terça-feira, agosto 26, 2008

Cansaço


(…) Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.


Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijámos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis



Os amigos que comigo de mãos dadas saltaram décadas, estão todos velhos. Mergulhando já na idade dita terceira, vá lá saber-se a razão desse nome, quando me vejo eu própria, na primeira de muitas coisas. Não direi as mais importantes da vida, mas muito importantes. Impensáveis há uns tempos largos. Inusitadas.

Somos aquela geração que viveu a outra guerra fria, os mísseis ali em Cuba, a guerra colonial, fomos descolonizados, retornados poeticamente a uma terra que alguns nem sequer conheceram antes, inseridos, emigrados, unidos pela voz de um Portugal imenso, que não cabe neste rectângulo do mapa. Como não cabe no túmulo o grito de Camões «o dia em que nasci moura e pereça», como a voz de Pessoa não cabe nos Jerónimos.

Unidos pelas memórias. «A minha cabeça está cheia de recordações e hoje, vasculhando o meu missal, dei com esta coisa linda (um «santinho»), lembras-te? Qual a data? Creio em que no ano em que fui para o colégio em Sá da Bandeira e recebi-o com uma carta que a freira chamada “Camila” – que na altura superintendia a carneirada – depois de eu a ler, retirou-ma com a proibição de eu responder. Muitas lágrimas correram e eu sem entender nada. Como o mundo é e foi sempre MAU!» Desabafos, mágoas, intolerâncias. Revolta.

A idade não desarma a dureza da vida de que ela é um vírus mutante, mas amacia se conseguirmos ver e não só olhar, sentir que o mundo mudou e nós também temos de nos adaptar para sobreviver. Os mais de quarenta anos de vida em comum nem sempre é salvo-conduto para a felicidade quando os interesses divergem – se não divergiram sempre – pelas experiências não comungadas, pelos tombos mal digeridos, pelas recusas, pela fortaleza que cada um de nós cimenta nos cacimbos galgados.

Nem a natureza nos acolhe – pedras quebradas, nuvens que já não trazem chuva, alguns de nós erguidos ainda, altaneiros – cada vez mais dura, mais agreste, mais revoltada. Com os novos, com os velhos, com o micróbio humano, esse microrganismo impuro que a si próprio tira o alimento que mina a saúde do planeta, lhe suga o sangue e não repõe sustento. Somos aquela geração de gente que ainda grita contra a voracidade crescente de riqueza, que clama contra a violência e a fome que não teria razão de existir se os homens fossem humildes perante a natureza e os outros.

Se os homens não fossem realmente MAUS.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Convicção

 

Na ardência da palavra
A pele gretada, o sulco sobre a terra.
Mater no húmus da espera
O som da semente. O odor lento.
O caminho. Esta fraga de dor
Despenhada sobre o tempo...

Apenas a águia (ou o corvo branco)
Se atrevem na voragem
Deste horizonte....

Quem colhe a manhã que teima
Na brisa dos dedos?

Quem de tão néscio se obriga
A caminhar ignorante da água
E do lume no interior da pedra?
Quem nesta brida se atreve além
Do curto olhar do dia?

Como se chama fosse o voo da ave
Saturnina...

Herético



Há momentos em que a percepção do mundo nos chega com uma clareza inusitada.

Na vastidão da praia mansa e viva, os corpos bronzeados despidos na orla da praia, esguios circulando de sorriso fácil, o pontão além, aquela sucessão de tábuas entrando pelo mar, fervilhando de gente logo pela manhã. Crianças subindo aos magotes pela única escada que se ergue das águas transparentes, mergulhando logo em seguida, pujantes de vida, risos misturados ao marulhar das ondas. Os barcos, pequenos batéis que chegam com um atum, depois um peixe-vela, uma dourada, logo amanhados e mãos recolhendo as cabeças enormes, quem sabe a refeição aguardada para uma família. Também os ovos de tartaruga. E as pequenas logrando o oceano, escapando aos predadores do ar, nem sempre aos humanos, mau grado a vigilância dos guardas.

Ouço aquele homem dono do mundo, senhor da ilha, das ilhas – poliglota, parente de todos os políticos, debitando cultura aos turistas, democracia, Mandela, Luther King, ideais do mundo, dos não brancos, recordando uma América onde não teve lugar – sob as tamareiras, palmeiras empurrando-se sobre hibiscos coloridos, cachos de aloendros e alegrias brancas semeadas de lilás. Palmas oferecendo-se ao vento, em leque, em setas ponteagudas, em longas saias balouçando qual havaianas em dança de vénias. Cactos e folhas carnudas de sisal apontando o céu, alguma outra verdura, sensitivas fechando envergonhadas do sol que nos obriga a cerrar os olhos à reverberação que o mar reflecte em ondas puríssimas. Um ou outro veleiro de proa apontada à praia a revelar o descer da maré. Pela noite, Luci cantando a esperança de nos terra num sorriso bonito, timbrado a doce, debaixo das acácias frondosas.

