sexta-feira, fevereiro 29, 2008

(Des)Construção


Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos.

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quando tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

escrevo.

Mia Couto



Avaliar é sempre um processo difícil.

Principalmente avaliar até que ponto nós próprios estamos em condições. Saber quando devemos parar de avaliar os outros em função das nossas convicções, quiçá baseadas em experiências diferentes, até que ponto as nossas convicções estão correctas à luz dos novos conhecimentos, até que ponto os nossos conhecimentos apreenderam a evolução da ciência, até que ponto evoluímos com a ciência nova, com o vento novo, com as primaveras que vão renovando o que os Invernos queimaram em geadas negras.

Avaliar é, acima de tudo, comparar. O antes e o depois. Há que conhecer o percurso anterior de um indivíduo para se poder aquilatar acerca da sua competência num dado comportamento. Não é a fugacidade de um momento que justifica um carácter; não é um gracejo oportuno que faz um humorista nem uma explosão de cólera que marca um criminoso.

Ninguém nasce do nada. Ninguém nasce de olhos claros numa comunidade cigana, ninguém desponta de olhos oblíquos n uma Índia de olhos redondos ou negro entre os Esquimós. O urso só é branco na imensidão das neves, até a raposa ali se pinta prateada.

Em todo o lugar há um tempo próprio. Belo nos seus esplendores, o campo que brota florescente na Primavera e traz a fartura no Estio, explode em tonalidades fortíssimas nas folhas outonais, gritando a sua beleza incontornável aos ventos que lhes vão cerceando a seiva e as despenham para a eternidade de um Inverno.

Porém é importante, impõe-se uma avaliação contínua do que somos capazes de poder fazer, em campos separados, pessoais, sociais e profissionais, sem que deixem ao mesmo tempo de estar unidos num só, equilibrados entre si. Há direitos e deveres, não há uns sem os outros. A vida é uma só e tem tempo próprio, está visto.

E é neste sentir, nesta entrega permanente, que se constrói cada indivíduo.

domingo, fevereiro 24, 2008

Desejar Poder Querer

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.
Fernando Pessoa




Quantas vezes a memória me aparece como um sótão cheio de cadinhos! Depois é preciso escolher, cadinho sim, cadinho não. Cadinho sim, cadinho sim. Cadinho não. E por aí adiante.

Nem todas as memórias estão prontas a servir, muitas estão turvas, outras, é preciso temperá-las para poderem ir à mesa; e há aquelas que, como o bom vinho, precisam de tempo para amadurecer, em cascos de carvalho, de preferência. Finalmente há as que, como o vinho verde, não devem ser guardadas muito tempo; borbulham e são deliciosas se servidas frescas. Mas para isso têm de ser de boa casta, de outro modo, são perigosas.

Por isso eu procuro os cadinhos que já maturaram alguns anos. Aí, as memórias estão mais repousadas. Mesmo com assento no fundo, saem límpidas e claras, aquietadas quando sofridas, vazadas devagarinho e no tempo certo.

Mas de quando em vez encontro-me com outras histórias, de memórias de outros que tocam nas minhas e batem no mesmo ritmo, doloroso, magoado, monótono se quiserem, mas naquele bater que nos alimenta a existência, que nos acende os afectos, os brios, o orgulho de se ser português.

E eu li, na revista Notícias Sábado do DN de ontem, retirado de um artigo intitulado «Uma instabilidade conveniente», sobre um fundo em tom verde de esperança (o sublinhado é meu):

«Outra das medidas que a Austrália não perdoou a Alkatiri foi a sua aproximação a Portugal e a adopção do Português como língua oficial. Uma feroz campanha, orquestrada pelos media daquele país, acusou Portugal de estar a impor aos timorenses o seu idioma, com professores pagos principescamente... E enquanto as calúnias circulavam em roda livre – nas televisões, rádios e jornais, chegando mesmo a fazer parte do discurso dos turistas de passagem por Timor – o que fez, por exemplo, a CPLP? Nada. O linguista australiano Geoffrey Hull foi dos poucos que tiveram a coragem de denunciar o ataque ao idioma de Camões no que denominou de “inverdades anglofónicas”. Em resposta a uma série de artigos hostis, Hull recordou, que “quem está familiarizado com a História” sabe que “a língua portuguesa sempre foi preponderante para a identidade nacional do país”. Se ainda houvesse dúvidas sobre as intenções de Camberra, elas dissipar-se-iam ao lermos o que deixaram escrito, numa placa de bronze afixada na fachada do Mercado Municipal de Dili, emblemático exemplar da arquitectura portuguesa, os técnicos australianos que ali efectuaram uma simples operação de restauro: “Este edifício é uma oferta do Governo e do Povo australiano para a celebração do dia da Independência de Timor-Leste em 20 de Maio de 2002.»

Nós somos Portugueses e temos História. Uma História bonita. Não envergonhamos a União europeia, de que somos parte integrante. Para quê tanta modéstia? Tanto receio de parecer mal? Tanta hesitação em reclamar ajuda imediata?

