quarta-feira, abril 30, 2008

Outra vez Maio


«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. »

Mia Couto




É lugar comum referir quem tenha uma pedra no coração, ou um coração de pedra, num desses noticiários insanos de fait divers tornado notícia de abertura de jornal. A pedra imagina-se aí informe e cheia de arestas, pontuda, cinzenta, enegrecida de sentido pejorativo.

Há outras pedras, porém. Lisas, polidas, suaves ao tacto, branqueadas pelas águas a que dão o nome de seixos. Rolam, não ferem, apenas pesam como as outras.

Às vezes acordo com uma no peito. Também é lugar comum, mas a sensação existe. Não sei definir bem o local, talvez mais perto da boca do estômago, no peito, enfim. E não é um seixo, não. É uma pedra. Como a quiserem imaginar.

Então sinto-me com um peso que não é o meu, de seu natural. Tento saber o porquê daquela companhia, quem a trouxe – se alguém o fez – ou se não passa de um daqueles cadinhos que não coube nas memórias da noite e acabou rolando para outro lugar. Foram os sonhos, os pesadelos, as incertezas, as angústias de um sonho mau.

Pois bastas vezes lá sinto o peso da pedra e, sem esforço, vejo-a. Já morei num lugar longe onde havia pedras como as não vejo por aqui. Pedra ferrosa. De cor castanho ferrugem, arredondadas, crivadas de orifícios circulares onde moravam duendes e fantasias de criança. Às vezes grilos.

Essas pedras enormes bordejavam a casa do tempo de férias, formavam um degrau, era lá que nos sentávamos a ver chegar o gado, recolher os bichos que cirandavam com o sol e procuravam então o abrigo da noite. Com outros bichos junto de mim, quietos. Outros voltejando no ar.

Essas pedras permanecem, tenho a certeza. A casa não.

Foi ali que nasceu a jawaa, quem sabe iria pequenina esbracejando dentro daqueles círculos, criando asas dentro do ovo, vendo a luz através da casca, em cada noite já sem sono, em cada ida às perdizes, em cada cacimbo, em cada madrugada, em cada entardecer.

Eis que chega um novo Maio.

As minhas flores já abriram.

São inigualáveis.

domingo, abril 27, 2008

Passou Abril, vai chegar abril.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.




1978
(segunda versão)




Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim



Parece que o tempo da vida se esvai num dia de cravos vermelhos.

Cravos vermelhos que pintaram uma revolução de esperança e de paz, porque – ó jovens! – não houve mortos. Houve apenas cravos da cor de sangue que não foi derramado e uma criança, um puto, um gaiato de Lisboa a colocar um no cano da arma de um soldado português, como quem enfeita uma jarra de cristal. Como a foto bonita que correu mundo, Chico Buarque imortalizou Abril numa canção de solidariedade como só um irmão sabe fazer, sujeitando-se à mesma censura que nos afogara.

Cada vez menos se vêem cravos nas lapelas, nos cabelos e mãos das mulheres. Os que agora cantam as canções nas ruas nem sabem por que o fazem, nem seus pais decerto recordam a opressão e o jugo.

Restam os cravos derramando-se pelas floreiras em cada casa onde se festeja a liberdade, as liberdades que também trouxeram mágoas, onde ainda se recorda a simbologia que vai permanecer como a insígnia do povo português.


domingo, abril 20, 2008

As Melodias do Som

«…Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

Bernardo Soares.


Já conduzia pela mão jovens serpenteando o caminho da escrita – como a chuva ajuda a abrir as rosas – quando praticamente se aboliu a grafia dos acentos graves. Início dos anos setenta.

Assim, ao cuidado de agradàvelmente dar uma volta ao acento quando transformava o adjectivo em advérbio de modo (ainda se nomeiam assim?...), também tinha de o fazer se precisasse de abrandar o chá em chàzinho, deitando-lhe um pouco de leite. Para não ficar só, ou sòzinho, que é mais doce se não quiser o açúcar. Restou o «à» e o «àquele» com seus companheiros de tribo.

Foi fácil, era só não pôr o acento.

Nessa altura já não tinha meu pai a protestar terem acabado com o trema – que nunca usei em Português mas lhe admitia estatuto – acento que já não constava da minha tranquilidade, era meu pai quem se sentia arguido. Agora ouço o mesmo protesto do outro lado do Atlântico.

Mas concordo com o Acordo Ortográfico, é bem de ver. Facilita quem já escreve mal, os que vão aprender, os que nunca aprenderam até hoje. Os que sabem escrever sem erros ortográficos, enfim, que aprendam a desembaraçar-se de letras inúteis, nem é difícil. Bem dizia Camus: c’est l’habitude…

Pelo que li sobre o assunto, as línguas europeias disseminadas pelo mundo têm uma forma de acordo, tácito ou escrito, de respeitarem entre si as diferenças de grafia. O que não podia, não deve continuar a haver, é uma língua, o Português, com duas grafias oficiais.

