domingo, junho 01, 2008

Ritual de Verão

«Há coisas que se podem aprender com um velho cão. À medida que os meses passavam e as enfermidades aumentavam, Marley ensinou-nos acima de tudo a lidar com a inexorável finituide da vida. Jenny e eu ainda mal entráramos na meia idade. Os nossos filhos eram pequenos, éramos ambos saudáveis, os nossos anos de reforma, uma perspectiva insondável e distante. Teria sido fácil ignorar o medo inexorável da idade, fingir que ela pudesse passar por nós incolumemente. Mas Mas Marley não permitiria que nos déssemos a esse luxo.

Enquanto o víamos ficar grisalho, surdo e caquético, não havia como ignorar a sua mortalidade – e a nossa. O envelhecimento toca-nos a todos, mas no caso de um cão, fá-lo com uma rapidez que é ao mesmo tempo empolgante e ponderosa.»

John Grogan, «Marley e Eu»




Depois da tosquia que não agrada nem um pouco...





Ei-lo reduzido aos mil e oitocentos gramas de peso.



No Inverno há mais sossego!

quinta-feira, maio 29, 2008

A repetição do rito


Por que me falas nesse idioma?

perguntei-lhe sonhando.

Em qualquer língua se entende essa

palavra.

Sem qualquer língua.

O sangue sabe-o.

Uma inteligência esparsa aprende

esse convite inadiável.

Búzios somos, moendo a vida

inteira nessa música incessante.

Morte, morte.

Levamos toda a vida morrendo em

surdina.

No trabalho, no amor, acordados,

em sonho.

A vida é a vigilância da morte,

até que o seu fogo veemente nos

consuma

sem a consumir.

Cecília Meireles



Ouço a voz do tempo escoando nos beirais suados, num sussurro igual ao espanejar das andorinhas pousadas no fio da corda velha suspensa nas traves da varanda.

Os passos suaves, as mãos delicadas colhendo cada tronco de flor envelhecida nas sardinheiras coloridas, pousadas no muro baixo e debruçadas, oferecidas à sedução do sol garboso da manhã.

O odor das folhas de malva chega em sinestesias de cor e textura, de sons, de calor. O cheiro que exala a cozinha velha. O cheiro ao doce de morango. O cheiro da chuva. Ao cheiro do café, a claridade da manhã alta nasceu cedo, na madrugada ainda escura.

Os ruídos, os cães cansados da caça às perdizes, as pessoas girando, as conversas, os risos. Os gritos. O cacarejar da bicharada à solta, as andorinhas pipilando nos ninhos altaneiros dos beirais.

A buganvílea junto ao portão grande, os agapantos brancos ao longo do muro a que chamavas coroas-de-henrique. As dálias surgindo no meio dos outros verdes, de cor vermelho-negro pincelado de branco, as florinhas em bando, pequenas e azuis, as alegrias-do-lar debaixo da laranjeira ali perto. As mãos de criança apertando o casulo das sementes e tornados vermes retorcidos. A melancolia do teu olhar mergulhado nas laranjeiras até ao fundo da horta. A humidade nas faces.

Nada é igual, só as sardinheiras.

Hoje tive saudades, Mãe.

Até à eternidade.

domingo, maio 25, 2008

As rosas já não são cor-de-rosa


É na VULNERABILIDADE da tua pele
Que afago TAPEÇARIAS suaves
E traço a SILHUETA da luxúria
Com uma PENA de sonho permanente.


É no ORVALHO do desejo derramado,
Sem a OBSTRUÇÃO de juízos adormecidos,
Que da MORTE nos acordamos acesos
Quando a inflamada MANHÃ nos sorri.


És o EXPONENTE da minha fraqueza,

És CRIANÇA e mulher de raiz no teu sol,
Onde me aqueço e me entronco mais forte.

O teu ar é o CONSELHEIRO que me atrai

Para te AFASTAR de memórias, a gritar
Nas brumas que te matam em silêncio.

Nilson Barcelli em Maio 2008
Escrito para os 3º jogo do Eremita com as 12 palavras obrigatórias em maiúsculas



Enquanto as roseiras florirem só porque é primavera, eu vou sorrir para o mundo.

É que as rosas insistem em abrir agora, mau grado as nuvens que tapam o sol, a água que encharca os botões, o vento que lhes leva as folhas.

Porque elas já surgem magoadas, porque a chuva vem ácida, porque os ventos já não são sérios e trazem no ventre caminhos que rasgam a majestade, que deixam marcas de pena, ponteiam as folhas, secam os troncos, matam as cores, secam as pétalas.