Penso então o meu lugar dentro de mim, as praias bonitas repletas de gente, o clima ameno, os rios de encanto riscando o solo em meneios, as gentes enrugadas nas casas de granito, pedra sobre pedra, esquecidas, perdidas num tempo que já não lhes pertence. Que os novos têm outros prazeres de convívio onde a natureza não tem lugar. Portas adentro, o ruído não é trovoada a anunciar tempestade, o líquido não cai do céu, não molha o corpo, jorra do vidro, do plástico, entra na alma, incendeia e queima. Nem há granizo que se desmanche em água, há saraiva que se faz em pó, a apagar memórias.

Há falta de brio em Portugal, obviamente.

E não só nos atletas.

terça-feira, agosto 12, 2008

Morabeza


Todos os dias agora acordo com alegria e pena.

Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.

Tenho alegria e pena porque perco o que sonho

E posso estar na realidade onde está o que sonho.

Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações.

Não sei o que hei-de ser comigo sozinho.

Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

A.Caeiro



Tocam de mim, para mim, todos os sinos do mundo.

Da terra cresce a minha anhara imensa, mais agreste, mais nua, mas soando ao meu continente.

É antes uma paisagem lunar: imensidão de areia e pedras vulcânicas, escuras, semeadas por todo o espaço até o horizonte surgir com a imagem precisa de uma pirâmide. Depois o mar.

No ar um cheiro vazio, feito de mar e de sol, um bafo quente como o odor de um corpo que é o nosso. Porque há gentes, há olhares doces, há suavidade no trato, há vozes que cantam as melodias do som, só porque falam em sorrisos que encontram os nossos. Os olhos não se esquivam, antes afagam, comovem, trazem lágrimas doces de outros lugares. Os lugares que vivem dentro de nós porque não há morte para o amor que ainda pulsa.

O vento sopra dobrando as acácias sem flor, levando rasteiro o vapor quente que nasce do chão e se desfaz em água brilhante num esplendor de miragem.



E o sal. O sal da Ilha do Sal tem as tonalidades róseas do deserto. Tem poder curativo – dizem – tal a concentração na lagoa imensa represada. É para mim outro fausto sob um sol inclemente, outro ainda o olho azul que se avista nas profundezas da gruta na rocha alta, aberta sobre o mar.



Compreendo o inconformismo dos outros, de alguns outros. Só quem sabe vestir-se de mar consegue suportar a humidade colada à pele, o ardor do sol, o ar quente.

Hei-de voltar, mesmo grãozinho de pó cavalgando a areia.


sexta-feira, julho 25, 2008

Brisas de Verão

Ao alvor, pelos riachos, quando voltares, o musgo
Tão puro dos seixos te celebrará e o espelho
Brumoso do quarto agitará os seus navios –
Aos continentes as especiarias do prazer e do sonho
Retornarão. No Egipto, os homens erguem pirâmides.
No Japão, transportam os pássaros o sémen vegetal,
Cartas de amor das cerejeiras. A noite, a luz.
O mel, a flor. Não se tocarão nunca e amam-se.
A tinta, a pena, não sentirão nunca e amam-te.

Andei pela casa à procura do teu pólen nos móveis.
Quando voltares, não esqueças os recados, o coração
Floral, os brincos e os anéis, os lábios e os livros.



Eis que chega o vento para refrescar o dia quente.

Sopra sem peias, deixando as folhas sem tino, balouçando os ramos, espalhando as pétalas, levando mais alto os jactos da rega dos jardins. Trespassa as ténues malhas que aconchegam os corpos, desfaz os cabelos, entra na pele, escorre na alma e arrepia os sentidos.

Volta do avesso o verão, escreve-o sem letra maiúscula, tira-lhe o estio das noites cálidas, dos passeios lentos pelas ruas, das conversas saborosas em torno dos gelados na esplanada – em vez do café que espanta o sono dos velhos.

Vou abrir as asas, estirar as pernas e alongar o pescoço, mirrar no espaço e desaparecer do continente. Levo os ouvidos, os olhos cheios duma cimeira lusófona na casa-mãe, quem dera haver pão para todos depois das luzes se apagarem da festa. Quem dera livros para todos, cadernos para todos, escolas para todos. E dinheiro para pagar a professores. Dinheiro fácil. Só uma percentagem mínima dos lucros das petrolíferas daria bem para motivar ao exílio de uns quantos, algumas centenas, já não direi milhares, vítimas do desemprego ou de emprego precário nesta Europa em que sobrevivemos.

