segunda-feira, junho 30, 2008

Os lugares dos homens


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas…

Ruy Belo





Três décadas depois do regresso, o saudosismo não me diz nada.

O tempo cobre tudo com um manto diáfano. Como a hera recobre já as ruínas da casa defronte, um resto de telha nos beirais, o interior a céu aberto. O telhado que sobra, pasto das ervas, de musgo no inverno, tem um sabor a quietude, solidão mansa, silêncio, respeito. A janela pequena fechada com tábuas já enegrecidas, a erva crescida balouçando ao vento, adornando as pedras de granito dos alicerces que a erosão desvendou.

É um cofre pousado no fim do arco-íris, donde brotam as cores fantasmagóricas onde cabem todas as memórias. Onde os mortos são vida, os sorrisos afagam, os risos ecoam e as lágrimas escorrem, nas faces, na vala, na lagoa, no rio.

Deixemos que seja assim.

Porque a vida continua.

No poste de fios que a civilização ergueu, um milhafre curioso arruma as asas e espera. Escuta os pardais em brigas de encantamento, descuidosos. Há um casal de rolas arrulhando no pinheiro longe, uma ou outra andorinha cruzando o céu, e só o pisco astuto se alarma e avisa o predador.

Tudo se aquieta agora porque a tarde chega ao fim.

O vento sopra refrescando o dia.

A noite cai, serena.

quinta-feira, junho 26, 2008

Protelar

É tempo de ração.

Tempo da Sagrada Comunhão.

Tempo de milagres.

Tempo de partilhar a hóstia com toda a humanidade.

Ou pelo menos é o que Lorbeer diz e Justin finge escrever no seu bloco, num esforço vão para fugir à opressiva boa vontade do seu guia. É tempo de observar «o mistério da humanidade, o mistério do homem corrigindo efeitos da maldade do homem» que é mais uma desconcertante sentença…

John Le Carré


Adiar é uma palavra que não deveria constar do vocabulário.

É feroz, sob uma capa de alívio, comodidade. Como o pelo liso e macio do predador, o seu jeito manso e elegante, não esconde um olhar atento e penetrante com que observa a presa. E espera.

Adiar está muito para além das conversas de travesseiro, o amigo que devemos consultar em todas as circunstâncias. Não tomar uma decisão em cima da hora, sem consultar o travesseiro, é um risco. Adiar uma decisão, é um perigo.

Adiar uma resolução já tomada, uma decisão fundamentada, um facto que sabemos inevitável, é não só uma atitude irresponsável, como arriscada. Em todas as circunstâncias.

Sabermos que o deserto ameaça eminentemente uma grande parte do território que habitamos e nos habituámos a chamá-lo nosso e continuarmos a sobrepor, à necessidade urgente de se tomar medidas no que toca a reflorestação com a qualidade requerida, o aspecto puramente económico do betão e do eucalipto, é um suicídio anunciado.

De nada vale acusarmos sucessivos governos de inoperância; operemos nós. Cada um de nós.

A isso chama-se consciência.

Educação.

sábado, junho 21, 2008

Solstício de Verão


       Diz tudo isso a toda a gente
               que ainda se lembra de mim.
               Diz-lhes. Diz-lhes
               grita-lhes
               aos ouvidos
               ao vento que passa
               e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
               Diz aos mulatos e brancos e negros
               que foram nossos companheiros de escola
               que te escrevo este poema
               chorando de saudade
               as veias latejando
               o coração batendo
               de Esperança, de Esperança
               porque ela
               a Esperança
               (como dizia aquele nosso poeta
               que anda perdido nos longes da Europa)
               está na Esperança, Amigo.

Ernesto Lara Filho



O sol chega de manso anunciando o Verão.

Os dias longos e quentes a gritar pelas águas mornas do mar da minha infância. Aquelas madrugadas cálidas a espantar em correrias a miríade de pequenos caranguejos que se deslocavam num rumor só comparável a palavras de amor sussurradas. O sol ainda não, mas a claridade intensa, as ondas mansas, as conchas coloridas cobrindo a areia, os dongos dos pescadores vogando embalados, outros quietos na praia. A cabana de madeira na Samba, o cesto mágico com pão quente e frascos de compota, argolas cobertas de açúcar a segurar a manhã.