Pode ser que os homens se encham de bondade e construam a represa que sustenha a caminhada inexorável da destruição do planeta. Só que eles não caminham em grupo, não voam em formação. E a força perde-se daqueles poucos que conhecem os caminhos, que seguem a rota. A maioria segue por saí sozinho, sem tino, desafiando os ventos, ao encontro da tempestade.

Afinal os homens dominam o mundo mas não dominam a natureza. O céu despenha a água de sempre e a terra enfurece-se porque lhe desviaram, lhe cortaram os trilhos, os leitos que criou para ela, ela que querem domar. Gastam materiais e tempo sem respeito, sem ouvirem a outra parte, que serenamente mostra ser a mais forte. A água corre pelo caminho de sempre, ali ao lado, sem tocar na obra do homem. É só uma amostra.

Mas o homem está feliz porque fez o que queria.

Terá feito o que deveria?

segunda-feira, maio 19, 2008

Deixem a língua fluir...


Mia Couto é um escritor de letra maiúscula que brinca com as palavras a seu gosto mas mantém a sintaxe na ordem correcta, pelo que pode à vontade criar neologismos desregrando as palavras, dando-lhe nova vida, comunicando numa nova realidade linguística que é a sua, a moçambicana. O Português de Moçambique. Recebi por email este excerto, é de algum modo uma forma muito sua de comentar o Acordo Ortográfico.



«Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões?
Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulbúrbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas?
Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
• Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
• No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
• A diferença entre um ás no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
• O mato desconhecido é que é o anonimato?
• O pequeno viaduto é um abreviaduto?
• Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente.
• Quem vive numa encruzilhada é um encruzilhéu?
• Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
• Tristeza do boi vem de ele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
• O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
• Onde se esgotou a água se deve dizer: 'aquabou'?
• Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
• Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
• Mulher desdentada pode usar fio dental?
• A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
• As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: 'finanças'?
• Um tufão pequeno: um tufinho?
• O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
• Em águas doces alguém se pode salpicar?
• Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
• Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
• Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
• Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas – o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos.
Devolver a estrela ao planeta dormente.»

Mia Couto

quarta-feira, maio 14, 2008

Tanto ainda para dizer


Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca



Cada vez gosto mais de ler Lobo Antunes.

Não estou a falar dos livros, mas dos pedaços de si que deixa em cada crónica que escreve quinzenalmente. Tem momentos de intensa felicidade nos quais consegue passar-me as suas emoções como aquele pardal do meu telhado que vela incansavelmente por sua dama e sua prole crescendo no buraco do ventilador. Ele canta sem parar, tem de manter-se alerta e dizer ao mundo que tem os seus ovos a chocar, há novos pardais a nascer. E grita a sua presença, a sua ansiedade, a sua felicidade de progenitor.

António Lobo Antunes tem a ventura de ver reconhecido o seu talento inegável por quem é português como ele – e por quem não é – por quem aprecia de facto a sua mestria nas letras, na simplicidade do registo que ele mistura de humor e angústias e alegrias, rememorando convívios e cumplicidades, olhando os pombos e diferenciando-os, colando-os inconscientemente às gentes que o cercam. Ele entra na lavra dos outros, penetra em cada autor, revela o sofrimento e a dor de cada palavra conseguida, cresce quando diz que foi o sofrimento dos que viveram antes dele que possibilitaram a sua escrita hoje. A eterna metáfora do sofrimento que dá a vida: Cristo na cruz. A mãe parindo um filho.

Nesta última crónica da Visão, ele consegue comover numa súplica dolorida que lança para a eternidade que deseja: «E os pombos de Paris a olharem para mim de banda, com vontade de me engolirem. Por favor não me engulam por enquanto: há tantos livros em mim à espera de serem escritos.»

Depois de o citar, não me atrevo a dizer mais.

sexta-feira, maio 09, 2008

O tempo, segredo dos velhos


Assim às vezes me apetece ignorar o meu corpo, esquecê-lo, olhá-lo de súbito com surpresa: o que é feito de ti, velho corpo? Como passas? Estás pois acabando. Virá daí a inverosimilhança da morte? Um corpo que apodrece, mas a luz de dentro tão viva, tão igual: como entender que envelhecesses, meu irmão? Mas não o penses. Agora não. Ah, sê em ti esse princípio eterno que te vive. Abre a janela, clama para a montanha. A terra responde-te, a terra submete-se à tua força monstruosa. Mas não abro a janela e olho apenas. À luz pálida do céu, a neve estende-se ao limite dos meus olhos com a sua alvura doce de leite.

Vergílio Ferreira


Imagem copiada daqui


A medição do tempo foi sempre uma preocupação dos homens. Com justeza.