O mundo sabe que não nos move o interesse económico, que a Austrália já se adiantou em duas gerações pelo menos. Mas há um povo que sofre.

No plano dos afectos, Timor também é Portugal.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Contos


Adieu, Gringoire!

L´histoire que tu as entendue n’est pas un conte de mon invention. Si jamais tu viens en Provence, nos ménagers te parleront souvent de la cabro de mousu Seguin que se battégue touto la nuei emé lou loup, e piei lou matin lou loup la mangé.

Tu m’entends bien, Gringoire :

E piei lou matin lou loup la mangé.

Alphonse Daudet



Acordar madrugada abrindo, ao som da chuva soprada de vento ou simplesmente pingando dos beirais, deixa-me quieta, sem abrir os olhos. Posso fantasiar um outro espaço, posso até abrir o meu cesto mágico.

Ele está cheio de todas as histórias que me guarneceram a infância como as camélias matizam agora a primavera. E são de todas as cores: de raposas matreiras e fadas boas, de princesas más que se transformavam em gatas, de meninas que conviviam com bichos – Bonne Biche, Beau Mignon – meninos que corriam mundo entre as asas de um ganso, aquela D. Redonda que, feita missanga colorida, entrou no mundo das formigas; do Sandokan, de piratas, de viagens sobre e por baixo da terra. Só mais tarde Walter Scott e Ponson du Terrail, Delly dos príncipes russos e das valquírias.

Há a releitura dos contos de crianças – o Capuchinho Vermelho de Perrault, a Alice no País das Maravilhas – puras alegorias, alguns nos deixam imagens de escrita belíssimas como aquele conto impar da cabra do Sr. Séguin, enfim liberta da corda que a prendia, que vive um último dia de liberdade plena, de euforia, de exaltação, inebriada pela montanha que a recebeu em festa: os abetos em vénias porque nunca tinham visto nada tão bonito, os castanheiros dobrados para acariciá-la com a ponta dos seus ramos, as flores douradas e as campânulas azuis espalhando perfume em seu redor. Só até ao crepúsculo. Até a noite chegar.

Os contos de encantar da Xerazade, os contos suaves do Natal, a Dama Pé-de-Cabra e a Aia, deixaram-me o gosto de os ouvir, de os contar, de os ler, mesmo os contos de Torga talhados em rocha dura. Mas os meus aprazimentos estão com Aquilino e a sua prosa riquíssima de metáforas e figuras que me deliciam.

Mil novecentos e setenta e quatro deu início a um conto diferente. Apanhou-me em plena corrida por prados verdejantes e florestas de duendes, porém o corcel falhou um salto. Estatelei-me em Oran. Paris continuou Paris , revelou ao mundo Tarkovsky, mas eu estava de quarentena.

Quando regressei, não passava de um pied-noir.



sábado, fevereiro 16, 2008

Portugal, Século XXI

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

sem ser dor ou ser cansaço

nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

nunca dizendo comigo

o amigo nos meus braços

Comigo me desavim

minha senhora

de mim

recusando o que é desfeito

no interior do meu peito

Maria Teresa Horta





Sem rosto e sem coração surge a mulher pela manhã, enrugada de sono, acordada pela fadiga que o dia aponta, a limpar os sonhos na água que escorre do chuveiro morno, espreguiçando as cores da noite. O tempo urge no afã das tarefas inominadas que há a cumprir antes do transporte que há-de levá-la ao emprego a que a sociedade dá nome e remunera, mas para ela é coisa nenhuma, que o seus pensamentos ordenam mentalmente todo o percurso a palmilhar no dia longo que para ela só desponta no final do serviço.

Recolher as crianças, saber dos estudos, os trabalhos de casa, fazer as compras, as refeições, a roupa para mudar, pôr a lavar, estender, passar a ferro. O marido tem trabalho até mais tarde, faz uns biscatos para o dinheiro esticar para as roupas dos filhos, para os sapatos que já não servem. Chega a casa cansado, coitado, há que deixar pronta a janta antes da reunião de pais da escola, sempre demora mais do que diz na convocatória.

Chega estafada, com os problemas dos outros a acrescentar aos seus, as preocupações redobradas, os seus filhos convivendo com aqueles outros filhos daquelas mães desprotegidas, maltratadas pelas vidas, pelos seus homens sempre ausentes dos problemas dos filhos que também são deles. Há aquele pai adoptivo, cuidadoso, o olhar abrindo de preocupação, como ela, pela menina que sofre ainda uma infância de maus-tratos e não consegue encontrar na escola a segurança de que precisa.

Quando chega a casa, as crianças estão pregadas na televisão, o marido dorme no sofá, já jantado. Há que lembrar-lhe o caminho do quarto, dar banho aos meninos, dar-lhes de comer e pô-los na cama, arrumar a sala, os brinquedos, a roupa esquecida sobre as cadeiras, ainda quer dar uma olhada à novela, aproveita para passar a ferro entretanto. Antes de pensar em deitar-se, descer o que há no congelador para o dia seguinte, até se esqueceu de jantar.

Aquece um copo de leite e senta-se na mesa da cozinha.