Mãos segurando as nossas em carícia terna. E os pés na água depois as pernas, o corpo inteiro mergulhando, apagando tudo o que não fosse a sensação de prazer intenso, a entrega ao ambiente donde não devêramos ter saído.

E o sol subindo devagar.

A maré descendo, deixando algas, deixando marcas como degraus em curva, espaços lisos para escrever já sonhos. Sonhos que o mar apaga nas letras da areia, nos versos rasgados, nas cartas de amor, na fúria da vida.

Hoje, dia do solstício de Verão, cumpri uma parte de mim.

Só por isto, tudo o mais valeu a pena.

terça-feira, junho 17, 2008

Inexoravelmente

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos

Hoje, a noite chegou para mim de forma diferente.

Fui lá fora e olhei o céu, procurei as estrelas. Olhei o sul, talvez sueste.

Uma nuvem alongada e escura repousava quieta um pouco acima do horizonte e a lua branca, quase redonda, olhou-me serena, seráfica, afastando aos poucos os flocos brancos que a encobriam. Leu nos meus olhos a pergunta, as perguntas sem resposta. E ficou ali comigo aquietando-me quando tentava lembrar quando conheci o Rui.

Não sei, não me recordo. Quando eu nasci, já a sua companheira de quase cinquenta anos cirandava lá por casa, amiga preferida de meu irmão. Crescemos juntas, ela a menina sensata e doce que me era indicada como exemplo de compostura numa infância em que partilhámos tudo na terra longínqua que nos serviu de berço.

A continuação dos estudos na Metrópole. Obrigatoriamente.

Casaram nos Jerónimos, o copo-de-água em Carcavelos. Não sei a data.

Sei que levei a baptizar-lhes o primeiro filho, o Pedro, ao Sr. Bispo na Sé em Nova Lisboa, com meu irmão (que idade tens, Pedro?).

O meu irmão já não vai poder fazê-lo, mas eu, amanhã, vou estar convosco.

Vou levar a enterrar o Rui.

sexta-feira, junho 13, 2008

Segredos das Belas-Artes


Não é a primeira vez que trago a este espaço o escritor que repetidamente me honra com palavras amáveis de incentivo à minha produção escrita.

Dedicado também às artes plásticas que vem divulgando na blogosfera, em Construpintar e Desenhamento, Rocha de Sousa prendeu-me pela sensibilidade da sua escrita em «Angola 61», a crónica de uma guerra em que participou, e onde eu pude encontrar descrições emocionantes de lugares e gentes com quem partilhei grande parte da minha vida, na terra em que cresci.

Depois de ler «A Culpa de Deus», voltei a encontrar uma escrita séria e acutilante, mas leve e agradável no desvendar de «segredos», muros adentro do antigo convento de S. Francisco, em Lisboa, onde o autor também se entregou a uma vida de estudo e dedicação.

Este livro acaba de ser lançado no mercado e é um testemunho vivo de uma das faces da nossa Revolução dos Cravos, a revolução cultural que tarda em cumprir-se.

Aqui deixo, transcrito, um pequeno excerto da obra agora publicada.




«A morte das regras, as falsas alternativas de escolhas destituídas de sustentabilidade, a face social absorvida apenas pelo seu reverso, essas foram, entre egoísmos vários, o caminho lateral do chamado processo revolucionário, imagens ilusórias da conquista da verdade, risco, riso, fonte de prazeres e de vinganças. A disciplina dos comportamentos colectivos desfazia-se como as velhas palavras dos velhos académicos, entre contradições tidas por redentoras. Os mais resistentes, moral e fisicamente, chegavam aos lugares de trabalho na hora certa, para o trabalho ponderado, mas encontravam salas ainda vazias ou habitadas, na sombra, por dois ou três alunos. A vontade política dos governantes, instituindo o ensino artístico na universidade, as Escolas de Lisboa e Porto, viera no limite dos papéis expostos, abrira novos dossiers, pensara tarde a modernidade dos anos 60. Durante treze anos o próprio país envelhecera descompensadamente e o laxismo das pessoas, das repartições, dos organismos públicos, na torção da pirâmide, esbatera o perfil antigo da nossa história, desertificara paisagens e corações, apagara no quadro preto a luxuriante geometria de uma identidade nacional, de um destino. O país fugia de si mesmo, confinado a metrópoles de betão e vias rápidas, e o sentido quotidiano das coisas era cada vez mais redutor, entre o desemprego e a alucinação do consumo.»

quinta-feira, junho 05, 2008

O fogo e a vida

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade






Entre a flor e o fogo, eu prefiro a flor. Pela cor, pelo odor, pela alegria, pela compostura. Mas o que mais me atrai é o fogo.