Lamento que as duas maiores casas africanas não se dignassem fazer representar pelos chefes supremos. Outros valores mais altos se impuseram e não se prendem decerto com a cultura da língua portuguesa ou os cuidados de saúde que os seus povos merecem.

Até à volta.

segunda-feira, julho 21, 2008

Sabedoria


Não sou nada

Nunca serei nada

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo…

F. Pessoa



A sabedoria do Homen está em questionar-se. A si, aos outros homens, aos bichos, às plantas, ao planeta, às pedras, ao planeta em que mora, à galáxia a que pertence, ao universo.

E questionar é estabelecer oposições, geri-las. O bem e o mal existem? Sim, se baseado numa determinada moral, aceite e concebida pelos homens. Mas se quisermos olhar do alto, encontramos Einstein e relatividade de tudo o que envolve a dicotomia que preside à evolução.

A matéria (é) a energia, o corpo o espírito, a abundância a fome, a alegria a tristeza, o homem a mulher, a mocidade a velhice. Nenhum se conhece sem o outro, opostos completando-se.

Os velhos debitam a sabedoria dos anos, a certeza já da inexorabilidade da pedra rolando pela colina e o regresso duro, montanha acima. Sabem aproveitar a descida olhando o capim novo depois da queimada, sorvendo a água da fonte antes de ser contaminada, olhando o sol que o poente levou no espelho da lua, contando as estrelas que já não são, pedindo um desejo quando alguma parece riscar o céu. Há os que têm todas as certezas: do fogo que consome a floresta, da poluição sem retorno, do sol que vai perder a luz, da terra que vai gelar.

Os novos sabem a novo. Consomem velozmente o futuro sem viverem o presente ou sequer olhar o passado. Olham sobranceiros os velhos que nunca vão ser. Mas há os novos que são jovens e sonham como os meninos que foram os velhos. Esses caminham devagar seguindo as estrelas, ouvindo os rios cantar, dando a mão aos bichos, saudando as árvores mais altas.

Desses espero que saibam escolher as rotas, construir os ninhos, abrir caminhos novos sem danificar a paisagem.

quinta-feira, julho 17, 2008

Tudo Passa

Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?

Não quero a noite senão quando a aurora

A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quer possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...

Fernando Pessoa



Devagar, com a solenidade dos anos que a vida nos dá, sem a contagem dos dias, das horas, dos minutos inquietos, o mundo tem outro sabor.

Mesmo sem casa, sem rumo, sem afectos, a revolta aquieta-se na sabedoria do inexorável. Vem a noção correcta de que tudo passa a seu tempo, que a vida dá lugar à vida porque ela nunca se detém, como o pensamento, como a água do rio que sempre encanta pois nunca se repete, atrás de uma água vem outra, daí o fascínio. E a água respeita o delinear das pedras, afaga as areias, aconchega-se no leito, entrega-se inteira ao mar que a espera.

Também nós temos de estar abertos ao respeito pelos outros, para que esses outros respeitem o espaço que construímos e a que temos direito até ao último respirar.

É hora de passar memória, excertos do tempo eterno dos homens, da consciência do que deixamos às gerações do presente que serão o futuro. Sábios serão os que souberem ler os recados, aprender a dança das abelhas, farejar o trilho das formigas; os que aprenderem o caminho de regresso à praia das tartarugas, dos salmões subindo o rio.

A morte acontece mas não pára a vida.

quinta-feira, julho 10, 2008

Navegar é preciso


Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.
 
Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!
 
E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
 
Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?
 
Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés, 
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

[…] Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
 Alexandre O´Neill



A marcha mais lenta no espaço – e mais veloz no tempo – do fim da estrada em que perfazemos os dias, deixa lugar para a contemplação do caminho percorrido.

Cada um de nós, como um insecto, cumpre as metamorfoses e constrói o seu casulo, mais ou menos tecido, mais ou menos perfeito na sua forma. Seja na aridez do deserto ou na humidade das margens frondosas do rio ou ainda na fundura das neves ou dos mares, o ninho foi tomando forma. Viver no campo, na escarpa da montanha alta olhando o vale ou na grande metrópole novaiorquina, cada ser se enrola na sua teia de seda, algumas de janela aberta por uma simples máquina, passível de ser desligada ao menor sopro de vento.

Mesmo quando a borboleta acontece em insecto perfeito, o caminho difere porque as asas também, e se o perfume apela à distância, nem sempre o vento corre de feição. Então é preciso ainda lutar quando os olhos pintam de azul as flores, de vermelho os céus e de verde as chamas. Quando as lágrimas toldam o riso e se abraça o sonho de que já não se acorda.