Desde cedo, poder prever as cheias que se verificavam para o cultivo das terras, para além de compreender as razões desses acontecimentos, era uma questão de sobrevivência quando nos tornámos sedentários. Depois de olhar as estrelas, saber do sol o seu arco, periodicamente aumentando ou diminuindo, é imenso o historial que nos permite hoje controlar ao segundo o momento exacto em que numa determinada cidade do país, numa rua determinada, num determinado multibanco, procedemos ao levantamento de uma quantia determinada. Saber os nossos passos.

E o tempo de cada um de nós. O dia em que nascemos, os anos que percorremos, o século completado já para alguns, a esperança de vida, tudo é controlado ao milímetro. Não será excessivo? É mesmo possível referenciar alguém pelos anos de vida quando o cérebro se mantém disposto a cumprir com a eficiência esperada as solicitações de cada dia, os desafios, os sonhos mais altos ainda em mente? Não tenho a certeza.

Há muitas palavras que se mantêm eivadas de sentidos que não correspondem exactamente ao significante usado. Referindo-se uma pessoa como velho, ele até pode não ser antigo, pode nem ter muitos anos contados e o adjectivo é dolorosamente pejorativo. Para o jovem que se comporta como tendo mais idade e para o menos jovem que vê a palavra ligada a algo de indesejável. Mais do que isso, execrável. Como se todos nós não caminhássemos para velhos a velocidade estonteante. Mau é contarmos os anos. Nem havia necessidade, agora que as operações plásticas de todos os tipos mostram de nós aquilo que desejamos. Sem dúvida que, quem se submete a tais cirurgias é porque decerto se sente diferente por dentro e nenhum velho se prestaria a isso. Se o faz é porque é jovem, independentemente dos anos que tem.

Há muitos velhos por aí. De corpo, de espírito e de graça.

Eu gosto dos velhos.

segunda-feira, maio 05, 2008

Olhares de um mesmo continente

«Alors elle découvrit un autre spectacle, l’autre versant du cessez le feu, la débâcle pied-noir. Les quartiers français sentaient l’abandon. Un grand nombre de villas étaient fermées, cernées par le silence. Quelques retardataires erraient encore, derniers fantômes d’un monde emporté par les dévastations de l’histoire. Leurs visages disaient leurs cauchemars. Leurs yeux paraissaient vouloir la mort comme une délivrance. La mort pour eux ou pour les autres, ceux sur les visages desquels ricanait la revanche. La mort pour tout ce qui leur était arraché de leur passé.»

Malika Mokeddem



O acto de ler é uma forma de ver.

E a escrita é tanto mais atraente quanto desnuda.

Ler é olhar pela janela a chuva caindo em fios grossos embaciando o ar, riscando os vidros, avivando as cores, lustrando as folhas, gotejando alegre nos beirais. É sentir que há frio do outro lado das janelas triplas onde a brancura da paisagem reflecte um sol que não aquece.

A riqueza da escrita provém da capacidade de surpreender. Olhar as palavras escritas é procurar até encontrar uma ponta de fio no âmago de um novelo de lã e ir puxando até desmanchar aquela construção elaborada. No final, outra obra se ergueu, os fios reordenaram-se de outra maneira, tricotados por agulhas, tecidos por outras mãos.

Cada um de nós é também um enovelado e desvendar os espaços do outro é conhecer os meandros que nos tecem e nós tecemos. É conhecermo-nos melhor, sabendo o que esteve do outro lado da barricada, a forma como nos olharam, a forma como nos diz estarmos do lado certo ou errado.

Encontrei desde há tempo (por mão amiga destes espaços), uma escritora brilhante, mulher fascinante que se despe dignamente dos seus atavios, partindo de um olhar sobre uma natureza árida e seca. Agreste. Sob todos os véus que lhe cobriam o corpo, os sentidos desvendaram o mundo longe, escutando a liberdade dos nómadas, provando o sabor das letras, esbracejando para não se afogar na submissão da mulher numa sociedade falocrática.

Os seus livros, para além de constituírem um libelo desafiando as leis do Alcorão que reduzem a mulher à função única de procriar, relatam com assinalável lucidez os movimentos sociais da independência da Argélia. A debandada dos pieds-noirs e dos judeus, as perseguições e injustiças dentro da «Algérie aux Algériens!» proclamada por De Gaule.

Como pano de fundo um olhar sonhador sobre as dunas, as reverberações de luz nas areias escaldantes, o cheiro das tâmaras maduras a apetecerem-lhe a reentrada do ano lectivo.

Molika Mokeddem é hoje médica urologista em Montpellier.

A escrita é o seu amant du coeur.

quarta-feira, abril 30, 2008

Outra vez Maio


«Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como uma baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário em todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. »

Mia Couto




É lugar comum referir quem tenha uma pedra no coração, ou um coração de pedra, num desses noticiários insanos de fait divers tornado notícia de abertura de jornal. A pedra imagina-se aí informe e cheia de arestas, pontuda, cinzenta, enegrecida de sentido pejorativo.