Também pela cor, pelo bailado da chama, mais pela dor do crepitar, pelo calor, pela quietude tornada brasa. Depois a cinza, ainda quente, a seguir morna, e finalmente pó, cavalgando o vento. Assim todos os seres viventes têm um ciclo a cumprir.

Entre os humanos, a organização das sociedades visou, desde os primórdios, a melhoria de vida das populações. A partilha de serviços responsabilizou cada um, formando uma cadeia de elos a não quebrar. As religiões tiveram aí um papel preponderante enquanto detentoras de um poder espiritual e a ciência avançou quebrando todas as peias, singrando as águas e voando nos céus. Encontrou o negro, para além do azul, no espaço sideral.

Lá em cima, o brilho das estrelas faz esquecer tudo o resto. Cá em baixo, assediados pela ferrugem, os elos enfraquecem. O peso é enorme. Seis mil milhões e meio depois, parece chegar por aí o número mágico de todos os «seis», a atingir neste ano de 2008. Alguém vai nascer e atingir esse número. Um novo Anjo da Luz?

E o ouro negro submergindo tudo.

Qualquer dia o nosso planeta já não é azul.

domingo, junho 01, 2008

Ritual de Verão

«Há coisas que se podem aprender com um velho cão. À medida que os meses passavam e as enfermidades aumentavam, Marley ensinou-nos acima de tudo a lidar com a inexorável finituide da vida. Jenny e eu ainda mal entráramos na meia idade. Os nossos filhos eram pequenos, éramos ambos saudáveis, os nossos anos de reforma, uma perspectiva insondável e distante. Teria sido fácil ignorar o medo inexorável da idade, fingir que ela pudesse passar por nós incolumemente. Mas Mas Marley não permitiria que nos déssemos a esse luxo.

Enquanto o víamos ficar grisalho, surdo e caquético, não havia como ignorar a sua mortalidade – e a nossa. O envelhecimento toca-nos a todos, mas no caso de um cão, fá-lo com uma rapidez que é ao mesmo tempo empolgante e ponderosa.»

John Grogan, «Marley e Eu»




Depois da tosquia que não agrada nem um pouco...





Ei-lo reduzido aos mil e oitocentos gramas de peso.



No Inverno há mais sossego!

quinta-feira, maio 29, 2008

A repetição do rito


Por que me falas nesse idioma?

perguntei-lhe sonhando.

Em qualquer língua se entende essa

palavra.

Sem qualquer língua.

O sangue sabe-o.

Uma inteligência esparsa aprende

esse convite inadiável.

Búzios somos, moendo a vida

inteira nessa música incessante.

Morte, morte.

Levamos toda a vida morrendo em

surdina.

No trabalho, no amor, acordados,

em sonho.

A vida é a vigilância da morte,

até que o seu fogo veemente nos

consuma

sem a consumir.

Cecília Meireles



Ouço a voz do tempo escoando nos beirais suados, num sussurro igual ao espanejar das andorinhas pousadas no fio da corda velha suspensa nas traves da varanda.

Os passos suaves, as mãos delicadas colhendo cada tronco de flor envelhecida nas sardinheiras coloridas, pousadas no muro baixo e debruçadas, oferecidas à sedução do sol garboso da manhã.

O odor das folhas de malva chega em sinestesias de cor e textura, de sons, de calor. O cheiro que exala a cozinha velha. O cheiro ao doce de morango. O cheiro da chuva. Ao cheiro do café, a claridade da manhã alta nasceu cedo, na madrugada ainda escura.

Os ruídos, os cães cansados da caça às perdizes, as pessoas girando, as conversas, os risos. Os gritos. O cacarejar da bicharada à solta, as andorinhas pipilando nos ninhos altaneiros dos beirais.

A buganvílea junto ao portão grande, os agapantos brancos ao longo do muro a que chamavas coroas-de-henrique. As dálias surgindo no meio dos outros verdes, de cor vermelho-negro pincelado de branco, as florinhas em bando, pequenas e azuis, as alegrias-do-lar debaixo da laranjeira ali perto. As mãos de criança apertando o casulo das sementes e tornados vermes retorcidos. A melancolia do teu olhar mergulhado nas laranjeiras até ao fundo da horta. A humidade nas faces.