Assim é o caminho dos homens e dos bichos.


segunda-feira, junho 30, 2008

Os lugares dos homens


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas…

Ruy Belo





Três décadas depois do regresso, o saudosismo não me diz nada.

O tempo cobre tudo com um manto diáfano. Como a hera recobre já as ruínas da casa defronte, um resto de telha nos beirais, o interior a céu aberto. O telhado que sobra, pasto das ervas, de musgo no inverno, tem um sabor a quietude, solidão mansa, silêncio, respeito. A janela pequena fechada com tábuas já enegrecidas, a erva crescida balouçando ao vento, adornando as pedras de granito dos alicerces que a erosão desvendou.

É um cofre pousado no fim do arco-íris, donde brotam as cores fantasmagóricas onde cabem todas as memórias. Onde os mortos são vida, os sorrisos afagam, os risos ecoam e as lágrimas escorrem, nas faces, na vala, na lagoa, no rio.

Deixemos que seja assim.

Porque a vida continua.

No poste de fios que a civilização ergueu, um milhafre curioso arruma as asas e espera. Escuta os pardais em brigas de encantamento, descuidosos. Há um casal de rolas arrulhando no pinheiro longe, uma ou outra andorinha cruzando o céu, e só o pisco astuto se alarma e avisa o predador.

Tudo se aquieta agora porque a tarde chega ao fim.

O vento sopra refrescando o dia.

A noite cai, serena.

quinta-feira, junho 26, 2008

Protelar

É tempo de ração.

Tempo da Sagrada Comunhão.

Tempo de milagres.

Tempo de partilhar a hóstia com toda a humanidade.

Ou pelo menos é o que Lorbeer diz e Justin finge escrever no seu bloco, num esforço vão para fugir à opressiva boa vontade do seu guia. É tempo de observar «o mistério da humanidade, o mistério do homem corrigindo efeitos da maldade do homem» que é mais uma desconcertante sentença…

John Le Carré


Adiar é uma palavra que não deveria constar do vocabulário.

É feroz, sob uma capa de alívio, comodidade. Como o pelo liso e macio do predador, o seu jeito manso e elegante, não esconde um olhar atento e penetrante com que observa a presa. E espera.

Adiar está muito para além das conversas de travesseiro, o amigo que devemos consultar em todas as circunstâncias. Não tomar uma decisão em cima da hora, sem consultar o travesseiro, é um risco. Adiar uma decisão, é um perigo.

Adiar uma resolução já tomada, uma decisão fundamentada, um facto que sabemos inevitável, é não só uma atitude irresponsável, como arriscada. Em todas as circunstâncias.

Sabermos que o deserto ameaça eminentemente uma grande parte do território que habitamos e nos habituámos a chamá-lo nosso e continuarmos a sobrepor, à necessidade urgente de se tomar medidas no que toca a reflorestação com a qualidade requerida, o aspecto puramente económico do betão e do eucalipto, é um suicídio anunciado.

De nada vale acusarmos sucessivos governos de inoperância; operemos nós. Cada um de nós.

A isso chama-se consciência.

Educação.

sábado, junho 21, 2008

Solstício de Verão


       Diz tudo isso a toda a gente
               que ainda se lembra de mim.
               Diz-lhes. Diz-lhes
               grita-lhes
               aos ouvidos
               ao vento que passa
               e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
               Diz aos mulatos e brancos e negros
               que foram nossos companheiros de escola
               que te escrevo este poema
               chorando de saudade
               as veias latejando
               o coração batendo
               de Esperança, de Esperança
               porque ela
               a Esperança
               (como dizia aquele nosso poeta
               que anda perdido nos longes da Europa)
               está na Esperança, Amigo.

Ernesto Lara Filho



O sol chega de manso anunciando o Verão.

Os dias longos e quentes a gritar pelas águas mornas do mar da minha infância. Aquelas madrugadas cálidas a espantar em correrias a miríade de pequenos caranguejos que se deslocavam num rumor só comparável a palavras de amor sussurradas. O sol ainda não, mas a claridade intensa, as ondas mansas, as conchas coloridas cobrindo a areia, os dongos dos pescadores vogando embalados, outros quietos na praia. A cabana de madeira na Samba, o cesto mágico com pão quente e frascos de compota, argolas cobertas de açúcar a segurar a manhã.

Mãos segurando as nossas em carícia terna. E os pés na água depois as pernas, o corpo inteiro mergulhando, apagando tudo o que não fosse a sensação de prazer intenso, a entrega ao ambiente donde não devêramos ter saído.

E o sol subindo devagar.

