Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
Álvaro de Campos
Eu não tenho esta alma de poeta, decididamente.
Quero apenas não sentir tudo o que me assola, tudo o que me invade por todas as fendas que o cérebro inventa para mim. Quero não ouvir o chamamento dos bichos o grito da dor deles, quero não olhar os troncos desvalidos sem voz pousados no céu, não ver a imensidão de brancos pintados a azuis plúmbeos, nem sequer imaginar o lago quieto e manso bordejando a cidade.
Não ver, não tocar, não sentir coisa alguma. Fechar os olhos e com eles todas as torrentes que manam por dentro das pálpebras e se enrolam em nuvens escuras, todos os sons tinindo dentro de mim quando tudo deveria estar quieto.
Que a quietude chega sempre depois do vento. Desce em degraus suaves e caminha em silêncio, devagar, não vá acordar os sons, os murmúrios, os cantos, os brados, recrudescer em trovoadas.
Há sempre em nós o lado bom da esperança, da fé em qualquer coisa que é sempre um deus, seja ele o espírito dos mortos, uma imagem em barro, em talha dourada ou o último herói.