Há outras pedras, porém. Lisas, polidas, suaves ao tacto, branqueadas pelas águas a que dão o nome de seixos. Rolam, não ferem, apenas pesam como as outras.

Às vezes acordo com uma no peito. Também é lugar comum, mas a sensação existe. Não sei definir bem o local, talvez mais perto da boca do estômago, no peito, enfim. E não é um seixo, não. É uma pedra. Como a quiserem imaginar.

Então sinto-me com um peso que não é o meu, de seu natural. Tento saber o porquê daquela companhia, quem a trouxe – se alguém o fez – ou se não passa de um daqueles cadinhos que não coube nas memórias da noite e acabou rolando para outro lugar. Foram os sonhos, os pesadelos, as incertezas, as angústias de um sonho mau.

Pois bastas vezes lá sinto o peso da pedra e, sem esforço, vejo-a. Já morei num lugar longe onde havia pedras como as não vejo por aqui. Pedra ferrosa. De cor castanho ferrugem, arredondadas, crivadas de orifícios circulares onde moravam duendes e fantasias de criança. Às vezes grilos.

Essas pedras enormes bordejavam a casa do tempo de férias, formavam um degrau, era lá que nos sentávamos a ver chegar o gado, recolher os bichos que cirandavam com o sol e procuravam então o abrigo da noite. Com outros bichos junto de mim, quietos. Outros voltejando no ar.

Essas pedras permanecem, tenho a certeza. A casa não.

Foi ali que nasceu a jawaa, quem sabe iria pequenina esbracejando dentro daqueles círculos, criando asas dentro do ovo, vendo a luz através da casca, em cada noite já sem sono, em cada ida às perdizes, em cada cacimbo, em cada madrugada, em cada entardecer.

Eis que chega um novo Maio.

As minhas flores já abriram.

São inigualáveis.

domingo, abril 27, 2008

Passou Abril, vai chegar abril.

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim

* Letra original,vetada pela censura; gravação editada apenas em Portugal, em 1975.




1978
(segunda versão)




Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim



Parece que o tempo da vida se esvai num dia de cravos vermelhos.

Cravos vermelhos que pintaram uma revolução de esperança e de paz, porque – ó jovens! – não houve mortos. Houve apenas cravos da cor de sangue que não foi derramado e uma criança, um puto, um gaiato de Lisboa a colocar um no cano da arma de um soldado português, como quem enfeita uma jarra de cristal. Como a foto bonita que correu mundo, Chico Buarque imortalizou Abril numa canção de solidariedade como só um irmão sabe fazer, sujeitando-se à mesma censura que nos afogara.

Cada vez menos se vêem cravos nas lapelas, nos cabelos e mãos das mulheres. Os que agora cantam as canções nas ruas nem sabem por que o fazem, nem seus pais decerto recordam a opressão e o jugo.

Restam os cravos derramando-se pelas floreiras em cada casa onde se festeja a liberdade, as liberdades que também trouxeram mágoas, onde ainda se recorda a simbologia que vai permanecer como a insígnia do povo português.


domingo, abril 20, 2008

As Melodias do Som

«…Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

Bernardo Soares.


Já conduzia pela mão jovens serpenteando o caminho da escrita – como a chuva ajuda a abrir as rosas – quando praticamente se aboliu a grafia dos acentos graves. Início dos anos setenta.

Assim, ao cuidado de agradàvelmente dar uma volta ao acento quando transformava o adjectivo em advérbio de modo (ainda se nomeiam assim?...), também tinha de o fazer se precisasse de abrandar o chá em chàzinho, deitando-lhe um pouco de leite. Para não ficar só, ou sòzinho, que é mais doce se não quiser o açúcar. Restou o «à» e o «àquele» com seus companheiros de tribo.

Foi fácil, era só não pôr o acento.

Nessa altura já não tinha meu pai a protestar terem acabado com o trema – que nunca usei em Português mas lhe admitia estatuto – acento que já não constava da minha tranquilidade, era meu pai quem se sentia arguido. Agora ouço o mesmo protesto do outro lado do Atlântico.

Mas concordo com o Acordo Ortográfico, é bem de ver. Facilita quem já escreve mal, os que vão aprender, os que nunca aprenderam até hoje. Os que sabem escrever sem erros ortográficos, enfim, que aprendam a desembaraçar-se de letras inúteis, nem é difícil. Bem dizia Camus: c’est l’habitude

Pelo que li sobre o assunto, as línguas europeias disseminadas pelo mundo têm uma forma de acordo, tácito ou escrito, de respeitarem entre si as diferenças de grafia. O que não podia, não deve continuar a haver, é uma língua, o Português, com duas grafias oficiais.