Portugal, não somos nós, os que aqui habitamos; é hora de lembrar Pessoa, o homem da futurologia. Temos é a obrigação de preservar a Língua Portuguesa, falada por mais de 200 milhões de pessoas, numa grafia única. Tudo o resto é paisagem, e digo-o com o sentido duplo de que a cada paisagem a sua tonalidade oral, o seu encanto único, os sotaques próprios de cada espaço.

Há lá coisa mais bonita do que encontrar num mundo longe um conterrâneo e identificá-lo como oriundo das Ilhas, do Norte, do Alentejo, de Angola, Brasil, Timor…?!

quinta-feira, abril 17, 2008

O Vento


...Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte

e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão

felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho



O Namibe, ao sul de Angola
* Imagens tiradas daqui

O espectáculo da natureza não tem rival.

A rosa resplandece entre o sol e a chuva. Abre, altiva, o seu rosto ao vento, o corpo inchado de humidade, as raízes acariciadas por solo fértil, o ar enchendo de calor os pulmões. O tempo de cada flor é breve, floresce em uma primavera, mas o perfume perdura em ondas, na sinestesia da cor, na leveza e no dispor das pétalas, na multiplicidade de tons, ou num só, como um sorriso.

Nem sempre a chuva lhe toca manso. Nem sempre o vento lhe murmura melodias brandas, mas sempre lhe conta de outros lugares, de outras latitudes onde a chuva não cai e o sol fere de morte os seres. Dos homens e animais que caminham ainda, indefinidamente, guiados pelas estrelas, esquivos do mundo, dos horários, da globalização, felizes na sua ignorância dos novos tempos que assolam as almas. Procuram incessantemente a água dos poços, o deus, a deusa palpável que teremos adiante. De horizontes vastos de imensidão infinita onde o sol se funde e cria vapores de quente, onde nascem e se desconcretizam os sonhos dos homens, apagada a miragem.

Um dia as rosas cresceram lá. Um dia a floresta deu sombra, os lagos cobriram a terra, os rios serpentearam.

Agora a areia cresce para nós, ameaçando as rosas.

quinta-feira, abril 10, 2008

Eternidade


No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.


Carlos Drummond de Andrade




A melhor aprendizagem da vida é saber estar só.

Acordar na noite longa e gostar da insónia. Ler, escrever o que os sonhos trazem à memória que não é, que nunca foi sequer, mas aparece real como as trevas. Entender o outro lado das coisas, entrar na alma dos que sofreram vexames, humilhações, dos que sofreram pela cor da pele, pela humildade de carácter, pela obediência a uma religião iníqua, compreender o incompreensível por décadas de educação severa, na intemporalidade do ser.

Acordar o espírito e não poder mexer o corpo, coordenar o sono para acordar mais tarde, corpo e alma juntos no mesmo pulsar, ou esforçar a mente, exigir do corpo que não responde a acção que ele não consegue executar. Que fio é este que não se liga?

Acordar é tão difícil, assim. E, se acontece, o sono é tão pesado que a vontade de não voltar a ele subleva uma enormidade de sensações capazes de construir um outro mundo. É então que o levantar acontece em passos titubeantes procurando sofregamente um copo de água.

A água e a eternidade vão bem no dicionário dos símbolos. Só pode ser. Mas a eternidade não existe por aí, só dentro de nós. Porque o corpo não a tem e não deixa que nos esqueçamos disso. Dia a dia. Compassadamente. Mas é bom que não nos olhemos ao espelho e façamos de nós uma pintura de Magritte, ao nosso jeito, olhando no espelho a nossa nuca ainda esguia.

Que bom, a chuva. Agora que os dias se espreguiçam mais e mais, que o frio já se foi, o calor vem aí, esperemos que manso. E o encontro do cheiro a maresia, das ondas, da areia, das pedras, das algas, do sol a lembrar uma outra eternidade.

terça-feira, abril 08, 2008

Novos tempos


«Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê) …
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.»

Fernando Pessoa




Quando a noite vem chegando e apaga devagarinho o brilho das gotas de chuva pousadas nas rosas que vão abrindo, outro brilho se acende no interior das casas, roubando a cada um de nós o sabor do escuro quieto de fim de dia. O acender da lareira com pinhas secas, depois as labaredas lambendo o azinho, deixando sombras e luz nos objectos em volta, o gato aninhando-se no quente. Já nem há candeeiros para acender. E os poucos que o fizeram noutros tempos, depressa esqueceram o ritual.