As suas mãos afagam o copo enquanto ela afoga o seu entendimento da vida.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

O Vestido Azul

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.      
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos.
Reparo que também no meu país o céu é azul.
                       Eugénio de Andrade


O azul é a cor por excelência.

A cor do mar. A cor do céu limpo. De certeza a cor que primeiro identificamos, assim que somos dados à vida. Nem sei se haverá alguém que não goste de azul. Na reconhecida ausência de vocábulos à altura de designar a multiplicidade de tons, assim o designamos azul-claro, azul-escuro, azul-marinho, azul-mar, azul-cinza, azul-eléctrico, azul-petróleo e mesmo azul-céu, a cor do infinito.

Por mim, não posso dizer que tenha uma cor preferida. Gosto de cor. Gosto das cores. Da união de todas elas. Menos da ausência, mas também.

Hoje, porém, queria trazer aqui apenas o azul, porque um amigo deste espaço aberto, por delicadeza, grato por coisa quase nenhuma, mandou-me uma flor azul em forma de som.

Acontece que eu não consigo postar o vídeo que ele me mandou e já desisti de pedir ajuda ao Blogger.

Sobre um fundo sonoro, um narrador conta a história de «uma garotinha muito bonita morando num bairro pobre de uma cidade distante […] frequentava a escola local e se apresentava quase sempre suja, suas roupas velhas e maltratadas. O professor ficou penalizado […] separou algum dinheiro e resolveu lhe comprar um vestido novo.

Ela ficou linda no vestido azul.

Sua mãe passou a lhe dar banho todos os dias, pentear seus cabelos, cortar suas unhas […] Nas horas vagas, o pai resolveu dar uma pintura nas paredes, concertar a cerca e plantar um jardim. Os vizinhos, envergonhados, decidiram também arranjar suas casas, plantar flores, usar pintura e criatividade […] um religioso pensou que bem mereciam o apoio das autoridades […] e o bairro ganhou ares de cidadania.

E tudo começou com um vestido azul.

Não era intenção daquele professor concertar toda a rua nem criar um organismo que socorresse o bairro. Ele fez o que podia. Deu a sua parte. Fez o primeiro movimento. […] Lembremos que é difícil limpar toda a rua, mas é fácil limpar a nossa calçada. É difícil reconstruir um bairro.

Mas é possível dar um vestido azul.»

O meu amigo é um menino-poeta, que tira fotografias lindas e gosta de música e estuda, para ser maior no mister em que dá os primeiros passos. Tem uma sensibilidade do tamanho do mar que nos separa e sabe comunicar. Quer ser professor. Que bonito!

Muito obrigada pela flor, Rafael.



domingo, fevereiro 10, 2008

Dividir para reinar

Por toda a parte assistimos assim ao desenvolvimento exaltado do indivíduo nacional. E, com o advento definitivo das democracias, haverá na Europa, não a universal fraternidade que os idealistas anunciam, mas talvez um vasto conflito de povos que se detestam porque se não compreendem, e que, pondo o seu poder ao serviço do instinto, correrão uns contra os outros – como outrora, nas velhas demagogias gregas, os homens da Mégara se lançavam sobre os homens da Lacónia, e toda a Ática se eriçava de armas, por causa de um boi disputado no mercado de Fila ou de uma bulha de rufiões nos grandes pátios da Aspácia.

Eça de Queirós


Voando sobre décadas de entendimento das coisas humanas, ainda me surpreende o espanto das crianças. O olhar atento ante cada brinquedo novo, o colorido, o movimento, a estranheza; a cada aceno, o gesto, o toque, o olhar; a cada encontro com um menino, o riso, o brilho do olhar, a mão estendida. Penso em Rousseau e no seu entendimento dos homens. A aculturação falseada por contactos impostos cada vez mais cedo, moldam um olhar diferente, receoso, aberto, sofrido, esquivo, defensivo.

Perdida a inocência, é cada um por si, contra todos. Já não se lê nas escolas ou em casa a história bonita das sete varas que aquele velho sabedor mandou cada um dos seus filhos quebrar, uma por uma, junto ao seu leito de morte. Do adulto ao mais jovem e frágil, todos partiram cada uma, facilmente, num vergar tranquilo. Porém, as sete varas unidas num molho, simplesmente atadas, não houve força que as pudesse quebrar.

Não é palavra vã citar que a união faz a força. E que o não seja apenas na economia feroz.

Reporto-me à realidade actual das escolas aviltadas, nem só pela ignorância e inépcia dos legisladores, mas pela sandice da luta local pelo poder não partilhado, a falta de generosidade, a vacuidade do esforço alternado de cada um na travessia do riacho fundo por sobre um tronco estreito e periclitante, sem um braço estendido à partida ou à chegada, antes um pé rolando o tronco, criando dificuldades. Todos querem o seu espaço só para si, não se dão as mãos, não procuram afinidades, não se unem mostrando a razão a quem de direito, não reparam que lutam uns contra os outros. Onde a razão reside tão visível.