Nada é igual, só as sardinheiras.

Hoje tive saudades, Mãe.

Até à eternidade.

domingo, maio 25, 2008

As rosas já não são cor-de-rosa


É na VULNERABILIDADE da tua pele
Que afago TAPEÇARIAS suaves
E traço a SILHUETA da luxúria
Com uma PENA de sonho permanente.


É no ORVALHO do desejo derramado,
Sem a OBSTRUÇÃO de juízos adormecidos,
Que da MORTE nos acordamos acesos
Quando a inflamada MANHÃ nos sorri.


És o EXPONENTE da minha fraqueza,

És CRIANÇA e mulher de raiz no teu sol,
Onde me aqueço e me entronco mais forte.

O teu ar é o CONSELHEIRO que me atrai

Para te AFASTAR de memórias, a gritar
Nas brumas que te matam em silêncio.

Nilson Barcelli em Maio 2008
Escrito para os 3º jogo do Eremita com as 12 palavras obrigatórias em maiúsculas



Enquanto as roseiras florirem só porque é primavera, eu vou sorrir para o mundo.

É que as rosas insistem em abrir agora, mau grado as nuvens que tapam o sol, a água que encharca os botões, o vento que lhes leva as folhas.

Porque elas já surgem magoadas, porque a chuva vem ácida, porque os ventos já não são sérios e trazem no ventre caminhos que rasgam a majestade, que deixam marcas de pena, ponteiam as folhas, secam os troncos, matam as cores, secam as pétalas.

Pode ser que os homens se encham de bondade e construam a represa que sustenha a caminhada inexorável da destruição do planeta. Só que eles não caminham em grupo, não voam em formação. E a força perde-se daqueles poucos que conhecem os caminhos, que seguem a rota. A maioria segue por saí sozinho, sem tino, desafiando os ventos, ao encontro da tempestade.

Afinal os homens dominam o mundo mas não dominam a natureza. O céu despenha a água de sempre e a terra enfurece-se porque lhe desviaram, lhe cortaram os trilhos, os leitos que criou para ela, ela que querem domar. Gastam materiais e tempo sem respeito, sem ouvirem a outra parte, que serenamente mostra ser a mais forte. A água corre pelo caminho de sempre, ali ao lado, sem tocar na obra do homem. É só uma amostra.

Mas o homem está feliz porque fez o que queria.

Terá feito o que deveria?

segunda-feira, maio 19, 2008

Deixem a língua fluir...


Mia Couto é um escritor de letra maiúscula que brinca com as palavras a seu gosto mas mantém a sintaxe na ordem correcta, pelo que pode à vontade criar neologismos desregrando as palavras, dando-lhe nova vida, comunicando numa nova realidade linguística que é a sua, a moçambicana. O Português de Moçambique. Recebi por email este excerto, é de algum modo uma forma muito sua de comentar o Acordo Ortográfico.



«Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: 'aquabou'?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: 'finanças'?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.»

Mia Couto

quarta-feira, maio 14, 2008

Tanto ainda para dizer


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca



Cada vez gosto mais de ler Lobo Antunes.

Não estou a falar dos livros, mas dos pedaços de si que deixa em cada crónica que escreve quinzenalmente. Tem momentos de intensa felicidade nos quais consegue passar-me as suas emoções como aquele pardal do meu telhado que vela incansavelmente por sua dama e sua prole crescendo no buraco do ventilador. Ele canta sem parar, tem de manter-se alerta e dizer ao mundo que tem os seus ovos a chocar, há novos pardais a nascer. E grita a sua presença, a sua ansiedade, a sua felicidade de progenitor.

António Lobo Antunes tem a ventura de ver reconhecido o seu talento inegável por quem é português como ele – e por quem não é – por quem aprecia de facto a sua mestria nas letras, na simplicidade do registo que ele mistura de humor e angústias e alegrias, rememorando convívios e cumplicidades, olhando os pombos e diferenciando-os, colando-os inconscientemente às gentes que o cercam. Ele entra na lavra dos outros, penetra em cada autor, revela o sofrimento e a dor de cada palavra conseguida, cresce quando diz que foi o sofrimento dos que viveram antes dele que possibilitaram a sua escrita hoje. A eterna metáfora do sofrimento que dá a vida: Cristo na cruz. A mãe parindo um filho.