O brilho que se acende nas casas tem luz e tem som e movimento. Tem melodias e cor. Traz cultura de outras gentes, mas nela muito mais dor. Traz o mundo ao contrário de alguns anseios, traz um espelho de Bosh: um homem barbado, ufano da sua gravidez avançada; uma criança em gestação que vai nascer diferente, vai nascer de um pai; um homem negro, bem longe da civilização dos seus ancestrais, enfrenta os microfones do mundo e anuncia, em nome de um chefe de estado: «Estamos a preparar uma guerra contra o povo!»

O milénio avança e os humanos adaptam a si as transformações em catadupa.

Assim continua o poeta.

«Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —

Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.»

sábado, abril 05, 2008

Abraço



Vou levar-te comigo.

A ternura no trato, o cuidado no olhar, o jeito de sorrir, às vezes triste, que me passas e eu embrulho numa lágrima que não escorre porque os olhos cresceram com tudo o que me deste. Brilham mais agora, aquecidos de ti, do que colheste de mim, do que floresceu da pedra gasta, marcada de sulcos que eu preferia não ter, não ver.

Há quem pense que o sempre não existe, mas não é verdade. É tanto o que permanece, mau grado os anos, a idade, a distância, o espaço, os espaços. Apesar do peso da vida, dos desenganos, dos desencantos, dos desencontros. Para além das incertezas, das inconveniências, das incoerências, das aparências.

Sentir está para além de tudo.

Só depende de nós. Dos anos desfiados, das primaveras floridas de rosas, dos cacimbos azuis, das chuvadas torrenciais, das chuvas mansas, das neves esparramadas pelos telhados a escorrerem em gelo no dealbar da nova estação que se anuncia.

Ainda nos meus olhos a lava branca sobre a imensidade dos campos, desenhada de árvores nuas e eu deixo-te – o quê? – encharcada de sonhos repletos de infâncias, de cumplicidades, de alegrias, de afectos, de ternuras, de saudades já .

E as tuas mãos por cima dos meus ombros.

Vais permanecer comigo. Sempre.

Até ao último pulsar.


quarta-feira, abril 02, 2008

Regresso




Na quietude de um voo intercontinental, as horas escorrem lentas para quem se mantém desperto.

Do levantar do chão e ainda em rasa altitude sobrevoar as cidades, fica-me um sabor a pássaro. Noutra vida – porque decerto não terei seguido à risca, ainda desta vez, os preceitos de um bom vivente – hei-de regressar bicho de asas. Migrar, conhecer de cor o perfil dos continentes, cruzar os oceanos, ser talvez um albatroz. Ou uma simples monarca.

Por enquanto, sem status social ou económico para viajar em jacto particular, como o fazem alguns dos meus conterrâneos deste país pobre (ou pobre país?), as horas decorrem confinada a um assento estreito – sempre junto à janela – com um espaço insuficiente para desdobrar os jornais que oferecem à entrada, exíguo até para as refeições servidas ao longo das largas horas em que me sinto como que liberta da força da gravidade.

Sem a lotação esgotada, alguns aproveitam para acertar o jet lag com algumas horas de sono estirados na correnteza dos bancos vazios, enquanto as televisões passam filmes inomináveis. Há os que lêem, os que passeiam pelos corredores, os que conversam. Eu faço as palavras cruzadas. Escrevo. Já não consigo ler. Na escuridão, levanto-me devagar e ajoelho-me no banco para descansar as pernas.

Sinto então um leve perder de altitude e logo a seguir o altifalante anuncia o início da descida. Preparo-me para o único momento que me inquieta numa viagem de avião. Observo cuidadosa e atentamente os movimentos dos flaps das asas. Bonito de ver. De perceber como e porquê o avião desce com suavidade ou se provoca enjoos com o brincar dos comandos.

Desta vez tive sorte. O grande pássaro desceu leve e de mansinho.

Pouso na Primavera.

domingo, março 30, 2008

I'm coming home...

Em Montréal , Je me souviens - dizem os automóveis que passam...




Bye-bye, Ottawa, Au revoir, digo eu.



De regresso a Toronto, Yours to discover, é o que rezam as matrículas dos carros.




Em casa...


Até à volta, Mr. Binx, take care of...

sábado, março 22, 2008

Estrelas no Céu


A poesia não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas,
A poesia acontece.
Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu, que me cabia.
Aconteceu poesia,

Quando as tuas mãos numa carícia vaga,
Moldaram no meu rosto, ar de angústia,
Que o tempo não apaga.

Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe,
Aconteceu poesia.

Fernando Vieira



No dia dedicado à Poesia, a barca de Caronte passou levando devagarinho o meu último Eduardo, renitente em pagar o óbolo mesmo após os noventa anos. Afinal, tudo o prendia a este lugar terreno. Principalmente os afectos e também a terra de que se afastara por tantos, tantos anos.

E eu, do outro lado do mar.