Não importa só quem está ali. Importa o campo adiante, a margem, a terra firme que é preciso arrotear, semear, regar, para que se torne esplendorosa. Tem de olhar-se em frente, para os outros, para as crianças, para os que precisam, para os que sofrem.

De outro modo a força perde-se em batalhas vãs, o olhar esmorece e o mundo perde a luz.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Ouvir os Sonhos


«…Creio que tudo é eterno num segundo,

Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,

Na flor humilde que se encosta ao muro,

Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,

Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.»

Natália Correia




O céu não nos diz quando vai chegar a Primavera. Não envia bilhete-postal de flor abrindo, ou folhinha rompendo capa de tronco seco. Mas descobre-se em azul, azul, e fala ao vento para soprar mais manso, para voar mais quente.

E nós sentimos.

O céu também não fala sobre o Inverno que apresta um frio devastador de geada ou granizo ou tempestades de vento. Mas manda o sol passar mais baixo, deixa manchar-se de nuvens brancas que tinge escuras e fartas, crescendo em rolos, e faz troar e abrir as comportas.

E nós compreendemos.

Quando a terra vai tremer ou no mar se abrir uma fenda, o céu sopra os ouvidos dos seres que lhe escutam a alma para logo partirem a salvo da onda gigante que vem galgar os campos e as casas.

Só o Homem não escuta, afogado em desassossego.

O Homem esqueceu os cheiros e os sons da terra, o afago do vento, apagou o brilho das estrelas. É hora de abafar o ruído, chegou o tempo de fechar os olhos e ouvir a música do mar, desnudar-se e cobrir-se de sol, fechar os olhos e ouvir o que não tem som, mergulhar nas águas, fincar os dedos na areia grossa e agarrar os sonhos.

Com as duas mãos.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Carnelevare

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
P’ra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
P’ra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim


Vinicius de Morais






– Vossa Excelência não é lá muito dada às coisas da Cúria pois não?

Pois claro que não. Menos ainda quando era preciso repisar o Auto da Alma, com mais requintes, quando já o tinha considerado «uma estopada» no quinto ano do liceu. Isto nos velhos tempos em que não se tratavam todos por tu, professores e alunos; quando – discriminadamente – os rapazes eram logo tratados por senhor doutor e as meninas por minha senhora no primeiro ano de faculdade.

Sempre me fez espécie a história dos nomes dados às nossas Feiras: a Quarta de Cinzas, a Quinta da Ascenção, a outra ainda do Corpo de Deus, a Sexta da Paixão, a Terça Gorda.

Em relação a esta última, terei aprendido lá por casa que era terça-feira gorda porque calhava sempre em dia de lua-cheia, talvez relacionando com o facto de que era móvel em função das fases da lua. Nada disso. O domingo de Páscoa é que é decidido em função da lua – ocorrendo no primeiro domingo após a primeira lua cheia que se verificar a partir de 21 de Março, equinócio da Primavera – e para trás e para diante são então marcadas as datas, respectivamente, do dia de Carnaval e do dia de Corpo de Deus.

O Carnaval (na sua etimologia carnem levare que significa abstinência de carne) dá início ao período de jejum da Quaresma que termina na Páscoa. Ressalta aqui a função pedagógica da religião, no combate a um dos pecados capitais, a Gula, mas claramente caída em desuso, tendo como resultado o aumento de obesidade entre os cristãos. Como lei imposta não se cumpre, escreve-se em muito papel e muitos artigos numerados. Isso basta.

A razão de chamar-se à quarta-feira seguinte «de Cinzas» é que sempre me intrigou, mas lá me chegou a luz: esta festa marca a mortalidade de Adão, a condenação do nosso primeiro pai pelo pecado original: voltar ao pó, a tornar-se em cinzas, pois então. Os cristãos são assim convidados a purificar-se das suas faltas e a fazer penitência através da privação da carne.

Não simpatizo nem um pouco com as manifestações carnavalescas que proliferam por aí, mas respeito quem nisso encontra uma forma de evasão e renovação. Há quem ligue estas festas às Saturnais pagãs dos Romanos, estas realizadas por ocasião do solstício do Inverno, ainda em Dezembro, portanto, tendo por objectivo dar alguma alegria e coragem ao povo, num período de campos gelados, noites longas e aparente ausência de vida na natureza. Ofereciam-se então presentes: mel, doces, ouro e símbolos de felicidade.

Parece que a renovação existe, sim.

De uma forma ou doutra, num ou noutro tempo, os rituais repetem-se.


terça-feira, janeiro 29, 2008

Talvez o Vento...


How many times can a man turn his head

And pretend that he just doesn’t see?


How many ears must one man have

before he can hear people cry?


How many deaths will it take till he knows

that too many people have died?


The answer, my friend, is blowing in the wind

The answer is blowing in the wind…

Bob Dylan







Não é a primeira vez que a África em que nasci me acontece de forma inusitada.

Desta vez, foi no filme O Fiel Jardineiro (baseado num romance de John Le Carré) de Fernando Meirelles, que a imensidão da paisagem africana se abriu para mim em toda a sua intensidade e encanto e, na mesma proporção, na crueza da sua enorme fragilidade.