A maré descendo, deixando algas, deixando marcas como degraus em curva, espaços lisos para escrever já sonhos. Sonhos que o mar apaga nas letras da areia, nos versos rasgados, nas cartas de amor, na fúria da vida.

Hoje, dia do solstício de Verão, cumpri uma parte de mim.

Só por isto, tudo o mais valeu a pena.

terça-feira, junho 17, 2008

Inexoravelmente

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.

Álvaro de Campos

Hoje, a noite chegou para mim de forma diferente.

Fui lá fora e olhei o céu, procurei as estrelas. Olhei o sul, talvez sueste.

Uma nuvem alongada e escura repousava quieta um pouco acima do horizonte e a lua branca, quase redonda, olhou-me serena, seráfica, afastando aos poucos os flocos brancos que a encobriam. Leu nos meus olhos a pergunta, as perguntas sem resposta. E ficou ali comigo aquietando-me quando tentava lembrar quando conheci o Rui.

Não sei, não me recordo. Quando eu nasci, já a sua companheira de quase cinquenta anos cirandava lá por casa, amiga preferida de meu irmão. Crescemos juntas, ela a menina sensata e doce que me era indicada como exemplo de compostura numa infância em que partilhámos tudo na terra longínqua que nos serviu de berço.

A continuação dos estudos na Metrópole. Obrigatoriamente.

Casaram nos Jerónimos, o copo-de-água em Carcavelos. Não sei a data.

Sei que levei a baptizar-lhes o primeiro filho, o Pedro, ao Sr. Bispo na Sé em Nova Lisboa, com meu irmão (que idade tens, Pedro?).

O meu irmão já não vai poder fazê-lo, mas eu, amanhã, vou estar convosco.

Vou levar a enterrar o Rui.

sexta-feira, junho 13, 2008

Segredos das Belas-Artes


Não é a primeira vez que trago a este espaço o escritor que repetidamente me honra com palavras amáveis de incentivo à minha produção escrita.

Dedicado também às artes plásticas que vem divulgando na blogosfera, em Construpintar e Desenhamento, Rocha de Sousa prendeu-me pela sensibilidade da sua escrita em «Angola 61», a crónica de uma guerra em que participou, e onde eu pude encontrar descrições emocionantes de lugares e gentes com quem partilhei grande parte da minha vida, na terra em que cresci.

Depois de ler «A Culpa de Deus», voltei a encontrar uma escrita séria e acutilante, mas leve e agradável no desvendar de «segredos», muros adentro do antigo convento de S. Francisco, em Lisboa, onde o autor também se entregou a uma vida de estudo e dedicação.

Este livro acaba de ser lançado no mercado e é um testemunho vivo de uma das faces da nossa Revolução dos Cravos, a revolução cultural que tarda em cumprir-se.

Aqui deixo, transcrito, um pequeno excerto da obra agora publicada.




«A morte das regras, as falsas alternativas de escolhas destituídas de sustentabilidade, a face social absorvida apenas pelo seu reverso, essas foram, entre egoísmos vários, o caminho lateral do chamado processo revolucionário, imagens ilusórias da conquista da verdade, risco, riso, fonte de prazeres e de vinganças. A disciplina dos comportamentos colectivos desfazia-se como as velhas palavras dos velhos académicos, entre contradições tidas por redentoras. Os mais resistentes, moral e fisicamente, chegavam aos lugares de trabalho na hora certa, para o trabalho ponderado, mas encontravam salas ainda vazias ou habitadas, na sombra, por dois ou três alunos. A vontade política dos governantes, instituindo o ensino artístico na universidade, as Escolas de Lisboa e Porto, viera no limite dos papéis expostos, abrira novos dossiers, pensara tarde a modernidade dos anos 60. Durante treze anos o próprio país envelhecera descompensadamente e o laxismo das pessoas, das repartições, dos organismos públicos, na torção da pirâmide, esbatera o perfil antigo da nossa história, desertificara paisagens e corações, apagara no quadro preto a luxuriante geometria de uma identidade nacional, de um destino. O país fugia de si mesmo, confinado a metrópoles de betão e vias rápidas, e o sentido quotidiano das coisas era cada vez mais redutor, entre o desemprego e a alucinação do consumo.»

quinta-feira, junho 05, 2008

O fogo e a vida

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Carlos Drummond de Andrade






Entre a flor e o fogo, eu prefiro a flor. Pela cor, pelo odor, pela alegria, pela compostura. Mas o que mais me atrai é o fogo.

Também pela cor, pelo bailado da chama, mais pela dor do crepitar, pelo calor, pela quietude tornada brasa. Depois a cinza, ainda quente, a seguir morna, e finalmente pó, cavalgando o vento. Assim todos os seres viventes têm um ciclo a cumprir.