Portugal, não somos nós, os que aqui habitamos; é hora de lembrar Pessoa, o homem da futurologia. Temos é a obrigação de preservar a Língua Portuguesa, falada por mais de 200 milhões de pessoas, numa grafia única. Tudo o resto é paisagem, e digo-o com o sentido duplo de que a cada paisagem a sua tonalidade oral, o seu encanto único, os sotaques próprios de cada espaço.

Há lá coisa mais bonita do que encontrar num mundo longe um conterrâneo e identificá-lo como oriundo das Ilhas, do Norte, do Alentejo, de Angola, Brasil, Timor…?!

quinta-feira, abril 17, 2008

O Vento


...Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte

e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão

felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho



O Namibe, ao sul de Angola
* Imagens tiradas daqui

O espectáculo da natureza não tem rival.

A rosa resplandece entre o sol e a chuva. Abre, altiva, o seu rosto ao vento, o corpo inchado de humidade, as raízes acariciadas por solo fértil, o ar enchendo de calor os pulmões. O tempo de cada flor é breve, floresce em uma primavera, mas o perfume perdura em ondas, na sinestesia da cor, na leveza e no dispor das pétalas, na multiplicidade de tons, ou num só, como um sorriso.

Nem sempre a chuva lhe toca manso. Nem sempre o vento lhe murmura melodias brandas, mas sempre lhe conta de outros lugares, de outras latitudes onde a chuva não cai e o sol fere de morte os seres. Dos homens e animais que caminham ainda, indefinidamente, guiados pelas estrelas, esquivos do mundo, dos horários, da globalização, felizes na sua ignorância dos novos tempos que assolam as almas. Procuram incessantemente a água dos poços, o deus, a deusa palpável que teremos adiante. De horizontes vastos de imensidão infinita onde o sol se funde e cria vapores de quente, onde nascem e se desconcretizam os sonhos dos homens, apagada a miragem.

Um dia as rosas cresceram lá. Um dia a floresta deu sombra, os lagos cobriram a terra, os rios serpentearam.

Agora a areia cresce para nós, ameaçando as rosas.

quinta-feira, abril 10, 2008

Eternidade


No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.

Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.

Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.


Carlos Drummond de Andrade




A melhor aprendizagem da vida é saber estar só.

Acordar na noite longa e gostar da insónia. Ler, escrever o que os sonhos trazem à memória que não é, que nunca foi sequer, mas aparece real como as trevas. Entender o outro lado das coisas, entrar na alma dos que sofreram vexames, humilhações, dos que sofreram pela cor da pele, pela humildade de carácter, pela obediência a uma religião iníqua, compreender o incompreensível por décadas de educação severa, na intemporalidade do ser.

Acordar o espírito e não poder mexer o corpo, coordenar o sono para acordar mais tarde, corpo e alma juntos no mesmo pulsar, ou esforçar a mente, exigir do corpo que não responde a acção que ele não consegue executar. Que fio é este que não se liga?

Acordar é tão difícil, assim. E, se acontece, o sono é tão pesado que a vontade de não voltar a ele subleva uma enormidade de sensações capazes de construir um outro mundo. É então que o levantar acontece em passos titubeantes procurando sofregamente um copo de água.

A água e a eternidade vão bem no dicionário dos símbolos. Só pode ser. Mas a eternidade não existe por aí, só dentro de nós. Porque o corpo não a tem e não deixa que nos esqueçamos disso. Dia a dia. Compassadamente. Mas é bom que não nos olhemos ao espelho e façamos de nós uma pintura de Magritte, ao nosso jeito, olhando no espelho a nossa nuca ainda esguia.

Que bom, a chuva. Agora que os dias se espreguiçam mais e mais, que o frio já se foi, o calor vem aí, esperemos que manso. E o encontro do cheiro a maresia, das ondas, da areia, das pedras, das algas, do sol a lembrar uma outra eternidade.

terça-feira, abril 08, 2008

Novos tempos


«Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos — nem mais nem menos —
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê) …
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.»

Fernando Pessoa




Quando a noite vem chegando e apaga devagarinho o brilho das gotas de chuva pousadas nas rosas que vão abrindo, outro brilho se acende no interior das casas, roubando a cada um de nós o sabor do escuro quieto de fim de dia. O acender da lareira com pinhas secas, depois as labaredas lambendo o azinho, deixando sombras e luz nos objectos em volta, o gato aninhando-se no quente. Já nem há candeeiros para acender. E os poucos que o fizeram noutros tempos, depressa esqueceram o ritual.