Puxando os cordelinhos no palco de marionetas, a ganância, a falsidade, a luxúria. No outro extremo, o idealismo, o amor e a fidelidade, a pureza de sentimentos; a confiança, que não mora no mesmo departamento da lucidez quando a falta de sinceridade abre espaço para a dúvida, em situações de beleza ímpar, pequenos quadros de imagens magníficas que sugerem todas as interpretações.

Sei que o filme já não é muito recente, mas recentes se mantêm as questões sociais e políticas num continente continuamente massacrado por todas as formas possíveis de corrupção e desumanidade. O título surgiu-me apenas familiar, mas revelou-se uma surpresa, encantou-me por todos os motivos que associo a largos minutos de evasão do quotidiano que caracteriza a vivência de um europeu médio, preocupado com simples contrariedades que lhe alteram a serenidade dos dias. É um libelo, uma acusação ao mundo de que faço parte e deveria envergonhar-me.

É sobre a impotência dos bons.


quarta-feira, janeiro 23, 2008

GENEROSIDADE

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

Vinícius de Morais




Esta fotografia circula pela Internet.

Traz-me à memória décadas de luta pelos circos do ensino, pelos palcos da salas de aula, na partilha de outros mundos de crescimento mútuo. Dos tempos em que era preciso tratar temas diferenciados e únicos a um tempo: amor, solidariedade, fraternidade, igualdade, e por aí adiante.

É fácil acender nos jovens o espírito solidário quando os ideais são tudo, a amizade a vida, a curiosidade um vício a cultivar. Apontar caminhos é a função pedagógica e os exemplos abundam, se bem que as definições sempre mais difíceis, mais redutoras. Aprendi com a simplicidade dos mais novos que a solidariedade é a amizade como dádiva a quem não se conhece.

É mesmo isso. Mas muito mais fundo, raiando a utopia, porque teremos de nos despir de nós, teremos de sentir escorrer de nós o sangue dos outros para que a entrega não tenha sabor a caridade, palavra de que não gosto na conotação que me passa.

Esta imagem tira-me a voz.

Faz escorrer dos meus olhos o rio que escorre pela minha terra em doçura e beleza e prodigalidade, recebe nele o Luena, toma outros rumos, atravessa um continente distribuindo energia e espraia-se à chegada ao Índico num delta marcando o seu lugar entre os maiores. Agora a beleza do Zambeze semeia a fome e a dor.

Esta imagem também me lembra isso.

Mas vai muito mais fundo.

É a nobreza da generosidade.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

O Poder da Vida


«Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. Está certo, sei. Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo o que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah, lei ladra, o poder da vida.»

João Guimarães Rosa





Em conciliábulos com a razão da escrita, desta vez mais concretamente quanto à manutenção de um blogue, não me parece excessivo voltar ao tema. Já por mais de uma vez me referi ao que poderá estar bem no fundo de cada um de nós ao sermos tentados a passar à escrita – para um público que nos é, e para quem somos, totalmente desconhecidos – algo do que temos de mais íntimo, as nossas memórias mais cruas, as mais doces, quiçá as mais dolorosas e magoadas; aquele desabafo que às vezes ecoa em nós de modo insistente, ou tão só a expressão de um contentamento ou uma revolta momentâneos.

Escudados por anonimato a maior parte das vezes, um anonimato que se vai esbatendo à medida que se criam os laços de que falava Saint Exupéry – a domesticação do próprio perante os outros viajantes do espaço – emergem personalidades nem sempre visíveis no quotidiano apressado que nos distorce o corpo e o espírito que transparece. Por defesa, é claro.

É também um descobrimento de nós próprios em plena liberdade, deixando assomar o que guardámos fundo, o que nos afoga, sem peias, sem constrangimentos, sem receio de ironias, também sem ferir aqueles que já sabemos que não aceitam esta parte de nós, esta forma de ser que é parte integrante do que somos, aquilo que foi borbulhando e alterou no tempo o sorriso e o gesto.

Há porém um aparente contra-senso nesta forma de liberdade que referi antes, porque os laços que se estabelecem são afinal tão fortes na sua delicadeza – hoje vou tomar chá ao PPP – que nem queremos imaginar que possam deixar de estar presentes no nosso mundo já não só virtual. E sentimo-nos de liberdade desprovidos, presos de afectos, de alguma forma obrigados a manter o contacto porque fazemos falta. Na mesa do chá. No túnel da vida.

Bom sentir isso na solidão dos passos.



domingo, janeiro 13, 2008

Sortilégio


«Agora, ao rever o passado, viu em que sulco profundo tinha mergulhado. O pior de cumprir um dever é que aparentemente não dava para fazer mais nada. Pelo menos era a opinião que os homens da sua geração tinham. As divisões constantes entre o certo e o errado, honesto e desonesto, o respeitável e o reverso, tinham deixado pouco espaço para o imprevisível. Há momentos em que a imaginação de um homem, tão facilmente subjugado à vida de todos os dias, repentinamente se ergue acima da rotina diária e avalia as longas espirais do destino.»