Entre os humanos, a organização das sociedades visou, desde os primórdios, a melhoria de vida das populações. A partilha de serviços responsabilizou cada um, formando uma cadeia de elos a não quebrar. As religiões tiveram aí um papel preponderante enquanto detentoras de um poder espiritual e a ciência avançou quebrando todas as peias, singrando as águas e voando nos céus. Encontrou o negro, para além do azul, no espaço sideral.

Lá em cima, o brilho das estrelas faz esquecer tudo o resto. Cá em baixo, assediados pela ferrugem, os elos enfraquecem. O peso é enorme. Seis mil milhões e meio depois, parece chegar por aí o número mágico de todos os «seis», a atingir neste ano de 2008. Alguém vai nascer e atingir esse número. Um novo Anjo da Luz?

E o ouro negro submergindo tudo.

Qualquer dia o nosso planeta já não é azul.

domingo, junho 01, 2008

Ritual de Verão

«Há coisas que se podem aprender com um velho cão. À medida que os meses passavam e as enfermidades aumentavam, Marley ensinou-nos acima de tudo a lidar com a inexorável finituide da vida. Jenny e eu ainda mal entráramos na meia idade. Os nossos filhos eram pequenos, éramos ambos saudáveis, os nossos anos de reforma, uma perspectiva insondável e distante. Teria sido fácil ignorar o medo inexorável da idade, fingir que ela pudesse passar por nós incolumemente. Mas Mas Marley não permitiria que nos déssemos a esse luxo.

Enquanto o víamos ficar grisalho, surdo e caquético, não havia como ignorar a sua mortalidade – e a nossa. O envelhecimento toca-nos a todos, mas no caso de um cão, fá-lo com uma rapidez que é ao mesmo tempo empolgante e ponderosa.»

John Grogan, «Marley e Eu»




Depois da tosquia que não agrada nem um pouco...





Ei-lo reduzido aos mil e oitocentos gramas de peso.



No Inverno há mais sossego!

quinta-feira, maio 29, 2008

A repetição do rito


Por que me falas nesse idioma?

perguntei-lhe sonhando.

Em qualquer língua se entende essa

palavra.

Sem qualquer língua.

O sangue sabe-o.

Uma inteligência esparsa aprende

esse convite inadiável.

Búzios somos, moendo a vida

inteira nessa música incessante.

Morte, morte.

Levamos toda a vida morrendo em

surdina.

No trabalho, no amor, acordados,

em sonho.

A vida é a vigilância da morte,

até que o seu fogo veemente nos

consuma

sem a consumir.

Cecília Meireles



Ouço a voz do tempo escoando nos beirais suados, num sussurro igual ao espanejar das andorinhas pousadas no fio da corda velha suspensa nas traves da varanda.

Os passos suaves, as mãos delicadas colhendo cada tronco de flor envelhecida nas sardinheiras coloridas, pousadas no muro baixo e debruçadas, oferecidas à sedução do sol garboso da manhã.

O odor das folhas de malva chega em sinestesias de cor e textura, de sons, de calor. O cheiro que exala a cozinha velha. O cheiro ao doce de morango. O cheiro da chuva. Ao cheiro do café, a claridade da manhã alta nasceu cedo, na madrugada ainda escura.

Os ruídos, os cães cansados da caça às perdizes, as pessoas girando, as conversas, os risos. Os gritos. O cacarejar da bicharada à solta, as andorinhas pipilando nos ninhos altaneiros dos beirais.

A buganvílea junto ao portão grande, os agapantos brancos ao longo do muro a que chamavas coroas-de-henrique. As dálias surgindo no meio dos outros verdes, de cor vermelho-negro pincelado de branco, as florinhas em bando, pequenas e azuis, as alegrias-do-lar debaixo da laranjeira ali perto. As mãos de criança apertando o casulo das sementes e tornados vermes retorcidos. A melancolia do teu olhar mergulhado nas laranjeiras até ao fundo da horta. A humidade nas faces.

Nada é igual, só as sardinheiras.

Hoje tive saudades, Mãe.

Até à eternidade.

domingo, maio 25, 2008

As rosas já não são cor-de-rosa


É na VULNERABILIDADE da tua pele
Que afago TAPEÇARIAS suaves
E traço a SILHUETA da luxúria
Com uma PENA de sonho permanente.


É no ORVALHO do desejo derramado,
Sem a OBSTRUÇÃO de juízos adormecidos,
Que da MORTE nos acordamos acesos
Quando a inflamada MANHÃ nos sorri.


És o EXPONENTE da minha fraqueza,

És CRIANÇA e mulher de raiz no teu sol,
Onde me aqueço e me entronco mais forte.