Vagando num outro espaço a olhar e a pensar o mundo numa perspectiva desusada. Não é normal palmilhar o planeta sobre um azul que pode não ser o mar, saltitar por sobre tufos brancos que podem ser pedras ou restos de neve não derretida, brincando de algodão em rama.

Quando o gelo todo derreter nos pólos e o mar subir nos trópicos, pode ser que nasça um novo deus. Grafado com letra minúscula talvez se mantenha mais próximo dos seres que povoam a terra. Provavelmente não será aquele velhinho de barbas brancas porque os humanos que restam não conhecem ninguém assim. A sua memória esvaiu-se com a hecatombe que varreu a humanidade e limpou toda uma civilização.

O deserto, e só ele, salvou a espécie. Alguns nómadas, os verdadeiros nómadas, são os sobreviventes na pureza de tudo aquilo que a natureza apagou.

E bem.

Ficam as memórias que as dunas contam de uma civilização cruel e insensata que dominou os continentes por milénios. Assustados mas protegidos pelas tempestades de areia, vão ao encontro do Principezinho a quem narram todas as lendas e de quem aprendem os outros mundos de homens que vivem contando as estrelas que povoam o céu.



terça-feira, março 18, 2008

Calor no frio



Desta vez deixa-me

Ser feliz.

Nada aconteceu a ninguém,

Não estou em parte alguma,

Simplesmente sucede que sou feliz

Pelos quatro costados

Do coração, andando,

Dormindo ou escrevendo.

O que posso fazer, sou

Feliz.

Pablo Neruda




Mergulho no avesso do mundo.

Mochila às costas, embrulhada de botas e kispo longo, luvas grossas e cachecol e capuz e vento fresco no rosto, caminho por veredas abertas por entre a brancura já escurecida pelo sal e sujidade dos dias de céu aberto onde o sol não aquece. Passo apressado que a temperatura windy não deixa lugar para grandes delongas sem o aconchego de qualquer lugar abrigado.

No autocarro é preciso desembaraçar as mãos que o percurso é longo até downtown. A sonolência vence os perfis da multiculturidade que se mistura nos transportes, orientais em maioria, indianos, véus aqui e além acariciando rostos de jovens de olhar fundo, alguns, bastantes, mergulhados em livros, outros lendo jornais, uns apenas de olhos fechados. Jovens mães transportando carrinhos e crianças pela mão, os degraus do autocarro descendo a cada entrada de alguém com mais idade.

Descanso o olhar na terra toda vestida de branco, as árvores nuas alongando as ruas largas, o horizonte imenso onde perco o olhar.

Os dias têm já uma hora mais e deixam tempo para o regresso cedo.

Ali a quietude impera na espera dos senhores da casa.

Olho o espaço em volta respeitando quem a guarda.

Com a ansiedade de quem ama.


quinta-feira, março 13, 2008

Cumplicidades


Uma bicicleta motorizada…que beleza!

Dá para recordar a primeira sensação de liberdade plena na infância, e dar uma volta por ruelas já limpas da neve nos jardins em volta da casa, é indescritível.

Mas bicicleta e motorizada e moto, tudo se mistura em relacionamentos desconexos de vivências de alegrias e angústias, inseguranças e temores, separadas por décadas e que agora emergem em conversas risonhas. Como o tempo afaga as arestas e torna tudo tão suave!

«Irmã, acabou-se a gasolina, estou a pé na estrada, a caminho de casa, ninguém pára…»

«São 2 da manhã, o que é que esperas…?!»

Depois é preciso voltar para trás, a moto ficou escondida algures, tapada, disfarçada nas ervas… aqui… mais além, não, foi ali que a deixei... tenho a certeza.

Numa outra noite, dia aberto já, e o telefone toca… «hospital…» corridas desenfreadas de carro e coração… uma maca no corredor é aquele ali… não, mas este não é o meu filho!

Já sem crer…inchado? Não, não é ele…!

Então, como numa aparição, surge da porta ao fundo numa cadeira empurrada, esguio, o soro ligado a um braço, o outro de dedo no ar… sorriso pálido: «Eu, estou aqui!»

«E daquela vez…lembras-te?»… «Se lembro… nem a mãe sabe da missa a metade…!»

O sorriso doce de menino traquina mantém-se no tempo, desarma e enrola e seduz.

Laços que não desatam.









sábado, março 08, 2008

Como Eles nos vêem ...



Parece que alguém ensandeceu num dos canais portugueses… ofertando, no Dia Internacional da Mulher, um programa dedicado a elas com um exemplar masculino – com os 206 ossos do esqueleto bem distribuídos, é certo – mas que só revela como as mulheres estão ainda longe de aceder às decisões de cúpula, neste país.

Em pensamento, estou hoje em Lisboa, ao lado das PROFESSORAS.