O brilho que se acende nas casas tem luz e tem som e movimento. Tem melodias e cor. Traz cultura de outras gentes, mas nela muito mais dor. Traz o mundo ao contrário de alguns anseios, traz um espelho de Bosh: um homem barbado, ufano da sua gravidez avançada; uma criança em gestação que vai nascer diferente, vai nascer de um pai; um homem negro, bem longe da civilização dos seus ancestrais, enfrenta os microfones do mundo e anuncia, em nome de um chefe de estado: «Estamos a preparar uma guerra contra o povo!»

O milénio avança e os humanos adaptam a si as transformações em catadupa.

Assim continua o poeta.

«Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos —

Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.»

sábado, abril 05, 2008

Abraço



Vou levar-te comigo.

A ternura no trato, o cuidado no olhar, o jeito de sorrir, às vezes triste, que me passas e eu embrulho numa lágrima que não escorre porque os olhos cresceram com tudo o que me deste. Brilham mais agora, aquecidos de ti, do que colheste de mim, do que floresceu da pedra gasta, marcada de sulcos que eu preferia não ter, não ver.

Há quem pense que o sempre não existe, mas não é verdade. É tanto o que permanece, mau grado os anos, a idade, a distância, o espaço, os espaços. Apesar do peso da vida, dos desenganos, dos desencantos, dos desencontros. Para além das incertezas, das inconveniências, das incoerências, das aparências.

Sentir está para além de tudo.

Só depende de nós. Dos anos desfiados, das primaveras floridas de rosas, dos cacimbos azuis, das chuvadas torrenciais, das chuvas mansas, das neves esparramadas pelos telhados a escorrerem em gelo no dealbar da nova estação que se anuncia.

Ainda nos meus olhos a lava branca sobre a imensidade dos campos, desenhada de árvores nuas e eu deixo-te – o quê? – encharcada de sonhos repletos de infâncias, de cumplicidades, de alegrias, de afectos, de ternuras, de saudades já .

E as tuas mãos por cima dos meus ombros.

Vais permanecer comigo. Sempre.

Até ao último pulsar.


quarta-feira, abril 02, 2008

Regresso




Na quietude de um voo intercontinental, as horas escorrem lentas para quem se mantém desperto.

Do levantar do chão e ainda em rasa altitude sobrevoar as cidades, fica-me um sabor a pássaro. Noutra vida – porque decerto não terei seguido à risca, ainda desta vez, os preceitos de um bom vivente – hei-de regressar bicho de asas. Migrar, conhecer de cor o perfil dos continentes, cruzar os oceanos, ser talvez um albatroz. Ou uma simples monarca.

Por enquanto, sem status social ou económico para viajar em jacto particular, como o fazem alguns dos meus conterrâneos deste país pobre (ou pobre país?), as horas decorrem confinada a um assento estreito – sempre junto à janela – com um espaço insuficiente para desdobrar os jornais que oferecem à entrada, exíguo até para as refeições servidas ao longo das largas horas em que me sinto como que liberta da força da gravidade.

Sem a lotação esgotada, alguns aproveitam para acertar o jet lag com algumas horas de sono estirados na correnteza dos bancos vazios, enquanto as televisões passam filmes inomináveis. Há os que lêem, os que passeiam pelos corredores, os que conversam. Eu faço as palavras cruzadas. Escrevo. Já não consigo ler. Na escuridão, levanto-me devagar e ajoelho-me no banco para descansar as pernas.

Sinto então um leve perder de altitude e logo a seguir o altifalante anuncia o início da descida. Preparo-me para o único momento que me inquieta numa viagem de avião. Observo cuidadosa e atentamente os movimentos dos flaps das asas. Bonito de ver. De perceber como e porquê o avião desce com suavidade ou se provoca enjoos com o brincar dos comandos.

Desta vez tive sorte. O grande pássaro desceu leve e de mansinho.

Pouso na Primavera.

domingo, março 30, 2008

I'm coming home...

Em Montréal , Je me souviens - dizem os automóveis que passam...




Bye-bye, Ottawa, Au revoir, digo eu.



De regresso a Toronto, Yours to discover, é o que rezam as matrículas dos carros.




Em casa...


Até à volta, Mr. Binx, take care of...

sábado, março 22, 2008

Estrelas no Céu


A poesia não é tão rara, como parece.
Na mais ínfima das coisas,
A poesia acontece.
Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu, que me cabia.
Aconteceu poesia,

Quando as tuas mãos numa carícia vaga,
Moldaram no meu rosto, ar de angústia,
Que o tempo não apaga.

Aconteceu poesia,
Quando nos teus olhos cor do céu,
Vi um pedaço de céu que me fugia.
Até no dia em que morreste, Mãe,
Aconteceu poesia.