Edith Wharton




A escrita é sempre um acto solitário. E solitário porque é a expressão de pensamentos através da mão que escreve num papel ou dos dedos que digitam num teclado. E já agora, jogando com as palavras, é também um acto solidário, não necessariamente para com os outros, mas para com os próprios entendimentos.

Voltando à primeira palavra, direi que por aqui me faltam outras, parecendo incoerente com o título anterior de que não faltam as palavras. A solidão de quem escreve é relativa, ninguém escreve só, desacompanhado, sem espectadores ainda que fantasiosos. O povo humilde e sábio usa «falando com os seus botões»; em tempos da Antiguidade Clássica, Horácio, mais pretensioso, não sei se tão sábio, escreveu naquela ode sem par: «ergui um monumento mais alto que as pirâmides, mais perene que o bronze». Na imaginação pessoana presume-se «emissário de um rei desconhecido» e Agustina diz que «as memórias procriam como se fossem pessoas vivas».

O sortilégio da escrita acontece simplesmente. Como na praia, manhã cedo, quando dos orifícios na areia espreitam duas patas, três; depois os pequenos caranguejos espalham-se pela praia num rumorejar que se mistura com o bater manso das ondas na maré vazia. Outras vezes não acontece nada. Então, é preciso caminhar devagarinho e colher aqui e além, escolhendo, as pedras mais lisas, a concha mais colorida. Mesmo de Inverno quieto, sem chuva, sem marés vivas, quando as tardes já seguem espreguiçando-se pelas horas, o imprevisível acontece.

O problema surge quando o que desejamos contar é tão verdadeiro quanto é inverosímil, tão doloroso como incurável, tão gritantemente real que magoa. Aí há palavras para dizer, mas é preciso escolher tanto, é tudo tão ténue, tão frágil, tão subtil, que pode quebrar o equilíbrio.

Deixemo-nos então quietos, olhando o mar, protegidos pelas rochas do vento que ainda sopra.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Não Faltam Palavras


Sem pretender comentar afirmações de vários escritores actuais sobre a dificuldade de encontrar vocabulário em língua portuguesa para a temática do sexo na nossa literatura, transcrevo a seguir um trecho da prosa de Aquilino Ribeiro.

Talvez falte leitura, talvez falte alguma arte.

(Talvez sobejem os salões de depilação.)

Não faltam palavras.




«As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lanzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:

– Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal!

– Porquê?

– Se não tivesse, não era assim proibido!

Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:

– Mas não era melhor que o nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!

– Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!

– Tu serias capaz, eu não!

– Sei lá!

Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lha entre as suas, pronunciando:

– Olha para ali… olha como se enroscam as serpentes…!

E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.

– Faze-me como as serpentes e como a nuvem – disse para Adão a tentadora e subtil.

E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo – Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade…»

Aquilino Ribeiro, in «O Jardim das Tormentas»

sábado, janeiro 05, 2008

Afectuosamente



Lembras-te, meu amor,


Das tardes outonais,

Em que íamos os dois,

Sozinhos, passear,

Para fora do povo

Alegre e dos casais,

Onde só Deus pudesse

Ouvir-nos conversar?

Tu levavas, na mão,

Um lírio enamorado,

E davas-me o teu braço;

E eu triste, meditava

Na vida, em Deus, em ti…

Teixeira de Pascoaes






O mundo que eu construí é só meu, embora caiba por lá o mundo inteiro.

A minha casa à beira do rio, o rio que crescia nas Chuvas e enchia as lagoas das margens, o rio que subia, subia e cobria os capinzais e brilhava então para a casa grande. Os animais que moravam por ali tinham de sair desabrigados para as flechas ou tiros que os atingiam. Naquele tempo não me feria a desonestidade da astúcia humana para com os pobres animais indefesos, a minha insensibilidade habitava-me, completamente imune à dor alheia. Depois de mortos não passavam de carne para servir à refeição, eram tapetes lindos para o quarto, até carteira bonita para oferecer à mãe.

Três, quatro dias, durava o espelhado junto ao rio lá em baixo e então muitas coisas aconteciam.

Um dia trouxeram-me uma espécie de cachorrinho que apenas chiava. Tinha sido resgatado quando a sua mãe raposa o transportava nos dentes para um lugar seguro e havia encontrado a morte. Cabia na palma da minha mão e escondia a cabeça e o corpo onde pudesse, assustadíssimo. Acabei criando-o a biberão e cresceu selvagem e bonito, apenas permitindo que eu me aproximasse dele, agredindo quem quisesse deitar-lhe a mão. Foi uma experiência fascinante porque fui dele a referência de protecção e ele foi-me fiel. Até ao dia em que eu fui obrigada a quebrar o elo que nos unia e a entregá-lo ao Jardim Zoológico, perante a ameaça que recairia sobre ele, caso o deixasse livre.

A outros animais servi de ama, principalmente cães e gatos, até a uma cabra doméstica.

Da minha relação com os animais prevalece uma intensidade emotiva nem sempre amável, quase sempre intransferível, sempre insondável para o ser humano comum.

Mas é o mais puro dos sentimentos que alguma vez conheci porque nada o distrai do puro afecto, nada o demove do ponto de referência.

