«O carácter de poeta tornou-o ainda mais respeitável. A poesia, dedicada quase exclusivamente entre os Visigodos às solenidades da Igreja, santificava a arte e aumentava a veneração pública para quem a exercitava. O nome do presbítero começou a soar por toda a Espanha, como o de um sucessor de Dracôncio, de Merobaude e de Orêncio.
Desde então ninguém mais lhe seguiu os passos. Assentado nos alcantis do Calpe, vagabundo pelas campinas vizinhas ou embrenhado nas selvas sertanejas, deixaram-no tranquilo embalar-se nos seus pensamentos.»
A nossa História está cheia de poetas e piratas. Alguns sonhadores, visionários, outros arrojados, laboriosos. O nosso primeiro rei, erguendo a lança, cavalgando montes, galgando rios. Dinis, o «plantador de naus a haver», dando força à voz do povo, criando a luz que perdura. Henrique olhando o horizonte para além de Sagres, Leonor semeando misericórdias, Gil zurzindo os poderosos, Luís cantando a nossa gesta, Vieira fazendo-nos irmãos de todos os povos. Pessoa abrindo janelas, todas as portas da nossa alma. E Sophia poetizando o mar. Tantos mais, sem rosto e sem nome, por naus, por jangadas, por missões, por orientes, praias distantes.
Pousando no passado, apoiado nele, é mister viver o presente mantendo a vigilância e olhar o futuro. Ele está aí, em todo o seu poderio.
Em franjas retorcidas de colcha antiga, o adamascado traduz o presente manchado de presunção, incúria, ganância e desperdício. Rasgada de desprezo por todos os necessitados, pelos ignorantes sem tino, os cegos sem mão que os guie. Cobrindo tudo o que resta do planeta a esgotar-se, cheio ainda de potencialidades não aproveitadas, em nome da cobiça, do individualismo doentio, numa irracionalidade sem nome.
Não há ervas daninhas. O que há é raízes diferentes, sementes várias de plantas diversas crescendo no mesmo solo, nem sempre respeitando campos, quase sempre tapando o sol aos mais frágeis. Cumpre ao Homem organizar espaços, racionalizar o território que é de todos, separar a floresta dos lodaçais do rio, deixar as dunas olharem o mar, o deserto abrir-se às estrelas. Sob pena de soçobrarmos no pântano.
O futuro somos nós, o nosso querer, a nossa força.



8 comentários:
Que belíssimo texto, amiga! - bem o podias publicar também n'O Bar do Ossian... faria todo o sentido.
Beijinho.
viva a tolerância.
Parabéns, Jawaa! Texto fabuloso!
Todos o dizem, texto fabuloso, to-
lerância, belíssimo texto. Trata-se, de facto, de um excelente tex-to, bem urdido, lançando uma âncora
ao passado (já de poetas e piratas)
e fechando, em sinopse, num progra-
ma de esperança, de trabalho para o
futuro. Que terá sido feito da sau-
dade dos nossos piratas, aportando
a ilhas de quarentena psíquica? Pa-
rece que se dedicaram à moderna pi-
rataria, financeira, disfarçada com
verniz, através do qual, contudo, ainda vemos os tesouros da corru-
pção, agora ilhas compradas, luga-
res de lazer. A arraia miúda, que
se espalhou por esse mundo fora, é
agora uma gente capaz de cantar a
poesia (quer se fale de Amália,quer
se leia Fernando Pessoa) erguendo a cabeça para a distância. Não es-
queçamos que a geografia nos fez o
retrato e Pessoa o disse: Portugal
é o rosto da Europa.
Rocha de Sousa
Olhe, desta vez deu-nos para sonhar...
Muito obrigada por todas as atenções.
...mas continuamos a ter por aí muito mais piratas que poetas!
gosto de corsários...
e de poetas...
e procuro evitar piratas! que tamém nos estão no sangue...
belíssimo texto,
beijos
"também", rectifico...
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