Nesta última crónica da Visão, ele consegue comover numa súplica dolorida que lança para a eternidade que deseja: «E os pombos de Paris a olharem para mim de banda, com vontade de me engolirem. Por favor não me engulam por enquanto: há tantos livros em mim à espera de serem escritos.»

Depois de o citar, não me atrevo a dizer mais.

sexta-feira, maio 09, 2008

O tempo, segredo dos velhos


Assim às vezes me apetece ignorar o meu corpo, esquecê-lo, olhá-lo de súbito com surpresa: o que é feito de ti, velho corpo? Como passas? Estás pois acabando. Virá daí a inverosimilhança da morte? Um corpo que apodrece, mas a luz de dentro tão viva, tão igual: como entender que envelhecesses, meu irmão? Mas não o penses. Agora não. Ah, sê em ti esse princípio eterno que te vive. Abre a janela, clama para a montanha. A terra responde-te, a terra submete-se à tua força monstruosa. Mas não abro a janela e olho apenas. À luz pálida do céu, a neve estende-se ao limite dos meus olhos com a sua alvura doce de leite.

Vergílio Ferreira


Imagem copiada daqui


A medição do tempo foi sempre uma preocupação dos homens. Com justeza.

Desde cedo, poder prever as cheias que se verificavam para o cultivo das terras, para além de compreender as razões desses acontecimentos, era uma questão de sobrevivência quando nos tornámos sedentários. Depois de olhar as estrelas, saber do sol o seu arco, periodicamente aumentando ou diminuindo, é imenso o historial que nos permite hoje controlar ao segundo o momento exacto em que numa determinada cidade do país, numa rua determinada, num determinado multibanco, procedemos ao levantamento de uma quantia determinada. Saber os nossos passos.

E o tempo de cada um de nós. O dia em que nascemos, os anos que percorremos, o século completado já para alguns, a esperança de vida, tudo é controlado ao milímetro. Não será excessivo? É mesmo possível referenciar alguém pelos anos de vida quando o cérebro se mantém disposto a cumprir com a eficiência esperada as solicitações de cada dia, os desafios, os sonhos mais altos ainda em mente? Não tenho a certeza.

Há muitas palavras que se mantêm eivadas de sentidos que não correspondem exactamente ao significante usado. Referindo-se uma pessoa como velho, ele até pode não ser antigo, pode nem ter muitos anos contados e o adjectivo é dolorosamente pejorativo. Para o jovem que se comporta como tendo mais idade e para o menos jovem que vê a palavra ligada a algo de indesejável. Mais do que isso, execrável. Como se todos nós não caminhássemos para velhos a velocidade estonteante. Mau é contarmos os anos. Nem havia necessidade, agora que as operações plásticas de todos os tipos mostram de nós aquilo que desejamos. Sem dúvida que, quem se submete a tais cirurgias é porque decerto se sente diferente por dentro e nenhum velho se prestaria a isso. Se o faz é porque é jovem, independentemente dos anos que tem.

Há muitos velhos por aí. De corpo, de espírito e de graça.

Eu gosto dos velhos.

segunda-feira, maio 05, 2008

Olhares de um mesmo continente

«Alors elle découvrit un autre spectacle, l’autre versant du cessez le feu, la débâcle pied-noir. Les quartiers français sentaient l’abandon. Un grand nombre de villas étaient fermées, cernées par le silence. Quelques retardataires erraient encore, derniers fantômes d’un monde emporté par les dévastations de l’histoire. Leurs visages disaient leurs cauchemars. Leurs yeux paraissaient vouloir la mort comme une délivrance. La mort pour eux ou pour les autres, ceux sur les visages desquels ricanait la revanche. La mort pour tout ce qui leur était arraché de leur passé.»

Malika Mokeddem



O acto de ler é uma forma de ver.

E a escrita é tanto mais atraente quanto desnuda.

Ler é olhar pela janela a chuva caindo em fios grossos embaciando o ar, riscando os vidros, avivando as cores, lustrando as folhas, gotejando alegre nos beirais. É sentir que há frio do outro lado das janelas triplas onde a brancura da paisagem reflecte um sol que não aquece.