Aqui deixo, porém, algumas pinceladas de Mulher, pela mão de alguns escritores do último século, diferentes formas de lhe sentir o pulsar.



António Lobo Antunes:

«Concebi por Lana Turner uma paixão absoluta, exclusiva. Em momentos de desânimo quase penso que me não retribuiu. Mas o desânimo, claro, é passageiro, e o cabelo platinado, as sobrancelhas evasivas desenhadas a lápis, em semicírculos perfeitos, os vertiginosos decotes de cetim, o bâton escarlate, tudo me garante um amor eterno, eternamente partilhado. A filha matou o gangster Johnny Stompanato, seu suposto amigo

(nunca o amante, o amante era eu)

e ainda hoje lhe estou grato por isso. Usou a faca da cozinha onde Lana Turner, aposto, fazia salsichas com couve lombarda, o meu almoço favorito, a pensar em mim. Também não me agradava que beijasse os outros nos filmes. Mas talvez fosse melhor dessa maneira porque, se chegasse a casa com bâton e me desculpasse à minha mãe

– Foi a Lana Turner, anda perdida aqui pelo rapaz

receio que ela não levasse em gosto a hipótese

qual hipótese, a certeza

de o filho de onze anos casar com uma divorciada, porque isso afastava a cerimónia da igreja e nós éramos católicos.»


Miguel Torga:

«A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer pragmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos sem perceber que ela é o cordão umbilical da História.»


Virgílio Ferreira:

«É dentro de nós que idealmente possuímos a mulher, tentando aí a permuta de um "eu" e de um "tu" esgotando-se na nossa absoluta solidão, na destruição de tudo em volta, no instantâneo esquecimento do que nos rodeia e da própria realidade da mulher, a procura do que se não encontra porque não existe ou nos escapa.»


Aquilino Ribeiro:

«Ela tinha os olhos no chão, mal embrulhada na capucha de burel velho; ele estudava-a dos pés à cabeça e apenas lhe parecia mais olheirenta, mas o sempre-mesmo ar, tez mosqueada de sardas, a modo da pinta nas cobras, o seio alto e rijo no chambre estreito de flanela, a cinta bem lançada, toda ela mui magana no saiote vermelho. Aquele vermelho assanhado, cheio de cio nos poros, a feder a badulaque, escaldava-lhe o sangue. Fêmea de uma cana, já dizia o rifão, da galinha a preta, da pata a parda, da mulher a sarda!»


quinta-feira, março 06, 2008

Andar no Céu



Assim tem sido sempre a minha vida, e

assim quero que possa ser sempre –

vou onde o vento me leva e não me

sinto pensar

Alberto Caeiro



Os homens todos deveriam saber voar.

Conhecer as nuvens do lado do céu, olhar a prata das estrelas, encantar-se com as cores da terra pintando a tela azul-verde dos mares. Encontrar-se deus varrendo do espírito a fealdade da sua carapaça, a rigidez do aço que assombra os seres do ar. Construído pelos homens para invadir o reino que não lhes pertence, não faz parte da paisagem, é um ser desconforme.

Ou antes, é belo, é perfeito, mas não é natural. Não tem leveza, não vibra com o sopro do vento afagando o bico, estremecendo as penas, não se entrega ajeitando as asas com a sensualidade da águia ou do condor. Preenche todavia a ambição de glória dos homens, o prazer da conquista, da caça. É um troféu.

É a diferença que vai entre a epopeia de decassílabos acentuados na nota inalterável, na sucessão dos cantos, na complexidade da obra ímpar que constrói uma História de homens e deuses , e a modelação livre e apaixonada de uns versos ao ente fantástico guardador dos mares:

«…Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse, “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo,

“El-Rei D. João Segundo!”…»



sexta-feira, fevereiro 29, 2008

(Des)Construção


Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos.

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quando tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

escrevo.

Mia Couto



Avaliar é sempre um processo difícil.

Principalmente avaliar até que ponto nós próprios estamos em condições. Saber quando devemos parar de avaliar os outros em função das nossas convicções, quiçá baseadas em experiências diferentes, até que ponto as nossas convicções estão correctas à luz dos novos conhecimentos, até que ponto os nossos conhecimentos apreenderam a evolução da ciência, até que ponto evoluímos com a ciência nova, com o vento novo, com as primaveras que vão renovando o que os Invernos queimaram em geadas negras.

Avaliar é, acima de tudo, comparar. O antes e o depois. Há que conhecer o percurso anterior de um indivíduo para se poder aquilatar acerca da sua competência num dado comportamento. Não é a fugacidade de um momento que justifica um carácter; não é um gracejo oportuno que faz um humorista nem uma explosão de cólera que marca um criminoso.