Não falha. E confia. Não é humano.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O Encontro



Encontrei-o no caminho.
A água não turvou seu sonho,
nem se abriram mais as rosas.
Mas o assombro entrou-me na alma.

Gabriela Mistral



A hora é o tempo certo para acabarem os minutos, tal como o dia acaba as horas, o mês os dias, o ano os meses, depois o lustro, a década, o século e por aí fora.

Só a eternidade não tem fim. Ela, supõe-se, acaba a vida. E eternidade é uma palavra bonita em que cabem todas as promessas, todos os credos, todos os desejos. É lá que vive o sempre.

O crescimento do ser humano, como tal, é proporcional à escravatura de si próprio. O instinto opõe-se de início a qualquer mudança porque é naturalmente livre e a História regista provas irrefutáveis dessa constatação a cada passo, paralelamente à sujeição imperativa do progresso.

Se de repente a denúncia desse cativeiro chamado organização das sociedades nos conduzisse a um acto terrorista cujo alvo a atingir fosse a notação do tempo, a resposta seria apenas uma questão de fantasia.

O tempo poderia não existir. Seria bom descontruí-lo como se tomando nas mãos um arco-íris e ir desembrulhando as cores.

Quebrando todos os relógios, acabando com os horários das escolas. As crianças teriam um lugar de encontro com o saber (Agostinho da Silva assim falou), quando quisessem, quando estivessem cansadas de brincar, quando sentissem necessidade de saber como construir um novo brinquedo. Não haveria professores, porque todos seriam mestres de um saber a partilhar. Haveria permuta de bens, uns viveriam de dia, outros de noite, sem hora marcada de comer ou deitar. Voltaria a haver quem olhasse as estrelas e tocasse umas cordas em melodia para acordar o sol.

Não haveria mulheres sós, aprisionadas, violentadas, excisadas, porque elas estariam unidas, seriam olhadas como as mães dos homens, elas decidiriam quando o tempo de parir.

Não haveria religiões porque todos saberiam dar-se as mãos no tempo certo.

Não haveria tempo, haveria paz.

domingo, dezembro 30, 2007

Dimensão



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinícius de Morais



Um dia de cada vez, sem olhar o calendário, sem olhar o espelho, sem olhar a natureza quieta, com a vida de mansinho a fervilhar por dentro dos troncos sem folhas.

Só a cadela além, do outro lado da rua, presa na corrente pesada, deitada de costas, a colher o calor do sol sobre o cimento, de patas erguidas. Aqui a toalha estendida no varal, a toalha bordada pela Mãe, as flores coloridas num desenho irregular sobre os quadrados do adamascado cru. Os guardanapos. O saco do edredão que faz esquecer os lençóis de bilros que não se usam mais. As azeitonas que restam, algumas ainda verdes. A magnólia cheia de promessas. A abóbora feia, torta, que ao primeiro golpe acende uma coloração de gema de ovo esplendorosa.

O silêncio da hora da sesta.

Não sei se o destino existe. Não sei também se somos nós que o determinamos, seja ele qual for. Sei que somos nós que escolhemos os destinos nas encruzilhadas da vida. E são tantas. A senda que nos parece certa numa determinada altura, porque a mais fácil, a mais plausível, a mais natural, foi um logro. Mas percorreu-se. Nem vale a pena voltar para trás, apenas procurar uma nova encruzilhada e arrepiar caminho. Olhar o trilho do sol e enquadrar o novo espaço com o nascente e o poente. Olhar os seres que cruzam os céus, os mares, ver como seguem a rota dos seus antepassados. Quem sou eu? Partir de onde vim e aprender com o que já percorri. Quero o fulgor do sol? O calor do deserto? A alvura da neve?

Bater as asas e deixar-me levar pelas correntes, dissolver-me no azul. Do céu. Do mar. Perder o horizonte.

Passar para a outra dimensão.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Noite de Natal

«Mais la plus belle de toutes les étoiles, maîtresse, c’est la nôtre, c’est l’Étoile du Berger, qui nous éclaire à l’aube, quand nous sortons le troupeau, et aussi le soir, quand nous le rentrons. Nous la nommons encore Maguelone, la belle Maguelone qui court après Pierre de Provence (Saturne) et se marie avec lui tous les sept ans.

– Comment ! berger, il y a donc des mariages d’étoiles?

– Mais oui, maîtresse.»

Alphonse Daudet




– Sozinha aqui na fogueira? A matar saudades, ou quê?

– Nada disso. Estava a ver se lobrigava daqui a Estrela Polar…

– Cuidado, prima! «Nã fiar no céu estrelado, quando o grelo sai do nabo!» Nã conhece este provérbio?


Não conhecia não senhor. E ele tinha a razão consigo, que a chuva não se fez esperar no dia a seguir.


O Leonel é o guardião da fogueira.

Ele a acende todos os anos para a Consoada e cuida por que não esmoreça, arrastando com uma grande forquilha aqueles toros e raízes enormes que lhe mantêm o coração de brasa, apesar da chuva. Os ajudantes variam, ausentes os homens mais velhos que já não tornam, ou os mais novos que demandaram outros fogos mais longe, nem sempre presentes.