A riqueza da escrita provém da capacidade de surpreender. Olhar as palavras escritas é procurar até encontrar uma ponta de fio no âmago de um novelo de lã e ir puxando até desmanchar aquela construção elaborada. No final, outra obra se ergueu, os fios reordenaram-se de outra maneira, tricotados por agulhas, tecidos por outras mãos.

Cada um de nós é também um enovelado e desvendar os espaços do outro é conhecer os meandros que nos tecem e nós tecemos. É conhecermo-nos melhor, sabendo o que esteve do outro lado da barricada, a forma como nos olharam, a forma como nos diz estarmos do lado certo ou errado.

Encontrei desde há tempo (por mão amiga destes espaços), uma escritora brilhante, mulher fascinante que se despe dignamente dos seus atavios, partindo de um olhar sobre uma natureza árida e seca. Agreste. Sob todos os véus que lhe cobriam o corpo, os sentidos desvendaram o mundo longe, escutando a liberdade dos nómadas, provando o sabor das letras, esbracejando para não se afogar na submissão da mulher numa sociedade falocrática.

Os seus livros, para além de constituírem um libelo desafiando as leis do Alcorão que reduzem a mulher à função única de procriar, relatam com assinalável lucidez os movimentos sociais da independência da Argélia. A debandada dos pieds-noirs e dos judeus, as perseguições e injustiças dentro da «Algérie aux Algériens!» proclamada por De Gaule.

Como pano de fundo um olhar sonhador sobre as dunas, as reverberações de luz nas areias escaldantes, o cheiro das tâmaras maduras a apetecerem-lhe a reentrada do ano lectivo.

Molika Mokeddem é hoje médica urologista em Montpellier.

A escrita é o seu amant du coeur.

quarta-feira, abril 30, 2008

Outra vez Maio


«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. »

Mia Couto




É lugar comum referir quem tenha uma pedra no coração, ou um coração de pedra, num desses noticiários insanos de fait divers tornado notícia de abertura de jornal. A pedra imagina-se aí informe e cheia de arestas, pontuda, cinzenta, enegrecida de sentido pejorativo.

Há outras pedras, porém. Lisas, polidas, suaves ao tacto, branqueadas pelas águas a que dão o nome de seixos. Rolam, não ferem, apenas pesam como as outras.

Às vezes acordo com uma no peito. Também é lugar comum, mas a sensação existe. Não sei definir bem o local, talvez mais perto da boca do estômago, no peito, enfim. E não é um seixo, não. É uma pedra. Como a quiserem imaginar.

Então sinto-me com um peso que não é o meu, de seu natural. Tento saber o porquê daquela companhia, quem a trouxe – se alguém o fez – ou se não passa de um daqueles cadinhos que não coube nas memórias da noite e acabou rolando para outro lugar. Foram os sonhos, os pesadelos, as incertezas, as angústias de um sonho mau.

Pois bastas vezes lá sinto o peso da pedra e, sem esforço, vejo-a. Já morei num lugar longe onde havia pedras como as não vejo por aqui. Pedra ferrosa. De cor castanho ferrugem, arredondadas, crivadas de orifícios circulares onde moravam duendes e fantasias de criança. Às vezes grilos.

Essas pedras enormes bordejavam a casa do tempo de férias, formavam um degrau, era lá que nos sentávamos a ver chegar o gado, recolher os bichos que cirandavam com o sol e procuravam então o abrigo da noite. Com outros bichos junto de mim, quietos. Outros voltejando no ar.

Essas pedras permanecem, tenho a certeza. A casa não.

Foi ali que nasceu a jawaa, quem sabe iria pequenina esbracejando dentro daqueles círculos, criando asas dentro do ovo, vendo a luz através da casca, em cada noite já sem sono, em cada ida às perdizes, em cada cacimbo, em cada madrugada, em cada entardecer.

Eis que chega um novo Maio.

As minhas flores já abriram.

São inigualáveis.

domingo, abril 27, 2008

Passou Abril, vai chegar abril.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.




1978
(segunda versão)




Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim



Parece que o tempo da vida se esvai num dia de cravos vermelhos.

Cravos vermelhos que pintaram uma revolução de esperança e de paz, porque – ó jovens! – não houve mortos. Houve apenas cravos da cor de sangue que não foi derramado e uma criança, um puto, um gaiato de Lisboa a colocar um no cano da arma de um soldado português, como quem enfeita uma jarra de cristal. Como a foto bonita que correu mundo, Chico Buarque imortalizou Abril numa canção de solidariedade como só um irmão sabe fazer, sujeitando-se à mesma censura que nos afogara.

