Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
É um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
É um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro
O meu rio cá dentro nem sempre tem o caudal necessário para que a corrente deslize naturalmente por lugares quietos ou mais acidentados. Simplesmente a água esvai-se, a terra absorve-a toda. Depois é preciso que chova torrencialmente, dias a fio, porque entretanto uma represa surgiu e é preciso mais força para derrubar o dique.
Nem seria necessário dizê-lo, parece que tudo chove e se desfaz em humidade que persiste entranhando-se nos livros antigos, cobrindo de bolor as luvas guardadas há anos na caixa antiga, roendo os ossos dos velhos. No paredão antigo de pedra, o musgo aparece alto, a despertar os tempos de menino, no seu encalço para enfeitar o presépio, lá onde o sol em Dezembro não dá alimento ao musgo. Lá onde se corriam as cortinas para cumprir os rituais desajustados do longe, construindo a manjedoura que não havia, porque o gado dormia em cercados abertos pela manhã para o pasto livre nos campos. Lá onde deveria deitar-se o menino deus pretinho e nu sobre a relva fresca, à sombra duma mulemba, duma acácia ou duma cazuarina, sem burro e sem vaca.
O lá não existe, nem aqui, nem lá. Chove em toda a parte e perdeu-se o azul, desvaneceram-se as cores do arco-íris do cinzento carregado de chuva, a névoa instalou-se e cai granizo agora. Ouço-o, batendo nos vidros. Vejo-me na rua a olhar as mãos cheias de pedrinhas brancas, metendo-as à boca, sorvete prenda do céu raríssima. Vem um sorriso cá dentro, do tamanho da menina. Da janela olho então o branco salpicando a relva e ornamentando a preceito o cascalho escuro onde o melro proletário, o bom trabalhador, virá pela manhã cumprir a sua tarefa.
Quero só lembrar que a janela está fechada e tem um vidro. Duplo, dizem. Mas não tenho a certeza de que seja verdade, que seja vidro, sequer.