Ninguém nasce do nada. Ninguém nasce de olhos claros numa comunidade cigana, ninguém desponta de olhos oblíquos n uma Índia de olhos redondos ou negro entre os Esquimós. O urso só é branco na imensidão das neves, até a raposa ali se pinta prateada.

Em todo o lugar há um tempo próprio. Belo nos seus esplendores, o campo que brota florescente na Primavera e traz a fartura no Estio, explode em tonalidades fortíssimas nas folhas outonais, gritando a sua beleza incontornável aos ventos que lhes vão cerceando a seiva e as despenham para a eternidade de um Inverno.

Porém é importante, impõe-se uma avaliação contínua do que somos capazes de poder fazer, em campos separados, pessoais, sociais e profissionais, sem que deixem ao mesmo tempo de estar unidos num só, equilibrados entre si. Há direitos e deveres, não há uns sem os outros. A vida é uma só e tem tempo próprio, está visto.

E é neste sentir, nesta entrega permanente, que se constrói cada indivíduo.

domingo, fevereiro 24, 2008

Desejar Poder Querer

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Fernando Pessoa




Quantas vezes a memória me aparece como um sótão cheio de cadinhos! Depois é preciso escolher, cadinho sim, cadinho não. Cadinho sim, cadinho sim. Cadinho não. E por aí adiante.

Nem todas as memórias estão prontas a servir, muitas estão turvas, outras, é preciso temperá-las para poderem ir à mesa; e há aquelas que, como o bom vinho, precisam de tempo para amadurecer, em cascos de carvalho, de preferência. Finalmente há as que, como o vinho verde, não devem ser guardadas muito tempo; borbulham e são deliciosas se servidas frescas. Mas para isso têm de ser de boa casta, de outro modo, são perigosas.

Por isso eu procuro os cadinhos que já maturaram alguns anos. Aí, as memórias estão mais repousadas. Mesmo com assento no fundo, saem límpidas e claras, aquietadas quando sofridas, vazadas devagarinho e no tempo certo.

Mas de quando em vez encontro-me com outras histórias, de memórias de outros que tocam nas minhas e batem no mesmo ritmo, doloroso, magoado, monótono se quiserem, mas naquele bater que nos alimenta a existência, que nos acende os afectos, os brios, o orgulho de se ser português.

E eu li, na revista Notícias Sábado do DN de ontem, retirado de um artigo intitulado «Uma instabilidade conveniente», sobre um fundo em tom verde de esperança (o sublinhado é meu):

«Outra das medidas que a Austrália não perdoou a Alkatiri foi a sua aproximação a Portugal e a adopção do Português como língua oficial. Uma feroz campanha, orquestrada pelos media daquele país, acusou Portugal de estar a impor aos timorenses o seu idioma, com professores pagos principescamente... E enquanto as calúnias circulavam em roda livre – nas televisões, rádios e jornais, chegando mesmo a fazer parte do discurso dos turistas de passagem por Timor – o que fez, por exemplo, a CPLP? Nada. O linguista australiano Geoffrey Hull foi dos poucos que tiveram a coragem de denunciar o ataque ao idioma de Camões no que denominou de “inverdades anglofónicas”. Em resposta a uma série de artigos hostis, Hull recordou, que “quem está familiarizado com a História” sabe que “a língua portuguesa sempre foi preponderante para a identidade nacional do país”. Se ainda houvesse dúvidas sobre as intenções de Camberra, elas dissipar-se-iam ao lermos o que deixaram escrito, numa placa de bronze afixada na fachada do Mercado Municipal de Dili, emblemático exemplar da arquitectura portuguesa, os técnicos australianos que ali efectuaram uma simples operação de restauro: “Este edifício é uma oferta do Governo e do Povo australiano para a celebração do dia da Independência de Timor-Leste em 20 de Maio de 2002.»

Nós somos Portugueses e temos História. Uma História bonita. Não envergonhamos a União europeia, de que somos parte integrante. Para quê tanta modéstia? Tanto receio de parecer mal? Tanta hesitação em reclamar ajuda imediata?

O mundo sabe que não nos move o interesse económico, que a Austrália já se adiantou em duas gerações pelo menos. Mas há um povo que sofre.

No plano dos afectos, Timor também é Portugal.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Contos


Adieu, Gringoire!

L´histoire que tu as entendue n’est pas un conte de mon invention. Si jamais tu viens en Provence, nos ménagers te parleront souvent de la cabro de mousu Seguin que se battégue touto la nuei emé lou loup, e piei lou matin lou loup la mangé.

Tu m’entends bien, Gringoire :

E piei lou matin lou loup la mangé.

Alphonse Daudet



Acordar madrugada abrindo, ao som da chuva soprada de vento ou simplesmente pingando dos beirais, deixa-me quieta, sem abrir os olhos. Posso fantasiar um outro espaço, posso até abrir o meu cesto mágico.