O teu ar é o CONSELHEIRO que me atrai

Para te AFASTAR de memórias, a gritar
Nas brumas que te matam em silêncio.

Nilson Barcelli em Maio 2008
Escrito para os 3º jogo do Eremita com as 12 palavras obrigatórias em maiúsculas



Enquanto as roseiras florirem só porque é primavera, eu vou sorrir para o mundo.

É que as rosas insistem em abrir agora, mau grado as nuvens que tapam o sol, a água que encharca os botões, o vento que lhes leva as folhas.

Porque elas já surgem magoadas, porque a chuva vem ácida, porque os ventos já não são sérios e trazem no ventre caminhos que rasgam a majestade, que deixam marcas de pena, ponteiam as folhas, secam os troncos, matam as cores, secam as pétalas.

Pode ser que os homens se encham de bondade e construam a represa que sustenha a caminhada inexorável da destruição do planeta. Só que eles não caminham em grupo, não voam em formação. E a força perde-se daqueles poucos que conhecem os caminhos, que seguem a rota. A maioria segue por saí sozinho, sem tino, desafiando os ventos, ao encontro da tempestade.

Afinal os homens dominam o mundo mas não dominam a natureza. O céu despenha a água de sempre e a terra enfurece-se porque lhe desviaram, lhe cortaram os trilhos, os leitos que criou para ela, ela que querem domar. Gastam materiais e tempo sem respeito, sem ouvirem a outra parte, que serenamente mostra ser a mais forte. A água corre pelo caminho de sempre, ali ao lado, sem tocar na obra do homem. É só uma amostra.

Mas o homem está feliz porque fez o que queria.

Terá feito o que deveria?

segunda-feira, maio 19, 2008

Deixem a língua fluir...


Mia Couto é um escritor de letra maiúscula que brinca com as palavras a seu gosto mas mantém a sintaxe na ordem correcta, pelo que pode à vontade criar neologismos desregrando as palavras, dando-lhe nova vida, comunicando numa nova realidade linguística que é a sua, a moçambicana. O Português de Moçambique. Recebi por email este excerto, é de algum modo uma forma muito sua de comentar o Acordo Ortográfico.



«Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: 'aquabou'?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: 'finanças'?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.»

Mia Couto

quarta-feira, maio 14, 2008

Tanto ainda para dizer


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca



Cada vez gosto mais de ler Lobo Antunes.

Não estou a falar dos livros, mas dos pedaços de si que deixa em cada crónica que escreve quinzenalmente. Tem momentos de intensa felicidade nos quais consegue passar-me as suas emoções como aquele pardal do meu telhado que vela incansavelmente por sua dama e sua prole crescendo no buraco do ventilador. Ele canta sem parar, tem de manter-se alerta e dizer ao mundo que tem os seus ovos a chocar, há novos pardais a nascer. E grita a sua presença, a sua ansiedade, a sua felicidade de progenitor.

António Lobo Antunes tem a ventura de ver reconhecido o seu talento inegável por quem é português como ele – e por quem não é – por quem aprecia de facto a sua mestria nas letras, na simplicidade do registo que ele mistura de humor e angústias e alegrias, rememorando convívios e cumplicidades, olhando os pombos e diferenciando-os, colando-os inconscientemente às gentes que o cercam. Ele entra na lavra dos outros, penetra em cada autor, revela o sofrimento e a dor de cada palavra conseguida, cresce quando diz que foi o sofrimento dos que viveram antes dele que possibilitaram a sua escrita hoje. A eterna metáfora do sofrimento que dá a vida: Cristo na cruz. A mãe parindo um filho.

Nesta última crónica da Visão, ele consegue comover numa súplica dolorida que lança para a eternidade que deseja: «E os pombos de Paris a olharem para mim de banda, com vontade de me engolirem. Por favor não me engulam por enquanto: há tantos livros em mim à espera de serem escritos.»

Depois de o citar, não me atrevo a dizer mais.

sexta-feira, maio 09, 2008

O tempo, segredo dos velhos


Assim às vezes me apetece ignorar o meu corpo, esquecê-lo, olhá-lo de súbito com surpresa: o que é feito de ti, velho corpo? Como passas? Estás pois acabando. Virá daí a inverosimilhança da morte? Um corpo que apodrece, mas a luz de dentro tão viva, tão igual: como entender que envelhecesses, meu irmão? Mas não o penses. Agora não. Ah, sê em ti esse princípio eterno que te vive. Abre a janela, clama para a montanha. A terra responde-te, a terra submete-se à tua força monstruosa. Mas não abro a janela e olho apenas. À luz pálida do céu, a neve estende-se ao limite dos meus olhos com a sua alvura doce de leite.

Vergílio Ferreira


Imagem copiada daqui


A medição do tempo foi sempre uma preocupação dos homens. Com justeza.