Fernando Vieira



No dia dedicado à Poesia, a barca de Caronte passou levando devagarinho o meu último Eduardo, renitente em pagar o óbolo mesmo após os noventa anos. Afinal, tudo o prendia a este lugar terreno. Principalmente os afectos e também a terra de que se afastara por tantos, tantos anos.

E eu, do outro lado do mar.

Vagando num outro espaço a olhar e a pensar o mundo numa perspectiva desusada. Não é normal palmilhar o planeta sobre um azul que pode não ser o mar, saltitar por sobre tufos brancos que podem ser pedras ou restos de neve não derretida, brincando de algodão em rama.

Quando o gelo todo derreter nos pólos e o mar subir nos trópicos, pode ser que nasça um novo deus. Grafado com letra minúscula talvez se mantenha mais próximo dos seres que povoam a terra. Provavelmente não será aquele velhinho de barbas brancas porque os humanos que restam não conhecem ninguém assim. A sua memória esvaiu-se com a hecatombe que varreu a humanidade e limpou toda uma civilização.

O deserto, e só ele, salvou a espécie. Alguns nómadas, os verdadeiros nómadas, são os sobreviventes na pureza de tudo aquilo que a natureza apagou.

E bem.

Ficam as memórias que as dunas contam de uma civilização cruel e insensata que dominou os continentes por milénios. Assustados mas protegidos pelas tempestades de areia, vão ao encontro do Principezinho a quem narram todas as lendas e de quem aprendem os outros mundos de homens que vivem contando as estrelas que povoam o céu.



terça-feira, março 18, 2008

Calor no frio



Desta vez deixa-me

Ser feliz.

Nada aconteceu a ninguém,

Não estou em parte alguma,

Simplesmente sucede que sou feliz

Pelos quatro costados

Do coração, andando,

Dormindo ou escrevendo.

O que posso fazer, sou

Feliz.

Pablo Neruda




Mergulho no avesso do mundo.

Mochila às costas, embrulhada de botas e kispo longo, luvas grossas e cachecol e capuz e vento fresco no rosto, caminho por veredas abertas por entre a brancura já escurecida pelo sal e sujidade dos dias de céu aberto onde o sol não aquece. Passo apressado que a temperatura windy não deixa lugar para grandes delongas sem o aconchego de qualquer lugar abrigado.

No autocarro é preciso desembaraçar as mãos que o percurso é longo até downtown. A sonolência vence os perfis da multiculturidade que se mistura nos transportes, orientais em maioria, indianos, véus aqui e além acariciando rostos de jovens de olhar fundo, alguns, bastantes, mergulhados em livros, outros lendo jornais, uns apenas de olhos fechados. Jovens mães transportando carrinhos e crianças pela mão, os degraus do autocarro descendo a cada entrada de alguém com mais idade.

Descanso o olhar na terra toda vestida de branco, as árvores nuas alongando as ruas largas, o horizonte imenso onde perco o olhar.

Os dias têm já uma hora mais e deixam tempo para o regresso cedo.

Ali a quietude impera na espera dos senhores da casa.

Olho o espaço em volta respeitando quem a guarda.

Com a ansiedade de quem ama.


quinta-feira, março 13, 2008

Cumplicidades


Uma bicicleta motorizada…que beleza!

Dá para recordar a primeira sensação de liberdade plena na infância, e dar uma volta por ruelas já limpas da neve nos jardins em volta da casa, é indescritível.

Mas bicicleta e motorizada e moto, tudo se mistura em relacionamentos desconexos de vivências de alegrias e angústias, inseguranças e temores, separadas por décadas e que agora emergem em conversas risonhas. Como o tempo afaga as arestas e torna tudo tão suave!

«Irmã, acabou-se a gasolina, estou a pé na estrada, a caminho de casa, ninguém pára…»

«São 2 da manhã, o que é que esperas…?!»

Depois é preciso voltar para trás, a moto ficou escondida algures, tapada, disfarçada nas ervas… aqui… mais além, não, foi ali que a deixei... tenho a certeza.

Numa outra noite, dia aberto já, e o telefone toca… «hospital…» corridas desenfreadas de carro e coração… uma maca no corredor é aquele ali… não, mas este não é o meu filho!

Já sem crer…inchado? Não, não é ele…!

Então, como numa aparição, surge da porta ao fundo numa cadeira empurrada, esguio, o soro ligado a um braço, o outro de dedo no ar… sorriso pálido: «Eu, estou aqui!»

«E daquela vez…lembras-te?»… «Se lembro… nem a mãe sabe da missa a metade…!»

O sorriso doce de menino traquina mantém-se no tempo, desarma e enrola e seduz.

Laços que não desatam.









sábado, março 08, 2008

Como Eles nos vêem ...