O Leonel é o mais novo dos primos – da nossa geração – que partilham desde há décadas o calor e a harmonia desta labareda em cada Natal.

Ribatejano dos quatro costados, de poucas falas, amigo, ele conhece as saudades de todos os que se rolam à fogueira e param o olhar nas chamas, os clarões de fogo que trazem os rostos de outros natais. Nós nos confessamos a ela e ele conversa com a fogueira. Pelo menos assim parece.


Da geração que se segue para manter a tradição, os sorrisos que nos dão alegria.

E a mais nova é a filha do Leonel.


sábado, dezembro 22, 2007

A Consoada


Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe:

– Boas festas! – desejou-lhe então, a sorrir também.

Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas, crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.

– É servida?

A santa pareceu-lhe sorrir outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

– Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga



terça-feira, dezembro 18, 2007

Sinestesia


«O amor, a amizade e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara, 
Bens deste mundo, que o mundo
Me levara
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixado só, nulo, atónito, 
A mim, que tanto esperara
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia…»
José Régio



Quero entrar na serenidade do tempo que a quadra me proporciona, mas a angústia prevalece.

Não consigo criar empatia com esta natureza sem viço, as folhas sem tom, tristes, caindo doídas, os ramos negros de humidade nas árvores, esta morrinha a carpir a saudade dos que me deixaram nestes outonos.

Sei, sei! Que a Idade Média não foi um tempo de trevas porque possibilitou o Renascimento. Sei que é preciso esperar a manhã num sono quieto, sei que a natureza descansa mas não dorme. As crias desenvolvem-se no ventre dos troncos escuros, como os ursos procriam na profundeza dos gelos. Por enquanto.

Até os pardais deixaram os telhados, não os vejo nem ouço, nem me recordo de outro Inverno com eles ausentes. Deixaram campo aberto aos piscos que debicam as azeitonas maduras, já vi uma ou outra arvéola de cauda balouçante e o melro, sempre presente. Vivo, ladino, o bico amarelo espalhando o cascalho à procura do sustento, mal o dia aponta, ainda a geada cobrindo a relva.

O Natal chegando devagar, já sem o sabor de outrora, da azáfama dos dias ansiados por cada ano longo e demorado, a seira cheia de figos a anunciar os sonhos e rabanadas, a Consoada enfim, os presentes no Dia de Natal pela manhã cedo.

Agora o ano é mais curto, só os sonhos persistem, sonhos que são mentira na boca, sonhos que são mentira na alma. Quando são verdade, deixam de ser sonhos.

Dos sonhos, sonhos, a sinestesia que permanece no murmúrio do odor, do paladar, do calor, com os olhos da alma.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Não Esquecer


Estou só. Mas é-me impossível gritar – para quê?

Às vezes, mas raramente, o grito sobe, enrola-se-me na garganta e o mundo recua bruscamente para uma estranheza absurda. Mas é raro e tudo reflui de novo como uma pedra que subisse muito alto e desistisse no fim. E ainda bem, porque os sentimentos são um vício – ou não? O povo diz «o comer e o ralhar vai do começar». Mas tudo vai do começar: o amor o ódio, o choro, a ternura, o medo.»

Vergílio Ferreira



Não me apetece escrever.

A geada cai despudoradamente sobre tudo o que sobra do jardim, garimpando pelas sombras até manhã bem alta. O sol corre baixo, muito baixo, e ilumina os dias até ao fim de tarde chegando cedo, que a noite impera.

Sei que os homens inventaram o Natal colorido, as árvores gigantes, o brilho das luzes que enfeitam as ruas, que fazem sonhar as crianças e esquecer os adultos das outras, famintas, de barriga crescida e ossos salientes, que a Cimeira de África na Europa prometeu não esquecer.

Mas não esquecer é um pouco diferente de lembrar, que lembranças são algo que existe, que tem corpo, seja uma rosa, seja uma daquelas Torres Eiffel pequeninas que até serve de lima para as unhas, seja uma tartaruga de jade que significa longevidade e se compra em Chinatown para recordação, seja o que está bem guardado nos escaninhos da memória. Sempre algo palpável.

Não esquecer é uma coisa mais vaga. Há demasiadas coisas misturadas para «lembrar de não esquecer». É assim como uma prateleira de várias estantes onde há muitos livros, novos, antigos, de capas brilhantes e outros já sem lombada, à mistura com bibelots, fotografias, caixas com novelos de linha, dicionários, dossiers, cds, até um candeeiro. Porventura o mais valioso, o mais urgente para ser lembrado está naqueles livros cuja lombada já nem é, que é preciso manusear com cuidado, de papel escuro e baço. Aí a maior riqueza a não esquecer.

Mas essa urgência de encadernar os livros antigos é disfarçada pelas molduras de exóticos trajes de nómada, de negros de óculos brilhantes e pele luzidia, de senhores que se eternizam no poder de esmagar os mais fracos.

Que mão tem força para os afastar e encadernar os livros?