai de olhos no chão
Silêncio é tudo o que tem quem vive na servidão

Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia canções no vento que passa

Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!


Manuel Alegre






A idade, os anos vividos, o tempo de permanência nesta dimensão, todos os eufemismos usados para o simples termo velhice, dá aos que a possuem, aos que nela já estão instalados, uma riqueza que não contempla os mais novos, um capital de que não usufruem. 

Desde logo recordo a máxima usada por meu pai: os novos são tolos e não sabem disso, os velhos são tolos, mas sabem que o são. Esta tolice aqui usada, deve ter o sentido da bobagem, termo tão comum em todos os níveis de língua do povo brasileiro. Há um ditado também que afirma, na mesma linha, que de médico e louco todos temos um pouco, abusando, quantas vezes, num e noutro caso, com maior ou menor eficácia no resultado pretendido.

Há, no percurso da vida, o chamado período de graça onde tudo acontece, sem oportunidade já para as tolices da juventude que se vai distanciando, bombardeada por todas as vicissitudes compostas por realizações, interesses, responsabilidades, sobrevivência; a hora chegada do tempero, dos condimentos que irão marcar o sabor final. 

A velhice. O tempo das rugas e das cãs. O tempo de saborear o respeito dos outros pela sabedoria de vida, a experiência que os mais novos não tiveram e pode ajudá-los a pensar melhor, não mais do que isso. Porque é nestes que reside a força, a valentia, a vontade, o destemor da inexperiência que a soma dos anos vai apagando.

Na velhice, colados os rostos do passado e do presente, dos sonhos e da realidade, é o tempo do repouso, para sentir a paz, passar mensagens de vida, dizer que o amor permanece como presente aos vindouros, como dádiva ao futuro. 



segunda-feira, janeiro 11, 2010

Perda



 Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.

Adormeço sem dormir, ao relento da vida.
É inútil dizer-me que as acções têm consequências.
É inútil eu saber que as acções usam consequências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.

Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.
Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.
Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.
Álvaro de Campos





O sol, rodando baixo depois da chuva, traz a luz de que preciso para filtrar as memórias desvanecidas pelos anos, pela lonjura.

Vou então ao encontro da casa lá em baixo, depois de passado o quimbo, o carro já desligado até se deter quieto, depois da vala, defronte da porta com aquela chave enorme – que será feito daquela chave que já nada tem para abrir? 

A casa ruiu, a porta terá sido queimada numa cubata qualquer. Só o espelho do rio transbordando cresce ao fundo, cobrindo a anhara, deve ter saudades de meu pai, vigilante, no seu casaco de couro antigo, com uma pele já coçada, que meu irmão usou depois.

Depois, foi há tanto tempo!

Depois, foi um regresso que nunca deveria ter acontecido, nunca assim, depois foi o abandono que nunca deveria ter tido lugar, nunca assim. Depois, foram outros regressos, outras partidas, a morte traiçoeiramente carregando tão cedo as raízes, os suportes, deixando aquele montão de ruínas, levadas as telhas, as madeiras.

O que sobra está aqui, comigo. Sou eu. Sou eu o adobe que se desfaz, na erosão de cada ciclo de chuvas e cacimbo.


terça-feira, janeiro 05, 2010

Presunção

 
«Vivo no infinito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa.»
 




Uma vez chega para viver quando a vida é grande cá dentro, porque nem cabe mais nada. É só preciso arrumá-la para que saibamos onde encontrar o que precisamos nas encruzilhadas que vão surgindo, para que as memórias ajudem a orientação de nós.

E contaram-se cinco décadas depois que desapareceu o homem que me acertou os passos quando a juventude se perdia pelos sonhos que a vida não poderia concretizar. O primeiro encontro foi de espanto e recusa, no primeiro ano de faculdade. Mas a sua morte prematura fez-me encontrar a beleza e a verdade das palavras, na sua visão diferente dos valores humanísticos tradicionais, aquele olhar sereno que me pareceu isento dos sentimentos como me ensinaram a demonstrar, os sentimentos que afinal ele vivia intensamente, tão profundamente, tão lucidamente, apenas despojados de lágrimas correndo pela face, um rio de intenso caudal deslizando no íntimo, na certeza da foz.

Para além do escritor estava o homem pied-noir, preso à terra que o vira nascer e lhe moldara o sentir, entregue depois à terra que o acolhera e lhe dera o conhecimento novo. Nunca soube destrinçar o amor que brotava pelas duas, clamou pela igualdade e solidariedade entre todas as raças e credos. Não falou de religião, falou de amor e entendimento. Identifico-me com ele, é na sua obra que busco as minhas certezas. 

Publicou «L’Étranger» no ano e no mês em que nasci. Sinto que o escreveu para me mostrar o caminho. Esta, a minha vaidade.