Cada vez menos se vêem cravos nas lapelas, nos cabelos e mãos das mulheres. Os que agora cantam as canções nas ruas nem sabem por que o fazem, nem seus pais decerto recordam a opressão e o jugo.

Restam os cravos derramando-se pelas floreiras em cada casa onde se festeja a liberdade, as liberdades que também trouxeram mágoas, onde ainda se recorda a simbologia que vai permanecer como a insígnia do povo português.


domingo, abril 20, 2008

As Melodias do Som

«…Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

Bernardo Soares.


Já conduzia pela mão jovens serpenteando o caminho da escrita – como a chuva ajuda a abrir as rosas – quando praticamente se aboliu a grafia dos acentos graves. Início dos anos setenta.

Assim, ao cuidado de agradàvelmente dar uma volta ao acento quando transformava o adjectivo em advérbio de modo (ainda se nomeiam assim?...), também tinha de o fazer se precisasse de abrandar o chá em chàzinho, deitando-lhe um pouco de leite. Para não ficar só, ou sòzinho, que é mais doce se não quiser o açúcar. Restou o «à» e o «àquele» com seus companheiros de tribo.

Foi fácil, era só não pôr o acento.

Nessa altura já não tinha meu pai a protestar terem acabado com o trema – que nunca usei em Português mas lhe admitia estatuto – acento que já não constava da minha tranquilidade, era meu pai quem se sentia arguido. Agora ouço o mesmo protesto do outro lado do Atlântico.

Mas concordo com o Acordo Ortográfico, é bem de ver. Facilita quem já escreve mal, os que vão aprender, os que nunca aprenderam até hoje. Os que sabem escrever sem erros ortográficos, enfim, que aprendam a desembaraçar-se de letras inúteis, nem é difícil. Bem dizia Camus: c’est l’habitude

Pelo que li sobre o assunto, as línguas europeias disseminadas pelo mundo têm uma forma de acordo, tácito ou escrito, de respeitarem entre si as diferenças de grafia. O que não podia, não deve continuar a haver, é uma língua, o Português, com duas grafias oficiais.

Portugal, não somos nós, os que aqui habitamos; é hora de lembrar Pessoa, o homem da futurologia. Temos é a obrigação de preservar a Língua Portuguesa, falada por mais de 200 milhões de pessoas, numa grafia única. Tudo o resto é paisagem, e digo-o com o sentido duplo de que a cada paisagem a sua tonalidade oral, o seu encanto único, os sotaques próprios de cada espaço.

Há lá coisa mais bonita do que encontrar num mundo longe um conterrâneo e identificá-lo como oriundo das Ilhas, do Norte, do Alentejo, de Angola, Brasil, Timor…?!

quinta-feira, abril 17, 2008

O Vento


...Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte

e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão

felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho



O Namibe, ao sul de Angola
* Imagens tiradas daqui

O espectáculo da natureza não tem rival.

A rosa resplandece entre o sol e a chuva. Abre, altiva, o seu rosto ao vento, o corpo inchado de humidade, as raízes acariciadas por solo fértil, o ar enchendo de calor os pulmões. O tempo de cada flor é breve, floresce em uma primavera, mas o perfume perdura em ondas, na sinestesia da cor, na leveza e no dispor das pétalas, na multiplicidade de tons, ou num só, como um sorriso.

Nem sempre a chuva lhe toca manso. Nem sempre o vento lhe murmura melodias brandas, mas sempre lhe conta de outros lugares, de outras latitudes onde a chuva não cai e o sol fere de morte os seres. Dos homens e animais que caminham ainda, indefinidamente, guiados pelas estrelas, esquivos do mundo, dos horários, da globalização, felizes na sua ignorância dos novos tempos que assolam as almas. Procuram incessantemente a água dos poços, o deus, a deusa palpável que teremos adiante. De horizontes vastos de imensidão infinita onde o sol se funde e cria vapores de quente, onde nascem e se desconcretizam os sonhos dos homens, apagada a miragem.

Um dia as rosas cresceram lá. Um dia a floresta deu sombra, os lagos cobriram a terra, os rios serpentearam.

Agora a areia cresce para nós, ameaçando as rosas.

quinta-feira, abril 10, 2008

Eternidade


No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.