Parece que alguém ensandeceu num dos canais portugueses… ofertando, no Dia Internacional da Mulher, um programa dedicado a elas com um exemplar masculino – com os 206 ossos do esqueleto bem distribuídos, é certo – mas que só revela como as mulheres estão ainda longe de aceder às decisões de cúpula, neste país.

Em pensamento, estou hoje em Lisboa, ao lado das PROFESSORAS.

Aqui deixo, porém, algumas pinceladas de Mulher, pela mão de alguns escritores do último século, diferentes formas de lhe sentir o pulsar.



António Lobo Antunes:

«Concebi por Lana Turner uma paixão absoluta, exclusiva. Em momentos de desânimo quase penso que me não retribuiu. Mas o desânimo, claro, é passageiro, e o cabelo platinado, as sobrancelhas evasivas desenhadas a lápis, em semicírculos perfeitos, os vertiginosos decotes de cetim, o bâton escarlate, tudo me garante um amor eterno, eternamente partilhado. A filha matou o gangster Johnny Stompanato, seu suposto amigo

(nunca o amante, o amante era eu)

e ainda hoje lhe estou grato por isso. Usou a faca da cozinha onde Lana Turner, aposto, fazia salsichas com couve lombarda, o meu almoço favorito, a pensar em mim. Também não me agradava que beijasse os outros nos filmes. Mas talvez fosse melhor dessa maneira porque, se chegasse a casa com bâton e me desculpasse à minha mãe

– Foi a Lana Turner, anda perdida aqui pelo rapaz

receio que ela não levasse em gosto a hipótese

qual hipótese, a certeza

de o filho de onze anos casar com uma divorciada, porque isso afastava a cerimónia da igreja e nós éramos católicos.»


Miguel Torga:

«A mulher! Não me canso de a exaltar. O que o homem é a seu lado! Um Adão inocente, um Édipo perplexo, um Otelo cego. Flor emblemática da criação, perfumada de futilidade, só ela sabe pecar sem remorsos, procriar sem vanglória, entender sem lógica. E sofrer pragmaticamente, já que foi sempre a Antígona heróica da grande tragédia da vida. Dona do mundo e depositária do futuro, nunca o quis parecer, sequer. Gentilmente, deixou essa presunção ao pobre companheiro que, depois de tantos milénios de convívio, continua a revolucionar os tempos sem perceber que ela é o cordão umbilical da História.»


Virgílio Ferreira:

«É dentro de nós que idealmente possuímos a mulher, tentando aí a permuta de um "eu" e de um "tu" esgotando-se na nossa absoluta solidão, na destruição de tudo em volta, no instantâneo esquecimento do que nos rodeia e da própria realidade da mulher, a procura do que se não encontra porque não existe ou nos escapa.»


Aquilino Ribeiro:

«Ela tinha os olhos no chão, mal embrulhada na capucha de burel velho; ele estudava-a dos pés à cabeça e apenas lhe parecia mais olheirenta, mas o sempre-mesmo ar, tez mosqueada de sardas, a modo da pinta nas cobras, o seio alto e rijo no chambre estreito de flanela, a cinta bem lançada, toda ela mui magana no saiote vermelho. Aquele vermelho assanhado, cheio de cio nos poros, a feder a badulaque, escaldava-lhe o sangue. Fêmea de uma cana, já dizia o rifão, da galinha a preta, da pata a parda, da mulher a sarda!»


quinta-feira, março 06, 2008

Andar no Céu



Assim tem sido sempre a minha vida, e

assim quero que possa ser sempre –

vou onde o vento me leva e não me

sinto pensar

Alberto Caeiro



Os homens todos deveriam saber voar.

Conhecer as nuvens do lado do céu, olhar a prata das estrelas, encantar-se com as cores da terra pintando a tela azul-verde dos mares. Encontrar-se deus varrendo do espírito a fealdade da sua carapaça, a rigidez do aço que assombra os seres do ar. Construído pelos homens para invadir o reino que não lhes pertence, não faz parte da paisagem, é um ser desconforme.

Ou antes, é belo, é perfeito, mas não é natural. Não tem leveza, não vibra com o sopro do vento afagando o bico, estremecendo as penas, não se entrega ajeitando as asas com a sensualidade da águia ou do condor. Preenche todavia a ambição de glória dos homens, o prazer da conquista, da caça. É um troféu.

É a diferença que vai entre a epopeia de decassílabos acentuados na nota inalterável, na sucessão dos cantos, na complexidade da obra ímpar que constrói uma História de homens e deuses , e a modelação livre e apaixonada de uns versos ao ente fantástico guardador dos mares:

«…Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse, “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo,

“El-Rei D. João Segundo!”…»