Ele está cheio de todas as histórias que me guarneceram a infância como as camélias matizam agora a primavera. E são de todas as cores: de raposas matreiras e fadas boas, de princesas más que se transformavam em gatas, de meninas que conviviam com bichos – Bonne Biche, Beau Mignon – meninos que corriam mundo entre as asas de um ganso, aquela D. Redonda que, feita missanga colorida, entrou no mundo das formigas; do Sandokan, de piratas, de viagens sobre e por baixo da terra. Só mais tarde Walter Scott e Ponson du Terrail, Delly dos príncipes russos e das valquírias.

Há a releitura dos contos de crianças – o Capuchinho Vermelho de Perrault, a Alice no País das Maravilhas – puras alegorias, alguns nos deixam imagens de escrita belíssimas como aquele conto impar da cabra do Sr. Séguin, enfim liberta da corda que a prendia, que vive um último dia de liberdade plena, de euforia, de exaltação, inebriada pela montanha que a recebeu em festa: os abetos em vénias porque nunca tinham visto nada tão bonito, os castanheiros dobrados para acariciá-la com a ponta dos seus ramos, as flores douradas e as campânulas azuis espalhando perfume em seu redor. Só até ao crepúsculo. Até a noite chegar.

Os contos de encantar da Xerazade, os contos suaves do Natal, a Dama Pé-de-Cabra e a Aia, deixaram-me o gosto de os ouvir, de os contar, de os ler, mesmo os contos de Torga talhados em rocha dura. Mas os meus aprazimentos estão com Aquilino e a sua prosa riquíssima de metáforas e figuras que me deliciam.

Mil novecentos e setenta e quatro deu início a um conto diferente. Apanhou-me em plena corrida por prados verdejantes e florestas de duendes, porém o corcel falhou um salto. Estatelei-me em Oran. Paris continuou Paris , revelou ao mundo Tarkovsky, mas eu estava de quarentena.

Quando regressei, não passava de um pied-noir.



sábado, fevereiro 16, 2008

Portugal, Século XXI

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

recusando o que é desfeito

no interior do meu peito

Maria Teresa Horta





Sem rosto e sem coração surge a mulher pela manhã, enrugada de sono, acordada pela fadiga que o dia aponta, a limpar os sonhos na água que escorre do chuveiro morno, espreguiçando as cores da noite. O tempo urge no afã das tarefas inominadas que há a cumprir antes do transporte que há-de levá-la ao emprego a que a sociedade dá nome e remunera, mas para ela é coisa nenhuma, que o seus pensamentos ordenam mentalmente todo o percurso a palmilhar no dia longo que para ela só desponta no final do serviço.

Recolher as crianças, saber dos estudos, os trabalhos de casa, fazer as compras, as refeições, a roupa para mudar, pôr a lavar, estender, passar a ferro. O marido tem trabalho até mais tarde, faz uns biscatos para o dinheiro esticar para as roupas dos filhos, para os sapatos que já não servem. Chega a casa cansado, coitado, há que deixar pronta a janta antes da reunião de pais da escola, sempre demora mais do que diz na convocatória.

Chega estafada, com os problemas dos outros a acrescentar aos seus, as preocupações redobradas, os seus filhos convivendo com aqueles outros filhos daquelas mães desprotegidas, maltratadas pelas vidas, pelos seus homens sempre ausentes dos problemas dos filhos que também são deles. Há aquele pai adoptivo, cuidadoso, o olhar abrindo de preocupação, como ela, pela menina que sofre ainda uma infância de maus-tratos e não consegue encontrar na escola a segurança de que precisa.

Quando chega a casa, as crianças estão pregadas na televisão, o marido dorme no sofá, já jantado. Há que lembrar-lhe o caminho do quarto, dar banho aos meninos, dar-lhes de comer e pô-los na cama, arrumar a sala, os brinquedos, a roupa esquecida sobre as cadeiras, ainda quer dar uma olhada à novela, aproveita para passar a ferro entretanto. Antes de pensar em deitar-se, descer o que há no congelador para o dia seguinte, até se esqueceu de jantar.

Aquece um copo de leite e senta-se na mesa da cozinha.

As suas mãos afagam o copo enquanto ela afoga o seu entendimento da vida.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

O Vestido Azul

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.      
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos.
Reparo que também no meu país o céu é azul.
                       Eugénio de Andrade


O azul é a cor por excelência.

A cor do mar. A cor do céu limpo. De certeza a cor que primeiro identificamos, assim que somos dados à vida. Nem sei se haverá alguém que não goste de azul. Na reconhecida ausência de vocábulos à altura de designar a multiplicidade de tons, assim o designamos azul-claro, azul-escuro, azul-marinho, azul-mar, azul-cinza, azul-eléctrico, azul-petróleo e mesmo azul-céu, a cor do infinito.