Carlos Drummond de Andrade




A melhor aprendizagem da vida é saber estar só.

Acordar na noite longa e gostar da insónia. Ler, escrever o que os sonhos trazem à memória que não é, que nunca foi sequer, mas aparece real como as trevas. Entender o outro lado das coisas, entrar na alma dos que sofreram vexames, humilhações, dos que sofreram pela cor da pele, pela humildade de carácter, pela obediência a uma religião iníqua, compreender o incompreensível por décadas de educação severa, na intemporalidade do ser.

Acordar o espírito e não poder mexer o corpo, coordenar o sono para acordar mais tarde, corpo e alma juntos no mesmo pulsar, ou esforçar a mente, exigir do corpo que não responde a acção que ele não consegue executar. Que fio é este que não se liga?

Acordar é tão difícil, assim. E, se acontece, o sono é tão pesado que a vontade de não voltar a ele subleva uma enormidade de sensações capazes de construir um outro mundo. É então que o levantar acontece em passos titubeantes procurando sofregamente um copo de água.

A água e a eternidade vão bem no dicionário dos símbolos. Só pode ser. Mas a eternidade não existe por aí, só dentro de nós. Porque o corpo não a tem e não deixa que nos esqueçamos disso. Dia a dia. Compassadamente. Mas é bom que não nos olhemos ao espelho e façamos de nós uma pintura de Magritte, ao nosso jeito, olhando no espelho a nossa nuca ainda esguia.

Que bom, a chuva. Agora que os dias se espreguiçam mais e mais, que o frio já se foi, o calor vem aí, esperemos que manso. E o encontro do cheiro a maresia, das ondas, da areia, das pedras, das algas, do sol a lembrar uma outra eternidade.

terça-feira, abril 08, 2008

Novos tempos


«Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê) …
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.»

Fernando Pessoa




Quando a noite vem chegando e apaga devagarinho o brilho das gotas de chuva pousadas nas rosas que vão abrindo, outro brilho se acende no interior das casas, roubando a cada um de nós o sabor do escuro quieto de fim de dia. O acender da lareira com pinhas secas, depois as labaredas lambendo o azinho, deixando sombras e luz nos objectos em volta, o gato aninhando-se no quente. Já nem há candeeiros para acender. E os poucos que o fizeram noutros tempos, depressa esqueceram o ritual.

O brilho que se acende nas casas tem luz e tem som e movimento. Tem melodias e cor. Traz cultura de outras gentes, mas nela muito mais dor. Traz o mundo ao contrário de alguns anseios, traz um espelho de Bosh: um homem barbado, ufano da sua gravidez avançada; uma criança em gestação que vai nascer diferente, vai nascer de um pai; um homem negro, bem longe da civilização dos seus ancestrais, enfrenta os microfones do mundo e anuncia, em nome de um chefe de estado: «Estamos a preparar uma guerra contra o povo!»

O milénio avança e os humanos adaptam a si as transformações em catadupa.

Assim continua o poeta.

«Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —

Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.»

sábado, abril 05, 2008

Abraço



Vou levar-te comigo.

A ternura no trato, o cuidado no olhar, o jeito de sorrir, às vezes triste, que me passas e eu embrulho numa lágrima que não escorre porque os olhos cresceram com tudo o que me deste. Brilham mais agora, aquecidos de ti, do que colheste de mim, do que floresceu da pedra gasta, marcada de sulcos que eu preferia não ter, não ver.

Há quem pense que o sempre não existe, mas não é verdade. É tanto o que permanece, mau grado os anos, a idade, a distância, o espaço, os espaços. Apesar do peso da vida, dos desenganos, dos desencantos, dos desencontros. Para além das incertezas, das inconveniências, das incoerências, das aparências.

Sentir está para além de tudo.

Só depende de nós. Dos anos desfiados, das primaveras floridas de rosas, dos cacimbos azuis, das chuvadas torrenciais, das chuvas mansas, das neves esparramadas pelos telhados a escorrerem em gelo no dealbar da nova estação que se anuncia.

Ainda nos meus olhos a lava branca sobre a imensidade dos campos, desenhada de árvores nuas e eu deixo-te – o quê? – encharcada de sonhos repletos de infâncias, de cumplicidades, de alegrias, de afectos, de ternuras, de saudades já .

E as tuas mãos por cima dos meus ombros.

Vais permanecer comigo. Sempre.

Até ao último pulsar.