Desde cedo, poder prever as cheias que se verificavam para o cultivo das terras, para além de compreender as razões desses acontecimentos, era uma questão de sobrevivência quando nos tornámos sedentários. Depois de olhar as estrelas, saber do sol o seu arco, periodicamente aumentando ou diminuindo, é imenso o historial que nos permite hoje controlar ao segundo o momento exacto em que numa determinada cidade do país, numa rua determinada, num determinado multibanco, procedemos ao levantamento de uma quantia determinada. Saber os nossos passos.

E o tempo de cada um de nós. O dia em que nascemos, os anos que percorremos, o século completado já para alguns, a esperança de vida, tudo é controlado ao milímetro. Não será excessivo? É mesmo possível referenciar alguém pelos anos de vida quando o cérebro se mantém disposto a cumprir com a eficiência esperada as solicitações de cada dia, os desafios, os sonhos mais altos ainda em mente? Não tenho a certeza.

Há muitas palavras que se mantêm eivadas de sentidos que não correspondem exactamente ao significante usado. Referindo-se uma pessoa como velho, ele até pode não ser antigo, pode nem ter muitos anos contados e o adjectivo é dolorosamente pejorativo. Para o jovem que se comporta como tendo mais idade e para o menos jovem que vê a palavra ligada a algo de indesejável. Mais do que isso, execrável. Como se todos nós não caminhássemos para velhos a velocidade estonteante. Mau é contarmos os anos. Nem havia necessidade, agora que as operações plásticas de todos os tipos mostram de nós aquilo que desejamos. Sem dúvida que, quem se submete a tais cirurgias é porque decerto se sente diferente por dentro e nenhum velho se prestaria a isso. Se o faz é porque é jovem, independentemente dos anos que tem.

Há muitos velhos por aí. De corpo, de espírito e de graça.

Eu gosto dos velhos.

segunda-feira, maio 05, 2008

Olhares de um mesmo continente

«Alors elle découvrit un autre spectacle, l’autre versant du cessez le feu, la débâcle pied-noir. Les quartiers français sentaient l’abandon. Un grand nombre de villas étaient fermées, cernées par le silence. Quelques retardataires erraient encore, derniers fantômes d’un monde emporté par les dévastations de l’histoire. Leurs visages disaient leurs cauchemars. Leurs yeux paraissaient vouloir la mort comme une délivrance. La mort pour eux ou pour les autres, ceux sur les visages desquels ricanait la revanche. La mort pour tout ce qui leur était arraché de leur passé.»

Malika Mokeddem



O acto de ler é uma forma de ver.

E a escrita é tanto mais atraente quanto desnuda.

Ler é olhar pela janela a chuva caindo em fios grossos embaciando o ar, riscando os vidros, avivando as cores, lustrando as folhas, gotejando alegre nos beirais. É sentir que há frio do outro lado das janelas triplas onde a brancura da paisagem reflecte um sol que não aquece.

A riqueza da escrita provém da capacidade de surpreender. Olhar as palavras escritas é procurar até encontrar uma ponta de fio no âmago de um novelo de lã e ir puxando até desmanchar aquela construção elaborada. No final, outra obra se ergueu, os fios reordenaram-se de outra maneira, tricotados por agulhas, tecidos por outras mãos.

Cada um de nós é também um enovelado e desvendar os espaços do outro é conhecer os meandros que nos tecem e nós tecemos. É conhecermo-nos melhor, sabendo o que esteve do outro lado da barricada, a forma como nos olharam, a forma como nos diz estarmos do lado certo ou errado.

Encontrei desde há tempo (por mão amiga destes espaços), uma escritora brilhante, mulher fascinante que se despe dignamente dos seus atavios, partindo de um olhar sobre uma natureza árida e seca. Agreste. Sob todos os véus que lhe cobriam o corpo, os sentidos desvendaram o mundo longe, escutando a liberdade dos nómadas, provando o sabor das letras, esbracejando para não se afogar na submissão da mulher numa sociedade falocrática.

Os seus livros, para além de constituírem um libelo desafiando as leis do Alcorão que reduzem a mulher à função única de procriar, relatam com assinalável lucidez os movimentos sociais da independência da Argélia. A debandada dos pieds-noirs e dos judeus, as perseguições e injustiças dentro da «Algérie aux Algériens!» proclamada por De Gaule.

Como pano de fundo um olhar sonhador sobre as dunas, as reverberações de luz nas areias escaldantes, o cheiro das tâmaras maduras a apetecerem-lhe a reentrada do ano lectivo.

Molika Mokeddem é hoje médica urologista em Montpellier.

A escrita é o seu amant du coeur.