Por mim, não posso dizer que tenha uma cor preferida. Gosto de cor. Gosto das cores. Da união de todas elas. Menos da ausência, mas também.

Hoje, porém, queria trazer aqui apenas o azul, porque um amigo deste espaço aberto, por delicadeza, grato por coisa quase nenhuma, mandou-me uma flor azul em forma de som.

Acontece que eu não consigo postar o vídeo que ele me mandou e já desisti de pedir ajuda ao Blogger.

Sobre um fundo sonoro, um narrador conta a história de «uma garotinha muito bonita morando num bairro pobre de uma cidade distante […] frequentava a escola local e se apresentava quase sempre suja, suas roupas velhas e maltratadas. O professor ficou penalizado […] separou algum dinheiro e resolveu lhe comprar um vestido novo.

Ela ficou linda no vestido azul.

Sua mãe passou a lhe dar banho todos os dias, pentear seus cabelos, cortar suas unhas […] Nas horas vagas, o pai resolveu dar uma pintura nas paredes, concertar a cerca e plantar um jardim. Os vizinhos, envergonhados, decidiram também arranjar suas casas, plantar flores, usar pintura e criatividade […] um religioso pensou que bem mereciam o apoio das autoridades […] e o bairro ganhou ares de cidadania.

E tudo começou com um vestido azul.

Não era intenção daquele professor concertar toda a rua nem criar um organismo que socorresse o bairro. Ele fez o que podia. Deu a sua parte. Fez o primeiro movimento. […] Lembremos que é difícil limpar toda a rua, mas é fácil limpar a nossa calçada. É difícil reconstruir um bairro.

Mas é possível dar um vestido azul.»

O meu amigo é um menino-poeta, que tira fotografias lindas e gosta de música e estuda, para ser maior no mister em que dá os primeiros passos. Tem uma sensibilidade do tamanho do mar que nos separa e sabe comunicar. Quer ser professor. Que bonito!

Muito obrigada pela flor, Rafael.



domingo, fevereiro 10, 2008

Dividir para reinar

Por toda a parte assistimos assim ao desenvolvimento exaltado do indivíduo nacional. E, com o advento definitivo das democracias, haverá na Europa, não a universal fraternidade que os idealistas anunciam, mas talvez um vasto conflito de povos que se detestam porque se não compreendem, e que, pondo o seu poder ao serviço do instinto, correrão uns contra os outros – como outrora, nas velhas demagogias gregas, os homens da Mégara se lançavam sobre os homens da Lacónia, e toda a Ática se eriçava de armas, por causa de um boi disputado no mercado de Fila ou de uma bulha de rufiões nos grandes pátios da Aspácia.

Eça de Queirós


Voando sobre décadas de entendimento das coisas humanas, ainda me surpreende o espanto das crianças. O olhar atento ante cada brinquedo novo, o colorido, o movimento, a estranheza; a cada aceno, o gesto, o toque, o olhar; a cada encontro com um menino, o riso, o brilho do olhar, a mão estendida. Penso em Rousseau e no seu entendimento dos homens. A aculturação falseada por contactos impostos cada vez mais cedo, moldam um olhar diferente, receoso, aberto, sofrido, esquivo, defensivo.

Perdida a inocência, é cada um por si, contra todos. Já não se lê nas escolas ou em casa a história bonita das sete varas que aquele velho sabedor mandou cada um dos seus filhos quebrar, uma por uma, junto ao seu leito de morte. Do adulto ao mais jovem e frágil, todos partiram cada uma, facilmente, num vergar tranquilo. Porém, as sete varas unidas num molho, simplesmente atadas, não houve força que as pudesse quebrar.

Não é palavra vã citar que a união faz a força. E que o não seja apenas na economia feroz.

Reporto-me à realidade actual das escolas aviltadas, nem só pela ignorância e inépcia dos legisladores, mas pela sandice da luta local pelo poder não partilhado, a falta de generosidade, a vacuidade do esforço alternado de cada um na travessia do riacho fundo por sobre um tronco estreito e periclitante, sem um braço estendido à partida ou à chegada, antes um pé rolando o tronco, criando dificuldades. Todos querem o seu espaço só para si, não se dão as mãos, não procuram afinidades, não se unem mostrando a razão a quem de direito, não reparam que lutam uns contra os outros. Onde a razão reside tão visível.

Não importa só quem está ali. Importa o campo adiante, a margem, a terra firme que é preciso arrotear, semear, regar, para que se torne esplendorosa. Tem de olhar-se em frente, para os outros, para as crianças, para os que precisam, para os que sofrem.

De outro modo a força perde-se em batalhas vãs, o olhar esmorece e o mundo perde a luz.